terça-feira, 21 de agosto de 2012

Sistema Monetário

A criação e funcionamento do sistema monetário.
Criei esta página como experiencia para organizar um conjunto de postes que explicam como funciona uma zona monetária.

É imprescindível para se compreender toda a discussão em torno do BCE e a sua capacidade de resolver a Crise das Dívidas Soberanas Europeias.
Os postes não são de compreensão directa obrigando o leitor a fazer um esforço de racionalização dos movimentos contabilisticos que materializam o sistema monetário.


Como uma pessoas não pode produzir todos os bens e serviços, B&S, que precisa consumir, há necessidade de haver trocas comerciais. O dinheiro existe porque facilita essas trocas por ser uma referência do preço relativo dos B&S e "armazenar" o preço dos B&S vendidos até nos apetecer fazer uma compra. Os preços absolutos dos bens e serviços é proporcional ao valor do dinheiro em circulação. Se houver mais dinheiro em circulação, os bens e serviços ficam relativamente mais raros pelo que o nível geral de preços aumenta. É a inflação.
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O dinheiro é qualquer sistema de intermediação que proporcione uma referência do preço relativo dos B&S e que permita "armazenar" o preço dos B&S vendidos até realizarmos uma compra não havendo necessidade que existam fisicamente notas e moedas. 
Ficcionando um logarejo no meio de África, um cantineiro cria o sistema monetário num caderno. Para uma pessoa abrir uma conta tem que fazer um depósito (de arroz, milho, massa, batatas, sal, etc.) ou fazer uma transferência de outra conta.
O cantineiro, que funciona como Banco Central, mantém um stock de bens com exactamente o mesmo valor que o saldo consolidado das contas do caderno.  Inicialmente todas as contas têm valor positivo mas, posteriormente, o cantineiro concede crédito (há contas com saldo negativo).
Este sistema ainda era utilizado na minha aldeia na década de 1960.
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Apesar de ser compreensivel um sistema monetário com um stock físico de B&S que são a contra-parte dos saldos das contas, a "existencia" de bens no sentido de Arrow -Debreu, i.e., bens e serviços futuros, permite a existência de um sistema monetário em que o saldo das contas é zero (sem stock de bens porque há tantos créditos como débitos).
Ficciono uma aldeia no meio da Papua, o Condado da Negralhada, na qual um missionário materializa  o sistema monetário apenas no caderno.
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Como Condado da Negralhada tem dimensão física, para não obrigar os individuos a deslocarem-se à Missão sempre que fazem uma transacção, o sistema monetário é descentralizado pela introdução de "bancos comerciais" (cada banco tem um caderno). O Banco Central mantém a missão de controlar o nível geral de preços (a inflação) a que acrescem os poderes de supervisão dos bancos comerciais e de fazer a compensação de transacções intermediadas por bancos diferentes.
O BC permite que cada banco comercial possa ter um saldo negativo mas, globalmente, o saldo consolidado de todos os cadernos se mantém zero.
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A existência de contas com saldo negativo (créditos por parte do banqueiro), é necessário prever que o credor vai trabalhar e entregar valores no futuro para pagar os créditos concedidos.
Como o credor pode não pagar (pode morrer antes de poder cumprir as suas obrigações), quem concede crédito também está a fazer um seguro (de vida) pelo qual cobra um prémio que se traduz numa taxa de juro.
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Existem diversas razões para umas pessoas quererem poupar e outras precisarem de se endividar. Como os bancos comerciais são apenas intermediários entre depositantes que não querem ter risco de perder os valores depositados e devedores que podem falir, os bancos têm que cobrar uma taxa de juro que garanta os valores depósitados. Um banco que tenha prejuizos, a prazo vai à falencia não podendo devolver o dinheiro dos depositantes.
Para diminuir o risco de falência dos bancos a praticamente zero, o Banco central obriga os accionistas a depositarem 10% do total de crédito concedido, sendo o lucro principalemte a remuneração deste capital próprio (ponderado pelo risco).
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Um banco comercial apenas intermedeia créditos garantindo os depósitos (passivo) com os créditos concedidos (activos). Se as expectativas quanto à capacidade dos credores pagarem as suas dívidas forem erradas (o juro cobrado for pequeno), quando se começam a concretizar os calotes, o banco tem que ajustar as suas expectativa acontecendo uma repentina "desvalorização dos activos".
Ao longo do ciclo económico, a principal causa de todas as crises, inclusivé a do Subprime e das Dividas Soberanas Europeias, parte de um erro de análise do risco de crédito com uma consequente perda rápida de activos quando acontece o ajustamento das expectativas à realidade adversa. 
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Observada a desvalorização dos activos da banca e não havendo possibilidade por parte dos accionistas de reporem o capital perdido, a estabilidade do sistema monetário obriga a que os Estado garantam o sistema.
Estas garantias não são entradas de activos (que se traduziriam em alguma parte da economia no consumo de bens e serviços) mas apenas garantias. Já o pagamento da dívida pública obrigaria a mobilizar bens e serviços o que apenas seria possível com um aumento astronómico dos impostos (para diminuirmos o nosso consumo em favor das pessoas que receberiam o dinheiro do Estado).
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Haver nossas impressas em nada altera o sistema monetário. Para isso ficar claro, as notas vão ser 7 estátuas colocadas na praça central do Condado e que se tornam dinheiro pela contabilização como tal no caderno do Banco Central.


5 comentários:

Joao F. disse...

Caro Professor,
porque carga de água é que quando os bancos têm prejuízos tem de ser o accionista 'Ze-povinho' a absorve-los e já nenhum banqueiro é neo-liberal?? A banca é um negócio sem risco (tipo PPP's) ? Nesses negócios ninguém se importava de investir, né ?
Quando a banca tem grandes lucros em tão pouco espaço de tempo, sem pagar impostos, então aí o Estado é 'mau' na economia?
Já agora...hoje em dia um banco é mais que um banco no sentido tradicional, indo mais além do que a sua mera função de intermediário financeiro.. para quando uma análise ao sistema bancário mundial ?

Gonçalo disse...

Pedro,

É verdade que não há inflação sem aumento da massa monetária e portanto é condição necessária, mas será também condição suficiente?
Se eu produzo 1kg de batatas e o vendo a 1Euro, se a crise se instala a procura diminui e só consigo vender 0,7kg. Tudo bem, baixo o preço e consigo vender 0,8Kg a 0,9Euro. Deixo de produzir 0,2Kg. Ao mesmo tempo o meu rendimento baixa de 1Euro para 0,72Euro o que quer dizer que compro menos arroz, diminuindo o rendimento do seu produtor.
Neste mundo em que a produção é menor do que a capacidade produtiva, a emissão de mais moeda iria provocar inflação, ou iria empurrar a produção em direcção à sua capacidade?

Fará sentido considerar que a moeda não tem valor? A segurança que a sua posse transmite não é um valor? Falo até por mim, pois quando comecei a trabalhar, o meu objectivo inicial foi ter um pé de meia para qualquer emergência, que ainda hoje mantenho. Aliás, o aumento do nível de poupança em Portugal, nos últimos meses, não reflectirá a procura de segurança perante um futuro incerto? E, sendo o futuro incerto, fará sentido falar em expectativas racionais?

A teoria económica defende que essa poupança será canalizada em investimento, mas não vejo sinais de isso ser verdade.

Económico-Financeiro disse...

Caro João F.,

Sobre o prejuizo dos Bancos.

Uma empresa tem efeito positivo nos empreendedores (o lucro e prestigio) e na sociedade (a criação de riqueza traduzida em salários, juros e impostos). Então, o óptimo é haver uma partilha do risco.

Por um lado, os empreendedores colocam nos bancos 9% do volume de negócio que podem perder se o banco falhar.
Por outro lado, a sociedade assume todo o prejuizo acima desses 9%.
No BPN e no BPP o prejuizo foi muito maior que os 9% pelo que nós, via Estado, assumimos o prejuizo mas os proprietários também tiveram muito prejuizo.

Se nas empresas privadas não houvesse uma partilha de risco, praticamente não haveria empresas tendo que ser, via emrpesas públicas, a sociedade a assumir todo o risco.

Apenas recordo as dezenas de milhares de milhões de euros de pasivo que as empresas públicas têm.

Sobre os impostos sobre a banca.

Os impostos devem ser pagos pelas pessoas quando recebem o rendimento.
Uma empresa que tem lucro mas que re-investe não deveria pagar IRC.

Se o banco paga 15% de IRC, a distribuição de dividendos vai pagar mais 25% em IRS somando proximo de 40%.

pc

Económico-Financeiro disse...

Estimado Gonçalo,

A inflação não tem qualquer efeito na decisão de produzir.

Sei que muita gente "aprende" nas escolas que "mais inflação leva a menos desemprego" mas isso é completamente falso. Não existe qualquer evidencia empírica ou razão lógica para que isso seja verdade.

A) As batatas uma vez produzidas têm que ser vendidas ao preço que o mercado der. E isso não tem qualquer influencia na produção pois já aconteceu.

No ano seguinte, a evidencia empírica diz que, com os dados publicados sobre a quantidade de moeda em circulação (o M1), os agentes económicos sabem qual vai ser a inflação.

Automaticamente, racionalmente, os salários e os preços ajustam sem haver qualquer efeito real (nas decisões de trabalhar ou produzir mais ou menos).

Se a inflação fosse um factor de crescimento e riqueza, o Zimbabwe (e não a Alemanha ou o Luxemburgo), era o país mais rico do Mundo.

B) A moeda tem valor porque facilitam as trocas.

As pessoas estão dispostas a pagar (a desvalorização causada pela inflação e o risco de esta ficar sem valor - ninguém a aceitar como meio de pagamento)para ter moeda.

Então, sendo a inflação baixa, as notas passam a ter valor (armazenam valor entre as transacções).

Mas se forem emitida mais notas, o valor global não aumenta pelo que o valor que tinhamos acumulado em cada nota, diminui (é a desvalorização da moeda induzida pela inflação).

pc

Joao F. disse...

Caro Professor,

concordo plenamente consigo que uma empresa quando re-investe os lucros obtidos não deveria pagar IRC.
Será que os bancos (e sociedades gigantes como todas as grandes empresas do PSI-20) pagam todos os impostos em Portugal? É que parece-me que essas sociedades estão sediadas noutros países e em Offshores. Será por acaso que se deslocalizaram para lá ou terá sido para fugir aos impostos que tanto se gabam de pagar? Para não falar dos benefícios fiscais e incentivos que recebem do Estado..
É que os cidadãos e empresas mais pequenas não têm tais regalias..
Numa empresa normal (que também paga impostos , juros e salários o Estado não coloca sequer um único centavo, e se tiverem prejuízos ninguém os vai pagar por ela (a não ser que conheça algum membro do governo). E olhe que pagam IRC de 25% !!!
Os prejuízos que os bancos têm neste momento é derivado de más decisões e maus investimentos no passado, nomeadamente empréstimos á habitação e ao Estado a juros baixíssimos, bem como a algumas empresas semi-falidas! Onde está a concorrência a funcionar e o livre-mercado? E a teoria do Sr. Schumpeter?
Já para nem falar dos CRIMES que a banca andou a desenvolver e que agora nós temos de pagar, quando ninguém foi responsabilizado! E das mais valias (leia-se rendimentos) que alguns acionistas realizaram na última década sem pagarem o respetivo imposto?
Quer-me parecer que existem umas empresas que 'são mais iguais que outras', mas isso já devo ser eu a imaginar alto.
Cumprimentos e continuação de bom trabalho (blog)!

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