quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A mentira de que o nosso calçado está cada vez mais competitivo

É uma coisa incrível como avançam com mentiras e ninguém se dá ao trabalho de as refutar.

Uma das recentes grandes mentiras é que as exportações do calçado português têm aumentado exponencialmente sendo um produto conceituado e dos mais caros do Mundo.
Pensei eu que havendo tantos economistas em Portugal (só no Banco de Portugal há mais de 400 a receber salários elevados), alguém deveria dizer que esta notícia não tem qualquer correspondencia com a realidade.
Ainda esperei uns dias porque sou malandro e também quero dar a vez ao meus detractores de avançarem com alguma coisa.
Não apareceu nada pelo que eu tive que iniciar a minha investigação.

Fig. 1 - Compre sapatos portugueses. Mas, se quiser experimentar o conforto, vai-lhe ficar caro.


Primeiro fui ao INE ver as exportações a preços correntes.
Os preços correntes incluem a subida dos preços (a inflação) pelo que seria de esperar, dado o anunciado na TV, um aumento exponencial das exportações de calçado.
Para meu grande espanto, nos primeiros 7 meses de 2000 exportamos uma média de 144.0 milhões € / mês de calçado enquanto que em 2012 estamos a exportar uma média de 137 milhões €/mês (ver, Fig. 2).
Em 2000-2012 houve uma redução nominal de 4.8%

Fig. 2 Exportações de calçado português, preços correntes (dados: INE, grafismo do autor)


Há o consolo de estarmos a melhorar relativamente a 2010
Depois do máximo de 2002 (147M€/mês), a situação foi-se degradando até que em 2006/2010 atingiu uma média de 110M€/mês.
Pronto, aceito que daí para cá as exportações de calçado aumentaram em termos nominais 25% mas é pouco para dizer que é um grande sucesso.
Então como vamos classificar o ano de 2002?
É como aquele que apanha um murro que lhe parte o nariz e fica todo contente porque não lhe partiram os óculos.

Depois, fui ver o valor a preços constantes.
Os preços constantes, ou reais, retiram o efeito do inflação. Pequei no índice de preços no consumidor -IPC calculado pelo INE e passei os preços correntes a preços constantes de 2000.
Agora, de um máximo atingido em 2000 de 138.5M€/mês, fomos reduzindo até o mínimo de 2010 de 87.8M€/mês. Em 2011 houve uma pequena recuperação, 16%, mas agora está estacionário nos 101.6M€/mês (a preços de 2000).
Depois de cair 36.7% entre 2002 e 2010, há uma recuperação de 16% e já é um grande sucesso à escala mundial (ver Fig. 3).
Entre 2002 e 2012, m termos reais, as exportações CAÍRAM de 26.7%.

Fig. 3 - Exportações de calçado português, preços reais (dados: INE, grafismo do autor)


Agora só falta ver o emprego.
Como os salários não diminuiram em termos reais e muito menos em termos correntes, se não se exporta mais em valor, ou o emprego desceu no sector ou virou-se para o mercado interno.

Fig. 4 - Entre 2000 e 2012, o emprego no Couro diminuiu 6% (dados: INE, grafismo do autor)

Agora ver quanto se exporta, em termos reais e por trabalhador.
Parece estranhíssimo atendendo ao fuguetório que um trabalhador do sector do calçado que exportou  valor de 100€, actualmente apenas exporta 73€ (em termos reais).
Houve uma pequena melhoria entre  tendência de 2006/2010)  mas não chegou a nada (ver Fig. 5).

Entre 2000 e 2012, a exportação por trabalhador do calçado português reduziu 25%.
A nossa industria de calçado perdeu capacidade de exportação pelo que se virou para o mercado interno.
  
Fig. 5 - Entre 2002 e 2012, as exportações por trabalhador diminuíram 25% (dados: INE, grafismo do autor)


Mas o que aconteceu de tão especial em 2002?
Já quase ninguém se lembra, mas foi aí que começou a crise que estamos a sentir agora com toda a força (ver, fig 6).

Fig. 6 - Evolução do desemprego em Portugal (dados: INE, grafismo do autor)

Não conseguimos digerir (em câmbios fixos) a  crise de 2002 e foram-se acumulando desequilíbrios. Depois, somou-se a crise do subprime de 2008 e veio tudo rebentar em 2010.
O acumular destes desequilíbrios é a prova provada da nossa incapacidade cultural de ajustar a nossa economia em câmbios fixos relativamente aos nossos principais parceiros comerciais.
E isto porque viver em câmbios fixos obriga a ajustar os custos nominais do trabalho (por exemplo, a tal transferência da TSU para o trabalhador, o fim do Contrato Colectivo de Trabalho ou o aumento do horário de trabalho) e não temos povo nem políticos para isso.

Por isso tudo, agora é na hora certa para abandonar o Euro.
Agora é o tempo certo porque já não estamos numa situação de emergência, os alemães estão com boa impressão do nosso ministro Gaspar pelo que o processo pode ser tranquilo.
Só voltando a ter moeda é que nos conseguiremos governar porque o câmbio não perdoa asneiras, actuando imediatamente para corrigir os desequilíbrios.

Concluindo.
O nosso serviço público dos media está cheia de má qualidade informativa.
Não basta meter milhões na RTP, a LUSA e demais entidades publicas que têm muito pessoal mas que devem ter sido escolhidos mais pela boa aparencia física que pela qualidade técnica.
Acredito que essa falta de capacidade de analisar de forma critica a informação é um misto de incompetência e de falta de zelo.
Quanto aos pensadores e comentadores da praça, não fazem o trabalho de casa. Dizem que leêm muitos livros mas apenas sabem repetir o que já se ouviu em algum lado.
Nota final: umas alunas minhas da AIESEC vão fazer um evento qualquer e pediram-me se eu lhes fazia um pouco de publicidade.
Pensando eu na sua formação em Marketing Criativo, lancei-lhes o desafio de fazerem um anúncio pelo menos tão bom como o meu anúncio ao calçado português (da Fig. 1). Nesse caso,disse que o publicava com todo o gosto.
Penso que estão (estamos) todos à espera de ver a competencia das moças em termos do tal Marketing Criativo.

Fig. 7 - Vendemos burkas para todas a ocasiões.

Pedro Cosme Costa Vieira

4 comentários:

André Sousa disse...

Caro Professor,

Penso que esta sua análise ignora uma questão essencial: a alteração ocorrida na estrutura do sector entre 2000 e 2011. Não podemos ignorar o abandono das multinacionais de capital estrangeiro para o Oriente; e mesmo assim, a indústria foi capaz de se reorganizar e re-erguer.

Outra questão importante: não podemos menosprezar a evolução do mercado global de calçado ao longo da última década. Apesar do crescimento populacional, estou convencido que o Mercado terá diminuido no segmento de valor acrescentado elevado em que a industria nacional se especializou.

Unknown disse...

Boa tarde Professor

Li com a maior das atenções o seu artigo. Gostava, por isso mesmo, de salientar alguns aspectos que me parecem de capital importância:
-até 2002, existiam em Portugal 20 multinacionais a operam no sector de calçado. Gigantes ingleses, franceses e alemães que chegaram a empregar em média, 1.100 trabalhadores (a média nacional era de 33 e a dimensão média das empresas europeias 17;já agora a dimensão média das empresas italianas, o grande concorrente de Portuga, era 11 ;
No inicio de 2002, a Clarks deslocaliza para a China. Todas as outras lhe seguiram as pisadas.

De 2002 a 2005, o sector de calçado em Portugal sofreu uma verdadeira metamorfose. O sector emagrecer mais de 30% ao nível da produção, emprego e mesmo exportações.

O que era necessário fazer?

Inventar uma nova indústria, de capitais exclusivamente portugueses, mesmo num clima internacional como diz, e muito bem, altamente adverso.

Ora, os empresários portugueses conseguiram preencher o espaço outrora ocupado pelas multinacionais (se bem que não totalmente).

É essa indústria de calçado, que investe na inovação, no design, na marca, na promoção externa e que exporta 98% da produção para 132 países que vai conquistando a admiração de vários sectores da sociedade portuguesa.

Depois, há um outro aspecto que merece ser referido: o discurso do sector sempre foi de afirmação, de progressão, crescimento e afirmação internacional. Este é um sector com um discurso positivo. E isso, convenhamos, faz a maior das diferenças .

Naturalmente que esta não é uma análise isenta, nem imparcial. Trabalho na APICCAPS, a Associação do sector há 14 anos. Sou responsável pela comunicação e pelas campanhas de promoção internacional. Sou um entre muitos dos agentes de mudança deste sector. Hoje como em 1998, quando integrei os quadros da APICCAPS, então com 22 anos, acredito nas empresas e no seu potencial do sector de calçado m Portugal, mesmo num clima internacional de grande concorrência, onde um só player (a China) assegura 65% da produção mundial de calçado.

Paulo Gonçalves

Económico-Financeiro disse...

Estimado Paulo Gonçalves,

Agradeço muito o seu cometário.

O que eu quero demonstrar é que a abertura do nosso mercado aos países da EFTA em finais de 1950 foi aproveitada pela nossa pequena industria do textil, vestuário e calçado que cresceu exponencial.

No entanto, a abertura do nosso mercado ao Mundo foi destruidora da nossa economia.

Porquê a diferença? Porque nos anos 1960 houve uma política salarial compatível com os ganhos de produtividade enquanto que nos anos 2000 (por causa da redução do horario de trabalho e aumento do Salário Mínimo) foram anos com aumentos saláriais muito acima dos ganhos de produtividade.

Não foi a abertura ao comercio da China mas a nossa ideia errada de que eramos tão produtivos como os Alemães.

Hoje, a nossa industria exportadora tradicional está toda encostada ao salário mínimo e à beira da falencia o que seria facilmente corrigido com uma desvalorização de 15% ou 20% que não é possível dentro do Euro.

A única alternativa é o desemprego e a recessão ou o baixar dos custos do trabalho, o que está a causar grande ebulição social.

Como o Paulo tem acesso a dados muito importantes, desafiava-o a escrever um post para eu publicar.

Um abraço,

pc

economiaegestao disse...

Veja a evolução da inflação no setor do calçado: http://economiaegestao.wordpress.com/2012/07/12/a-inflacao-em-portugal/

Os economistas cometem muitas vezes este erro: analisam a inflação geral, mas esquecem-se que o cabaz utilizado para calcular a evolução de preços inclui produtos com diferentes oscilações de preços.

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