terça-feira, 18 de setembro de 2012

O Estudo de Braga/Coimbra sobre a TSU está completamente errado

O Estudo está verdadeiramente errado por razões teóricas e empíricas.
Como são 5 os autores, vou apontar 5 erros graves do estudo. Mas tem mais.

O grave destes estudos é que aparecendo 5 professores universitários das faculdades de Braga e de Coimbra a dizer que a transferência da TSU do patrão para o trabalhador terá efeito negativo no emprego, o povinho ignorante acredita que aquilo deve estar certo.
Mas cautela porque também foram professores deste tipo (o Teixeira dos Santos e demais staff das finanças) que empurraram o nosso querido país para a actual situação de bancarrota.
A técnica é esconder erros conceptuais dentro de um modelo simples do Mercado de Trabalho enredado numa pseudo-complexidade matemática que levam a conclusões totalmente erradas e que baralham o povo.

A tansferência da TSU do patrão para o empregado está politicamente morta.
Mas é por uma questão política e não técnica.
Se houvesse uma desvalorização da nossa moeda em 20%, mesmo que isso causasse uma significativa diminuição do poder de compra dos salários, o povo não culpava o governo por isso. Já na redução nominal do salário atribuem a culpa ao governo. Isto é a prova provada de que Portugal não tem estaleca para estar na Zona Euro tendo que a abandonar quanto mais cedo melhor.

Em termos técnicos é importante eu dizer-vos porque aquele estudo* está errado para desmascarar esses aprendizes de feiticeiro que só querem levar o país pelo caminho da bancarrota socratista.
A maioria das pessoas que lê este meu blog não acredita nessas lengalengas, não acreditam que "cortando a taxa do gás natural, ficam resolvidos todos os problemas da competitividade das empresas" como o disse o Seguro ontem na RTP1 para resolver o buraco de 4500 milhões de euros que falta tapar para fechar o orçamento de estado de 2013. É com 100 milhões dessa taxa que se pode cortar e depois multiplica-se por 45 e já está. Nem deu conta que acabar com uma taxa implica menos receita fiscal e não mais.
Apesar de ter sido eu a dar a ideia de transferir a TSU do patrão para o trabalhador, é bom isso não avançar porque não chamaria os "salários mínimos" à equação. Assim, é melhor aumentar o horário de trabalho em 0.5h/dia porque afecta a todos, ganhem pouco ou muito.

Os erros teóricos do estudo.
Erro 1 - Falta o financiamento da Segurança Social.
Os autores usam um modelo "neo-liberal" no sentido de que não contabiliza o ganho de bem-estar de o trabalhador receber assistência médica, subsídio de desemprego e reforma por conta da SS.
A principal e única conclusão válida do modelo é que, sobre esses pressupostos "neo-liberais", a TSU deveria acabar de todo, para os trabalhadores e para os patrões. Depois, o Passos que se arranjasse como pudesse para pagar as despesas da Segurança Social. A Troika, o Grande Capital e a Especulação que pagassem.
É interessante como os comunas pegam num modelo da oposição ideológica, deturpam-no completamente (acabando com a SS), e, tipo bala de ricochete, reutilizam-no para atacar os próprios criadores do modelo.
Se os recursos para a Segurança Social caíssem do Céu, a TSU era altamente perniciosa porque reduz o rendimento dos trabalhadores, aumenta os custos do trabalho e diminui o emprego.

Este país do "cai tudo do Céu" já existiu
Está relatado no livro do Génesis 16 (o maná e as codornizes caíram do Céu e saciaram o Povo de Deus). Como Portugal é um país de católicos com fé verdadeira e somos o Povo Eleito, acreditamos que, de um momento para o outro, recomeça a cair financiamento do Céu.
Não há nada na Bíblia que diga que isso não vá acontece. Basta ter fé e o que as gaivotas largam passará a ser eurobonds.

Eu tenho fé viva de que um dia vão cair 5 gajas como estas do Céu para o meu colo
  
Erro 2 - Pensam que a tranferência da TSU vai aumentar a carga fiscal sobre o trabalho.
Assumido que a TSU é má, vendo que há um aumento dos trabalhadores em 7 e uma diminuição dos patrões em 5.75 então, há um aumento 1.25 da TSU (em % do salário).
Mas não preciso falar sobre a bondade da existência da TSU porque o Passos prometeu que a tributação sobre o trabalho não iria aumentar porque:
A) A TSU é uma dedução ao rendimento colectável do trabalhador.
Então, as pessoas vão pagar mais TSU mas, em parte, pagam menos IRS.
Para uma tributação média de 10% de IRS, os 7 a mais vão-se traduzir em apenas 6.3.
B) A TSU dos salários abaixo dos 1000€/mês vai ser menor.
O bocadinho que falta (de 5.74 para 6.3) vai ser usado para cobrir estes "descontos".
C) Espera o Passos um ligeiro aumento do IRC.
Que aumente o "bocadinho" de forma a ser possível haver bons descontos nos salários mais baixos.

 Se o Passos Coelho disse que o total da tributação se manterá, não há razão para desconfiar.
Podemos agora ver o impacto teórico da transferência da TSU do patrão para o trabalhador.

Situação 1 - O mercado de trabalho é perfeitamente flexível
O impacto será nulo.
Neste caso e como existem muitos trabalhadores e muitos patrões, o mercado de trabalho estará em concorrência perfeita.
Então, se um trabalhador receber 1000€/mês de salário líquido e este diminuir para 999€/mês, o trabalhador  despede-se imediatamente porque existe outro patrão que lhe paga os 1000€/mês.

Trabalho homogéneo (todos os trabalhadores produzem o mesmo e têm o mesmo salário).
Mantendo-se o total da tributação, não existe qualquer alteração no mercado de trabalho porque o salário bruto vai aumentar de forma a anular totalmente a alteração do mix da TSU (mais o efeito no IRS e no IRC).
Nas duas figuras seguintes (onde omito, sem perda, o IRC para não complicar o desenho), partindo de uma situação inicial em que há N pessoas empregadas e 6% de taxa de desemprego (Fig. 1), a transferência da TSU apenas leva a um aumento do salário bruto que compensa exactamente o aumento da TSU e a diminuição do IRS do trabalhador (Fig. 2). Também compensa exactamente a descida da TSU do patrão ficando os custos do trabalho iguais.
Nem se perde nem se ganha qualquer emprego com a transferência da TSU pois os trabalhadores ficam a receber o mesmo salário líquido e os patrões têm os mesmos custos do trabalho (as linhas horizontais a vermelho).

Fig. 1 - Inicialmente havia N pessoas empregadas e 6% de desempregadas


Fig. 2 - No final mantêm-se N pessoas empregadas e 6% de desemprego porque o salário bruto aumentou exactamente no valor em que aumentou a TSU + IRS. Foi o que aconteceu ao Cristiano Ronaldo.

Mas não é esta a situação que se vive em Portugal. Se fosse (o desemprego nos 6% e o mercado flexível) não seria necessário o Governo preocupar-se com o mercado de trabalho. Estaríamos, em termos de taxa de desemprego, na situação que, em 1995, o Cavaco deixou de herança ao Guterres.


Situação 2 - O mercado de trabalho é inflexível e existe muito desemprego.
O desemprego vai diminuir.
Esta é a situação que Portugal vive.
A Lei não permite a descida do salário bruto (por causa dos contratos colectivos de trabalho) que permitiria ajustar o mercado de trabalho.
Mesmo havendo muito desemprego, os actuais desempregados não podem aceitar um trabalho a ganhar menos porque a lei proíbe-o (têm que receber o que diz o contrato colectivo de trabalho).
Esta situação levou a taxa de desemprego aos 16% da população activa e com tendencia para aumentar para mais de 20%.
Agora, se um trabalhador receber 1000€/mês de salário líquido e este diminuir para 999€/mês, se o trabalhador se despedisse, não arranja nenhum patrão que lhe pague os 1000€/mês. Então, a subida da TSU do trabalhador não vai induzir uma subida do salário bruto.
Partindo de uma situação idêntica à da Fig. 1 mas em que o desemprego está nos 16% da população activa (Fig. 3), como a subida da TSU não é acompanhada pela subida do salário bruto porque o desemprego elevado não o permite então, verifica-se uma redução do salário líquido que os trabalhadores recebem e uma redução do custo do trabalho pago pelo patrão (linhas a vermelho).
No fim, numa situação com elevado desemprego e mercado de trabalho rígido como é o caso português, a transferência da TSU do patrão para o trabalhadores diminui o desemprego que pode voltar aos 6% (Fig 4).

Fig. 3 - Inicialmente havia N pessoas empregadas e 16% de desempregadas porque o Salário Bruto não pode diminuir por Lei


Fig. 4 - A transferencia da TSU aumenta o número de pessoas empregadas e diminui desemprego porque o elevado desemprego faz com que o Salário Bruto não aumente o que reduz os custos do trabalho.

Os erros empíricos do estudo.
Erro 1 - Não existe informação nos dados sobre uma política que nunca implementada.
A Economia não é uma ciência experimental pelo que as teorias apenas podem ser avaliadas com informação do passado.
Imaginemos que quero saber o impacto da subida de 5ºC na temperatura da água do rio Douro ao longo de um ano na mortalidade dos peixes. Bem, isso nunca se observou mas eu pego em dois tanques iguais e encho-os de água recolhida do rio Douro. Depois, pesco 2000 peixes do rio e meto 1000 em cada tanque, aleatoriamente. Finalmente, mantenho a temperatura de um dos tanques igual à do rio (medida com um termómetro) e aumento a temperatura do outro tanque em 5ºC.
Ao longo do tempo a temperatura do rio muda e eu mudo também a temperatura dos meus tanques.
Passado um ano conto quantos peixes estão vivos em cada tanque e posso dizer quantos morreram a mais no tanque que tinha a temperatura mais elevada.
Posso repetir esta experiência as vezes que achar necessário.
No caso concreto da avaliação do impacto da transferência da TSU, os autores reconhecem que esta política nunca foi experimentada. Logo, os dados do passado não contêm informação sobre o que resultará de esta medida ser aplicada.
Os dados não podem dizer nada sobre uma política que nunca aconteceu.
Neste caso, o estudo do impacto da medida tem que ficar pelo modelo teórico da Figuras 1 a 4.

Erro 2 - Na OCDE existem países em situação muito diferente quanto ao desemprego.
Vamos supor que nos dados havia alguma informação quanto ao impacto da descida dos custos do trabalho (e não da TSU) no desemprego.
Mesmo assim, é errado usar os países da OCDE mete casos que estão com desemprego acima da Taxa de Desemprego Natural (a Espanha e a Grécia que têm mais de 25% da população activa desempregada) onde a descida dos custos do trabalho aumenta o emprego, juntamente com países abaixo dessa taxa (a Noruega , Coreia do Sul e Suíça com menos de 3%), onde a diminuição dos custos do trabalho diminui o emprego.
Meter todos no mesmo saco, como nuns a medida teria um efeito positivo e noutros um efeito negativo, os resultados anulam-se.
Porque é que usaram os países da OCDE e não usaram os países todos?
Por sabem que não se podem meter coisas diferentes no mesmo saco.

Erro 3 - Não atenderam à Critica de Lucas.
Os modelos empíricos (econométrico) não podem ser usados para avaliar as políticas macroeconómicos porque existe uma "dupla ligação" entre a situação económica e as políticas.
Por um lado, as políticas respondem à situação da economia e, por outro lado, a situação da economia responde às políticas.
Quem o provou foi o Robert Lucas Jnr, o que lhe valeu o prémio Nobel da Economia de 1995.

Vou estudar o efeito da radioterapia na probabilidade de morte.
Com este exemplo, a Critica de Lucas fica clara.
Pego em 1000 pessoas que fizeram radioterapia e conto quantas viveram mais de 5 anos.
Pego também em 1000 pessoas que não fizeram radioterapia e também conto quantas viveram mais de 5 anos.
Observo que morreram muitos mais pessoas no grupo das que fizeram radioterapia que no grupo das que não fizeram.
Será que posso concluir que a radioterapia aumenta a probabilidade da pessoa morrer?
Não porque apenas faz radioterapia quem tem cancro.
O estado de saúde induz uma resposta terapêutica que, por sua vez, induz uma alteração do estado de saúde que leva a nova resposta terapêutica, etc.

A critica de Lucas é semelhante a este exemplo.
As políticas que o governo implementa, (a Austeridade), são em resposta a uma situação económica concreta, (a nossa bancarrota e recessão), pelo que não podemos avaliar empiricamente se a austeridade degrada as nossas contas pública e tem efeito recessivo porque a auteridade é a resposta terapêutica à crise.
Apenas poderíamos avaliar esta teoria se um país "normal" entrasse em austeridade o que nunca acontecerá.
Também nunca acontecerá um indivíduo saudável ir fazer radioterapia.

Ok, há os testes clinicos.
sim. Mas nas politicas macroeconómicas não há disso.
Era o caso de Portugal decidir para 2013 aumentar o salários dos funcionários públicos, as reformas e as pensões em 20% e arrancar com o novo aeroporto de Lisboa, o TGV e mais SCUTS a ver se melhorava a sua situação económica.
Como a restrição financeira não o permite, nunca será possível avaliar se um país em bancarrota resolveria os seus problemas com uma expansão do défice público.

Concluindo.
Os custos do trabalho são a variável por excelência que equilibra o mercado de trabalho fazendo o desemprego caminhar para a Taxa de Desemprego Natural.
Como o mercado de trabalho português é muito rígido, a transferência da TSU dos patrões para os empregados promoveria o equilíbrio do mercado, i.e., combateria os actuais 16% de desemprego.
Os estudos que digam o contrário estão errados e servem apenas para enganar os incautos.
Apesar de em termos técnicos a medida ser correcta, a ignorância do povo e demais players políticos não permite que avance pelo que a alternativa é aumentar o horário de trabalho em 0.5hora por dia.

*Luís Aguiar-Conraria; Fernando Alexandre; Pedro Bação; João Cerejeira; Miguel Portela (2012), Emprego e TSU - O impacto no emprego das alterações nas contribuições dos trabalhadores e das empresas
Pedro Cosme Costa Vieira

11 comentários:

Nelson Silva disse...

Uau, se já tinha duvidas relativamente à independência deste blog, elas ficaram hoje completamente esclarecidas. Depois de frases como "É interessante como os comunas pegam num modelo da oposição ideológica, deturpam-no completamente (acabando com a SS), e, tipo bala de ricochete, reutilizam-no para atacar os próprios criadores do modelo." ou "Apesar de ter sido eu a dar a ideia de transferir a TSU do patrão para o trabalhador" são já completamente esclarecedoras para ver como as afirmações deste blog são completamente enviesadas.
Parabéns, com este post conseguiu remover qualquer rácio de credibilidade que este blog ainda possuia.

Económico-Financeiro disse...

Amigo Nelson,

Eu já escrevi repetidamente que eu e, consequentemente, este blog não temos qualquer credibilidade.

Só a verdade de Deus e as mentiras dos homens é que precisam da credibilidade para se afirmarem.

Eu apresento argumentos e as pessoas pensam com a sua cabeça e dizem onde estão os meus erros de raciocío.

Até hoje, já disseram muita coisa sobre a minha falta de credibilidade mas ainda ninguém disse onde eu estava errado.

Mas isso pode surgir a qualquer momento, que agradeço.

Peço ao Nelson que deixe de acreditar e passe a pensar.

Um abraço,

pc

André Levi disse...

Professor,

Percebo o seu raciocínio.
Mas não seria melhor baixar os custos do trabalho apenas para as PME's? Ou apenas às empresas que produzam bens transaccionáveis? Assim além de ajudar a tesouraria dessas empresas, prosseguiríamos com o objectivo de ajustar a economia portuguesa para o sector dos bens transaccionáveis.

Creio que empresas monopolistas como a EDP, Galp entre outras, porque para além de terem rentabilidades garantidas em imensos consórcios, vêm agora ter mais um bónus no final do ano em virtude da baixa da TSU. E tenho dúvidas que precisamente essas empresas vão contratar mais devido à medida precisamente pela contracção do consumo interno. Os bancos irão com certeza aproveitar para continuar a reforçar capitais à custa mais uma vez do nosso esforço. E é isso que me custa a aceitar nesta medida.

Depois, acaba por ser demasiado estranho,com uma medida que teoricamente beneficiaria o patronato, ainda não ter ouvido uma opinião favorável da maior parte dos empresários portugueses.. e não falo só dos que dependem do consumo interno, mas inclusive de PME's que exportam...
Professor, continue o bom trabalho.
Cumprimentos.

vazelios disse...

Boa tarde,

Desde já os meus parabéns pelo blogue e pelo excelente artigo.

Um obrigado por ensinar gratuitamente.

Eu percebo a ideia do governo e percebi melhor ainda com esta exposição de dados. Não há nada como termos os dados para perceber as coisas.

O problema dos Portugueses é a matemática: Pedimos muito dum lado da equação, esquecendo-nos que temos de tirar do outro lado da equação. Pedimos aumentos salariais, de pensões, de férias até, sem perceber que tudo isso tem contrapartida, nem que seja no futuro, como aconteceu. Durante décadas ninguém disse nada quando eramos roubados. Agora chegou a conta para pagar e ficamos em pulvorosa. Que tamanha ingenuidade.

Os Portugueses (ainda) ligam mais a frases feitas do que a dados - como por exemplo os que o professor medina carreira expõe na TV. O Prof. Medina ao dar a verdade às pessoas, é um profeta da desgraça. Estes professores de Braga e Coimbra salvam o país mandando a medida abaixo (quer concorde ou não), sem dados nenhuns, e o problema morre aí.

É uma grande verdade, portugueses acreditam mas não pensam.

Eu só acho que a medida é brutal e não trata todos de forma igualitária.

Se fosse um aumento progressivo, como li hoje nas noticias, entende-se melhor.

E o grande problema foi o timing e a comunicação da medida.

Mas PPC já avisou várias vezes, estamos em estado de emergência e muitos Portugueses pensam que já passámos o pior.

Quanto ao Nelson, tenho pena que não consiga ler seja o que for e pensar pela sua cabeça, concordando ou não com cada frase.

Eu também leio artigos do Daniel Oliveira e o Prof Francisco Louçã foi meu professor, não sou do BE, não concordo com muita coisa, mas não deixo de os admirar.

Cumprimentos

Hugo C disse...

Estou em crer, depois de pensar, porque ainda depois de se pensar só se pode crer, que a vulnerabilidade da economia é esquecer-se frequentemente que é uma ciência social, focando-se assim naquilo que é mais controlável e visível (e fácil de trabalhar), as ciências "exactas" como a matemática. O pensamento racional baseado em pensamento lógico, estaria frequentemente certo, se o mundo fosse um computador, mas como não é, é feito de pessoas, é necessário antes de se avançar com raciocínios lógicos / económicos, reflectir muito bem sobre a natureza humana e social. Pois se este entendimento não for sólido, tudo o que se possa construir por via da lógica, passa a estar errado. Julgo ser aqui que as previsões económicas apresentam vulnerabilidades. Em vários momentos também nos textos deste blog o mundo, a sociedade é descrita como um sistema "perfeito" e "controlado". Mas a realidade não é assim, e é por isso, que grandes profecias baseadas em números, dados estatísticos,pensamentos rigorosos ditados por pessoas muito "inteligentes" falham em economia.

De todo o modo, só tenho a agradecer o que aqui é escrito, permitindo que este blog seja um espaço aberto. Não concordo com muita coisa (como é natural), mas a verdade é só uma, só leio porque quero.

alexandre disse...

Há um erro no seu raciocínio que, à semelhança do que aponta aos autores do outro estudo, perverte o resultado.
O modelo matemático da procura e oferta de emprego não pode ser visto isoladamente do modelo de procura do mercado, base da sustentabilidade das empresas: a sua capacidade de gerar receitas e sobreviver. O erro da sua análise é a assunção da inflexibilidade da procura pelos bens e serviços produzidos pelas empresas em ambos os cenários que apresenta.

A generalidade das críticas que tenho visto assentam essencialmente nisto: com a quebra de receita líquida dos consumidores, haverá uma consequente retracção do consumo, o que condicionará a capacidade de sobrevivência de um número indeterminado de empresas, gerando assim mais desemprego - lembre-se do peso do consumo interno na nossa economia. Os detractores da medida da TSU afirmam que este número será superior ao benefício de emprego que esta gera pela desvalorização fiscal.
Na sua análise não vejo este aspecto endereçado.

A ideologia económica subjacente à medida pressupõe que, perante o esvaziar da procura interna, as empresas se reorganizarão e virarão para o exterior. No entanto, se atentar ao crescimento das exportações, este dirige-se essencialmente a países fora da zona euro, o que diz muito sobre o estado do mercado dentro da mesma. Se esta mexida da TSU se pode revelar benéfica a médio prazo, pelo efeito de "desvalorização fiscal", é discutível que este seja o momento ou contexto certo para a implementar.
A retracção de consumo a curto prazo poderá condicionar a execução orçamental e, consequentemente, à necessidade de ainda mais medidas de austeridade que condicionam a capacidade de sair da recessão.

Em qualquer dos casos, julgo que não existe informação estatística ou modelos empíricos que permitam, de forma abrangente e com a solidez necessária, defendê-la ou atacá-la de forma absoluta. Logo, apenas se justifica esta medida neste momento por opção política - seja por ideologia, ou para ganhar crédito junto da troika e investidores internacionais. Pessoalmente diria que é a segunda razão.

De qualquer forma, gostei de ler o seu post :-)

Cumprimentos,

Filipe Silva disse...

Boa Noite

Gosto particularmente das fotos que coloca no blog :)

Em relação à medida, não tenho conhecimentos para dizer se seria boa ou má, e pelo que vejo nem os do Minho nem o ministro.

Mas é interessante analisar a questão de fundo, a dita transferencia de riqueza dos trabalhadores para o grande capital ehehe.
Uma empresa quando se instala em Portugal presta um serviço à sociedade portuguesa, criando emprego, esta gera rendimento para os trabalhadores e impostos para o Estado, sendo que o único beneficiário da pensão é o trabalhador não consigo compreender porque razão terá a empresa de pagar TSU, deveria ser o trabalhador a incorrer com o custo dado que é o único beneficiário.
Se a empresa decide por livre vontade criar um fundo de pensões de forma a motivar e segurar os seus trabalhadores excelente, senão não tem de estar a pagar para contratar.

Qual a sua opinião sobre o actual planeamento central existente em Portugal e no mundo ocidental?

Fico abismado com a idiotice que se vê na televisão, principalmente vindo de economistas que já demonstraram que pouco percebem sobre economia (vêm me a mente Bagão Felix, Ferreira Leite, Teixeira dos Santos, Victor Gaspar).
O problema é o excesso de divida, segundo vi para os juros passam os 9mil milhões e continuamos a engordar a divida, o Estado continua e vai continuar a ter deficit.

Gostava de saber também a sua opinião sobre a Escola Austríaca,
Cada vez que leio mais Mises, Huerta de Soto, Bagus e companhia limitada mais penso que estão mais próximos da realidade do que me obrigaram a ler na FEP.

Obrigado pelo tempo despendido, e pena não ter sido meu professor quando por aí andei

Jonh disse...

Bom dia,

Apesar de apreciar a forma como escreve, nem sempre consigo concordar consigo.

Este artigo continua a tratar o desemprego como o objetivo principal de uma economia, quando todos sabemos que é apenas uma consequência da atividade económica. O desemprego é uma consequência do nível de competitividade das nossas empresas. Uma empresa só contratará mais se conseguir vender mais; não é por ter menos custos que irá contratar mais. É claro que há algumas empresas, poucas, na minha opinião, que poderão ficar mais competitivas com a redução dos custos. Além disso, a descida da TSU tem a vantagem de incentivar as empresas a reorientarem a sua atividade para o exterior, visto que a diminuição do rendimento das famílias irá repercutir-se em menor poder de compra e menos consumo privado.

Nuno disse...

As suas teorias sobre o desemprego tem de ser reformuladas.
Antigamente, o que "provocava" o desemprego era a diferença entre o dinheiro que o patrão estava disposto a pagar e o salário mínimo. Hoje em dia não. O estado social veio alterar tudo.O desemprego é provocado pela diferença entre o dinheiro que o patrão está disposto a pagar pelo factor trabalho e pelo dinheiro que o trabalhador está disposto a pagar.
Ora vejamos.
Se eu vou trabalhar e recebo 600e líquidos. Gasto 100e em transportes e 150e em alimentação, fico com 350e e ainda tenho de me levantar cedo e trabalhar.
Se eu for minimamente inteligente, usufruo das facilidades do estado social e consigo sempre receber á volta de 400 euros sem fazer nada e ainda não pago impostos nem hospitais.
Visto isto tem de reformular o seu modelo para o desemprego.

Gonçalo disse...

Caro Filipe Silva

Se formos ver, 11% ao fim do 14 ordenados significa praticamente um ordenado e meio por ano que se paga ao estado. Ao fim de 40 anos equivale a 60 ordenados. Supondo que se reforma aos 65 e morre aos 80, são 15 anos a viver desta poupança o que daria 4 ordenados/ano o que daria 29% do ordenado por mês para gozar a velhice.

Mas ainda temos de acrescentar as despesas com as instalações e os funcionários públicos. E as despesas sociais não são só pensões. São também subsídios de desemprego, RSI, ajuda a idosos, IPSS, entre outros serviços sociais.

Se os 11% já não chegam para as pensões, muito menos para quando se soma tudo o resto. Que aconteceria se o trabalhador fosse para o desemprego? Iria "retirar" ao valor das pensões?




VidalFerreira disse...

Boa tarde!

Desde já agradeço a sua disponibilidade para a construção deste blogue que tenho apreciado bastante e visitado regularmente desde que o descobri. Trata a economia tal como ela deve ser vista, descartando todas aquelas demagogias à moda keynesiana de que o aumento do consumo é a base de um crescimento económico sustentável.

No entanto, ao ler este artigo, tive uma dúvida em relação ao seguinte parágrafo:
"Mesmo assim, é errado usar os países da OCDE mete casos que estão com desemprego acima da Taxa de Desemprego Natural (a Espanha e a Grécia que têm mais de 25% da população activa desempregada) onde a descida dos custos do trabalho aumenta o emprego, juntamente com países abaixo dessa taxa (a Noruega , Coreia do Sul e Suíça com menos de 3%), onde a diminuição dos custos do trabalho diminui o emprego."

Gostaria de perceber porque é que nos países com desemprego abaixo da sua taxa natural, a diminuição dos custos de trabalho faz diminuir o emprego.

Um muito obrigado pela compreensão.

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