sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Porque os salários são altos nuns países e noutros não?

Santa Ignorância olhai por nós.
Quando eu (e outras pessoas com o António Borges) afirmo que "os salários em Portugal têm que descer para ganharmos competitividade" e assim melhorar as nossas contas externas (e o nosso nível de vida), os opositores a esta necessidade perguntam-me até quanto terão os salários que descer.
   - Teremos que descer ao nível da China?
Eu compreendo que uma pessoa normal não saiba porque os salários são mais elevados num país e mais baixos noutro mas ouvir isto de doutos professores de economia dá dor de dentes.
Tenho que parafrasear o António Borges:

     - Que os [professores de economia] ... são completamente ignorantes, não passariam do primeiro ano do meu curso na faculdade, isso não tenham dúvidas
    - O grande problema do país são as elites e não o povo português, que acredita no seu país, revelando uma confiança extraordinária.

Por termos tido, nos 15 anos do guterrismo-socratismo, elites dessas a governar o nosso país  é que estamos na bancarrota.

Fig. 1 - Quando Malala quase perde a sua vida no combate pela ignorância, não podemos ficar sentados a ver a demagogia vencer.

Qual será o salário médio na China?
Os meus amigos nem fazem ideia de quanto é o salário médio na China.
Devem pensar que ainda está no nível do 25-de-Abril de 1974 em que o Mao-Tsé-Tsé tentava vender para cá o seu modelo moribundo e que morreu, definitivamente, em 1976.
Pegando em dados do TradingEconomics (que passou a disponibilizar esta informação), passando os Yuans para dólares americanos e passando a "salários portugueses" considerando 14 meses e um câmbio de 1.3USD/€, obtém-se um salário médio em Dez 2011 de 363€/mês.
Atendendo a que os preços em Portugal são 52% mais altos que na China (por causa dos preços dos bens não transaccionáveis, cálculo do Banco Mundial para 2011), o salário médio chinês compara-se a um salário português de 553€/mês.
São baixos mas já são comparáveis com o salário médio que um trabalhador recebe no Norte de Portugal (850€/mês) onde a indústria exportadora está mais sujeita à concorrência internacional (os têxteis, vestuário e calçado).

Sim, os nossos salários vão ficar iguais aos chineses.
Mas porque os salários na China têm crescido (cambiados para USD) a uma taxa média de 15%/ano e os nossos estão estagnados.
Em 1990 o SM chinês (26€/mês) era de 15% do nosso Salário Mínimo (175€/mês) e em 2013 já vai atingir os 100% (485€/mês).
E o salário médio chinês em paridade de poder de compra vai atingir o salário médio do Norte de Portugal em meados de 2015.
Fig. 2 - Evolução do salário médio na China e do SMN português (dados: tradingeconomics, cálculos e grafismos do autor)

Na Índia os salários são muito inferiores
É muito engraçado os meus amigos não perguntarem pela Índia nem pela Guiné-Bissau quando nestes países os salários são muito mais baixos que na China (o salário mínimo na Índia anda nos 70€/mês e na Guiné-Bissau nos 50€/mês, fonte: paycheck).

199019952000200520102011  2013*
S. Médio CHN26 €37 €62 €121 €303 €364 €485 €
S. Mínimo PRT175 €259 €318 €375 €475 €485 €485 €
Racio15%14%19%32%64%75%100%
Quadro 1 - Relação entre o SMN português e o salário médio chinês (tradingeconomics, cálculo do autor, *previsão)

Fig. 3 - Da Índia já começam a aparecer produtos com boa qualidade

A austeridade dá resultado.
Apesar de os salários da China ainda serem inferiores aos nossos, estão a convergir rapidamente para o nosso nível o que prova que a política de austeridade chinesa (consumir pouco e poupar muito) acaba por se traduzir em aumentos nos salários!

Como se determina o salário de um país?
O salário relativo entre um país e o resto do Mundo (ou relativamente a um país concreto) depende da eficiência com que as pessoas de cada país são capazes de produzir os diversos bens e serviços.

O bem-estar: as pessoas preferem ter diversidade de bens e serviços.
O nosso bem-estar depende de uma diversidade muito grande de bens e serviços.
Vamos supor que existem 6 bens na economia (A, B, C, D e E) e que o bem-estar resulta de multiplicar as quantidades consumidas, Q, destes 6 bens:
     Bem-estar = Qa x Qb x Qc x Qd x Qe x Qf                (1)

A produtividade: os países não são igualmente eficientes.
Motivado por diferenças no clima, de recursos naturais, de capital físico ou humano, etc., um trabalhador de países diferentes demora um número diferente de horas a produzir uma unidade de um determinado bem. (Também se observa que nos países menos produtivos as pessoas querem trabalhar mais horas.)
Vou supor o seguinte quadro de produção em que Portugal é a referência (100h/u. em todos os bens), a Alemanha consegue produzir todos os bens em menos tempo e a China é pouco eficiente na produção de todos os bens.

BemPortugalAlemanhaChina
A10040160
B10050150
C10060140
D10070130
E10080120
F10090110
Horas200015002500
Quadro 2 - Número de horas que demora a produzir cada um dos bens e total de horas que cada povo quer trabalhar (por ano).

Os países vivem isolados.
Nesta situação que se denomina "em autarquia", os países não importam nem exportam bens tendo que cada país produzir tudo o que consomem. Então, vou determinar quanto se vai produzir de cada bem de forma a maximizar o bem-estar dado pela expressão (1) e respeitando o número de horas que cada povo quer trabalhar (usei a ferramenta solver do Excel).
  
BemPortugalAlemanhaChinatotal
A3,336,252,6012,18
B3,335,002,7811,11
C3,334,172,9810,48
D3,333,573,2110,11
E3,333,133,479,93
F3,332,783,799,90
Bem-estar13724037908
 Quadro 3 - Quantidades produzidas e bem-estar em autarquia.

No país menos eficiente (a China) a qualidade de vida é menor e no mais eficiente (Alemanha) é maior.
Para se garantir que são estas as quantidades transaccionadas no mercado de cada país, haverá preços próprios para cada bem e para cada país que farão os produtores serem compensados por usarem mais horas a produzir os diferentes bens.

Livre comércio: os países importam e exportam.
Agora, um país não precisa de produzir todos os bens. O problema (que o Adam Smith não conseguiu resolver em 1776) é que a Alemanha é mais eficiente (em termos de horas) e a China é mais ineficiente na produção de todos os bens.
Aparentemente os países ineficiente não vão ser capazes de competir no mercado internacional com o país mais eficiente.

Fig. 4 - Como a mulher tem articulações mais flexível, especializa-se nas tarefas mais acrobáticas.

Fig. 5 - Também se pode especializar no uso do salto-alto!

O salário é a variável que ajusta a produtividade.
David Ricardo resolveu em 1817 o problema conceptual de Smith  chamando à atenção para o facto de os salários serem mais elevados nos países mais competitivos (em termos de tempo de produção).

Lá se foi a teoria do Marx do "valor trabalho". Incrivel que hoje ter colegas, por exemplo, o Pimenta, que acredita nessa lengalenga.

Assim, o salário vai aumentar nos países mais eficientes até que esse país deixa de ser competitivo (em termos de preço) nos bens onde tem relativamente menos vantagem (em termos de horas).
Como há milhares de bens, haverá sempre algum que 1% a menos ou a mais nos salários tornará ou deixará de tornar competitivo ser produzido num determinado país.

A Alemanha não vai produzir todos os bens
Porque o diferencial de salários (maiores na Alemanha e menores na China) vai estar na exacta medida  que faça a Alemanha perder competitividade na produção dos bens C, D, E e F (onde é relativamente menos competitiva);
que Portugal se torne competitivo nos bens C e D e
que a China se torne competitiva na produção dos bens E e F (onde é relativamente mais competitiva).
Apesar de sermos mais competitivos, em termos de horas, que a China na produção de todos os bens, ficamos a ganhar se produzirmos apenas os bens C e D que exportamos para a China de onde importamos os bens E e F.

Se o salário em Portugal for 1000€/mês, na Alemanha será próximo de 1818€/mês
  1818 = 1000 x 100/55 torna a Alemanha apenas competitiva para produzir os bens A e B que terão que exportar para importar bens C, D, E e F de Portugal e da China.
Não interessa à Alemanha ter um salário mais baixo (ser competitiva em C) porque, como só quer trabalhar 1500h, fica melhor se produzir apenas os bens A e B onde é mais competitiva (em termo de horas). 

Se o salário em Portugal for 1000€/mês, na China será próximo de 800€/mês
  800 = 1000 x 100/125 faz Portugal deixar de ser competitivo face à China para produzir os bens E e F mas manterá a competitividade para produzir os bens C e D que exportará (para a Alemanha e para a China) para poder importar bens A e B da Alemanha e E e F da China.

Como fica a produção mundial.
Agora, o diferencial de salários vai permitir que cada país se especialize na produção dos bens em que é relativamente mais eficiente. Desta forma, a produção global aumenta (no exemplo, a produção de B e C diminui).
Desta forma, a existência de salários diferenciados (e preços iguais em todo o Mundo) leva ao aumento da quantidade de bens disponíveis que, com exportações e importações, ficam disponíveis para todas as pessoas.

BemPortugalAlemanhaChinaC/ComércioAutarquia
A018,75018,7512,18
B015,00015,0011,11
C10,000010,0010,48
D10,000010,0010,11
E0010,4210,429,93
F0011,3611,369,90
  Quadro 4 - Quantidades produzidas com comércio internacional.

Os ganhos do comércio internacional.
Agora é preciso dividir o aumento da produção que resulta da abertura dos países ao Comércio Internacional pelos diversos países. A Organização Mundial do Comércio existe para a promoção de uma divisão justa desse ganho.
Vou apresentar um exemplo em que os aumentos (e diminuições) de produção são divididos igualmente pelos 3 países (quadro 5).
Todos os países aumentam o seu nível de vida continuando o país mais eficiente, a Alemanha, a manter a dianteira e o menos produtivo, a China, a cauda (ver, Quadro 5).
  

BemPortugalAlemanhaChinaTotalAutarquia
A5,528,444,7918,7512,18
B4,636,304,0815,0011,11
C3,174,012,8210,0010,48
D3,293,533,1710,0010,11
E3,493,293,6310,429,93
F3,823,274,2811,369,90
Bem-estar355581012715
Autarquia13644048909

Quadro 5 - A especialização faz aumentar o  bem-estar em todos os países (a vermelho os bens que importam e a verde os bens que exportam).

O salário médio de equilíbrio.
Não é bom um país ser competitivo em todos os bens pois teria que ter salários muito baixos e trabalhar muitas horas o que diminuiria o bem-estar da população.
Também não é possível o país ter salários muito altos pois deixaria de ser competitivo o que levaria ao desemprego de uma percentagem muito grande da população e ao endividamento externo.
O salário será o mais alto (é o que maximiza o nível de vida do povo) que permita ter uma balança comercial equilibrada.
Um salários mais elevado que o de equilíbrio e um consequente endividamento externo leva a ganhos de bem-estar no curto prazo mas a perdas no longo prazo (a necessidade de pagar os juros da dívida).
Pelo contrário, um salários mais baixo que o de equilíbrio e um consequente crédito face ao exterior leva a perdas de bem-estar no curto prazo mas a ganhos no longo prazo (mais tarde será recebido o dinheiro emprestado mais os juros da dívida).
Um país manter uma balança comercial positiva (e salários mais baixos que o óptimo de curto prazo) pode ser usado para ganhar influência política junto de outros países, como, por exemplo, o Japão nos anos 1950-1970 e a China actualmente.

O princípio de Ricardo das vantagens comparativas.
Pode ser estendido a regiões, empresas e mesmo a pessoas individuais.
Se numa região, cidade ou uma pessoa é menos produtiva que outra, será o salário relativo que vai permitir que todos se especializem nas actividades em que são mais eficientes podendo haver emprego para todos.
O nosso principio constitucional que todos temos direito ao mesmo salário (o "contracto colectivo de trabalho") destrói a possibilidade de os menos produtivos poderem ter emprego tendo que se dedicar a guardar carros e a viver do RSI.
Naturalmente que o fim do "contrato colectivo de trabalho" e a passagem para o contracto individual de trabalho seria uma medida benéfica para toda a gente que só não avança pela demagogia dos nossos políticos de "esquerda". 

É um erro tentar substituir as importações.
O povo, por ter poucos conhecimentos de economia, pensa que poderíamos produzir os bens que importamos (agrícolas, energia, peixe,  têxteis e vestuário baratos). Mas isso será um grande erro porque teremos que aplicar muitos dos nossos recursos produtivos (pessoas, capital e recursos naturais) na produção desses bens onde somos pouco produtivos deixando de produzir outros que podemos exportar e passarmos a ter um nível de vida maior.
Também a política do Sócrates de dizer que "os vira-ventos permitem-nos poupar nas importações de energia" foi um erro colossal traduzido hoje num enorme custo de electricidade.
Temos que nos especializar no que somos capazes de fazer de forma relativamente mais eficiente (bens com um nível médio de sofisticação) que deveremos usar para pagar as importações de bens muito sofisticados (aos países mais desenvolvidos) e pouco sofisticados (ao países menos desenvolvidos).

A especialização é um fenómeno dinâmico.
Em nenhum país se ambiciona viver na miséria pelo que em cada país o salário será o máximo possível.
O problema é que o constante mas diferenciado progresso tecnológico e choques exógenos adversos (secas, cheias, crises financeiras, etc.) faz com que seja preciso ajustar continuamente o salário dos países.
As alterações dos salários relativos também faz que umas empresas/actividades percam competitividade (havendo necessidade de despedir esses trabalhadores) e outras empresas/actividades ganhem competitividade (havendo necessidade de contratar mais trabalhadores).

Um choque da Natureza.
Supondo que um país tem tudo equilibrado mas, de repente, acontece um seca que torna as pessoas menos produtivas. Neste caso terá que haver uma diminuição dos salários que compense a quebra retornando o país a ser competitivo num lote de bens que permita re-equilibrar a balança comercial.
Supondo que há ganhos de produtividade (como, por exemplo, se observa na China). Neste caso terá que haver um aumento dos salários para que o povo passe a viver melhor. O aumento dos salários fará com que o país deixe e ser competitivo em alguns bens fazendo diminuir o saldo da balança comercial.

A Europa, a China e a Índia.
A China esteve fechada ao comércio internacional até 1976.
Na primeira metade dos anos  1970 o grau de abertura (medido como a percentagem no PIB média entre as exportações e as importações) da China era muito baixo (3.8%) sendo inferior ao da Índia (4.5%) e menos de metade do do Brasil (8.7%).
Em 2000 é a vez de a Índia dar um forte impulso ao comércio enquanto que o Brasil, com Lula da Silva, se fecha ainda mais.

Apesar de a crise de 2007 ter penalizado severamente o comércio da  China, em 2011 o grau de abertura da China atinge 29.3% do PIB e já está quase apanhado pela Índia (27.2%). O Brasil manteve-se morto (12.3%).
Em 40 anos, enquanto que a China e a Índia aumentaram o comércio internacional mais de 650%, o Brasil ficou abaixo dos 50% (ver, Fig. 6).

Fig. 6 - Evolução do comércio internacional da China, Índia e Brasil  (dados: Banco Mundial, grafismos do autor)

A abertura da China do período 1976-2000
Fez com que a industria manufactureira simples se deslocalizasse da Europa para a China. Neste processo, a China adquiriu maquinaria agrícola para libertar a mão-de-obra da agricultura para as actividades industriais relativamente menos sofisticadas.
Motivado pela grande taxa de poupança / investimento, a China foi aumentando a capacidade de produzir produtos mais sofisticados o que levou ao aumento dos salários à média de 15%/ano (em termos de USD).

A abertura da Índia pós-2000
Desde 2000 que a China está a deixar de produzir os bens menos sofisticados (quis deixar de ser competitiva nestes produtos porque, globalmente, já podia subir os salários e enriquecer) o que tem transferido essas actividades para a Índia, Paquistão, Indonésia, Vietname, Bangladesh, Filipinas e outros países asiáticos.
Quem está atento aos produtos que se vendem nas nossas superfícies comerciais, cada vez vê mais produtos têxteis, calçado e vestuário e baixo preço a serem de produção de um destes países e os produtos de tecnologia intermédia (máquinas fotográficas, pen disks, rádios, etc.) a passarem a ser produzidos na China.
Numa espécie de onda que começou por volta e 1700 na Inglaterra, a Revolução Industrial tem-se vindo a expandir pelo Mundo estando agora a atingir com toda a força os grandes países asiáticos.
Provavelmente, por volta de 2050, veremos uma China já tão prospera como hoje é a Europa, uma Índia que estará na posição que observamos hoje na China e veremos finalmente a industrialização a passar para a África.

Onde fica Portugal nesta equação?
Temos que nos adaptar às alterações de produtividade que se observam no Mundo ajustando os nossos salários (descendo-os se nos tornarmos menos produtivos e aumentando-os se nos tornarmos mais produtivos).
Teremos que poupar para poder haver investimento em capital humano e em capital físico (mas não em mais estradas e mais casas) tornando a nossa estrutura produtiva com capacidade de produzir bens de tecnologia intermédia.
Teremos que ter sempre em mente que o nosso sucesso como país passará sempre por importar bens de baixa sofisticação de países menos evoluídos e de alta sofisticação de países mais evoluídos.
O nosso sucesso, mais que o da Alemanha, estará ligado à nossa integração europeia, lutando por fazer parte dos processos produtivos dos nossos parceiros europeus mais desenvolvidos fazendo componentes e partes menos sofisticadas dos produtos e sendo um destino turístico de proximidade.

Finalmente.
Só depois de compreendido o mecanismo que faz os países (e as pessoas) terem salários diferentes é que posso explicar porque a discussão em torno da TSU esteve errada desde o início.
Isto ficará para o próximo post porque este já vai muito longo.

Fig. 7 - Que ninguém pense que conseguirá encerrar este blog.

Pedro Cosme Costa Vieira

30 comentários:

Hugo C disse...

Caro professor,

Não tenho a mínima dúvida que os salários têm de descer. Continua a haver imensa gente a fazer muito pouco e a receber muito, e são também esses salário que contribuem para a média. Mas é média é uma chatice, porque só mostra metade da fotografia. Gostava de ver as percentagens relativas aos salários mínimos. Quantas pessoas em Portugal recebem menos de 600 euros mês, e que tipo de contratos têm. É óbvio que os salários têm de descer, mas não é ao nível da produção como parece querem fazer. As condições de trabalho em Portugal são miseráveis, desafio também que seja desenhado um quadro sobre o numero pessoas que em Portugal estão ganhar salário mínimo e têm ainda de levar com contractos de "randstads" e afins. Os números já foram apontados e são assustadores, mas toda a gente assobia para o lado. Uma economia enfraquecida como a de Portugal, não têm espaço para intermediários de trabalho e eles proliferam por todo o lado. Que opinião tem sobre os intermediários de trabalho?

aroso disse...

Hugo,

Devia ter mais atenção à parte que explica que o príncipio das vantagens comparativas se estende a empresas e indivíduos. Então, a existência de empresas que se especializem em alocar oferta e procura de emprego (que é em si um serviço) permitindo que os indivíduos que procuram emprego se dediquem a actividades em que são comparativamente mais eficientes (p.ex., escrever comentários em blogs) irá aumentar o bem estar de toda a gente. Mais ainda, se essas agências estimulam a redução dos salários, estamos também a contribuir para o equilíbrio da balança corrente. É uma dupla vantagem.

Boa sorte com a nota de economia!

Manuel Martins disse...

Todo o cidadão tem o direito de defender as suas ideias com os instrumentos que achar mais adequados. Mas um cidadão cultivado, com conhecimentos aprofundados e obviamente consciente que toda a ciência está em permanente evolução não pode agir como um disciplo ou apóstolo religioso.

Ora o Professor Doutor António Borges não só chamou ignorantes os empresários portugueses que criticaram a redução da TSU como afirmou o seguinte ‘’Que os empresários não passariam do primeiro ano do meu curso na faculdade, isso não tenham dúvidas’’.

Não o conheço pessoalmente o Conselheiro do governo, nem antes ou depois da sua passagem na Goldman Sachs, todavia como ex-professor e ex-reitor acho estranho como pode um economista desta craveira pretender chumbar alunos com discordância do seu ponto de vista. O ensino superior não é catequese desta ou de aquela corrente, é local de transmissão de conhecimentos de fontes diversas e fazer com que um aluno responda a questões com os seus próprios argumentos. E o professor correcto e mentalmente são deve avaliar a sua capacidade de resposta e não avaliar se este bebeu água do seu moínho.

Este triste exemplo demonstra como um professor pode contribuir com uma péssima produção no seu País.

Para terminar, devo sublinhar o excelente trabalho que demonstra no seu blog e também na defesa das suas ideias mas por favor não actue nas suas aulas como o Prof. António Borges.

Um abraço

Hugo C disse...

Caro Aroso,

Na ecónomia actual onde a cadeia de valor tende a ser cada vez mais curta, ficando a produção mais próxima da distribuição sendo para isso eliminados intermediários desnecessários, que apenas aumentam o custo sem ser efectivamente adicionado valor ao que se transacciona, na minha opinião não existe espaço para para intermediários de trabalho. Tudo o resto parece-me demagogia neo-liberalista, mas é apenas a minha opinião.

Hugo C disse...

Apenas só uma nota adicional sobre as empresas de trabalho temporário / intermediários de trabalho. Quem as conhece de perto sabe, e julgo que o Aroso as conhece, que estas empresas não apresentam qualquer valor para o trabalhador. Apresentam sim para o empregador, mas não pelas características de que se querem valer (formação etc) mas sim por serem um barreira legal entre o empregador e empregado, permitindo um sem fim de malabarismos que a longo prazo só produz perdas para empregador e empregado, uma vez que o empregado vive sempre na miséria, e o empregador vive numa alucinação de escolhas de mão de obra que não pode favorecer uma estratégia a longo prazo.
Ficaria sinceramente agradecido com a opinião do Professor Pedro Cosme, sobre este tipo de empresas.

aroso disse...

Hugo,

O valor dos intermediários advém de uma maior eficiência na alocação da oferta e da procura - é como ir ao Continente comprar batatas e bacalhau em vez de ter que ir a uma quinta e a uma lota.

No caso do mercado de emprego, as randstands agregam tanto a oferta (trabalhadores) como a procura de trabalho (empresas), acrescentando valor para ambas as partes: por um lado, os trabalhadores têm acesso a um leque de procura mais alargado (e.g., todos entregam o CV a 100 empresas em vez de entregarem a 1), por outro lado, as empresas têm acesso a um leque de oferta mais alargado (e.g., todas recebem 100 CVs em vez de 1). Como a entrega e o recebimento de CVs tem um custo associado (gasta tempo...), a intermediação acrescenta valor. Repare que ninguém é obrigado a procurar emprego através deste modelo, podendo perfeitamente qualquer pessoa consultar o suplemento de emprego dos jornais de domingo.

Quanto ao segundo comentário, suponho que a componente de "malabarismo" é uma das formas encontradas pelo mercado para "dar a volta" à rigidez do nosso mercado laboral (não se pode despedir, não se pode reduzir salários). Seria absolutamente preferível que se flexibilizasse o mercado laboral, mas, infelizmente, a constituição é contra.

Diogo disse...

Caro prof. Pedro Cosme Costa Vieira,

Obrigado por não ter colocado o meu último comentário. É bem demonstrativo da fragilidade das suas teses.

Um abraço

António disse...

Os factos não confirmam a afirmação:
“Por termos tido, nos 15 anos do guterrismo-socratismo, elites dessas a governar o nosso país é que estamos na bancarrota.”

Basta ler os gráficos publicados em:


http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=386210


Hugo C disse...

Caro Aroso,

Agradeço a sua resposta, e a forma como a escreveu. Permita-me contudo apenas duas observações. O trabalho não precisa de ser pescado como o peixe o foi e agora está na lota. O trabalho existe ou não existe e quem o cria é o empregador/empresa e só deste depende. Daí vejo o intermediário de trabalho / empresas de trabalho temp. como um intermediário dentro do próprio supermercado. Imagine agora que eu ia ao supermercado comprar peixe, mas ainda não o vendiam directamente; tinha eu ainda de falar com um intermediário, que me iria cobrar um valor pela transacção, intermediando uma actividade que é e sempre foi natural para mim, não sendo assim criado qualquer tipo de valor. Mais, corria ainda o risco de o intermediário do peixe corromper a minha compra, persuadindo-me a comprar sardinhas quando ia comprar atum. E ainda teria de pagar por isto.

Por outro lado, a concentração de Cvs, apenas ajuda a empresa de trabalho temporário que passa a deter uma base de dados de informação valiosíssima, que os potencias trabalhadores lá depositam de graça.
Estou em crer que vai chegar o dia em que vamos abrir os olhos para as barbaridades que se cometem hoje em dia, ou se de olhos abertos já estamos, havemos de deixar tapar o Sol com a peneira.

Económico-Financeiro disse...

Estimado Diogo,
Não apaguei nenhum comentario do Diogo pelo que deve ter sido alguma falha do sistema.
Por favor, reenvie o cometário.
pc

aroso disse...

Hugo,

Um pescador quer vender peixe. Em vez de ir de porta em porta coloca tudo à venda no supermercado, porque a especialização dele é pescar.

Um escritor quer vender livros. Em vez de ir de porta em porta coloca tudo à venda numa livraria, porque a especialização dele é escrever.

Um cientista quer vender fármacos. Em vez de ir de porta em porta coloca tudo à venda numa farmácia, porque a especialização dele é investigar.

Uma modelo toda boa quer vender desfiles. Em vez de ir de porta em porta (podia vir à minha!) coloca-se à disposição através de uma agência, porque a especialização dela é ser boa.

Um cantor quer vender concertos. Em vez de ir de porta em porta arranja um agente que trate disso, porque a especialização dele é cantar.

É por demais evidente que a intermediação é útil para todas as partes.

O problema que refere do agente dentro do próprio supermercado, que seria o equivalente a uma empresa lhe dizer que só o contrata se for através da agência, é unicamente causado pela rigidez do nosso mercado de trabalho. Se se pudesse despedir ou baixar salários, nenhuma empresa precisaria de contratar através de agências para salvaguardar a sua flexibilidade/sustentabilidade (note que o valor da intermediação se manteria, pelo que as agências continuariam a existir).

Imagine agora que as randstands eram fechadas - acha mesmo que as empresas iam contratar directamente mais pessoas (sem termo), sabendo que no futuro não as podiam despedir nem reduzir salários? Até podiam contratar algumas, mas certamente seriam menos!

aroso disse...

Uma outra nota - porque é que os CVs, sendo "valiosíssimos", não são vendidos pelos trabalhadores?

Do lado dos trabalhadores, o custo de mais um CV é baixo (especialmente quando entregues via agência), e o retorno potencial é elevadíssimo. Isto cria um incentivo forte a que toda a gente distribua de graça os seus CVs pelo maior número de empresas que conseguir - é um investimento.

Do lado das empresas, o custo de obter mais um CV é baixo (é só anunciar no facebook e recebem 1,000), e, apesar de o retorno potencial ser elevado, o custo de analisar um CV é significativo. É por isso que, nalguns casos, estão dispostos a pagar a agências por este serviço (que filtram os CVs e em vez de 1,000 lhes apresentam 10).

Por fim, repare que as agências não obtem esta informação de graça - têm que pagar pelos escritórios, pela luz, pelos ares condicionados, pelas tshirts a dizer randstand, e principalmente pelos seus colaboradores. Se isto fosse de graça, eu também abria uma agência para obter "informação valiosíssima" dos CVs e depois vendia-a à empresa dona do viagra para mandar emails de publicidade a toda a gente.

António disse...

Passos também tem culpa da dívida

O truque é antigo e foi reiterado no debate quinzenal de sexta-feira na Assembleia da República. Disse Pedro Passos Coelho: “O peso da dívida pública acumulada é hoje o principal problema orçamental. Se não tivesse havido durante tantos anos a irresponsabilidade de aumentar a dívida pública, hoje os portugueses não tinham que pagar tantos impostos.” Ninguém nega razão ao primeiro-ministro. Mas depois da investigação do PÚBLICO aos negócios da Tecnoforma — que publicámos ao longo dos últimos dias — o primeiro-ministro deixou de poder apontar a origem da tragédia da dívida às hostes do PS ou à era José Sócrates.
O devaneio, a irresponsabilidade, a megalomania e o oportunismo em torno dos dinheiros do Estado começou muito antes. Passos e Relvas foram parte activa num negócio que, à sua escala, também está na origem da dívida
O “monstro” de que o Presidente Cavaco Silva tanto falou no seu tempo de pousio político começou a ser construído na ressaca da última passagem do FMI por Portugal, alimentou-se com Cavaco, prosperou com António Guterres e manteve-se voraz nesses anos em que Miguel Relvas era secretário de Estado da Administração Local do Governo de Durão Barroso e Pedro Passos Coelho gestor de empresas especialmente vocacionadas para explorar as oportunidades dos negócios públicos, como foi o caso da Tecnoforma e do programa co-financiado pelo Fundo Social Europeu.

Quem inventa, autoriza e tenta executar um programa de formação no valor de 1,2 milhões de euros para funcionários de aeródromos perdidos no meio do nada tem de assumir a sua quota de responsabilidade na “irresponsabilidade” que faz hoje os portugueses terem de “pagar tantos impostos”.

É hoje claro que Passos Coelho e Relvas trabalharam juntos para que a empresa à que o actual primeiro-ministro esteve ligado vários anos encaixasse como uma luva num protocolo assinado em 2004 por dois membros do Governo social democrata apenas 17 dias antes, dando enquadramento legal a uma ideia que se resumia a isto: inventar uma forma de fazer dinheiro com base numa necessidade artificial, numa “premência” que não existia, num “problema” que Portugal não tinha — tão forçada era a ideia que nenhuma câmara municipal mostrou interesse. Passos e Relvas queriam formar mil pessoas para aeródromos que estavam fechados, que eram pistas perdidas ou que tinham um ou mesmo nenhum funcionário.

Não é sequer preciso especular sobre supostas teias de favores entre ex-amigos da Jota social-democrata. Não é necessário procurar na possibilidade de um crime a expiação para o que aconteceu. O que aconteceu fala por si. O que aconteceu é que o actual primeiro-ministro e o seu ministro Miguel Relvas foram parte activa num negócio que, à sua escala, também ajudou ao drama actual.
In editorial do Jornal Público de 14/10/2012

Hugo C disse...

Caro Aroso,

Terminarei apenas com o seguinte, tentando evitar demagogia.
O trabalho não necessita para que seja "vendido" de um mercado como os demais bens que referiu. O mercado para o trabalho existe per se. Um mercado para o trabalho, só pode resultar num "espaço" artificialmente especifico, e portanto desnecessário, pois como referido, a cadeia de valor está cada vez mais curta e simplificada em todos os sectores; todos sabemos disso.

Por outro lado, disse o Aroso, que a nossa constituição não permite certas agilidades/malabarismos, que as empresas de trabalho temporário acabam por colmatar. Ora se o fazem, tendem actuar de forma inconstitucional, e assim sendo trabalham contra todos nós. Pergunto porque não contratam professores para as universidades via interim. Porque são sempre as classes mais baixas e desprotegidas que se submetem aos contractos das empresas de trabalho temporário? No passado também existiram intermediários de trabalho, mediavam escravos, que os "senhores" compravam. As empresas de trabalho temporário, na economia do conhecimento em que hoje vivemos são absolutamente incompreensíveis sobre o ponto de vista prático e ético. Existem devido a uma só questão: O excesso de mão de obra; e aproveitando esse excesso, e inerente falta de valor de quem oferece trabalho, exploram o mercado, enfraquecendo-o ainda mais. A meu ver, sob uma perspectiva biológica, teríamos uma relação de parasitismo.

Diogo disse...

«Quando eu (e outras pessoas com o António Borges) afirmo que "os salários em Portugal têm que descer para ganharmos competitividade" e assim melhorar as nossas contas externas (e o nosso nível de vida), os opositores a esta necessidade perguntam-me até quanto terão os salários que descer.»


Caro Professor, isso talvez fosse assim, não for dar-se o caso da Tecnologia estar a acabar com o Emprego.

Não existem grandes dúvidas de que os computadores, as tecnologias robóticas e outras formas de trabalho automatizado têm vindo a tornar-se cada vez mais capazes e que à medida que esta tendência continua, mais trabalhadores têm a certeza de que serão substituídos pela máquina num futuro relativamente próximo. A maior parte dos economistas rejeitam qualquer preocupação de que isto possa conduzir a um desemprego estrutural a longo prazo.

Parece existirem fortes argumentos de que uma grande percentagem de empregos são, a um certo nível, essencialmente rotineiros e repetitivos por natureza. Por outras palavras, o trabalho pode ser dividido num conjunto discreto de tarefas que se tendem a repetir numa base regular. Parece provável que, à medida que o hardware e o software se continuarem a desenvolver, uma fracção cada vez maior deste tipo de trabalhos será, em última análise, susceptível de ser executado por máquinas ou software automatizado.

Isto não é ficção científica: trata-se de uma simples extrapolação dos sistemas especialistas e algoritmos específicos que podem actualmente fazer aterrar aviões comerciais, transaccionar autonomamente em Wall Street ou vencer praticamente qualquer ser humano numa partida de xadrez. À medida que a tecnologia progride, estes sistemas vão começar a estar ao nível, ou a ultrapassar, a capacidade dos trabalhadores humanos em muitas categorias de trabalhos de rotina – e isto inclui muitos trabalhadores com graus académicos superiores ou outra formação significativa. Muitos trabalhadores serão também crescentemente ameaçados pela tendência contínua em direcção às tecnologias self-service [faça-você-mesmo] que transfere as tarefas para os consumidores.

Um dos exemplos históricos mais extremos da indução da perda de empregos devido à tecnologia foi, sem dúvida, a mecanização da agricultura. Por volta de 1800, cerca de três quartos dos trabalhadores nos Estados Unidos estavam empregados na agricultura. Hoje, esse valor ronda os 2 a 3 por cento. A evolução da tecnologia eliminou irreversivelmente milhões de empregos.

Obviamente, quando a agricultura se mecanizou, não ficámos com desemprego estrutural a longo prazo. Os trabalhadores foram absorvidos por outras indústrias, e a média dos salários e a prosperidade global aumentou dramaticamente. A experiência histórica com a agricultura é, de facto, uma excelente ilustração da chamada "falácia Ludita." É a opinião – que é geralmente aceite pelos economistas – de que o progresso tecnológico nunca conduzirá ao desemprego massivo a longo prazo.


(continua)

Diogo disse...

(continuação)


Os motivos da falácia Ludita prendem-se normalmente com o seguinte: à medida que se aperfeiçoam as tecnologias que poupam trabalho, alguns trabalhadores perdem os seus trabalhos a curto prazo, mas, por outro lado, a produção também se torna mais eficiente. Isto conduz a preços mais baixos para os bens e serviços produzidos, o que, por seu turno, deixa os consumidores com mais dinheiro para gastar noutras coisas. Quando o fazem, a procura aumenta em quase todas as outras indústrias – e isso significa mais empregos. Isto parece ser exactamente o que aconteceu com a agricultura: o preço dos alimentos desceu à medida que eficiência produtiva aumentava, e então os consumidores puderam gastar o dinheiro extra noutras coisas, conduzindo ao aumento de emprego na manufactura e no sector dos serviços.

A questão que devemos colocar é se o mesmo cenário se vai continuar a repetir. O problema é que desta vez não estamos a falar da automação de apenas uma indústria: estas tecnologias vão penetrar em todos os processos produtivos. Quando se mecanizou a agricultura, existiam claramente outros sectores de trabalho intensivo capazes de absorver os trabalhadores. Mas há poucas evidências que seja esse o caso hoje em dia.

À medida que automação vai penetrando em todo o lado, chegará um ponto de viragem, a partir do qual a economia no seu conjunto não será suficientemente intensiva para continuar a absorver os trabalhadores que perdem os seus trabalhos devido à automação. A partir desse ponto, os empresários serão capazes de aumentar a sua produção sobretudo pelo emprego de máquinas e software – e então o desemprego estrutural tornar-se-á inevitável.

Quando chegarmos a esse ponto, então também teremos um sério problema com a procura dos consumidores. Se a automação é inexorável, então o mecanismo básico que coloca o poder de compra nas mãos dos consumidores começa a desintegrar-se. A título de experiência, vamos imaginar uma economia completamente automatizada. Praticamente ninguém conseguiria arranjar um emprego (ou um rendimento); as máquinas fariam tudo. Portanto, donde viria o consumo? Se se estivesse a considerar uma economia de mercado (em vez de economia planificada), porque é que se continuaria a produzir se não existissem consumidores viáveis para comprar o resultado da produção? Muito antes de chegarmos a esse extremo de total automação, tornar-se-ia perfeitamente claro que os modelos do mercado de massas ficariam insustentáveis.

Se olharmos para as questões como a estagnação ou o declínio dos salários médios dos trabalhadores, para a desigualdade crescente dos rendimentos, para a produtividade acrescida, e para o consumo baseado em dívida em vez de no rendimento, encontrar-se-ão seguramente provas que geralmente sugerem que nos estamos a aproximar do ponto de viragem, no qual o desemprego se irá tornar num problema.

aroso disse...

Diogo,

Repare que quando chegarmos a esse ponto, a produtividade será incrivelmente elevada, por isso haverá mais valor a distribuir por toda a gente. É questionável se a tecnologia será capaz de alguma vez substituir toda a actividade económica proveniente do factor trabalho, mas admitamos que sim.

Como deixará de ser preciso trabalho, as pessoas tenderão a especializar-se nas outras duas componentes que contribuem para o crescimento: capital e inovação. Ou seja, cada vez mais pessoas serão investidores ou investigadores/professores/gestores/etc, e serão remunerados por isso mesmo.

Mas seguindo o seu argumento de ficção científica, podemos mesmo supor que a gestão de capital e a inovação poderão vir a ser feitas por máquinas. Quando isso acontecer, existirá tanta produção que ninguém precisará de trabalhar. O emprego será de 0% (ninguém tem trabalho) mas o desemprego também (ninguém quer trabalho).

Mas isto não garante que a alocação seja justa, por isso o povo irá revoltar-se, e o PCP (que na altura estará no governo) irá resolver o assunto....certo? NÃO! Como as máquinas se tornam tão eficientes, acabarão por também substituir o governo. Como têm como objectivo o aumento do bem estar da população (caso contrário, a população revolta-se e a máquina-estado terá que gastar muitos recursos em máquinas-polícias), as próprias máquinas decidirão qual a correcta alocação de recursos que maximize esse objectivo, e aí todos seremos felizes. Todos menos o PCP, que afinal nunca chegará ao governo.

Diogo disse...

Caro Professor,

Conhecendo-o um entusiasta das implicações da tecnologia na economia, gostaria de o ouvir sobre o que deixei escrito nos dois comentários anteriores.

Porque, sabendo nós que a tecnologia está em evolução exponencial e que a esmagadora maioria da indústria e boa parte dos serviços, a curto-médio prazo vão ser substituídos por máquinas, os empregos vão desaparecer, os salários vão desaparecer, as vendas vão desaparecer, os lucros vão desaparecer e a propriedade privada dos meios de produção vai necessariamente desaparecer. N´est-ce pas?

F Coelho disse...

Estimado Diogo,

As economias podem crescer, no longo prazo, por três motivos. Primeiro por via do aumento da população; gera crescimento uma vez que temos mais trabalho disponível. Depois por um aumento da taxa de poupança, que permite aumentar o investimento e assim aumentar o stock de capital. No entanto estes aumentos têm um limite. No caso da população parece-me claro. No segundo caso, o limite verifica-se quando a poupança de uma economia apenas serve para repor o capital que se deprecia, impedindo assim o surgimento de novos investimentos.

Apesar disto as economias continuaram a crescer. Porquê? Graças ao terceiro motivo, o génio inventivo do Homem aka progresso técnico. Desde a revolução industrial (início da ciência económica) que a automatização criou uma margem para canalizar recursos para outras áreas e possibilitou assim o crescimento. Concordo que no curto prazo temos um flagelo social. Imagine os postos de trabalho que destruiu a invenção da máquina de costura ou do tear mecânico, ainda assim é um custo que temos que incorrer para que todos possamos aumentar o nosso bem-estar.
Por exemplo, ouvi muitas vozes contra a automatização das portagens e o fim dos portageiros. Vejo aí um caso igual à invenção do tear mecânico. A Brisa poupará nos custos com o pessoal, aumentará o seu resultado, e depois ou reinveste os seus lucros. Ou então distribui aos seus accionistas que reinvestirão noutro projecto e este absorverá o emprego.

Acredito que haverá sempre espaço para o trabalho humano, ainda cada vez mais intelectual. A história mostra-nos que tecnicamente evoluímos muito, a população aumentou exponencialmente, o nível de bem-estar das populações é incomparável no tempo, e no entanto o desemprego no mundo manteve-se estável.

Diogo disse...

Caro Aroso,

Pode-se definir Inteligência pode ser definida como a capacidade mental de raciocinar, planear, criar, resolver problemas, abstrair ideias, compreender ideias e linguagens e aprender.

Com a tecnologia a evoluir exponencialmente, nada impede que um computador formado de processadores não venha a curto-médio prazo a ultrapassar o computador composto de neurónios e sinapses que temos dentro do crânio. O cenário não é assim tão fantasioso como poderá parecer à primeira vista.

E, no resto, dou-lhe razão: o emprego e o desemprego desaparecem e a produção e a distribuição será feita pelas máquinas. Ao homem «restará» o entretenimento.



Caro F. Coelho,

«Acredito que haverá sempre espaço para o trabalho humano, ainda cada vez mais intelectual»

Por aquilo que eu afirmei acima, não creio que sobre qualquer trabalho (felizmente) para o homem. A este restará o lazer e o entretenimento. E já não fala tanto como isso...

Diogo disse...

Caro Aroso

«Mas seguindo o seu argumento de ficção científica»


O Emprego está agora desaparecer em todo o lado a uma velocidade vertiginosa. Tudo devido à evolução tecnológica exponencial a todos os níveis.

O fim do emprego trará também o fim do capitalismo e, a cereja em cima do bolo, o fim do parasitismo financeiro.


Sobre a «Ficção Científica»:

1 - Nos primeiros tempos da aviação, o astrónomo americano William Pickering, que predisse a existência de Plutão, preveniu o público de que:
«A mente popular imagina frequentemente gigantescas máquinas voadoras atravessando o Atlântico a grandes velocidades e transportando numerosos passageiros como um moderno paquete… Parece-me seguro afirmar que tais ideias são totalmente visionárias, e mesmo que uma máquina conseguisse atravessar o Atlântico com um ou dois prisioneiros, os custos seriam proibitivos…»
Três décadas mais tarde, em Julho de 1939, foi inaugurada a primeira linha aérea transatlântica com um hidroavião Boeing 314, o Yankee Clipper da Pan American, transportando 19 passageiros.


2 - Em 1924, o engenheiro electrotécnico inglês Alan Archibald Swinton, um dos pioneiros do de raios catódicos, fez uma palestra na Radio Society da Grã-Bretanha sobre «Visão à Distância». Diria então: «Provavelmente não valerá a pena que alguém se dê ao trabalho de consegui-la.» Quatro anos mais tarde, a General Electric Company inaugurava, no estado de Nova Iorque, a primeira rede de televisão do Mundo.

Estes dois exemplos retirados da «História dos Grandes Inventos - Selecções do Reader’s Digest – 1983, pág 62».

*******

A automação e a inteligência artificial têm tido um desenvolvimento avassalador. A máquina, de forma crescente, possui mais dados, mais conhecimento e melhor capacidade de decisão. Cada vez é mais inteligente e mais autónoma. E cada vez menos precisa de ser dirigida pelo homem.

A tecnologia está cada vez mais próxima de produzir sozinha. O desenvolvimento tecnológico é exponencial em todos os campos que se considere. Donde, no binómio homem-máquina na produção, o homem tem cada vez menos peso. Em breve não terá praticamente nenhum e a máquina produzirá sozinha.

Nessa altura, a fábrica totalmente automatizada não poderá ser privada. Porque não existirão trabalhadores com salários, e sem salários não há poder de compra. Sem poder de compra não há vendas. Sem vendas não há lucros. Sem lucros não há empresas privadas. Qualquer empresa automatizada, seja o que for que produza, terá necessariamente de pertencer ao grupo, à comunidade, à sociedade.

O número crescente de desempregados a par do desenvolvimento exponencial do hardware e do software estão aí para prová-lo. Vamos acelerar a transição ou vamos permanecer agarrados a um passado de emprego condenado ao desastre social?

É a tecnologia que está a substituir o homem no trabalho. É por isso que o velho paradigma do emprego está moribundo. É necessário criar rapidamente, com o auxílio da tecnologia, um mundo mais justo, mais redistributivo e mais humano.


aroso disse...

Caro Diogo,

Então e isso não é bom? Eu por mim era só entretenimento! Viajar, comer uns petiscos, e assegurar a continuação da espécie.

Nessa altura teremos certamente condições para iniciar a maior empreitada de sempre da humanidade: a colonização intergaláctica, que nos poderá permitir ser a primeira espécie terrestre a escapar à extinção. À excepção de organismos simples como algas e bactérias, todas as espécies até agora desapareceram ao fim de alguns milhões de anos devido a alterações à escala global (meteoritos, glaciações, etc). Mesmo que o ser humano resista a isto tudo, daqui a uns biliões de anos terá que lidar com o desaparecimento do sol (que apesar de não ser grande suficiente para se transformar em super-nova e explodir, irá colapsar e transforma-se numa anã branca). Tal que, tal como o período dos descobrimentos, o preíodo de colonização intergaláctica seja de grande progresso a nível científico e de condições de vida. Repare que isto até já está a começar, com a NASA a planear levar pessoas a Marte em 2030. (a fonte disto tudo é a wikipedia)

Nesse momento, penso que a raça humana poderá dizer que venceu o jogo da vida, e não contrário.

Diogo disse...

Aroso - «À excepção de organismos simples como algas e bactérias, todas as espécies até agora desapareceram ao fim de alguns milhões de anos devido a alterações à escala global (meteoritos, glaciações, etc.)»

Diogo - Boa parte das espécies sobreviveu evoluindo. Senão, hoje, só existiriam algas e bactérias.


Aroso - «… Daqui a uns biliões de anos… teremos certamente condições para iniciar a maior empreitada de sempre da humanidade: a colonização intergaláctica… [que será] de grande progresso a nível científico e de condições de vida»

Diogo - Caro Aroso, daqui a poucos anos não apenas teremos ganho o jogo da vida como seremos deuses:


Ray Kurzweil é autor de "The age of intelligent machines", que ganhou o Association of American Publishers’ Award de melhor livro de informática de 1990. Ganhou o Dickson Prize, o principal prêmio científico da universidade Carnegie Mellon, em 1994. O Massachusetts Institute of Technology elegeu-o inventor do ano em 1988. Em 2004, em co-autoria com o médico Terry Grossman, lançou o livro "A medicina da imortalidade" — um abrangente programa de longevidade que inclui orientação nutricional, avanços da medicina e tecnologia de ponta, que em pouco tempo se tornou sucesso de vendas. O seu site www.kurzweilai.net é uma referência em nanotecnologia, contendo informações atualizadas semanalmente sobre as mais recentes e avançadas pesquisas na área.

***
Excerto de uma entrevista com Raymond Kurzweil sobre a miscigenação entre o homem e a máquina. [Tradução minha]



Entrevistador: Qual será o impacto destes desenvolvimentos?

Ray Kurzweil: Um aumento radical da esperança de vida, para começar.


Entrevistador: Parece interessante, e como será isso possível?

Ray Kurzweil: No meu livro, refiro três grandes revoluções sobrepostas a que dei o nome de “GNR”, que significa Genética, Nanotecnologia e Robótica. Cada uma delas propicia um aumento dramático da longevidade humana, entre outros impactos significativos. Nós estamos neste momento na primeira fase da revolução genética – também chamada biotecnologia. A biotecnologia oferece os meios para alterar os genes: não apenas bebés programados mas natalidades programadas. Seremos igualmente capazes de rejuvenescer todos os tecidos e órgãos do nosso corpo transformando as células da pele em versões jovens de qualquer outro tipo de célula.

Neste momento, novos desenvolvimentos fármacos têm como objectivo o combate de etapas importantes da arteriosclerose (a causa das doenças de coração), a formação de tumores cancerígenos, e os processos metabólicos que estão na base das doenças mais importantes e do processo de envelhecimento. A revolução biotecnológica já está na sua fase inicial e atingirá o seu pico na segunda década deste século (2010-2020), um ponto a partir do qual seremos capazes de ultrapassar a maior parte das doenças e retardar dramaticamente o processo de envelhecimento.

Seguir-se-á a revolução da nanotecnologia, que atingirá a sua maturidade durante os anos vinte (2020s). Com a nanotecnologia, seremos capazes de ir além dos limites da biologia, e substituir o nosso actual "corpo humano versão 1.0" com um substancial aperfeiçoamento versão 2.0 fornecendo um aumento radical dos anos de vida.


Entrevistador: E como poderá ser isso possível?

Ray Kurzweil: O segredo da nanotecnologia são os “nanobots”, que são robots do tamanho de células sanguíneas que podem viajar pela corrente sanguínea destruindo os elementos patogénicos (causadores de doenças), removendo detritos, corrigindo os erros do DNA, e revertendo o processo de envelhecimento.

(Continua)

Diogo disse...

(Continuação)

Entrevistador: Corpo humano versão 2.0?

Ray Kurzweil: Encontramo-nos já nas fases iniciais de multiplicar e substituir cada um dos nossos órgãos, e mesmo porções do nosso cérebro com implantes neuronais, os mais recentes dos quais permitem aos doentes fazer o download de novo software exterior aos seus corpos para os seus implantes neuronais. No meu livro descrevo a forma pela qual cada um dos nossos órgãos será em última análise substituído. Por exemplo, nanobots podem colocar na nossa corrente sanguínea um conjunto óptimo de todos os nutrientes, hormonas, e outras substâncias de que temos necessidade, assim como remover toxinas e dejectos. O tracto intestinal poderá ficar reservado para os prazeres da culinária em vez da monótona função biológica de fornecer nutrientes. No fim de contas, de certo modo já separámos a comunicação e os prazeres do sexo da sua função biológica.


Entrevistador: E a terceira revolução?

Ray Kurzweil: A revolução robótica, que na realidade se refere à "poderosa" Inteligência Artificial, ou seja, a inteligência artificial ao nível humano, de que falámos anteriormente. Teremos tanto o hardware como o software para recrear a inteligência humana lá pelo fim dos anos vinte (2020s). Seremos capazes de aperfeiçoar estes métodos e aproveitar a velocidade, a capacidade de memória e a aptidão de partilha de conhecimento destas máquinas.

Por fim, seremos capazes de examinar todos os detalhes importantes dos nossos cérebros, usando milhares de milhões de nanobots nos capilares. Poderemos então guardar essa informação. Utilizando a nanotecnologia, podemos recrear o nosso cérebro, melhor ainda, criar fisicamente uma representação dele num substrato computacional mais capaz.


Entrevistador: Isso significa o quê?

Ray Kurzweil: Os nossos cérebros biológicos utilizam sinais químicos que transmitem informação a poucas centenas de metros por segundo. A electrónica é já milhões de vezes mais rápida do que isto. No meu livro, demonstrei como em 25 cm cúbicos de um circuito de nanotubos seria cem milhões de vezes mais poderoso que um cérebro humano. Portanto temos meios mais poderosos para criar fisicamente representações da nossa inteligência do que as velocidades extremamente lentas das nossas conexões interneunorais.


Entrevistador: Portanto, vamos substituir os nossos cérebros biológicos por circuitos electrónicos.

Ray Kurzweil: Eu vislumbro este começo com nanobots nos nossos corpos e nos nossos cérebros. Os nanobots mantêm-nos saudáveis, proporcionam imersão total na realidade virtual desde o interior do nosso sistema nervoso, oferecem comunicação directa cérebro a cérebro pela Internet, e expandem enormemente a inteligência humana. Mas não se esqueçam que a inteligência não biológica está a duplicar a sua capacidade todos os anos, enquanto a nossa inteligência biológica tem a sua capacidade praticamente fixa. À medida que nos aproximamos dos anos trinta (2030s), a parte não biológica da nossa inteligência predominará.


Entrevistador: A tecnologia mais próxima de maior longevidade, contudo, é biotecnológica, não é verdade?

Ray Kurzweil: Haverá uma sobreposição das revoluções G, N e R (Genética, Nanotecnologia e Robótica), mas basicamente é isso.

(Continua)

Diogo disse...

(Continuação)

Entrevistador: Então diga-me mais sobre a forma como a genética e a biotecnologia vão evoluir.

Ray Kurzweil: À medida que vamos aprendendo sobre os processos de informação que estão por trás da biologia, estamos a desenvolver formas de os controlar para controlar as doenças, o envelhecimento e aumentar o potencial humano. Uma abordagem poderosa é começar pela infra-estrutura da informação biológica: o genoma. Com a tecnologia dos genes, estamos à beira de ser capazes de controlar a forma como os genes funcionam. Possuímos agora uma nova e poderosa ferramenta chamada interferência RNA (RNAi), que é capaz de desligar certos genes. Bloqueia o mensageiro RNA de genes específicos, evitando que criem certas proteínas.

Como as doenças virais, o cancro, e muitas outras doenças usam produtos do gene (proteínas ou RNA) em alturas críticas do seu ciclo de vida, isto promete ser uma tecnologia revolucionária. Um gene que gostaríamos de desligar é o gene receptor de insulina de gordura, que dá ordens às células gordas para guardarem todas as calorias. Quando esse gene é bloqueado nos ratos, esses ratos comem muito mas mantêm-se magros e saudáveis, e, em regra, vivem 20% mais tempo. Novos métodos de acrescentar novos genes, chamada terapia genética, estão também a surgir que ultrapassaram problemas anteriores de colocação precisa de nova informação genética. Uma companhia com a qual estou envolvido, a United Therapeutics, tratou com sucesso a hipertensão pulmonar em animais usando uma nova forma de terapia dos genes e foi agora aprovada para testes em humanos.


Entrevistador: Portanto, vamos basicamente reprogramar o nosso DNA.

Ray Kurzweil: É uma boa forma de o dizer, mas é apenas uma abordagem alargada. Outra importante linha de acção é desenvolver novamente as nossas próprias células, tecidos, e até órgãos inteiros, e introduzi-los nos nossos corpos sem cirurgia. Um dos maiores benefícios desta técnica de "clonagem terapêutica" é que seremos capazes de criar estes novos tecidos e órgãos de versões das nossas células que também já foram tornadas mais jovens – o campo emergente da medicina do rejuvenescimento. Por exemplo, poderemos ser capazes de criar novas células do coração a partir de células da sua pele e introduzi-las no seu sistema através da corrente sanguínea. Com o passar do tempo, as suas células do coração são substituídas pelas novas células, e o resultado é um "jovem" coração rejuvenescido com o seu próprio DNA.

A descoberta de drogas já foi uma questão de encontrar substâncias que produziam alguns efeitos benéficos sem efeitos colaterais excessivos. Este processo era semelhante à descoberta das ferramentas pelos primeiros seres humanos, que estava limitado a encontrar rochas e utensílios que pudessem ser úteis para vários fins. Hoje, estamos a aprender as séries exactas de reacções químicas que estão na base tanto das doenças como dos processos de envelhecimento, e seremos capazes de fabricar drogas para levar a cabo missões precisas a nível molecular. O raio de acção e a escala deste trabalho é vasto. Mas aperfeiçoar a nossa biologia só nos trará até aqui. A realidade é que a biologia nunca será capaz de estar ao nível do que seremos capazes de projectar, agora que estamos a ganhar uma compreensão profunda dos princípios da operação da biologia.

(Continua)

Diogo disse...

(Continuação)

Entrevistador: Não é a natureza mais eficiente?

Ray Kurzweil: De forma nenhuma. As nossas conexões interneuronais calculam cerca de 200 transacções por segundo, cerca de um milhão de vezes mais devagar que a electrónica. Tomando outro exemplo, o teórico da nanotecnologia, Rob Freitas, tem um projecto conceptual para nanobots que substituem as células vermelhas do nosso sangue. Uma análise conservadora mostra que se substituirmos 10 por cento das células vermelhas do nosso sangue com os "respirocytes" de Freitas, podemo-nos sentar no fundo da piscina durante quatro horas sem respirar.


Entrevistador: Se as pessoas deixarem de morrer, isso não conduzirá a uma sobrepopulação?

Ray Kurzweil: Um erro comum que as pessoas cometem quando pensam no futuro é antever uma enorme mudança do mundo de hoje, tal como um prolongamento radical do tempo de vida, como se tudo o resto não fosse mudar. As revoluções da "GNR" - Genética, Nanotecnologia e Robótica – resultarão noutras transformações que abordam essa questão. Por exemplo, a nanotecnologia permitir-nos-á criar virtualmente e qualquer produto físico a partir da informação e de matérias-primas muito baratas, conduzindo a uma radical criação de riqueza. Teremos os meios para encontrar os materiais necessários para qualquer número concebível de seres humanos. A nanotecnologia também fornecerá os meios tratar de destruições ambientais causadas por estágios anteriores de industrialização.

Manuel Martins disse...

Regressando ao nosso dia a dia… . Mesmo que a competitividade da economia portuguesa fosse exclusivamente viável pela via do empobrecimento generalizado, as nossas Instituições não sobreviriam (hospitais, universidades, tribunais, defesa, segurança,…). Na verdade, as receitas provenientes de impostos directos e indirectos mingaria de tal forma que o Estado ficaria paralisado face aos compromissos assumidos.

A médio prazo uma salvação temporária seria bater ainda mais forte na reduzida classe média porque já 50% da população portuguesa não paga impostos por terem salários no limite da sobrevivência. Logo esta medida implicaria uma revolução da classe média ou esta desapareceria em menos de uma década. E no final todos os portugueses cairiam no abismo.

Este filme não é ficção científica, é a realidade que nos espera caso batalhemos no campo do facilitismo da competitividade pela via do empobrecimento.

Para terminar, temos de alavancar a nossa competitividade com a obra de muita gente, porque é um movimento transversal, e essencialmente com o esforço das universidades.

Hugo C disse...

Estimado Manuel Martins,

Como é interessante para mim observar como com poucas palavras se consegue dizer muito, tal como Manuel Martins o fez. Estou plenamente de acordo com o que escreveu.

Gostava apenas de acrescentar que é também necessário perceber seja na classe média ou alta quem está a ser excessivamente pago pelo que realiza em sociedade (e vice versa), por complexo que possa ser criar este tipo de filtro. No fundo precisamos de Justiça.

aroso disse...

Nós precisamos é de aulas de economia e de mercados a funcionar.

Hugo C disse...

Também precisamos de mercados a funcionar é certo. Parece contudo que não se encontra forma de fazer com que funcionem. E sobre tais dúvidas ou deficiência sobre a eficiência dos mercados per se, temos por exemplo o trabalho de Josef Stiglitz que estou em crer não deva precisar de mais aulas de economia.

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