domingo, 18 de novembro de 2012

Será a tal política de crescimento o BCE deixar de controlar a inflação? - I

Se o desemprego diminuir, naturalmente que o PIB aumenta.
Isto é um facto porque a produção, PIB, é conseguida com trabalho e capital. Então, quando mais pessoas trabalham (o desemprego diminuir), mais o PIB aumenta.
Ninguém tem dúvida nesta relação porque cada um de nós em nossa casa observa que se não trabalhar, nada aparece feito. Nem a comida se cozinha sozinha nem a louça vai para a máquina de lavar pelo seu pé.
Eu tenho as covinhas à volta do tendão-de-Aquiles pretas porque os pés ficam muito longe das mãos e eu tenho preguiça de os esfregar. Já experimentei deixá-los de molho mas não resolveu.

Fig. 1 - Ai que vergonha. Não olhe para os meus pezinhos que estão sujos.

O crescimento do PIB por trabalhador.
Motivado pela forma como o PIB é calculado, a inovação tecnológica (fazer os mesmos produtos com menor custo ou melhores produtos com o mesmo custo dos antigos) faz com que haja uma tendência para o PIB por cada trabalhador (a produtividade) crescer ao longo do tempo.
Pegando em dados da OCDE do PIB e divididindo pelo número de pessoas a trabalhar, (1-taxa de desemprego), vemos que o PIB por trabalhador português a trabalhar estava a aumentar 1.6%/ano mas teve uma quebra de tendência com a crise do sub-prime (ver, Fig. 2).

Fig. 2 -Evolução do PIB por trabalhador português (dados: OCDE, cálculos meus)

Então, a contracção o PIB que temos observado nos últimos anos (em no final de 2012 acumulará -6%), tem sido causado pelo aumento do desemprego e, apesar do processo de ajustamento, continua a haver melhoramentos nos processos produtivos (crescimento da produtividade de 0.40%/ano).

Esta evidência é muito importante.
Porque traduz que a consolidação orçamental não está a destruir o "processo produtivo".
Então, no processo de ajustamento do mercado de trabalho para a taxa de desemprego natural (uma redução dos 16.5% de 2013 para os desejados 5% de 2001-2002), o PIB terá um aumento de 83.5 para 95 (+14%). Se o ajustamento durar 5 anos, só pelo efeito da redução do desemprego haverá um crescimento potencial do PIB de 2.6%/ano (mais os 0.4%/ano da produtividade, dá 3.0%/ano).

E como estará a evoluir a Grécia?
É um processo ligeiramente diferente pois, desde que aderiu à Zona Euro, a produtividade aumentou muito rapidamente  e, depois de 2008, está em contracção 0.8%/ano (ver, Fig. 3).

 Fig. 3 - Evolução do PIB por trabalhador grego (dados: OCDE, cálculos meus)

E como estará a evoluir a Alemanha?
É um processo idêntico ao português mas ligeiramente pior. A produtividade aumentava ligeiramente menos que em Portugal e, depois de 2008, está estagnada (ver, Fig. 4).

 Fig. 4 - Evolução do PIB por trabalhador alemão (dados: OCDE, cálculos meus)

Se compararmos Portugal com a Alemanha, pertencer à Zona Euro tem sido, em termos de produtividade, mais positivo para a Portugal que para a Alemanha (ver, Fig. 5). O nosso único problema (e dos gregos que tiveram um desempenho extraordinário entre 2000 e 2008) é o desemprego no pós crise do sub-prime (ver, Fig. 6).

 Fig. 5 - Evolução da produtividade grega, portuguesa e alemã (dados: OCDE, cálculos meus)

E porque será que o desemprego na Alemanha diminuiu e em Portugal e na Grécia aumentou?

Fig. 6 - Evolução da taxa de desemprego grega, portuguesa e alemã (dados: OCDE, cálculos meus)

Até 2008, as taxas de desemprego em Portugal eram menores que na Alemanha. Nessa altura o Cavaco disse "apanhasse a Alemanha estar como nós" e com alguma razão. Mas desde então, as coisas alteraram-se.
Porque será?

Desde há 50 anos que há quem pense que a inflação resolve  o problema do desemprego.
Os autores clássicos (e.g., Adam Smith) pensavam que os governantes se deveriam preocupar com as questão de Estado (a guerra e a paz) e que a economia deveria ser deixada, com toda a liberdade, aos cidadãos.
Era o Liberalismo condensado na máxima de Adam Smith "Deixar Fazer, Deixar Passar".
Com a crise de 1929, surgiu Keynes que pensou, em 1936, que se o Estado aumentasse o investimento (e a despesa pública) durante as crises económicas, então evitava-se, em grande parte, a severidade da crise. A esta corrente dá-se o nome de keynesianismo.

Mas logo na altura surgiu o Hayek com uma critica que destruiu Keynes.
Para o Estado gastar mais tem que ir buscar esses recursos às famílias e às empresas com impostos ou endividamento, reduzindo o rendimento disponível das famílias e das empresas na exacta medida do seu aumento de despesa (ou investimento público). Para o Estado aumentar a despesa em 100€, as famílias e empresas têm que diminuir a sua despesa em exactamente 100€.
Então, os agentes privados vão contrair a procura na exacta medida que o Estado aumenta a sua procura sendo nulo o resultado final agregado.

É o Crowding-out.
Como o Estado é menos eficiente na afectação dos recursos escassos que os privados (porque não tem informação quanto aos gostos e preferência dos indivíduos), a intervenção do Estado leva (quase) sempre à perda de bem-estar.
Por exemplo.
No Sábado passado o Ricardo Reis disse no Dinheiro Vivo que seria positivo para os portugueses que as autarquias cobrassem mais impostos para subsidiar as obras nos centros urbanos mas isso é comunismo.
Se as obras não avançam é porque as pessoas não vêm que esse investimento aumente, em termos individuais, o seu bem-estar. Como não existe uma falha de mercado no sentido de Coase, as pessoas ficariam globalmente pior se essa medida avançasse.

Só deve haver impostos.
Para financiar actividades que esteja provado sem qualquer margem de dúvida que os privados não têm incentivos para as realizar e que sejam imprescindiveis para a sociedade.
Financiar parques públicos, na medida em que não é possível um privado sentir-se recompensado, é positivo (mas na medida certa).
Financiar transportes públicos ou portos é um erro total que apenas diminui o nosso nível de vida.

Cagan surgiu com a ideia de expandir a massa monetária.
Os keynesianos já estavam derrotados quando o Cagan veio em 1954 criar a ilusão  que, se o Estado financiar o aumento da despesa pública com a emissão de moeda, aparentemente não vai cobrar mais impostos nem endividar-se. Então, como aparentemente o rendimento disponível dos agentes privados não vai diminuir, a emissão de moeda leva, à primeira vista, a um aumento da procura agregada que faz aumentar a produção e diminuir o desemprego (o puxão keynesiano).

Como é o mecanismo de Cagan.
O Governo aumenta a quantidade de notas em circulação em 10% (correspondente a 1% do PIB).
Então, as encomendas do Estado aumentam em 1% do PIB. Como o rendimento das pessoas mantém-se, a procura agregada aumenta o que faz aumentar os preços qualquer coisinha, por exemplo, 1%.
Agora aqui está a questão fulcral. Como os trabalhadores não vão dar conta da subida dos preços, vão manter os salários . Então, o poder de compra dos seus salários fica diminuído. Alto que já está aqui a aparecer a redução do rendimento as famílias pela redução do poder aquisitivo dos salários.
Mas, a redução do salário real (o seu poder de compra) faz com que se altere as decisões de produção no sentido de serem contratados mais trabalhadores.
E mais contratações de trabalhadores, leva à diminuição da taxa de desemprego e a um aumento do PIB.

Mas é um erro.
O problema é que isto apenas aconteceria se as pessoas não soubessem que a quantidade de notas (e os preços) tinha aumentado. Seria necessário que os trabalhadores se deixassem enganar, reduzindo o seu salário real, para que o desemprego diminuísse e o PIB aumentasse.
É a ilusão monetária.

E se os trabalhadores não se deixarem enganar pela inflação?
Aí, provou o Muth em 1961 com o conceito de expectativas racionais, que o efeito do aumento da quantidade de notas em circulação é apenas um aumento dos preços (existe um crowding out total).
Mantém-se o nível de desemprego e do PIB.
Em particular, Kyndland e Prescott provaram em 1977 que o Banco Central é incapaz de controlar a economia (o desemprego e o PIB) usando variáveis nominais (a taxa de inflação).
Se os salários aumentarem 1%, o desemprego não vai diminuir nem o PIB vai aumentar pelo que, no final, os preços vão aumentar 10% (o aumento da quantidade de notas em circulação).

Os do PS e demais comunas.
Continuam a pensar que o povinho é mais burro do que eles e que, por isso, se a inflação aumentasse, todos os nossos problemas  económico ficariam resolvidos.
Já haveria dinheiro com fartura para essas empresas públicas que dão milhares de milhões de euros de prejuízo por ano e para as autarquias e Madeira gastar à tripa forra em tudo que não presta.
O PIB recomeçava a crescer, o desemprego acabava e voltávamos ao tempo do oásis.
Felizmente que nós não somos tão burros assim pelo que a inflação não resolve nada e só piora a situação.

Penso ter ficado claro
Que a inflação apenas resolveria o problema do nosso desemprego se os portugueses se deixassem enganar ficando com um salário baixo pensando que era alto.
Então, apenas nesse caso seria produtivo o BCE abandonar o seu objectivo de manter a inflação nos 2%/ano.
No próximo poste vou explorar as implicações de o BCE deixar de controlar a inflação (nos 2.0%/ano) e passar a controlar a taxa de crescimento do PIB nos 5.0%/ano.


Pedro Cosme Costa Vieira

5 comentários:

Daniel Tomé disse...

(Peço desculpa pelo flood.)
Inflação baixa pode ser prejudicial para o desenvolvimento económico.
Por exemplo:
Durante os anos 1960 e 1970, a taxa média de inflação no Brasil foi de 42% ao ano. Apesar disso, o Brasil foi uma das economias que mais cresceu no mundo nessas duas décadas - o seu rendimento per capita cresceu a 4,5% ao ano durante este período. Em contraste, entre 1996 e 2005, período em que o Brasil adotou a ortodoxia neoliberal, especialmente em relação à política macroeconómica, a sua taxa de inflação tomou um valor médio muito menor, de 7,1% por ano. Mas durante esse período, o rendimento per capita do Brasil cresceu a apenas 1,3% ao ano.
O Brasil não é caso único:
Durante os seus anos "milagrosos", quando a sua economia estava a crescer a 7% ao ano em termos per capita, a Coreia tinha taxas de inflação perto de 20%-17,4% na década de 1960 e 19,8% na década de 1970 (que são taxas muito maiores do que as verificadas em vários países latino-americanos nesse período).
Kenneth Boulding uma vez disse:
“Economists are like computers. They need to have facts punched into them.”
A verdade é que a inflação não é incompatível com sucesso económico.

Gonçalo disse...

Caro Pedro,

Tanto quanto sei ( que é pouco), a prescrição de Keynes advém exactamente de uma falta de procura por parte das famílias e das empresas. Como tal, o argumento de Hayec não me parece válido, pois quando o dinheiro não circula, não faz muito sentido dizer que ele é retirado de circulação.

Sobre a crítica ao Ricardo Reis, o Pedro acha que as pessoas têm algum tipo de visão sobre o restauro dos centros urbanos? As obras podem não avançar apenas e só porque não há um catalisador.
Se as pessoas forem informadas para os benefícios e acharem que eles valem um aumento no imposto de, digamos, 1% podem aceitar. Se não acharem, preferem o dinheiro às obras.
Mas não é por as obras não terem sido feitas que se pode deduzir que as pessoas não querem. Se calhar querem, se todos contribuírem; se calhar não querem se forem os únicos a fazer ( e a pagar) obras.

O Cagan parece não ter percebido Keynes. O investimento público justificasse numa recessão, não numa expansão.

Sobre a HIPÓTESE das expectativas racionais, apenas posso dizer que não concordo com ela.
Aliás, acho estranho que uma hipótese prove o que quer que seja.
Na verdade, a teoria económica pressupõe aquilo que diz provar.

O Pedro defende que a inflação é um fenómeno puramente monetário, mas falta dizer que o é somente se o aumento de oferta de moeda for mais rápido do que o aumento da oferta de bens. Mesmo que acredite nisso ( ou que tenha a certeza disso), isso não significa que todas as pessoas tenham essa crença ( curiosamente não conheço ninguém que ao saber que vai haver um estímulo fiscal ache que a inflação vai subir).
Na última década emprestaram-nos dinheiro como nunca e nunca tivemos tanto dinheiro mas a inflação não galopou por causa disso.

Magro vai ao ataque disse...

Caro Pedro

Não deveríamos analisar o PIB per capita por hora de trabalho? Assim adimensionalizava ao número de horas que um Português leva a produzir uma coisa em relação a outro Europeu.

É que os lunáticos da CGTP gostam muito de dizer que trabalhamos mais horas do que os Alemães, mas na prática trabalhamos mal.

Se conseguir essa estatística faça um post sobre isso, para acabar com outro mito de que nós trabalhamos mais do que os outros (e o "mais" aqui não pode ser em quantidade, mas sim o produto da quantidade com qualidade). Daí a adimensionalização não só per capita mas também por hora efectiva de trabalho.

Continue com as suas sempre didácticas crónicas!

Um abraço.

Fernando Ferreira disse...

Caro Pedro,
Gostei da generalidade do comentario. So tenho a apontar uma sua contradicao no mesmo.

O Pedro explica muito bem o que e' o crowding-out e, a proposito da observacao desse tal de Ricardo Reis, o Pedro diz que:

"Se as obras não avançam é porque as pessoas não vêm que esse investimento aumente, em termos individuais, o seu bem-estar. Como não existe uma falha de mercado no sentido de Coase, as pessoas ficariam globalmente pior se essa medida avançasse."

Perfeita conclusao.

No entanto, mais a frente o Pedro tambem diz:

"Só deve haver impostos para financiar actividades que esteja provado sem qualquer margem de dúvida que os privados não têm incentivos para as realizar e que sejam imprescindiveis para a sociedade."

E quem determina o que e' "imprescindivel" para a sociedade? Sao os politicos? Quer dizer que se o estado nao financiasse parques publicos, nao haveriam nenhuns parques?

E mesmo que se assim fosse (o que eu nao acredito), nao significaria isso que a razao porque ninguem construiria parque privados seria por nao verem que esse investimento aumente, em termos individuais, o seu bem-estar? Porque se vissem que aumentaria, os parques apareceriam.

Porque razao o laissez-faire resultaria e seria infinitivamente mais eficiente para tantas actividades humanas (tal como o Pedro muito bem reconheceu) e nao resultaria para os parques? A unica diferenca e' que nao existiriam parques "publicos", mas existiriam parques privados, onde as pessoas pagariam uma entrada para usufruirem desse bem. E' simples como isso.

Na realidade, nao existe nenhum bem e servico que os seres humanos procurem que a iniciativa privada nao seja capaz de providenciar, desde que seja economicamente viavel. Se nao for, nao existira e as pessoas tem de suck-it-up. E' este o mundo real.

JS disse...

Proposta idiota: crowd-funding ao nível das autarquias locais. Alguém lança a ideia/necessidade para uma plataforma (pública) e os interessados - privados e públicos - contribuem.
Objectivo: aumentar a transparência, aumentar a justiça/necessidade dos investimentos, dar a qualquer pessoa/entidade a capacidade de intervir.

Não se trata de um orçamento participativo, mas sim um modelo que permite aos interessados "apressar" a execução do investimento.

Eu disse que era uma ideia idiota.

Ou não.

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