sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A aplicação a Portugal das novas condições do resgate grego

O Gasparzinho, eu e muita mais gente pensamos que as novas condições do resgate da Grécia (suspensão das amortizações durante 10 anos e a extensão do prazo para 30 anos)  passavam automaticamente a ser aplicadas a Portugal (e à Irlanda, ver, AF) mas não aconteceu.
Segundo contas minhas, a descida da taxa de juro não teria muito impacto mas a extensão do prazo, pensando que vai tudo continuar como está, teria um impacto muito relevante (equivalente a diminuírem 18% ao valor emprestado).
Um ou dois dias depois, o Gasparzinho tomou consciência que estava errado e veio corrigir a mão dizendo que a simplificação excessiva de assuntos complexos” gerou umaconsiderável confusão no debate público em Portugal” (ver, Público). 


Fig. 1 - Gasparzinho, querias estas condições? (JS, note que as mãos não podem ser da dona das condições!)

Contrariamente ao que pensa o shortzinho (o marques mentes) não foi nenhuma desconsideração pelos portugueses pois até o próprio Gasparzinho ficou confundido.
Eu próprio, ao ver aquele par de condições (mais prazo e menos juros) entrei em confusão (ver o que eu disse para o Dinheiro Vivo).

Mas será isso muito importante?
É e não é porque a aplicação a Portugal das novas condições gregas pode acontecer a qualquer altura, seja esta semana, para a semana, daqui a um, 5 ou 10 anos.
E a extensão do prazo apenas será boa para Portugal se a taxa de juro que vamos conseguir daqui a uns anos no mercado for significativamente superior à taxa de juro do resgate.
De certeza que a Grécia não o vai conseguir nos próximos 10 ou 20 anos razão porque o prazo foi, desde já, dilatado. Mas a Irlanda já consegue crédito a 3 anos abaixo dos 1.70%/ano (fonte: Bloomberg) e a dívida a 10 anos já transacciona desde o princípio de 2012 abaixo dos míticos 7%/ano (ver, Fig. 2).

Fig. 2 - Evolução das taxas de juro irlandesas (yield a 10 anos), dados: BCE

Pode haver um milagre.
Eu acredito na eficiência dos mercados financeiros. Acredito que a taxa de juro de hoje é a melhor previsão para o que vai acontecer no futuro. Há milhões de pessoas que afirmam isso e, por tal, o caminho que a taxa de juro da dívida portuguesa traçou nos últimos meses é um autentico milagre mas que não diz nada sobre o que vai acontecer nos próximos meses.

Fig. 3 - Comparação da evolução da taxa de juro da dívida pública portuguesa (10Y) e a irlandesa (dados_ BCE).

O Gasparzinho sempre disse que o milagre aconteceria.
Mas eu não acreditei (ver, Será que fui derrotado?) e, à posteriori, vê-se que eu estava errado pois a taxa de juro desceu.
O Gasparzinho pode ter contacto directo com a Nossa Senhora de Fátima e pode saber que vamos conseguir, pelo menos para prazos na ordem dos 3 anos, uma taxa de juro inferior a 3.2%/ano e aí não teremos vantagem em extender o prazo do resgate.

Let's chill out.
A Grécia é um exemplo do como os nossos companheiros apoiam os países mesmo em crise extrema. Então, vamos aguardar com calma e não crucificar já o dito cujo pois, se o pior acontecer, alguém olhará por nós.
Vamos dar o benefício da dúvida ao Gasparzinho e à Nossa Senhora de Fátima. 

Fig.4 - Mãezinha, apareceu-me uma senhora a quem dei a minha mesada toda porque ela me disse que era a Nossa Senhora de Fátima e eu dei-lhe o benefício da dúvida. 

So help us God.
Já  nos é cobrada, praticamente, a taxa de juro a que os instrumentos do resgate se conseguem financiar no mercado e, como a taxa de juro sem risco na Zona Euro está com uma tendência de diminuir 0.08pp/mês (ver, Fig. 5).
As condições do resgate ainda vão melhorar um pouco sem ser preciso fazer nada.

fig. 5 - Evolução da taxa de juro sem risco da Zona Euro (média dos 7 países de menor risco, ponderada pela população em 2012, dados. BCE)

Pedro Cosme Costa Vieira

1 comentários:

Gonçalo disse...

Caro Pedro,

O Pedro acredita nos mercados financeiros eficientes. Eu não.

Vamos ver o mercado de sofás: se a procura aumenta, o preço sobe e isso faz aumentar a oferta - há mais fabrico de sofás para igualar o aumento da procura.
É o belo equilíbrio: o mercado é eficiente.

Olhemos agora para o mercado de arte: se a procura de pinturas do Da Vinci aumenta, o preço sobe MAS a oferta não aumenta. Afinal, não é por a procura aumentar que vão aparecer mais quadros de um pintor que já faleceu. Neste mercado, a procura aumenta precisamente porque a oferta não acompanha a procura. E aumenta também, quanto mais caro é o quadro.

Mas o mercado de arte, apesar de envolver milhões de euros, é considerado negligenciável. O mercado de bens é que representa a economia, e ele é eficiente.

Olhemos para o mercado de capitais:
Quando o valor das acções da PT aumenta, por aumento da procura, isso não significa que a PT vá emitir novas acções que leve a um novo equilíbrio oferta/procura. Também neste mercado, a oferta não acompanha a procura. A procura é estimulada pela escassez da oferta.

Para a teoria económica, os preços dos activos estão sempre correctos, e a sua variação só pode ser resultado de um choque externo e por isso totalmente aleatório.

No entanto, a variação do preço dos activos pode ser resultado de choques internos.

Logo para começar, no mercado de capitais não há um preço, há dois: o de compra e o de venda. É nesta diferença que os correctores e cambistas ganham o seu lucro.
Da mesma forma, o lucro dos bancos vem da diferença da taxa a que emprestam e da taxa a que pedem emprestado.

Para diminuir o risco de perda, os bancos concedem crédito colaterizado - exigem activos como garantias para o caso dos incumprimentos. Na prática, um banco pode emprestar $ ao Joe Berardo para ele comprar acções ficando essas acções como garantia.
Como o valor é o mesmo no momento da compra das acções, elas cobrem na totalidade o empréstimo.
Para juntar mais lenha, os activos são contabilizados a preço de mercado - afinal, como afirma a teoria económica, os preços de mercado estão sempre correctos.

O que acontece se as acções do Joe subírem? O seu empréstimo fica sobrecolaterizado e o banco fica mais disposto a emprestar ao Joe, que por sua vez pode comprar mais acções cujo preço sobe e que aumenta ainda mais a sobrecolaterização.
Gera-se um ciclo de realimentação positiva.
E isto só para o Joe, pois o mesmo acontece para todos os detentores das acções. A valorização de 1 cêntimo em milhares de milhões de acções, significa um efeito de sobrecolaterização de milhões em todo o sistema bancário, que aumentará o crédito que será parcialmente usado em mais compra de activos.

No mercado de bens, preços mais altos diminuem a procura. Nos mercados financeiros, preços mais altos aumentam a procura.

Nos mercados de bens, compra-se para se consumir. Nos mercados financeiros, compra-se para vender mais caro.

O mercado de bens é estável e tende para o equilíbrio. O mercado financeiro é instável e forma por isso bolhas.

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