quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O multiplicador da despesa pública no PIB

O multiplicador da despesa pública.
Na elaboração do quadro macroeconómico do Orçamento de Estado para 2013, o Gasparzinho usou 0.5 como multiplicador da despesa pública no PIB.
Este número diz que o PIB reduz meio euro por cada euro de diminuição da despesa pública. De forma simétrica, se a despesa pública aumentasse em 1.00€ (como aconteceu no tempo do Sócrates), o PIB aumentaria em 0.50€.

Será que o Gasparzinho se enganou?
O FMI veio dizer que o multiplicador da despesa no PIB está entre 0.9 e 1.7 mas não disse que era em Portugal. Genericamente.
Ora o 0.50 do Gasparzinho não está no intervalo do FMI.
Os comunas/socialistas/bloquistas defendem que o FMI não percebe nada sobre a realidade portuguesa pelo que as suas conclusões descartada. Mas agora, como lhes interessava, adoptaram este resultado como bom e usaram-no para atacar o Gasparzinho.
Baseados também no Baptista da Silva, não pediram que "alguém faça a conta do multiplicador português que é fácil" mas atacaram logo à força toda o coitadinho do meu primo Gasparzinho (dizem que passaríamos facilmente por irmãos).

Fig. 1 - É o principio do multiplicador português: entra uma salsicha e saiem nove porquinhos.

Qual é o interesse do multiplicador?
Ao longo do tempo a economia tem períodos bons (os períodos de "vacas gordas") e períodos maus (os períodos de "vacas magras"), são os ciclos económicos.
Se o multiplicador da despesa for elevado, o Governo pode controlar a economia variando a despesa pública. É esta a filosofia por detrás das politicas de estabilização macroeconómicas keynesianas: o governo expande a despesa nos períodos maus e contrai-a nos períodos bons.
Supondo um multiplicador de 1.3 (o valor médio do intervalo indicado pelo FMI), estando previsto que em 2012 o PIB se vai contrair 2% (3400M€), o governo poderia anular a actual crise aumentando a despesa pública em 2600M€ (aumentando o défice de 6.1% de 2012 para  7.6% do PIB).

O círculo vicioso.
Se este multiplicador for elevado, a consolidação orçamental em período de "vacas magras" terá um efeito muito negativo na economia o que é apelidada pelos comunas (onde se inclui o Cavaco Silva) de "circulo vicioso".
Vamos supor que o multiplicador é o tal 1.3. Então, a consolidação orçamental de 1% do PIB (1700M€) feita pela redução da despesa implicará uma contracção directa do PIB de 2200M€.
Mas, reduzindo o PIB em 2200M€, a receita fiscal reduzirá 880M€ (40% da variação do PIB) o que obrigará a um corte adicional de 880M€. Então,  haverá necessidade de uma nova contracção do PIB e por aí fora.
Somando efeito directo com todos os efeitos subsequentes, a consolidação de 1% do PIB (1700M€) obriga a cortar na despesa 3500M€ o que terá um efeito recessivo de 4600M€, 2.7% no PIB.

O efeito multiplicador da consolidação orçamental no PIB será de 2.7
Sob o pressuposto de que o multiplicador da despesa pública no PIB é de 1.3 então, cada 1% de consolidação orçamental terá um efeito recessivo de 2.7% no PIB.
Como o Governo orçamentou para 2013 uma consolidação de 2.6% do PIB (dos actuais 6.1% para 4.5%), o efeito multiplicar induzirá o PIB a contrair 7.0%.

Mas quanto será realmente o multiplicador?
Eu fiquei estas semanas todas a ver se alguém calculava o multiplicador para Portugal.
Tantos analistas, comentadores, colunistas, especialistas, sábios, ex-ministros das finanças, ex-presidentes da república, professores catedráticos, sapateiros, ex-burlões, burlões e chantagistas e ninguém se deu ao trabalho de estimar qual o valor do multiplicador português da despesa no PIB.

Nem os meus detractores.
Eu, volta e meia, afixo no placard em frente ao meu gabinete ( que tem apenas publicidade) um pequeno anúncio do meu blog. Pequenino, do tamanho de um cartão.

economicofinanceiro.blogspot.com
Trata, com todo o rigor possível, todos os temas da economia e das finanças públicas. E não só.

Contém linguagem muito forte
Não aconselhável às pessoas mais sensíveis
Fig. 2 - O cartão que costumo afixar num discreto placard e que desaparece.

Mas o cartãozinho não aguenta lá tempo nenhum pois passa sempre um dos meus concorrentes pela atenção pública (i.e., colegas) que estão sempre atentos ao que faço e que o arranca. É a censura.
Pensei eu que essas pessoas, por estarem atentas e serem grandes sábios, iriam aparecer rapidamente com o valor do multiplicador português estimado de forma rigorosa (de que, dizem, eu não sou capaz).
Mas nada.

Lá terei que ser eu a calculá-lo.
Peguei nos dados do Banco de Portugal sobre a despesa pública anual nominal que está disponível para o período 1977-2011.
Peguei nos dados do Banco Mundial sobre o PIB a preços constantes e a preços nominais para calcular o "deflactor do PIB".
Calculei a variação do PIB (em euros) do PIB real (a preços constantes).
Com o "deflactor do PIB" calculei a despesa pública e, depois, a sua variação real (em euros).
Finalmente, regredi a variação do PIB real com a variação da despesa real retirando a tendência de  crescimento do PIB.

Variação do PIB = A x PIB + B x Variação da despesa pública + desvio

O parâmetro A (estimado como 1.23%/ano de crescimento médio) controla a tendência (todos os outros factores de crescimento) de forma a que o estimador do multiplicador, o parâmetro B, seja cêntrico.
Avancei para a estimação (pelo método dos mínimos quadrados). Se considerarmos todos os 35 anos (1977-2011), a estimativa para o multiplicador é de 0.48 (ver, na fig. 3 a linha a violeta). Se excluirmos 2009, o multiplicador fica um pouco maior, é de 0.79 (ver, na fig. 3 a linha a vermelho).

Fig. 3 - Impacto da variação da despesa pública na variação do PIB, Portugal (dados: BP e BM, grafismo e estimativa do autor)

Apesar de tudo, o Gasparzinho acertou no número.
Os dados referentes a Portugal indicam que o multiplicador da despesa no PIB é de 0.48.
Este valor está muito próximo do valor adoptado pelo Gasparzinho (0.50) e muito abaixo do intervalo avançado pelo FMI (entre 0.9 e 1.7).
Penso que o Gasparzinho fez exactamente a mesma conta que eu.

Lá se foi o círculo vicioso.
Vamos agora usar o multiplicador de 0.48 e ver o efeito recessivo da consolidação orçamental.
Uma consolidação orçamental de 1% do PIB (1700M€) levará uma contracção directa do PIB de 816M€ e uma  contracção da receita fiscal em 326M€ (40% do aumento do PIB).
Somando ao efeito directo todos os efeitos indirectos, agora a consolidação de 1% do PIB obriga a cortar na despesa 2100M€ (1.2% do PIB) e terá um efeito recessivo de 1010M€ (0.6% do PIB).
O impacto no PIB será apenas metade do corte na despesa, quebrando-se a eventualidade de existência do ciclo vicioso.

A consolidação de 2013
Para uma consolidação de 2.6% do PIB, o efeito multiplicador da despesa induzirá o PIB a contrair apenas 1.5%.
Este número tem sido avançado como provável para a contracção de 2013 (mais precisamente, uma contracção entre 1.0% e 2.0%)

E se excluirmos 2009?
O efeito recessivo da consolidação orçamental aumentará para 3.0%, menos de metade do previsto pelos anunciadores do ciclo vicioso.
Mesmo neste caso mais desfavorável, a contracção será da ordem de grandeza do que aconteceu em 2009, no tempo do Sócrates (-2.91%), altura em que a despesa pública aumentou 6800M€.

É extraordinário
O Passos Coelho conseguir num ano em que corta 2700M€ na despesa pública conseguir um resultado económico melhor que  o Sócrates conseguiu num ano em que aumentou a despesa pública em 6800M€.
E disse no Parlamento o meu colega Teixeira dos Santos que o Sócrates (e ele) é que tinha rumo e era um génio da governação.
Um génio do mal.
Mas o PIB tem apenas a ver com a produção.
De facto, o PIB tem a ver com o que se produz e não com o que se gasta.

    Produção = Função(Trabalho; Capital)
Com trabalhadores e capital, produzem-se todos os bens da economia que depois vão ser consumidos ou poupados (e usados em novos investimentos).
Assim, há por uma lado, a produção e, por outro lado, a despesa.
    Despesa = Consumo + Poupança
Finalmente, estas grandezas são iguais:

        Despesa = Produção

Quer a produção quer a despesa tem uma parte privada e uma parte pública.

         Produção =  Empresas públicas + Empresas privadas 
         Consumo = C_Privado + C_Público
         Investimento = I_Privado + I_Público

Diminuir o consumo não prejudica a produção.
Como existe especialização na economia, quando há uma diminuição do consumo, as famílias poupam e transferem esses recursos para os empreendedores poderem investir.
Desta forma, o capital aumento o que faz crescer a economia.

         Investimento = Poupança
         Capital (t+1) = Capital(t) - depreciação + Investimento

Porque os recursos poupados vão ser entregues aos empreendedores que os investem, a procura agregada é independente de haver mais consumo (e menos poupança) ou menos consumo (e mais poupança). Isto porque havendo menos consumo, haverá obrigatoriamente mais poupança, mais investimento e mais crescimento económico.

No entanto, a despesa tem impacto na produção.
Pois mas não é por diminuir.
O problema é que a diminuição do consumo leva ao investimento apenas se os bens de consumo se pudessem transformar instantaneamente e sem custos em bens de investimentos.
Mas não e isto é um problema microeconómico.
Uma pessoa deixar de tomar o pequeno almoço no café da esquina não faz com que esse pequeno almoço se transforme em investimento.
É preciso fechar o café, pegar nos recursos (establecimento e trabalhadores) e reconverte-los na produção de bens de capital.
Este processo tem custos e gera, no curto prazo, desemprego e diminuição da produção.
Mas a médio prazo, a economia re-estrutura-se e volta a crescer produzindo nessa altura um conjunto diferente de bens e serviços (mais bens de investimento e menos bens de consumo).

Agora é só aguentar a onda pois as coisas estão a correr bem.
Se aplicarmos o multiplicador de 1.3 dos comunistas, a consolidação de 10.2% de 2009 para os 6.1% de 2012 teria levado a uma contracção do PIB de 11.1%.
Eu, nos finais de 2011, estimei que o multiplicador (do défice corrente) seria nesta ordem de grandeza pelo que, quando estive na Antena 1, previ que o ajustamento de 10% de défice corrente iria causar uma contracção do PIB superior a 20%.
Sim porque a correcção do défice corrente é mais importante que a correcção do défice público.
Mas não. Até hoje, o PIB contraiu menos de metade desse valor o que está de acordo com um multiplicador da despesa do Gasparzinho de 0.50 e muito distante do que eu antecipei e que os comunas continuam a martelar (os 1.3).
É sabido que o aumento de IRS para 2013 implicará uma redução do rendimento dos trabalhadores (com ordenados mais elevados) na ordem dos 6.5% e ainda maior nos reformados. Mas vamos ter que aguentar da melhor forma possível pois a alternativa é sonhar, como as misses, de que haverá alguém que acabe com a fome e as guerras no Mundo.
Existem muitos homens que o prometem mas nenhum lhe poderá dar cumprimento.

Fig. 4 - O IRS tirou-me as gordurinhas todas mas o meu corpo ainda aguenta com a onda.

A evolução das taxas de juro indicam que o Passos no leva no bom caminho.
O Estado já se consegue financiar (a 18 meses, 1.96%/ano) a taxas de juro muito inferiores às taxas do III resgate grego (3.1%/ano). Assim, confirmou-se a minha previsão de que Portugal, provavelmente, não precisava das condições consideradas no III resgate grego.
Será que agora o Seguro vem dizer que a sua exigência para que esse pacote fosse extendido a Portugal estava errada?
Não me acredito que seja homem para isso.

Finalmente, a legitimidade do Governo.
Na altura da campanha, o Sócrates esteve sistematicamente à frente do Coelho.
Eu, na altura, defendi que o Coelho teria que mentir, tal qual fazia o Sócrates, e prometer coisas impossíveis de dar cumprimento (não me lembro em que post).
O Coelho assim o fez (de forma tímida) e ganhou.
Ainda bem que assim o fez pois muito do nosso povo acredita em salvadores e o Sócrates+Teixeira dos Santos eram terrivelmente maus.

Será uma "burla eleitoral" prometer uma coisa e fazer outra?
Não porque as eleições não são sobre um programa eleitoral (não diz nada disso na Constituição) mas em partidos que elegem deputados que dão apoio a um governo.
A Constituição Portuguesa é pública podendo ser lida por qualquer um e todos sabemos os poderes que a CP dá ao governo e aos deputados.
O votante quando vai lá já sabe as regras do jogo e vir defender outra coisa é pura demagogia.

A democracia das sondagens.
Portugal não é  uma "democracia da sondagem" e dos comentadores em que cada potencial decisão do governo é anunciada nos orgãos de comunicação social, há debate televisivo e criticas dos comentadores televisivos e é feita uma votação no google docs.
Não somos nada disso e enquanto não mudarmos de regime político, os deputados são eleitos em listas de partidos, a maioria dá apoio a um governo para fazer o que souber.

Será que em 2005 e 2009 alguém deu mandato ao PS para levar Portugal à bancarrota?
Não me parece.
Como dizem os da Opus Dei, o Passos tem que se esforçar o máximo que for capaz para que tudo se resolva pela melhor. Se assim o fizer, mesmo que erre aqui ou alí, Deus há-de-lhe perdoar.

Sobre o Sérgio Pedro ter dito que o poupar é uma questão cultural, recordo um post que escrevi em Fev 2011 (Serão os 7% uma característica nossa?).
Agradeço ao Pedro Renne o extenso comentário e a sugestão de pedir contributos monetários. Ainda não acho que o mereça.

Nota posterior (17 janeiro)
O meu amigo Paulo S. enviou-me o que diz o relatório da 5ª avaliação da troika, p. 13:

«How strong will the drag from fiscal adjustment be on growth?
Previously, staff used a fiscal multiplier of 0.5, drawn from previous Portugal-specific empirical studies. But recent experience, both within Portugal and elsewhere, suggests the need for caution in this regard—indeed Portugal’s output has been broadly in line with projections but the degree of fiscal adjustment has been lower, suggesting the possibility of a higher multiplier. Staff and the
authorities therefore agreed to use a higher multiplier for the incremental fiscal adjustment being undertaken in 2013, raising the average multiplier to 0.8


Os especialitas optaram por retirar 2009 da equação.
Pedro Cosme Costa Vieira

11 comentários:

Sergio Pedro disse...

Ora está a ver o Prof. até me deu razão no final. Nos não deixamos de poupar só porque temos S.S. mas antes o contrário é exactamente porque não gostamos de poupar que acabamos por ter, preferir ou achar bem uma S.S. mais pesada! Quando apareceu a vacina do HPV nos Estados Unidos vieram os grupos Religiosos dizer que a vacina não devia ser usada pois iria aumentar a depravação sexual e sexo pré-marital. E olhe eles até tem alguma razão nisso só que estão enganados em 2 coisas importantes.

1- A doença é apenas um deterrente ( e muito fraco) que não aumenta nem diminui a vontade (bem grande) de fazer o que a natureza nos diz.

2- A repressão sexual é muito mais eficaz em promover comportamentos sexualmente "perversos"

é o meu ponto que tal como no caso da pornografia ou até a polémica da violencia nos videojogos, não são a causa ou de desejo sexual nem de violencia embora estejam relacionados directamente! É o inverso! É porque temos desejo sexual(alguns tem...)e uma natureza com raizes em alguma violencia que esses produtos existem. A Mesma situação com as armas e drogas etc... Ora o prof. disse (ou eu percebi)exactamente o contrário no penultimo post, quando pos a culpa do nosso comportamento relaxado na existencia da S.S.! Pedro eu não sou ninguem para lhe chamar a atenção mas eu venho aqui para aprender e acho que tenho conseguido isso, mas esse paragrafo fica-lhe mal! Um Grande Abraço e não pare!

vazelios disse...

Excelente artigo Professor, obrigado.

Só queria comentar um parágrafo seu (pois de resto nem tenho argumentos técnicos para o fazer) sobre a legitimidade do governo.

É o que tenho dito de PPC desde que ganhou: Mentiu em alguns pontos, omitiu outros, e ainda bem!

Poucos são os povos que se podem gabar de ter politicos sérios e que digam a verdade, e ainda menos são os povos que não votam nos que lhes prometem o melhor possível, sendo exequível ou não.

PPC tinha de mentir para efectuar uma mudança neste país. Ainda que, na minha opinião, peca bastante por defeito na diminuição da despesa. 4MM não são sequer metade do que é necessário cortar. Talvez 1/4 do necessário, mas enfim. Mas muita coisa já foi feita.

A única certeza que tenho é que com a esquerdalha toda não chegávamos lá. E daí não sei, porque a margem é tão pouca que nem mesmo Alberto João Jardim (não é de esquerda, mas é um politico bastante criativo) conseguia inventar qualquer coisa na actual conjuntura.

Veja-se a vitória de Sócrates em 2009, a prometer mil e um sonhos, dos quais 150.000 postos de trabalho e veja-se mais recentemente a vitória de Holande (ainda que contra um louco) em que as suas bandeiras eleitorais - contratação de FP's, aumento do ordenado minimo e diminuição da idade da reforma - não só são utópicas e quase masoquistas de se concretizar neste momento em França, como já lhe anda a sair o tiro pela culatra em muitos quadrantes da economia Francesa (e.g. Ricos, despedimentos na Renault, etc).

Abraço e continue o bom trabalho

Diogo disse...

Pedro Cosme: «Será uma "burla eleitoral" prometer uma coisa e fazer outra? Não porque as eleições não são sobre um programa eleitoral (não diz nada disso na Constituição) mas em partidos que elegem deputados que dão apoio a um governo. »


Diogo: Que raciocínio extraordinário! Mas então em que votam os portugueses? Num partido cujos dirigentes prometem uma coisa e que elege deputados que dão apoio a um governo que faz outra?

Bravíssimo, caro Cosme! Esta foi de se lhe tirar o chapéu.

Pedro Renner disse...

Caro professor Cosme Vieira,

Eu com certeza não me expressei no modo mais correcto relativamente à questão das ofertas monetárias: a minha asserção estava mais vinculada com a opção de "aceitar donativos", e não no sentido de "pedir contributos", muito dentro da lógica "Tem-lhe sido útil os conhecimentos adquiridos neste espaço? Eles estão todos sintetizados no meu livro 'Acabou-se a Festa'. Mas se já se sente como a cabra da minha vizinha e não aguenta mais comer papel, pode sempre contribuir com o que achar conveniente para nosso NIB nº XXX, ou na nossa conta PayPal nº YYY. Agradecemos a preferência!" Sacou?

Mas entendo que esta implementação necessite de uma prévia análise de sua parte. Eu não estava a julgar a parte do merecimento, mas sim, da retribuição. Cada vez que vejo cá um "post" seu, passo pela capa do livro e penso comigo "Caralho! Tenho que comprar este livro ao gajo!". E já lá se foi um ano nisso. Aquela solução facilitar-me-ia nisso.

Por último, vai junto em anexo um cadinho de azeite no obséquio de proceder a alguma intervenção, junto do seu proposto governo de salvação nacional, no primeiro "post" do ano, no sentido de integrar, na pasta do que é agora a Secretaria de Cultura, aquela sumidade literária, Sua Excelência Reverendíssima o senhor doutor Vasco Graça Moura. Sim, com ele, em breve, estaremos todos a falar novamente o Latim: venare, lavare, ludere, ridere - hoc est vivere.

Die Gedanken sind frei.

Meus cumprimentos por seu trabalho.

vazelios disse...

Professor não existe nenhum estudo/curva/lei que relacione a queda do rendimento das familias com a queda do consumo?

Passo a dar um exemplo para me tentar explicar:

Se uma pessoa tem um rendimento de 1000u.m em que gasta da seguinte maneira: Renda 500; Supermercado 200; Contas 100; Outros gastos 200. Partimos do pressuposto que todo o seu rendimento no ano n é para consumo.

Em n+1, ao perder 10% do seu rendimento, passando para 900u.m, o consumo deste cai também 10%, cortando 50u.m. em "outros gastos" e 50u.m no supermercado. Decide no entanto poupar 50u.m. - Antes destinados outros gastos - porque as sua previsões para o futuro não são boas (caindo então o seu consumo em 15% - consumindo agora 850u.m).

No ano seguinte, em n+2, perde mais 11%, perdendo mais 99u.m (vou fazer 100 para facilitar) para 800u.m.

Neste caso, decide deixar de poupar os 50u.m. que poupava no ano anterior, e cortou mais 50u.m. em outros gastos.

Neste caso, o consumo caiu de 850u.m. para 800u.m., porque metade do seu "corte" em n+2 teve efeito na diminuição (ou total ausência) da poupança. Aqui, o consumo caiu cerca de 5,8%.

Bottom line: Aqui (no exemplo) o governo foi cortando, mas a pessoa adaptou-se da maneira que quis. Em n+2 decidiu deixar de poupar para evitar cortar mais em supermercado, porque já está no limite do seu conforto.

Na vida real não se poderá passar o mesmo? O consumo tende a cair, mas não poderá cair cada vez menos? É o que se está a passar com a produção industrial ou actividade economica por exemplo. Está a cair, mas não cai tão acentuadamente (porque já caiu muito).

Não protejo o governo com este meu pensamento, mas não pensarão eles que os Portugueses estão a cortar em "gastos supérfulos" (diminuindo importações por exemplo), apesar de tudo estão a poupar mais (como já vimos em dados anteriores) e que se cortarem mais um bocado nos rendimentos, o consumo decresce, mas cada vez menos? Tem a ver com o tal multiplicador da despesa também? Em que este vai diminuindo com o passar dos anos?

Não digo que aconteça em 2013, mas quando os profetas da desgraça e admiradores do actual estado de coisas dizem que o consumo vai cair no precipicio, eu penso que se já caiu tanto, há de haver uma altura em que deixe de cair tão acentuadamente.

Se pudesse debruçar-se sobre este assunto agradecia.

Espero não ter sido muito confuso.

Cumprimentos

Económico-Financeiro disse...

Estimado vazelios,

O consumo é função de muitas variáveis sendo as mais importantes:
1 - o rendimento do período: +
2 - a riqueza: +
3 - a taxa de juro: -
4 - as expectativa quanto ao rendimento futuro: +

Na actual situação portuguesa o consumo contrai porque o rendimento, a riqueza (a desvalorização das casas e da bolsa), as expectativa quanto ao rendimento futuro diminuiram e a taxa de juro aumentou.

Mas era necessário diminuir o nível e consumo porque o de 2010 apenas era possível porque Portugal se endividava continuamente no exterior (medido pela Balança corrente). Apesar de a austeridade ter um efeito recessivo, mais ninguém nos vendia a crédito pelo que não existia alternativa.

pc

vazelios disse...

Professor obrigado pela sua resposta, mas não me respondeu à minha dúvida.

Eu sei que o nosso rendimento estava alavancado em divida. O nosso de familias, estado e empresas.

E sei perfeitamente que não existia alternativa. Temos é de mudar de rumo rapidamente e voltar a crescer a MLP sustentávelmente.

A minha questão é se a diminuição dessas 3 componentes vai afectar exponencialmente a queda do consumo, ou pelo contrário, essa queda vai sendo menor.

Exemplos:

- Fecharam muitas empresas de construção, e vão continuar a fechar ãs que forem menos competitivas porque o mercado não tem procura para tanta oferta. Sobrarão as mais competitivas (Nem que seja uma, no extremo). Num determinado ano no futuro, a meu ver (que sou leigo nesta matéria), o fecho de empresas de contrução vai ser cada vez menor. Se em 2010 fecharam 50mil, em 2011 se calhar fecham só 20mil, em 2012 10mil, em 2013 5mil, por aí fora, até que o mercado se ajuste na procura-oferta. O mesmo se passa com os restaurantes. Existe mercado, os melhores andam a abarrotar. Os menos bons é que fecham, porque lá está, as pessoas deixaram de ter tanto dinheiro. As que ainda têm dinheiro vão aos melhores. No futuro, nem que sobrem 100 restaurantes em Lisboa, há de haver pessoas para esses 100 restaurantes. Quando o mercado atingir esse nível, o fecho de restaurantes pára. No fundo, estes 2 mercados tornam-se mais "Eficientes".

- A queda do consumo dos combustíveis. Obviamente que está em quebra. Mas há de haver um momento, em que a quebra poderá descer, mas a um ritmo mais baixo, quando todos nós já estivermos a gastar o minimo indispensável para ir para o trabalho, dividindo boleias, fazendo percursos mais pequenos, guiando mais devagar, etc. No inicio, estando o mercado claramente em alta (pré 2008), claro que quando perdemos dinheiro a queda é grande nos primeiros anos. Até que, num determinado ano, atinge-se o ponto de equilibrio de oferta/procura. Nesse ano, a queda das venda de combustiveis será menor ou terá mesmo estagnado.

Muitos outros exemplos, como a actividade economica, que tem vindo a descer, mas a um ritmo menor.

A minha pergunta é referente ao consumo privado. As pessoas estão a perder rendimento e irão perder ainda mais. O mercado ainda não atingiu a sua situação de equilibrio. Mas os primeiros anos (2011, 2012, 2013) serão de quedas superiores aos restantes, porque já se ajustou um pouco. Numa situação de extremo, nem que o governo nos taxe a todos 60%, sempre sobram alguns ricos para consumir qualquer coisa, e nós estamos no limiar da fome, situação que não poderá descer mais.

Não acredito que o consumo privado tenha atingido minimos, mas acredito que a sua queda vá ser de um ritmo inferior ao registado em 2012.

Daí que, este novo OE com os aumentos de impostos, dos quais eu discordo (devia-se atacar a despesa em muito mais que 4MMilhões, mas como cortar na despesa é inconstitucional...), pode trazer quebra de impostos e quebra de consumo privado, mas quem sabe uma queda inferior ao projectado, porque ambos os mercados estão mais próximos do ponto de equilibrio, do que no estalar da crise.

Em 2013 até pode ainda acelerar o ritmo de queda, não sei quão perto estamos do ponto de equilibrio, mas há de haver um ano em que abrande, ou não?

Não sei se existe alguma teoria sobre isto mas é só a minha cabeça a pensar.

Se calhar isto que eu disse nem faz sentido nenhum. Se assim for, diga de sua justiça :)

Obrigado

Económico-Financeiro disse...

Então, vazelios.

Pensando como Darwin, nós estamos vivos porque o comportamento da nossa espécie evoluiu ao longo de milhares de anos de forma a conseguir ultrapassar as repetidas crises económicas.

Quando há uma crise, as pessoas tendem a trabalhar mais, a consumir menos e a aumentar os stocks.
Quanto mais grave é a crise, mais violenta é a reacção das pessoas.
Então, observando as pessoas que a crise está a amainar (que se traduz pela diminuição das taxas de juros), a queda no consumo será menor.
A nossa mente contém gravados os mecanismos de estabilização pelo que, com o aproximar do equilíbrio, as quedas tendem a ser cada vez menores.
As situações de pânico, apesar de poderem acontecer, são pontuais e limitadas no tempo.

Quanto às falências, os números de agora não são comparáveis com as do passado porque foi criado o sistema da "empresa numa hora".

pc

luís disse...

Caro professor Cosme Vieira,


Gostei muito do que escreveu, porém gostava de ter uma descrição mais detalhada sobre a metodologia que usou para calcular o multiplicador da despesa.

Venho, portanto, solicitar, se for possível, que disponibilize o ficheiro de excel ou uma descrição mais detalhada da metodologia.

Económico-Financeiro disse...

Luís,
Foi uma coisa muito simples mas resultaram as mesmas estimativas que as apresentadas pelos grandes economistas o que indica que toda a gente faz previsões no joelho.
1) Peguei no dados do banco de Portugal para a despesa pública e calculei a variação anual em euros que transformei em preços constantes.
2) Peguei no PIB do Banco Mundial em euros e Calculei a variação anual.
3) regredi um contra o outro com e sem o ano 2009.
Tudo simples.
Um abraço,
pc







JR1029 disse...

Boa noite. Estou actualmente a fazer um trabalho sobre este tema. Contudo estou com algumas dificuldades em obter resultados sobre os multiplicadores.
Será que o professor me pode indicar o método para evidenciar os efeitos multiplicadores em Portugal? Tentei seguir as suas explicações, porém obtive uns resultados estranhos.
Cumrpimentos

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