sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Portugal saiu da situação de emergência e entrou nos Cuidados Intensivos

Desde 2002 que Portugal se mostrava doente.
Tinha o desemprego, o endividamento externo, o défice público, a despesa pública, o défice das empresas públicas, as falências e a dívida pública muito elevados e sempre a crescer.
A doença foi-se agudizando até que, em princípios de 2011, Portugal entrou em situação de emergência: a capacidade de captar financiamento do Estado e dos privados (via, Bancos e grandes empresas) esgotou-se.

Portugal entrou em "paragem cardio-respiratória"
Sem financiamento externo e sem poupança interna, a economia ameaçava entrar rapidamente em colapso e a bancarrota do Estado estava eminente o que forçou o Teixeira dos Santos a pedir ajuda aos nossos parceiros (do FMI, BCE e UE) e obrigou o Sócrates a demitir-se.


O que o Sócrates precisava era de muito dinheiro e rápido.
O Sócrates assinou o Memorando de Entendimento com a Troika. Mas desde que foram derrotados, os do PS têm vindo a negar apoio à implementação de medidas que estão escritas desde a primeira hora nesse memorando.
Vejamos, por exemplo, a proposta do Governo de diminuir as indemnizações por despedimento para 12 dias/ano. O Memorando de Entendimento assinado pelos do PS diz exactamente:

4.1. Severance payments.
    iii.By Q1-2012, the Government will prepare a proposal aiming at:
    - aligning the level of severance payments to that prevailing on average in the EU;   

     On the basis of this proposal, draft legislation will be submitted to Parliament no later than Q3-2012.

Está mesmo lá escrito, no Memorando inicial, o assinado pelo Sócrates.
Como na UE a indemnização está à volta dos 12 dias/ano (depende dos anos de trabalho), o PS só poderiam estar descontentes por o Sócrates ter assinado o Memorando sem ler.
A proposta tinha que ser apresentada no primeiro trimestre de 2012 (e veio apenas no quarto) e já deveria estar implementado. O Sócrates assinou isto e, como a sua especialidade era "Inglês Técnico", sabia bem o que estava a assinava
Estão a perceber o tipo de pessoa que nos governavam. Eram (tóxico)dependentes de endividamento, capazes de dizer e assinar fosse o que fosse para caçar mais uns cobres sabendo que nunca iriam cumprir nada.

O Seguro não é demagógico.
Aceitando (em tese) que o Seguro não é demagógico, apenas se compreende tal comportamento porque era tanto o desespero dos "negociadores" do PS que  nem se deram ao trabalho de ler o que estava escrito no Memorando de Entendimento.
Assinaram de cruz.
E, desde então, o Seguro tem estado tão distraído com a crise do Sporting que ainda não arranjou um tempinho para ler o memorando.

E o colossal aumento dos impostos?
O Seguro dizer "o PS votou contra o OE2013 porque discorda totalmente com a subida colossal dos impostos e os cortes dos salários e das pensões" depois vir dizer, com cara de pasmado, de que "se eu for governo não desço os impostos", é de uma pessoa séria.
Demagógico seria o Seguro dizer que "mal chegue ao governo anulo a colossal subida de impostos do OE2013 e reponho imediatamente os subsídios de ferias e Natal aos funcionários públicos e pensionistas porque o PS votou contra essas medidas".

- Não está lá escrito nada disso. O camarada Sócrates nunca assinaria isso. Isso é ser mais troikista que a troika.

O Seguro é um mau estratega político.
Por palavras simples, é burro como um tamanco.
As pessoas que condicionam o seu comportamento ao querer agradar a toda a gente, acabam por se tornar inconsistentes.
Cada um de nós tem que seguir o seu caminho. Devemos apresentar a nossa visão sobre o mundo e, se alguém não gostar, paciência. Não podemos agradar a toda a gente, felizmente.
Se o nosso caminho for sério, havemos de encontrar alguém, nas mais de 7000 milhões de pessoas que há no mundo, que no compreenda e apoie. Se procuramos a fachada de agradar a toda a gente, seremos grelhados em fogo brando.
O Seguro está a ser toureado. Pensando que o povo o está a aplaudir, de facto está a aplaudir o toureiro. Mais cedo que tarde, vão as orelhas para o Costa, o rabo para outro, as patas para ainda outro qualquer e  a carne está no assador.

Nos últimos meses, Portugal mexeu os olhos e já saiu do estado de coma.
Está como o Hugo Chaves que continua tecnicamente vivo mas há semanas que ninguém credível o viu  vivo. Se está assim vivinho como a sardinha, era de chamar os jornalistas para repetir em alta voz:

  - Bush, you are a dunky, dunky, dunky. Americans you are dunkies, fuck you"

Mais valia embalsamarem-no, electrificarem-no com um i-phonix e continuar com a cassete de sempre.
Afinal, o que é estar vivo?

Jesus continua vivo no meio de nós depois de, na sexta-feira de Páscoa de 0034, ter sido dado como morto!

3 Outubro 2012 - A extensão de 3.76M€ em 3 anos a 5.11%/ano (uma parte da dívida feita pelo Guterres contraída há 15 anos a 5.75%/ano) correspondeu ao paciente abrir os olhos (fonte)

21 de Novembro 2012 - A emissão de  1200M€ a 18 meses à taxa de 2.99%/ano correspondeu ao paciente ter-se virado sozinho na cama (fonte).

16 Janeiro 2013 - A emissão de 1000M€ a 18 meses à taxa de 1.96%/ano correspondeu ao paciente dizer "o Pinto da Costa é o meu pai" (fonte).

23 Janeiro 2013 - A emissão de 2500M€ a 5 anos a uma taxa de 4.891%/ano correspondeu ao paciente perguntar "diga-me sr. doutor, o meu Sporting, agora que é treinado pelo Domingos Paciência, quantos pontos tem de avanço sobre o Porto?" (fonte)

Acabou a situação de emergência.
Já não existe o risco de amanhã de manhã não haver dinheiro nas caixas multibanco.
Acabou o risco de dia 25 os salários da função pública e as pensões não serem pagos.
Mas a situação mantém-se muito grave.
A pressão arterial deixou de diminuir porque se fez um garrote em ambas as pernas (o corte nas importações e no consumo), a acidez do sangue começou a estabilizar porque se usa respiração forçada (o apoio do BCE e da Troika) mas se não se pode continuar a viver assim porque as pernas vão gangrenar e os pulmões infectar (a economia vai continuar estagnada).
As doenças que tornaram o desemprego crescente desde 2002 têm que ser resolvidas para que a economia portuguesa consiga re-arrancar.

Mas 4.891%/ano ainda é muito elevado.
Há milhares de pessoas a pagar o seu crédito à habitação a uma taxa inferior a 1%/ano. São 321€/mês por cada 100 mil € de empréstimo se o período de amortização for de 30 anos. À taxa de 4.891%/ano seriam 5,24€/mês.
A Alemanha paga 0.60%/ano, 304€/mês.
Neste crédito hipotético, os 4.891%/ano corresponde a pagarmos 73%  mais que a Alemanha paga.

Porque não foi o financiamento feito a 18 meses?
Neste prazo já conseguimos uma taxa de juro bastante boa (abaixo da taxa de inflação do Euro).
Mas se imaginarmos toda a nossa dívida de 210MM€ transformada em títulos de 18 meses, o rollover obrigaria a  "ir" aos mercados mensalmente colocar 12MM€.
Era possível.
No inicio de cada semestre, o governo criava 70MM€ de uma série de títulos inicialmente a 20 meses e ia colocando-os ao longo do semestre para fazer a reforma da dívida vencida.
Apesar de ser possível, o Gasparzinho acha arriscado pois e poderia transmitir a ideia que o governo não acredita no efeito a longo prazo das medidas que está a tomar.
O Gasparzinho acredita que o efeito psicológico positivo da colocação da dívida a 5 anos é superior ao custo acrescido que é preciso pagar. Por isso é que só colocou 2.5MM€ neste prazo.

O responsável pela descida da nossa taxa de juro é o Draghi ou o Passos?
É a velha questão de saber se quem nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha.
Não será por estarmos a implementar as medidas correctas que o BCE disse que aceitava a divida pública portuguesa (grega e irlandesa)?
Eu penso que sim.
Na minha visão, a cadeia de eventos foi:
1) O Passos actuou bem e Portugal começou a reagir
    1.1) As contas externas começaram a equilibrar
    1.2) O défice começou a reduzir
    Não nos podemos esquecer que fechamos 2012 com 5% e em 2009 e 2010 foi de 10%
2) Alemanha gostou
3) o BCE anunciou a compra de divida pública, se necessário
4) Juntando 1) e 3), a taxa de juro desceu
5) Juntando 1) e 4) a sustentabilidade financeira de Portugal melhorou
6) a Taxa de juro continuou a descer.

Sem 1) não haveria 2) e nunca aconteceria 3).
Tenho a certeza absoluta que se o Passos tivesse seguido o caminho do Sócrates, o BCE não nos aparava o peão.

As nossas contas com o exterior equilibraram. Mil vezes melhor do que eu alguma vez antecipei, em 2010, ser possível. O.F., tinhas razão.

O que precisamos fazer agora?
Agora passamos para os cuidados intensivos e ainda é preciso fazer muita coisa e dolorosas para voltarmos a ser um país normal.
Custou, começando em 2010 com 17000MM€, custou muito nas nossas vidas fechar 2012 com um défice de 8328.8 milhões € (e ainda assim, com medidas adicionais).
Isto é apenas metade do caminho pois é preciso ter um défice, sem medidas adicionais, abaixo dos 1000M€.
Mas já estamos a meio do caminho.
Imaginemos os cortes que já tivemos (o meu corte foi de 31.5% do salário).
Estamos a meio do caminho!

Porque será que o Passos desitiu de privatizar a RTP?
A missão do Passos+Gaspar é hercúlea e, aqui e ali, há pedras que têm que se deixar no meio do caminho. É preciso cortar a despesa pública em mais de  20 mil milhões € e fazer grandes reformas para Portugal poder crescer mais que nos anos 2000-2013.
E essa missão não pode ser posta em perigo por uma pequena pedra aqui ou acolá.
Aconteceu isso com a RTP. O anúncio da privatização causou muito ruído mas o PS cometeu a gafe de dizer que era possível ter uma RTP sem défice crónico.
Então, vamos a isso.
Pedro Cosme Costa Vieira

2 comentários:

jorge gaspar disse...

Professor Pedro, há alguma forma de conseguir prever as oscilações cambiais do euro face ao dolar? Com a aparente recuperação da economia europeia o euro vai voltar a valorizar para os valores de 2010, 2011?
Eu sei que isto não tem nada a ver com o post, mas é uma duvida que eu tenho e que tenho alguma necessidade em ver esclarecida

Económico-Financeiro disse...

Estimado Jorge Gaspar,
Não é possível prever a cotação futura de uma moeda pois, à mais pequena alteração dos fundamentais, os agentes económicos ajustam os preços à nova realidade económica.
É tal e qual como prever os números de euromilhões. Se fosse possível, as pessoas iam apostar nesses números tanto dinheiro até que não deixaria de haver lucro potencial de apostar.

Em teoria económica é denominada por "condição de não arbitragem" e aplica-se a quaisquer activos. Também é conhecida por "mercado eficiente".

pc

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code