sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A paneleiragem e o aborto são a causa da nossa crise

Eu já ouvi muita coisa como justificação da nossa crise económica. 
A mais interessante é a ligação que as velhotas fazem entre a Economia e as peregrinações a Fátima.
 - Quando eu era nova, se o milhinho estava seco ou a vaca não emprenhava, prometíamos ir a Fátima a pé e tudo se resolvia. Fui lá 14 vezes e, se os meus joanetes deixassem, ainda lá ia mais umas quantas vezes para acabar com a Troika. Agora, o povo só lá vai de autocarro e a Nossa Senhora não se esforça.
 
Mas a última e mais anedótica razão para a nossa crise, do Bagão Felix e de mais 4000, é a paneleiragem. Dizem eles que a economia precisa de criancinhas para crescer e a paneleiragem, o aborto, o divórcio e mais não sei quantas coisas, prejudicam a função reprodutora fazendo com que a nossa crise económica perdure.


Fig. 1 - Não vale a pena tentarem pois, por esse lado, não vai nascer nada.

Mas os nossos problemas são económicos ou religiosos?
Pode haver um preconceito "moral" para condenar os gays ao inferno. Deus, diz no Génesis, destruiu Sodoma e Gomorra porque eles eram paneleiros mas não diz na Bíblia que Sodoma e Gomorra eram vitimas da "crise das dívidas soberanas".
E a Bíblia nem é contra o aborto dizendo mesmo que há situações em que é melhor ser aborto que ter nascido:

Se o homem gerar cem filhos, e viver muitos anos, de modo que os dias da sua vida sejam muitos, porém se a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é melhor do que ele. (Ec. 6:3)

Mas o Bagão Félix tem uma certa lógica no seu discurso.
Os gays e lesbicas, ao casarem-se uns com os outros, deixam de ter filhos.
E cada aborto é menos uma criancinha.
Isto pode ter lógica mas borram depois a pintura. Porque é que querem proibir as técnicas de procriação medicamente assistidas, PMA?
Se o problema é os gays não terem filhos, o Bagão não deveria defender a proibição dos casamentos gays mas sim a obrigatoriedade dos casais gays terem filhos (usando a PMA).

Agora é que o porco torce o rabo.
Por um lado, querem mais criancinhas porque são um activo económico mas, por outro lado, querem-nas como seres divinos dotados de alma, fruto do amor dos seus país e da vontade de Deus e criadas dentro de um ambiente familiar cristão e nada de ciganada nem pretos.
Se é para criar almas, não vale a pena o Bagão vir falar de economia. Diria mesmo que não vale a pena darmo-nos ao trabalho de fazermos mais criancinhas porque o Céu já lá tem milhares de milhões de almas. Está cheinho, a abarrotar.
No entanto, se as suas preocupações são económicas em que se vê a criança como um investimento que vai dinamizar a nossa economia e ajudar preservar a nossa Segurança Social então, temos que ser pragmáticos deixando de ver as criancinhas como anjos.

São precisas mais 30mil crianças por ano.
Actualmente, em Portugal nascem 95 mil crianças por ano e são precisas 125 mil/ano para repor a população nos 10 milhões. Então, temos que estudar, à luz do conhecimento científico actual, como é possível produzir 30 mil novas crianças todos os anos ao menor custo possível e que sejam pessoas potencialmente felizes e trabalhadoras.

Fig. 2 - Evolução da taxa de fertilidade portuguesa (filhos/mulher, Banco Mundial)

Actualmente, que mecanismos  existem de apoio à natalidade?
Existe o Abono de Família e o Rendimento Social de Inserção.
Em termos máximos, uma mulher que tenha 3 ou mais filhos, seja mãe sozinha, recebe 178.15€/mês para ela e 137.90€/mês por cada criança (84.46€/mês de abono e 53.44€/mês de RSI) mais 70.38€/mês no primeiro ano de vida de cada criança.
Uma mulher que tenha 10 filhos, receberá cerca de 1500€/mês de apoio directo do Estado.
Imaginando que o financiamento dura 20 anos, aplicando este subsídio a 30 mil crianças por ano (um total simultâneo de 600 mil crianças e jovens), este mecanismo se usado à exaustão implicaria uma despesa pública de 1100 milhões€/ano, 0.66% do PIB.
É muito dinheiro mas resolveria um problema que o Bagão Felix acha gravíssimo.
Só o valor correspondente ao corte de um dos subsídios à Função Pública e Pensões mais que resolveria o problema da falta de natalidade.

É perfeitamente adequado ter famílias com 10 filhos.
Os meus país tiveram 6 filhos  e nunca achei que houvesse muita gente lá em casa.
Se imaginarmos que os 10 filhos se dividem ao longo de 10 anos, é muito aceitável uma mãe tomar conta de 10 crianças e até mais.

Serão 1500€/mês suficientemente motivantes para ter 10 filhos?
Até pode ser mas há um problema mais grave do que este. É que o Bagão Félix não quer que os pobres tenham filhos.
As pessoas da direita são contra os pobres receberem subsídios para terem criancinhas. Basta ver que em 2013, o RSI para as crianças diminui quase 50%.
Acham mesmo que os pobres são uma sub-raça que apenas produz delinquentes.
Sendo assim, não podem ter filhos.
O caso daquela Cabo-Verdiana que tem 10 filhos, é paradigmático: uma porca que quer viver à nossa custa e aquele pretalhão que diz que tem mais mulheres apenas para majorar o abono de família em 20%.
Uma mulher que tenha muitos filhos, a Segurança Social faz tudo o que for possível para lhe retirar as crianças.
Se a coisa não for a bem, ZAP, capa.

Fig. 3 - Crianças pobres não prestam

A Procriação Medicamente Assistida.
Antigamente ia-se a Fátima a pé porque não havia meios tecnológicos que permitissem o povinho ir lá de forma diferente.
Com o fazer das criancinhas passa-se algo semelhante.
Antigamente, a única forma de ter um filho era um homem conhecer, em sentido bíblico, uma mulher, e esperar 9 meses.
Mas actualmente existem soluções técnicas altamente sofisticadas que a Lei, por razões religiosas, inibe o seu uso, e que poderiam ser usadas na produção das tais 30 mil crianças por ano de que temos défice.
Apesar de sermos um país teoricamente laico, ainda vemos a procriação como algo de divino.

Uma pessoa que esteve congelada será diferente das outras?
Imaginem que uma mulher faz uma colheita de óvulos, fertiliza-os, implanta um embrião e manda congelar os outros.
Passados uns anos, decide ter mais um filho. Pega num dos congelados e dá-lhe vida.
Depois, dá um dos embriões a uma vizinha e ela dá-lhe vida.
Será que as pessoas que renascem depois destes longos períodos de congelamento e gerados em úteros de outras mulheres, são pessoas diferentes de nós?
Já alguém perguntou aos "congelados" se se sentem anormais?
O que será que pensam durante os anos em que estão congelados?
Santa Ignorância. São só meia dúzia de células.

Fig. 3 - Pareço mais nova porque estive 10 anos congelada

É igual a dar as crianças à adopção.
Uma pessoa dar um embrião é igual a dar um filho à adopção. Se a Lei acha natural que alguém que tem filhos adopte uma criança dum casal vizinho, porque proibe que esse mesmo casal adopte um embrião?

Como deveria ser a Lei da Promoção da Maternidade?
Deveria prever parcerias entre ricos e pobres.

A) As famílias com mais rendimentos poderem usar a PMA para produzir embriões para colocar em famílias de menores rendimentos (mulheres) que se iriam especializar na gravidez e criação das crianças.
A colheita de ovulos é um procedimento aborrecido para a mulher mas simples e, de uma vez, permite recolher vários óvulos.

B) O Estado garantiria o RSI e o abono às crianças nascidas e as famílias de origem dos embriões complementariam o rendimento da família com um quantitativo idêntico.
O programa deveria garantir que uma familia que "acolhesse" 10 crianças teria o actual rendimento de 1500€ garantido pelo Estado (RSI+Abono) e outros 1500€ garantidos pelas famílias de origem dos embriões.
O total seria de 300€/mês/criança (cerca de 0.75IAS/criança).

C) Mantinha-se que os pais legais das crianças seriam os que levaram a cabo a gravidez mas os país biológicos teriam direito de visita e de acompanhar o desenvolvimneto das crianças.

Mas em Portugal a PMA é muito restritiva.
1) Só se podem aplicar a pessoas com problemas de infertilidade (art. 4.º).
Por exemplo, um padre pode ter um filho sem quebrar a sua castidade, usando a PMA mas a Lei 32/2006 proibe-o.

2) Só se podem aplicar a pessoas casadas ou que vivam em união de facto (art. 6.º).
Se os solteiros podem adoptar crianças, porque não podem ter filhos usando PMA?

3) Só pode levar a cabo uma gravidez com um embrião de outros quem for infertil (art 10).
Se queremos dinamizar o nascimento de crianças, é preciso flexibilizar a lei da PMA.

Fig. 4 - Seria bom se pudesses usar, mas é proibido.

Mas na vizinha Espanha, a PMA é muito menos restritiva.
A lei espanhola 14/2006 de 26 de maio, tem o enfoque na mulher e pode ser levada a cabo independentemente de a mulher ter ou não problemas de infertilidade.
Basta a sua vontade informada de usar PMA.

Artículo 6. Usuarios de las técnicas.
1. Toda mujer mayor de 18 años y con plena capacidad de obrar podrá ser receptora o usuaria de las técnicas reguladas en esta Ley, siempre que haya prestado su consentimiento escrito a su utilización de manera libre, consciente y expresa.

E para não falar do Brasil.
Onde são permitidas as "barrigas de alugueu".

Uma coisa é certa, se nada se fizer de radicalmente diferente, se apenas continuarmos à procura de razões fantasiosas ou que não é possível alterar, cada vez veremos menos criancinhas pelo nosso país fora.

Pedro Cosme Costa Vieira

1 comentários:

Paulo disse...

comentário denunciado às autoridades competentes. Cpts,

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