domingo, 17 de fevereiro de 2013

Como balanço de 2012, o desemprego é o maior problema

O desemprego é grave mas 2012 acabou com sinais positivos.
A anulação do défice da Balança Corrente, BC, é mesmo o grande feito dos quase 2 anos de governo do Pedro Passos Coelho.
A BC soma todas as transacções com o exterior (balança comercial,  balança de serviços, juros, lucros e transferências dos emigrantes e da UE). Quando é deficitária traduz que o país se está a endividar face ao exterior.
No tempo do Sócrates, cada português endividava-se 150€/mês (dos quais, 60€/mês eram juros para pagar a divida que se foi acumulando), mais que 10% do PIB.
Quase por milagre, em menos de 2 anos que  leva o governo do PPC, a BC corrigiu (ver Fig. 1). E ainda é mais notável sabendo-se que cada um de nós continua a pagar 60€/mês de juros ao exterior. Assim, se não fossem os juros, teríamos uma BC bastante positiva (cerca de 4% do PIB).

Fig. 1 - Evolução da BC, 2009:2012 (dados: Banco de Portugal)

Naturalmente que a nossa vida piorou.
Se no tempo do Sócrates cada português acrescentava ao seu rendimento 150€/mês que ia pedir emprestado ao exterior, agora que esse dinheiro deixou de entrar, naturalmente que vivemos com mais dificuldades.
150€/mês a menos é muito dinheiro. Uma família de 5 pessoas, hoje tem disponíveis menos 750€/mês que tínha em 2010.

Então, para onde vai o dinheiro da Troika?
O facto da BC estar equilibrada traduz que, de facto, não entra em Portugal nem um euro do dinheiro que a Troika empresta a Portugal, do dinheiro que o governo foi buscar aos "mercados" ou do dinheiro que o BCE empresta aos nossos bancos.
Esses milhares de milhões de euros servem apenas para fazer o rollover da dívida que temos ao exterior e que se vai vencendo.
O défice da balança corrente foi-se acumulando ao longo dos anos do Guterres, Santana Lopes e Sócrates e o Estado, as famílias (via bancos) e as empresas ficaram a dever muito dinheiro a pessoas estrangeiras. Assim que um empréstimo vencia, pedia-se dinheiro a outras pessoas do exterior para o amortizar.
Entretanto, em princípios de 2011, deixamos de conseguir arranjar novas pessoas que nos quisessem emprestar mais dinheiro para gastar e fazer o rollover da dívida tendo sido preciso pedir ajuda aos nossos amigos. Precisamos que a Troika e o BCE nos emprestassem dinheiro mas na condição de o usarmos apenas para pagar as dividas que se vão vencendo.

O burro do Seguro diz que a Troika tem que mandar decisores políticos.
Mas a Troika não nos ofereceu ajuda. Foi o Sócrates + Teixeira dos Santos que foram pedir ajuda à Troika com o chapéu na mão porque estávamos na bancarrota. Se o PS não quer a Troika que diga que, se fosse governo, mandava o plano de ajuda às urtigas.
Se Portugal quiser, é só dizer, e a Troika suspende o programa.
Os burros do PS é que pediram ajuda à Troika e não foi a Troika que se ofereceu para nos ajudar.

Não é como os loucos do PS dizem.
Que se podiam usar os milhares de milhões de euro emprestados pela Troika e pelo BCE para gastar em mais despesa pública, menos impostos e investimento em mais SCUTS e TGV malucos (à moda do Sócrates) dando inicio à uma mítica "política de crescimento".
Nem um euro cá entra.
Esse dinheiro é apenas para ir pagando aos credores externos as dívidas que o Guterres e o Sócrates fizeram nos 10 anos que lá estiveram.
Pagar calotes.

E a contracção do PIB não será um grave problema?
É mas resulta directamente do aumento do desemprego.
Não é o desemprego que resulta de não haver procura mas antes o contrário. O PIB  contrai por há menos pessoas a trabalhar.
Para se produzir é preciso capital (máquinas, instalações, patentes, etc.) e trabalhadores. Se diminue o número de trabalhadores, naturalmente que a quantidade que se produz vem menor.
E é exactamente isso que está a acontecer.
Apesar de o PIB estar a diminuir desde o tempo do Sócrates (3.º trimestre de 2010 até ao 4.º trimestre de 2012 diminuiu 6.8%), essa queda é completamente resultado do aumento do desemprego pois o produto por trabalhador está estável (ver, fig. 2).

 Fig. 2 - Evolução do PIB e do PIB corrigido pelo desemprego (dados: OCDE)

O nosso problema de crescimento nulo desde que entramos no Euro não é a produtividade por trabalhador (que aumentou 16%, cerca de 1.3%/ano) mas do aumento do desemprego (ver, Fig. 3).
A minha previsão (optimista) é que a legislatura acabe em 2015 com uma taxa de desemprego na ordem dos 19% a 20% para depois começar a cair com uma trajectória simétrica à que se tem observado desde 2008. Se assim for, por volta de 2017 ou 2018, o desemprego voltará aos 12.5% de 2010. E se tudo correr bem, em 2022 voltamos aos 8.5% de desemprego de meados da década de 2000.

 Fig. 3 - Evolução do desemprego (dados: OCDE) e a minha previsão

Seria possível termos uma menor taxa de desemprego?
Mantendo-se constante o PIB por trabalhador (ver, Fig. 2), quando o PIB contrai, o desemprego aumenta (ver na Fig. 4 os dados trimestrais anualizados de 2000-2012).

Fig. 4 - Relação empírica entre a contracção do PIB e o aumento do desemprego (dados: OCDE, 2000-2012)

Em fiz uma contas em 2011.
E fiquei muito pessimista porque, comparando com os outros países da UE que em 2009/10 levaram a cabo correcções da BC (Estónia, Irlanda e Roménia), o multiplicador da Balança Corrente no PIB era de 1.8. Então, a correcção do nosso défice das contas externas em 10% do PIB iria causar uma contracção do PIB de 18% e um aumento do desemprego dos 8.5% de 2008 para 25%.
Recordo que a Espanha e a Grécia já estão com taxas de desemprego acima desta minha previsão,  26.5% da população activa.
Pelas minhas contas, é notável termos conseguido corrigir a BC com um aumento da taxa de desemprego de 8.5% para "apenas" 16.9%, metade do incremento do desemprego conseguido em 2009/10 no ajustamento da Estónia, Irlanda e Roménia (e da Grécia e Espanha actualmente).  Se conseguirmos manter a taxa de desemprego abaixo dos 20%, será um ajustamento positivo.

Custa muito viver 9 trimestres seguidos de contracção do PIB (desde o 4.ºT de 2010) e haver um desempregado em cada 6 trabalhadores mas, comparando com outros países, a correcção da BC poderia ter sido acompanhada por uma contracção muito maior do PIB.

E porque o PIB contrai e o desemprego aumenta?
O comentadores que aparecem nos media têm uma visão keynesiana pelo que explicam o desemprego pela redução da procura interna não compensada pelas exportações (procura externa).

Mas o problema não é esse. O problema está do lado da produção.
Acontece que produziam-se bens e serviços que actualmente mais ninguém precisa de comprar (por exemplo, casas e auto-estradas) e outros bens e serviços intermédios que eram adquiridos pelo Estado e que não o pode fazer em tão grande quantidade por não ter dinheiro para os pagar.
Também uma grande parte da nossa economia se baseava nas vendas de bens importados pagos a crédito, por exemplo, automóveis e equipamentos. As restrições de crédito externo levaram à impossibilidade de importar esses equipamentos que pôs em crise o sector das vendas.

Nós produzíamos menos do que o que consumíamos.
Havia um grande défice  da balança comercial (as importações eram muito maiores que as exportações). Se produzíamos menos que o que consumíamos então, a redução do PIB não resulta da redução da procura interna mas antes da desadequação da capacidade produtiva (construção civil e vendas) às nossas actuais necessidades de consumo.


Depois, há o efeito multiplicador.
Por cada emprego que se perde nos sectores em crise (a construção civil e importações que eram financiados pelo endividamento externo), perde-se um consumidor no sector não transaccionável da economia (cafés, restaurantes, cinemas, cabeleireiro, etc.). Esta perda secundária traduz o efeito multiplicador do desemprego.
Se se perderam directamente 150 mil postos de trabalho na construção civil, perderam-se indirectamente mais 300 mil postos de trabalho no sector dos serviços.

As empresas não são flexíveis.
Uma empresa que produz um tipo de bens não tem capacidade para, observando a procura a reduzir, passar a produzir outro tipo de bens. Por exemplo, temos os Estaleiros Navais de Viana do Castelo há vários anos sem fazer qualquer navio ou reparação e nunca lhes passou pela cabeça fazer frigoríficos, máquinas de lavar, bicicletas, peças para automóveis ou outras construções metálica. Nem pensar.
Há máquinas, instalações, saber fazer que não se consegue alterar.

Os salários não são flexíveis.
A única forma de aumentar as vendas é reduzir o preço. Por exemplo, se um restaurante observa menos clientes, tem que baixar o preço das refeições.
Mas, uma empresa apenas pode reduzir o preço se houver uma redução dos custos de produção.
Como os salários não podem diminuir, as empresas têm que diminuir a actividade despedindo pessoas.

Fig. 5 - Mesmo com as reduções da Função Pública, os custos do trabalho ainda estão acima dos valores anteriores à crise do Sub-prime (dados: OCDE e BP)

E as exportações não podem substituir a procura interna.
Porque a procura interna era de construção civil e vendas e isso não serve para exportar.
Como para produzir mais bens exportáveis é preciso alterar a estrutura produtiva, o que leva tempo, as exportações não podem crescer mais que uma certa taxa por ano. Depois de algum tempo a crescer muito para recuperar a quebra de 2009, agora as exportaçõess voltaram à tendência de crescimento de 1.8%/ano (ver, Fig. 6).

Fig. 6 - As exportações voltaram à tendência (dados: www.ine.pt)

Fig. 7 - As exportações para a UE têm sido menos dinâmicas (dados, www.ine.pt)

E o futuro? Será que o desemprego vai diminuir e o PIB crescer?
Depende tudo da evolução dos custos do trabalho.
Para haver investimento no sector exportador, os nossas produções têm que ser competitivas face ao resto do mundo o que obriga a haver uma desvalorização dos custos do trabalho.
De 2010 para 2012, os custos do trabalho diminuíram 3.9% (ver, Fig. 5) e se caírem mais, o desemprego vai estancar. Era preciso haver, pelo menos, um congelamento em termos nominais dos salários para que a inflação pudesse desvalorizar os custos do trabalho.


Fig. 8 - Mesmo quando a coisa está preta, pode ser das boas.

Pedro Cosme Costa Vieira



6 comentários:

VidalFerreira disse...

Prof. Pedro Cosme Vieira, tenho uma pergunta/dúvida para si, que é se a desvalorização cambial pode constituir uma solução para reduzir rapidamente o desemprego ou, se pelo contrário, ainda o agrava. É que pessoalmente não acredito numa solução tão simplista.

Económico-Financeiro disse...

Estimado Vidal,
Agradeço a questão que é muito relevante.

De facto, não existe uma solução fácil.

A desvalorização cambial faria, instantaneamente, diminuir os preços e os salários face ao exterior. Isso faria rapidamente aumentar as vendas para o exterior.
Pelo contrário, descer os salários em euros e esperar que os preços diminuam é lento.

O problema é que, tal como é dificil convencer os empregados de que os salários devem diminuir em euros para diminuir o desemprego, também quando a moeda desvaloriza, a inflação aumenta e os empregados querem aumentos salariais proporcionais.
Quem não se lembra das greves dos professores a exigir aumentos de salários?

É tão dificil convencer os trabalhadores a descer os salários quando a inflação é baixa como a não aumentá-los quando há desvalorização e a inflação fica alta.

A solução está sempre no convencimento dos empregados de que o seu nível de vida tem que descer para combater o desemprego.

E, infelizmente, apenas a manutenção de um nível de desemprego elevado, durante muito tempo e sem subsídio de desemprego convence as pessoas da nova realidade.

pc

césar disse...

você é muito doido

VidalFerreira disse...

Mas ainda que seja difícil convencer os trabalhadores a reduzir os seus salários, essa é a melhor solução. E isso é por causa da inflação indesejável decorrente da desvalorização certo?

Já agora, gostaria que me explicasse por que é a inflação assim tão indesejável. E se pudesse, falasse sobre a deflação. Será que a deflação é assim tão inconveniente como muitos bancos centrais nos fazem crer?

E será que uma moeda altamente apreciada (altas taxas de câmbio) são mesmo um fardo anti-exportações?

Obrigado pelas suas pertinentes explicação, Prof. Cosme Vieira.

VidalFerreira disse...

Pelo que percebi é preferível a diminuição dos salários à desvalorização cambial. Isto está relacionado com os efeitos nocivos da inflação, certo? Já agora podia-me explicar objetivamente que efeitos nocivos são esses?

Além disso, será que a deflação é assim tão indesejável como os bancos centrais nos fazem crer? Uma deflação leva a moeda a valorizar-se, certo? E será uma moeda forte prejudicial às exportações, ou uma coisa não tem a ver com a outra (que é o que eu suspeito!)?

Edinaldo Avelino disse...

Um comentário até razoável... mas o final, de extremo preconceito, tanto pela foto quanto pela frase que a encaminha, só demonstra o lado bestial de um ser que se diz humano.

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