terça-feira, 19 de março de 2013

O contributo dos expatriados no resgate de Chipre

A nossa comunicação social é maioritariamente esquerdista pelo que as pessoas que lá aparecem são contra a Economia de Mercado que, normalmente, lhe chamam capitalismo.
Os esquerdistas sempre defenderam que os bancos não deveriam ser resgatados e ir à falência. Sistematicamente, esqueceram-se de dizer que neste caso os depositantes perderiam as suas poupanças.
Isso já aconteceu, em parte, na Islandia e os esquerdistas acharam muito bem porque os penalizados foram apenas os ingleses. 
Agora que, isso vai acontecer, em parte, no Chipre, estão contra talvez porque, no meio dos penalizados, estão expatriados russos.
É estar contra o velho ir em cima do burro e ir a pé.

Fig. 1 - Qualquer que seja a política, para os esquerdistas, está sempre errada.

O que se está a passar em Chipre?
Chipre tem uma dimensão de 10% de Portugal. Tem 1.1M de habitantes (nós temos 10.6M) e um PIB de 17MM€ (nós temos 170MM€).
A diferença é que Chipre, de forma semelhante à Irlanda, é uma "praça financeira" tendo em depósitos bancários 400% do PIB (e nós temos 150%).
A Irlanda estava muito exposta aos EUA pelo que foi muito penalizada com a crise do sub-prime.
Chipre estava muito exposto à dívida pública grega. Quando foi "acordado" que haveria bancarrota parcial da divida pública grega, todo o sistema financeiro cipriota entrou no vermelho.

Fig. 2 - Chipre tem boas praias

Estará a economia de Chipre melhor que a nossa?
Também não está nada famosa mas, ainda assim, desde 1995, tem mostrado uma saúde melhor que a nossa.
A média do défice da balança corrente cipriota foi de 4.5% do PIB (o nosso foi de 7.9% do PIB) e do crescimento cipriota foi de 2.5%/ano (o nosso foi de 1.25%/ano).
Por isso, a bancarrota cipriota, numa proporção bastante maior que a nossa, é uma consequencia directa da bancarrota grega.


Fig. 3 - Défice esterno de Chipre e de Portual (dados: Banco Mundial, alisados pelo autor)

Vamos agora à solução do resgate.
Quando a Argentina "saiu" da Zona Dólar e desvalorizou o peso, os depósitos bancários perderam 75% do seu valor relativamente ao USD.
Quando a Islândia "atacou" a sua crise financeira com a desvalorização da coroa, os depósitos bancários perderam 50% do seu valor relativamente ao Euro.
Agora, o Estado cobrar 10% sobre os depósitos bancários, é uma brincadeira de crianças.

Porque aplicar o imposto?
Em termos legais, as pessoas não vão perder os seus depósitos nem ser vítimas de um confisco. Apenas haverá um imposto (como a nossa contribuição Especial de Solidariedade) que vai incidir sobre os valores depositados nos bancos.
O nosso Miguel Cadilhe defendeu que houvesse uma taxa de 4% sobre todo o património imobiliário e os esquerdistas não foram contra porque antecipavam que apenas os "ricos" iriam pagar.
Reforço que os depositantes não vão perder um euro dos seus depositos mas o Estado é que vai cobrar um imposto sobre a riqueza das pessoas.
O imposto poderia ser sobre outra coisa qualquer como, por exemplo, o IVA ou o IRS..

Mas assim, vão ser chamados os expatriados.
Uma parte importante dos depósitos bancários são de expatriados que, por não serem tributados, não são responsáveis pelas garantias que o Estado presta junto dos credores.
Como o dinheiro é para resgatar as perdas gregas acumuladas no sistema financeiro, se não houver resgate os bancos abrem falência e os depositantes perdem parte do seu dinheiro.
Se Chipre fizer como a Islândia (que não aplicou aos expatriados na garantia dos depósitos bancário), os expatriados irão perder os seus depósitos.
Desta forma, é uma solução de compromisso em que os expatriados contribuem com 10% do seu depósito para resolver o problema.
Se fosse aplicado a Portugal, seria  cerca de 20MM€. Só a capitalização bolsista do BCP, com a crise perderam mais que este valor, i.e., os seus accionistas perderam.

Porque os bancos cipriotas estão encerrados?
Não tem nada a ver com o imposto.
Decidindo o governo aplicar um imposto sobre o saldo bancário às 0h do dia 17 de Março, perguntava aos bancos a lista dos titulares e, no fim do mês, mandava uma nota de cobrança com o valor a pagar. Assim como vamos receber o IMI para pagar.
O problema é que os bancos ficaram sem notas e não têm activos bons para materializar as ordens de transferencia para bancos exteriores.

Eu já tratei num post o processo que se iniciou.
1) Os saldos bancários das pessoas são materializados por activos de maturidade longa localizados principalmente no Chipre e na Grécia.
2) As pessoas querem levantar notas ou transferir o saldo bancário para bancos no exterior.
3.1) Os bancos cipriotas não têm activos aceitáveis para transferir para os bancos do exterior como contraparte dos saldos bancários pelo que os bancos exteriores não aceitam as tranferencias.
3.2) os bancos, em média, têm apenas 5% dos saldos em notas no cofre (3.5MM€ para depósitos de 70MM€), pelo que ficaram rapidamente sem notas.
4) Apenas não possíveis transferencias entre bancos igualmente falidos (entre os bancos cipriotas).

Agora o processo vai seguir o seu caminho e vai terminar de uma de duas formas.

A) A Troika garante as transferencias.
Todas as transferencias para o exterior são garantidas pela Troika pelo que, em caso dos activos cipriotas não corresponderem ao valor nominal, assumimos todos com os nossos impostos as perdas cipriotas de forma solidária (que são as perdas gregas).
Mesmo neste caso, o risco de novo imposto vai fazer com que os depósitos diminuam mais de 50% mas o sistema vai estabilizar.
Parte dos depósitos vão ser garantidos pelos russos (como o reino Unido fez com a Islândia e depois perdeu o dinheiro) para terem uma base naval no mediterraneo pois a única que têm, a da Síria, está condenada a desaparecer.

B) Chipre quer seguir o seu caminho.
Nunca mais será possível o levantamento ou a transferencia para o exterior dos saldos bancários. Vai ser tipo o BPN mas à escala de um país (pequeno).
Acaba a mobilidade de capitais (pois o estado pode apropriar-se dele) e a economia vai funcionar com transferencias electrónicas internas. 
Num prazo de alguns meses, vai surgir uma nova moeda e o Chipre sai da Zona Euro.
Recordo que imprimir notas demora pelo menos 1 mês.
Será escusado dizer que o câmbio vai fazer com que as pessoas recebam muito menos que os 90% que se discute agora.

É o problema dos vasos comunicantes.
A economia é uma toalha curta que cobre uma mesa.
A técnica dos esquerdistas (que foi a mesma do Hítler) é convencer as pessoas de que tudo é independente de tudo.
É possível o Estado aumentar despesa, diminuir os impostos e ficar sem défice.
É possível as empresas aumentar os salários, diminuir os preços e aumentar os lucros.
É possível os devedores bancarrotarem e, mesmo assim, os credores receberem o seu dinheiro.
É possível uma mulher emagrecer aumentando ao mesmo tempo as mamas.
Mas não é.
Os comunas querem fazer querer que o BCE e a Troika são coisas que vêm do inferno para darem cabo da felicidade dos países intervencionados mas, cada euro que eles perdoam a um país acaba por ser mais um euro que temos que pagar de impostos.
Puxa-se a toalha de um lado para tapar o nosso lugarzinho, destapa-se de outro lado.
Puxa-se a toalha para perdoar parte da dívida aos gregos, carrega-se os cipriotas com perdas dos depósitos bancários.
Perdoa-se aos cipriotas, carrega-se nos nossos impostos.

É este o "outro caminho" do PS.
Olhem ao que eu vos aviso.
Podem não gostar do Passos coelho porque hoje vivemos pior que vivíamos no tempo do Sócrates. Mas aquilo era falso baseando-se num endividamento externo insustentável.
O caminho que nos apontam os do PS, mais despesa, mais salários, menos impostos, abaixo a Troika, é o caminho de Chipre.
Estou a rezar ao Santo Padre para que os do Chipre não aceitem as condições da Troika pois isso vai permitir que abandonemos a demagogia esquerdista e nos salvemos.

Já que falei no Santo Padre.
Os comentaristas papais que aparecem na televisão são a coisa mais burra que eu alguma vez vi.
Até a minha mãe, nos seus 82 anos e com a cabeça queimada da hemodiálise e diabetes, acha uma bestice total.
Não interessa se o Papa é gordo, magro, feio, bonito, simpático ou preto. Interessa é que ele responda às perguntas da Igreja, dos fieis da Igreja.
Vou recordar 10 perguntas que o Papa tem que responder porque as nossas sociedades já as aceitaram com toda a naturalidade:

     A) O  casamento dos padres é para avançar?
     B) A democratização da governação das paróquias é para avançar?
     C) Os divorciados continuam ex-comungados?
     D) As mulheres podem aspirar à ordenação?
     E) Os métodos anti-concepcionais são pecado?
     F) Os sexo como actividade recreativa continua pecado mortal?
     G) Os gays continuam excomungados?
     H) O aborto continua pecado mortal?
     I) E a eutanásia?
     J) Passarão as outras religiões a ser caminhos válidos para a salvação?

Se não responder afirmativamente pelo menos a uma destas questões, será uma perda de tempo termos mais este papa. Se o pontificado vai ficar reduzido a comentários sobre a cor dos sapatos, se a janela do papamóvel está aberta ou fechada, se ele fala italiano ou espanhol, mais valia terem lá o nosso Jorge Nuno Pinto da Costa.

Pedro Cosme Costa Vieira

2 comentários:

Manuel disse...

Caro Pedro Cosme

Sobre a parte "marginal" onde refere as 10 perguntas que o Papa deverá responder, interroga-me que uma delas seja a eutanásia. Para alguém com formação nas ciências exactas, pergunto, qual a incidência estatística da eutanásia. Que importância terá se alguém, sofrendo de uma doença terminal resolve “meter um balázio” na cabeça? E como poderá a Igreja excepcionar o princípio de que, se é Deus que dá a vida, só Ele a poderá tirar. Bem, isto é apenas um desabafo.

A razão principal que me leva a interrogá-lo é a sua resposta à pergunta do Paiva sobre as consolidações orçamentais dizendo que Portugal não tem alternativa e por isso “é preciso implementar politicas restritivas mesmo a meio de uma crise.”

Será que isso é assim mesmo? Isto é, existiu algum caso em que um país, sem moeda própria, com nosso o nível de endividamento e a passar por uma reestruturação do seu tecido produtivo, tenha conseguido superar a crise sem se destruir por completo num processo deste tipo que estamos a efectuar? A teoria económica cobre estes múltiplos aspectos?

Saudações cordiais

Manuel

David Seraos disse...

Caro Pedro Cosme

Tenho seguido ultimamente o blog, e ver um prof de economia falar tão directamente sobre economia e os assuntos actuais só lhe posso dar os parabéns e que continue. (Eu que não gosto muito de economistas pois eles só falam com modelos que não podem ser utilizados na economia actual, como a concorrência perfeita, por exemplo, generalizando claro).

Agora falando do post em questão, trata este imposto como as desvalorizações que aconteceram noutros países, mas na minha opinião é diferente.

Pois o imposto é algo visível, concreto para qualquer leigo, enquanto a desvalorização pouca gente se apercebe. Não vê como toda a gente fala do grande feito da Islândia. Mas sim ambos são "roubos".
Mas são situações diferentes, pois o imposto irá gerar uma onda de desconfiança, enquanto a desvalorização é algo normal para os povos do sul (habituados a moedas "fracas", escudo, peseta).
E não, não estou a defender a desvalorização do euro.

Estou somente a dizer que esta medida só vai levar à desconfiança das pessoas com os seus depósitos. E que nem sei se irá avançar, os deputados cipriotas já a rejeitaram, vamos ver o que o Eurogrupo faz.

Mas esta medida está mal explicada, e sou levado a acreditar neste artigo (http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1552), onde o Gary North fala que é um aviso dos países do Norte aos países intervencionados, que eles não tão sempre prontos para pagar as contas dos outros.

E voltando a falar da diferença entre este imposto e as desvalorizações, a economia é uma ciência social, tem atenção ao comportamento humano, e a nível pratico pode ser a mesma coisa, pois ambos são um corte nos rendimentos das pessoas, mas a nível "psicológico", motivacional, não é, pois as pessoas (no geral) não entendem realmente o que é a desvalorização, e poucas tem o conhecimento que a população islandesa depois da desvalorização tiverem um encarecimento nos seus alimentos, pois 50% (se não estou em erro) dos seus alimentos eram importados.

E falando agora da desconfiança das pessoas nos seus depósitos, é um jogo perigoso, pois o sistema bancário que temos todo ele é sustentado na confiança, moeda fiduciária, confiança.
E se as pessoas se puserem a ir levantar todos os euros e por debaixo do colchão, não existem euros para todos, pois sejamos realistas a maioria da população portuguesa não irá mandar os seus euros para bonds alemãs, pois precisa dele no seu dia a dia, que irão fazer é levantá-los e guardá-los em casa, digo eu.

E tenho pena que afinal "É possível uma mulher emagrecer aumentando ao mesmo tempo as mamas.
Mas não é" ahahah

Isto ficou um grande comentários, talvez grande demais, mas espero que o consigo ler todo.

Cumprimentos

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