sexta-feira, 22 de março de 2013

Será o aumento dos salários a "política de crescimento"?

Há um sofisma que faz o aumento dos salários ser "a política de crescimento".
As mentes dos sindicalistas esquerdistas e outras mentes fracas deduzem pela lógica uma ligação positiva entre salários e PIB.
Chegam mesmo patrões a embarcar nesta lógica torpe quando aplicada aos outros (todos menos eu).

Argumentam que, aumentando os salários, o consumo aumenta o que faz aumentar a procura interna que  aumenta as vendas das empresas.

+Salários -> + Rendimento -> + Consumo -> + Procura Interna -> + Vendas

Depois, adiantam que o aumento das vendas aumenta a produção (o PIB) e diminui o desemprego.

+Vendas -> + Produção -> - Desemprego

Finalmente, mais vendas e mais produção fazem aumentar a receita fiscal e, menos desemprego, faz diminuir a despesa pública pelo que o aumento dos salários, além de aumentar o produto e diminuir o desemprego, também diminui o défice público.

+Salário -> . . . ->  - Défice Público
  
Claro que este esquema que aparenta seguir as regras da lógica é uma ilusão de verdade. É uma perversão voluntária do raciocínio demonstrativo para induzir os portugueses em erro.

A prova do erro por redução ao absurdo.
Esta ilusão é fraca porque não resiste à simples prova da redução ao absurdo.
Se aumentar os salários tem efeito tão positivo então, quando o Guterres disser que temos que ajudar aquelas regiões miseráveis que ele visita, que os obrigue a aumentar os salários para um milhão de euros por hora e, logo, todos ficarão ricos.
Mas a prova por redução ao absurdo, por ser uma prova negativa não identifica qual é o erro de raciocínio.
Neste post vou apresentar os erros que os sofistas introduziram na argumentação.


Fig. 1 - Hoops ... mas toda a dedução lógica indica que se trata de uma mulher e das boas

Onde estará o erro?
O erro da argumentação está na omissão de parcelas relevantes.

1. "Esquecem-se" dos rendimentos do capital.
O total que se produz é igual ao rendimento total.
O que se produz na economia, vai ser distribuído pelos diferentes agentes económicos como salários, lucros, juros, rendas e alugueres.
Ao PIB, o Produto Interno Bruto, é preciso retirar a depreciação do capital para obtermos a produção de facto, a produção líquida.

Se o PIB é 100€ então, a produção é de 82€ (18€ são amortizações, diz o Banco Mundial) que é distribuída pelos salários (40€, diz a Pordata) e 27€ para juros, rendas e alugueres (o que falta).
É por demais evidente que os salários são  "rendimento das famílias" mas também o são os lucros, juros, rendas e alugueres (parte).

Para uma produção de 82€.
O rendimento das famílias é de 73.50€ (pordata) e os restantes 8.5€ são "rendimento das empresas" que o investem.
Quer isto dizer que 70% dos lucros, juros, rendas e alugueres vão parar ao rendimento das famílias e 30% vão ser investidas pelas empresas.

E o que acontece ao rendimento das famílias quando os salários aumentam?
É por demais evidente que o aumento dos salários em 1€ tem o efeito imediato de aumentar o rendimento das famílias em 1€ mas também diminui os lucros das empresas em 1€.
Até os esquerdistas reconhecem a existência deste efeito imediato mas contam com a "cadeia virtuosa".
Mas, a diminuição dos lucros em 1€ leva a uma redução do rendimento das famílias em 0.70€ e do rendimento (investimento) das empresas de 0.30€.
Então um aumento dos salários em 1€ tem um efeito directo no rendimento das famílias de +0.30€ à custa de um impacto no rendimento das empresas de -0.30€.

O aumento de rendimento das famílias é menor que o aumento dos salários e é igual à diminuição do rendimento que as empresas usam para investir (sem pagar dividendos).

+Salários -> + Rendimento das famílias e - Rendimento das empresas


Fig. 2 - É legal pois apliquei a Lei de Lavoisier (nada se perde, tudo se tranforma): cada euro que entra na minha carteira, é um euro que alguém lerpa. 

2. "Esquecem-se" do investimento das empresas na procura interna.
O rendimento das famílias vai ser usado na aquisição de bens de consumo mas também na aquisição de bens de investimento e ambos são procura interna.
Uma pessoa ao comprar arroz e massa (consumo) ou um frigorífico (investimento) está a contribuir para a procura interna.
Os esquerdistas "esquecem-se" do investimento das famílias na procura interna mas, mais grave, "esquecem-se" que o investimento das empresas também é procura interna.
E, já mostrei, que se a procura interna das famílias aumenta 0.30€, a procura interna das empresas diminui exactamente 0.30€.
+ Rendimento das famílias -> Mais procura interna
- Rendimento das empresas -> Menos procura interna

Os efeitos anulam-se pelo que o aumento dos salários não tem qualquer efeito na procura interna.
+ 1€ Salários
->  + 0.3€ Rendimento das famílias e - 0.3€ Rendimento das empresas
-> + 0.3€ procura interna das família e -0.3€ procura interna das empresas
-> efeito nulo na procura interna

O aumento do salário não altera a procura interna.
Considerando todas as parcelas, os salários e os lucros, as famílias e as empresas, conclui-se facilmente que o aumento (ou diminuição) dos salários não tem qualquer impacto na procura interna.
Quebrado esta inflamação da procura interna que parecia lógica então, toda a cadeia de acontecimentos virtuosos alegadamente causados pelo aumento dos salários cai por terra como um baralho de cartas.
Considerar todas as parcelas é um autentico corta fogo que termina a diarreia lógica dos esquerdistas da praça.

Se não tem efeito, poderíamos na mesma aumentar os salários.
O problema é que, ao reduzir os lucros das empresas, o aumento dos salários tem um efeito negativo nos investimentos que são lucrativos o que faz diminuir o emprego (rever O desemprego, o salário e a ignorância dos comentadores).
No mercado de trabalho encontram-se as vontades dos trabalhadores (que trabalham tanto mais quanto mais elevado for o salário) e as dos patrões (que contratam tanto mais pessoas quanto mais baixo é o salário) e o encontro destas vontades aparentemente antagónicas vai determinar o salário de equilíbrio (em pleno emprego).
Quando existe desemprego, é prova que o salário está acima do salário de equilíbrio pelo que, globalmente, todos melhoram (o PIB aumenta, o rendimento das famílias e das empresas aumenta) quando o salário diminui.
Quando existe falta de empregados, é prova que o salário está abaixo do salário de equilíbrio pelo que, globalmente, todos melhoram (o PIB aumenta, o rendimento das famílias e das empresas aumenta) quando o salário aumenta.
Declaradamente, agora que a taxa de desemprego está elevadíssima, todos melhoraríamos se os salários diminuíssem.
Todos, não só os desempregados (que passariam a ter emprego) mas também os empregados que veriam o risco de despedimento diminuir.
E os empregados como eu que, até prova em contrário, não têm risco de desemprego, também temos que ser solidários pois, caso contrário, o nosso país vai rebentar com uma taxa de desemprego elevadíssima.

Fig. 3 - A mim, nunca me faltou trabalho.

Finalmente, os 19% de desemprego.
Eu fui o primeiro a prever, em Fev 2012, que o desemprego iria atingir 19% , que iríamos ter 1 milhão de desempregados (rever, Vejo os números do desemprego com muita preocupação). Na altura, todos os meus colegas disseram que eu estava louco mas o Gasparzinho já veio dizer que o desemprego, algures nos finais de 2013, princípios de 2014, atingirá esta meta. 
A boa notícia é que estamos numa situação de paz social e as famílias estão a aguentar razoavelmente bem a redução do rendimento que o desemprego implica. NEsta parte e na balança corrente, estamos melhor que eu antecipava.
Estou moderadamente optimista que este caso de Chipre, e espero que eles não aceitem as condições da Troika, faça o nosso povo ver que o "outro caminho" que o Seguro promete e que leva seguramente ao abismo.

Como se justifica o equilíbrio da Balança Corrente com o enorme taxa de desemprego?
Em teoria, o nível de salários é uma variável que equilibra a Balança Corrente. Se a nossa BC tinha em 2009/10 um desequilíbrio de 10% que obrigava à redução dos salários para tornar a nossa economia competitiva (aumentar as exportações), a BC equilibrou sem haver redução dos salários o que "prova que os salários não repcisam descer mais" (dizem os esquerdistas).
"Esquecem-se" mais uma vez que a BC equilibra não só pela redução dos salários (aumento das exportações) mas também pelo aumento das taxas de juro (redução do crédito externo que leva à reduçãod as importações).
Se quizermos que as taxas de juro diminuam para os níveis de 1999 (e as ofretas de crédito externo) então, os salários têm que diminuir pois, caso contrário, a BC torna-se a desequilíbrar (o que impossibilitará a descida persistente das taxas de juro).

Pedro Cosme Costa Vieira

8 comentários:

vegaspar disse...

Caro Pedro deixei de ler a meio, porque parece que você não percebe que são pessoas que está a modelar, e estas são muitos menos previsíveis do que as máquinas... em lugar nenhum você valoriza a motivação ou falta dela, que faz com que o seu belo modelo falhe na adesão à realidade, e tem sido por isso que o Gasparzinho fica (segundo ele) tão surpreendido com o crescimento do desemprego. Eu atrevo-me a dizer que você só acertará em modelos onde o factor humano não tenha grande peso ou impacto, aí não tenho dúvida que concordarei consigo, nos restantes você parece-me que necessita conhecer um pouco mais, sobre a natureza humana...

Escudómilhões disse...

Caro Pedro,
Tenho acompanhado o seu blog com muita atenção e concordo com a maior parte das intervenções.
Actualmente, a discussão técnica mereçe ser recentrada em continuarmos ou sairmos do euro. O problema de Portugal é diferente dos outros PIIGS, e tem a ver com a falta de competitividade da economia (somos lentos, invejosos, burocratas e inventamos desculpas), e, simultaneamente, recursos naturais limitados, por isso não há vantagem em ter uma moeda de ricos.
Portugal tinha dois problemas à dois anos. Déficite externo e déficite do estado. É como uma família falida que ia jantar fora todos os dias com o cartão de crédito. Entretanto deixamos de ter déficite externo mas ainda temos déficite orçamental. Ou seja, só o pai continua a jantar fora e a familia consegue pagar o cartão de crédito. É uma familia feliz ...
Qual o princípio dos memorandos da Troika ? Desvalorização da moeda. Como todas as intervenções. Como não se pode desvalorizar a moeda (não é nossa), nem alterar a paridade de 200.482, a solução é baixar salários. Como ? Primeiro, reduziu-se na função pública, à espera que o privado fosse atrás. Não foi, reinventou-se a TSU e depois não deu certo, desreinventou-se. Até ao actual beco sem saída.
Quem ainda passeia em Portugal por locais que não vê diariamente, vê uma grande degradação, casas a caír, terrenos abandonados, estradas com buracos, tudo está a deixar de funcionar. Porque não há euros para pagar ordenados. Ora há mão de obra livre (desemprego) e não há manutenção braçal ? É como haver fome e terrenos ao lado por cultivar, excesso de leite e de porcos e frangos. Isto é estúpido. E só acontece porque somos ... portugueses e não há ... dinheiro. Euros. Mas pode haver escudos.
Se saírmos do euro, como moeda oficial podemos manter o euro como moeda segunda moeda. Quem já teve na Turquia teve de decidir entre liras turcas ou euros. O escudo deverá ser a nossa futura moeda interna. Sem dramas, explicando muito bem à Troika que vamos pagar o que devemos, e vamos mesmo, mas temos de recalibrar a nossa posição no triângulo Ordenados, Exportações e Importações. Não há outra solução. É preciso ir ao supermercado e notar que o que vem de fora é mais caro. É preciso saber que quando vamos ao estrangeiro as coisas ficarão mais caras para nós. E que quando os estrangeiros cá vierem é mais barato para eles. Quanto é que desvalorizaremos ? Quanto o mercado disser. Quem tem bens o que acontece ? Nada. Uma casa é uma casa um terreno continua a ser um terreno. Quem tem conta em euros ? Continua com a conta em euros. Nada. É o mesmo com quem tem conta em dólares. Nada. Quem tem ordenados em euros ? Aí passa para escudos. Recebe menos na comparação para euros ? Sim. Mas o mercado, e eu acredito nos mercados, encarregar-se-á se fazer com que o que recebemos permite comprar o mesmo de agora se for português e para aí uns 15% menos de for estrangeiro. Ou seja um professor que ganhe 1000 euros poderá continuar a comprar 1tonelada de pêra rocha por mês mas quanto a gasolina terá de andar ou mais devagar ou mais 3 dias de transportes públicos por mês. Não é drama nenhum....

André Levi disse...

Caro Professor,

Eu creio que a questão do salário não é assim tão importante quando comparado com o nosso nível atual de impostos e o estado do nosso sistema de justiça!
De que me adianta ter mão-de-obra baixa com uma justiça que não funciona, com um nível tão elevado de impostos, com tantas dificuldades ao nível do licenciamento?
Mesmo com a baixa do salário mínimo, as empresas não vão passar a contratar, visto que não conseguem escoar a sua produção. Além da diminuição da procura interna temos agora também a diminuição da procura externa, visto que a Europa está em recessão.
Se tiver 100 encomendas e não estar a conseguir aumentar esse número, não é pelo facto do salário mínimo ter diminuído que vai passar a contratar mais trabalhadores. Bem sei que o caminho do Seguro e de tantos outros não nos leva a lado nenhum, mas creio que é fundamental este Governo acordar para vida e começar e reformar à séria este país, por forma a podermos ver o investimento aumentar no nosso país e assim sim poderá ser criado emprego. Mas volto a reforçar... Sem uma justiça justa e célere, esse investimento privado não vai aparecer.

Helder disse...

Diminuindo o salário mínimo, a maior parte das empresas exportadoras (q são pequenas empresas) ficarão c os gastos c/pessoal relativamente + baixos, podendo contratar + pessoas e diminuir o preço dos seus produtos. Diminuindo o preço dos seus produtos, exportarão + para outros países. Questão da procura e da oferta.

+ pequenas/micro empresas abrirão, pois poderão contratar trabalhadores a um custo inferior, nomeadamente do sector transaccionável.

e assim começaria tudo a encarrilar

AG disse...

É uma teoria bonita, a de baixar o salário mínimo. Mas só funciona se os preços baixarem. E isso não está a acontecer.
Acho mais prioritário no momento de diminuir os custos da energia, são elevadíssimos e podem libertar mais dinheiro das empresas para a economia.

E para além disso, é preciso ver quantos trabalhadores recebem o actual salário mínimo. Serão assim tantos? Creio que não.

Luís Lemos disse...

Boa tarde professor,
costumo ler o seu blog e penso que tenho aprendido bastante.
No entanto como qualquer consumidor também estou atento à sua concorrência, e foi aí que obviamente encontrei um produto oposto ao seu.
No entanto como a linguagem não é tão acessível com a sua fiquei um bocado na dúvida com outro texto (http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2013/03/o-salario-minimo-arvore-e-floresta.html) e pedia que me pudesse elucidar melhor quanto a esta opinião contrária à sua de baixar os salários.

Obrigado

J R disse...

Divirta-se: http://tricontraditorium.blogspot.com/2013/05/o-impacto-do-salario-minimo-parte-iii.html

Foi escrito para si.

Económico-Financeiro disse...

JR,
Agradeço muito mas a análise padece de um erro: nunca o investimento pode ser menor (ou maior)que a poupança.
O investimento pode ser involuntário e não produtivo (stocks involuntários) mas verifica-se semrpe I=S.
Os bancos estão no modelo só para confundir moeda com crédito.
Um abraço,
pc

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