segunda-feira, 11 de março de 2013

Será que 2012 é mesmo a maior recessão pós-1975?

Já se sabia há algum tempo que 2012 teve um crescimento negativo de 3.2%. Mais que o problema do último ano, comparando com o ano anterior à crise do sub-prime, 2007, o PIB já diminuiu  6.3% e irá acumular em finais de 2013, previsionalmente, uma contracção de 8%.
Desde 1975, este é realmente o período de maior contracção mas o problema mais grave é que esta contracção não resulta das políticas do Passos Coelho mas é antes uma tendência de evolução negativa da nossa economia que dura desde o 25-de-abril-de-1974.

O PIB potencial.
Num determinado ano, existe uma capacidade produtiva instalada que permite atingir um valor potencial para o PIB. Ao longo do tempo, motivado por especulações e reajustamentos, a economia oscila em torno deste valor potencial, estando umas vezes abaixo deste valor (o tempo das vacas magras) e outras vezes acima (o tempo das vacas gordas).
O problema realmente grave da nossa economia é que a taxa de crescimento do PIB potencial tem decrescido significativamente ao longo dos anos. Se entre 1960-73 crescemos 6.7%/ano, no pós 25-abril-1974 reduzimos o crescimento para metade e estagnamos desde que entramos na Zona Euro.

Fig. 1 - Evolução do PIB português (dados: Banco Mundial)

Devemos usar o PIBpc.
Parte da evolução do PIB é devido ao crescimento da população que tem vindo a diminuir. Então, num primeiro melhoramento, a análise terá que ser feita em termos de PIB per capita.
Pegando na evolução da taxa de crescimento do PIB per capita (do Banco Mundial), a taxa de crescimento potencial do PIBpc é a tendência de longo prazo. Observa-se que a taxa de crescimento potencial era muito elevada nos anos pós termos aderido à EFTA (1959), teve uma quebra muito grande no período 1973/75 (o choque petrolífero / 25-de-abril) e, desde aí, tem estado continuamente a decrescer, estando há alguns anos em valores negativos (ver, Fig. 2).

Fig. 2 - Evolução da taxa de crescimento potencial do PIBpc (dados: BM)

A severidade de uma crise deve ser medida relativamente ao produto potencial
Isto é standard na análise económica.
Naturalmente que, se a taxa de crescimento potencial do PIBpc está a diminuir, as crises que vêm surgindo são cada vez mais demoradas, profundas e a retoma é mais fraca e curta.
Então, como segundo melhoramento da análise, para podermos comparar a crise actual com as anteriores, é preciso relativizá-la à taxa de crescimento potencial do PIBpc (ver, Fig. 3).

Fig. 3 - Oscilação da taxa de crescimento do PIBpc em torno da taxa de crescimento potencial (cálculos do autor)

Agora, se olharmos para a Fig.3, a crise que estamos a viver é equiparável as outras 11 crises que vivemos desde 1960 em que no ano de maior contracção do PIBpc relativamente ao potencial, em média, a perda foi de 3.6% (que compara com -2.6% de 2012).
Se acumularmos as perdas relativamente ao PIB potencial da crise de 1982, a perda acumulada foi de 11.2%, bastante superior aos 8.0% de perda previstos até fins de 2013.

O controlo da economia.
O objectivo da macroeconomia é a estabilização da economia que se mede pelo desvio padrão do PIB relativamente à tendência de longo prazo. Se esse desvio padrão aumenta, então a macro-economia está descontrolada.
O que se observa (alisamento exponencial com a = 0.5), é que, depois dos graves problemas dos anos da revolução, a macro-economia está bem controlada, tendo diminuído a oscilação do PIBpc de 3 pontos percentuais dos anos 1985/2000 para 2 pp.
Subiu no pós-crise-do-sub-prime mas mantém-se baixa o que traduz que não estamos em nenhuma espiral recessiva.

  Fig. 4 - Desvio padrão do PIBpc relativamente ao crescimento potencial (cálculos do autor, alisamento exponencial com a = 0.5)

Espremem-se os dados e eles dizem a verdade.
A análise de informação estatística obriga a haver uma teoria de base.
É quase como quando vamos ao médico preocupados porque nas nossas análises temos umas setinhas para cima e para baixo e ouvimos "está tudo bem, isto não tem importância nenhuma". Outras vezes (como foi o caso da minha mãe) ouvimos de uns números normais "isto está muito grave. Precisa urgentemente de fazer hemodiálise". Foi o longo estudo que permite ao médico encaixar os números das nossas análises numa doença ou num estado normal.
Com a economia é o mesmo e, apesar de realmente estarmos a passar por uma crise, isso não é muito grave.
O problema é a tendência de diminuição do crescimento potencial do PIB que nos tem atirado para uma crise continuada.

Termino com o Salário Mínimo Nacional.
O Passos Coelho (e o António Borges) disse que o SMN deveria descer.
Eu tenho a certeza que, se o SMN descesse, o desemprego diminuiria e o rendimento disponível das famílias aumentaria porque o impacto que teria nas pessoas empregadas seria nulo e haveria mais pessoas a receber um ordenado.
É interessante trazerem estudos de validade nula para o nosso país que dizem que o SMN não tem impacto no desemprego porque se aplicam apenas a países onde o SMN é inferior a 30% do PIBpc. Ora em Portugal o SMN já é 43.1% do PIB e tem aumentado (porque o PIB tem diminuido).

O SMN deveria diminuir para 340€/mês.
Mas não há condições socio-políticas para esta medida avançar.
Eu defendo que o SMN deveria acabar de vez.
Na Suíça e na Alemanha o salário mínimo é zero (não existe) e não consta que se viva assim tão mal nestes dois países, muito antes pelo contrário.
Seria bom fazerem um estudo que relacionasse a descida do SMN com os salários das pessoas que estão empregadas.
Nesse estudo, como indica a teoria económica, ver-se-ia facilmente que o fim do SMN não tem qualquer impacto negativo nos salários de quem tem actualmente emprego e faz diminuir, rapidamente, o desemprego.


Fig. 5 - Antigamente os esquerdista gostavam de falar muito das políticas sociais do Brasil e do aumento do SMN mas desde que o crescimento parou, emudeceram. Então crescer o SMN não tem impacto? Nos últimos 2 anos o Brasil teve um crescimento de 1.8%/ano que compara com os "fracos" 8.5%/ano da China (fomte: www.tradingeconomics.com).

O que estão os esquerdistas a defender?
Não existe nenhuma razão para uma pessoa querer trabalhar por 3.5€/hora e ter um empregador disponível para pagar este preço e o Estado proibi-lo não dando alternativas de ocupação (nem de rendimento) a esta pessoa.
Os esquerdistas querem é sangue, uma massa de pessoas no desemprego, pois nem o comunismo nem a religião sobrevivem sem massas de pobres.
Mais aquele indignado que tem uma reforma de 71000€/mês.

Fig.5 - Filhinho, anda aos alpes suiços bricar com o tractorzinho mas não penses que, por não termos SMN, a brincadeira te vai ficar barata.

Pedro Cosme Costa Vieira

1 comentários:

CsA disse...

Um pequeno à parte. Apesar de nao existir um SMN na Alemanha existe sim ordenado minimo por sector de actividade.

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