terça-feira, 2 de abril de 2013

E passaram 2 anos de resgate

Em 15 de Março recebi um telefonema da Vanessa A. Cruz, jornalista da TVI24, porque tinha lido no Diário de Notícias uma matéria do Pedro Araújo sobre a dívida pública e precisava dos dados. Lá lhe mandei e aquilo não deu em nada*.
* A Vanessa comunicou-me há pouco que escreveu uma peça: Cada portugês deve 15 vezes mais agora que em 1975.
Mas ontem a Vanessa voltou a contactar-me para eu me pronunciar sobre a evolução do resgate. Como eu gosto mais de ter tempo para pensar, pedi-lhe que me enviasse um e-mail que eu responderia num texto.
Hoje de manhã (eu levanto-me, sempre que possível, às 10h) lá estava o e-mail para guiar o meu pensamento:

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As previsões do défice, do PIB, da taxa de desemprego e outras falharam, nalguns casos redondamente; as insolvências de empresas e famílias dispararam nos últimos dois anos, o malparado também. Os depósitos, pelo contrário, até foram crescendo. A carga fiscal está cada vez mais pesada.

Que Portugal tínhamos na altura em que pedimos ajuda externa e que Portugal temos agora? Muito diferente? Melhor em quê? Pior em quê? O que podemos perspetivar até ao final da vigência do programa da troika?

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Mas este e-mail parece de uma pessoa esquerdista!**
"as previsões .. .falharam ... redondamente"?
"as insolvências dispararam"?
"A carga fiscal está cada vez mais pesada"? 
Vou ter que dar a volta a isto mas de mansinho para não quebrar pontes.

Fig. 1 - Carga pesada é esta.  Como é que lhe vou dar a volta?

** A Vanessa ficou um pouco agastada pela classificação. E tem todo o direito ao contraditório:
"Permita-me que faça uma ressalva: entendo que as minhas perguntas não parecem ser de uma pessoa esquerdista. São perguntas de uma jornalista que está a confrontar previsões com a realidade. Quando digo que as previsões falharam, e nalguns casos redondamente, que as insolvências dispararam e que a carga fiscal está cada vez mais pesada, faço-o com base em evidências."
Com muita meditação Zazen que indica que a nossa argumentação deve ser calma porque a nossa felicidade passa por termos um equilíbrio interno perfeito. Assim, esvaziei a minha mente daquele ódio visceral que se vê no olhar do Sócrates.
Inspira fundo e Uhoooooooooooooooooooooooooooooooooooo... até acabar o ar
Uhoooooooooooooooooooooooooooooooooooo...
Uhoooooooooooooooooooooooooooooooooooo...
Uhoooooooooooooooooooooooooooooooooooo...
1000 vezes
O Gasparzinho tem longos anos de prática disto.

Fig. 2 - Se eu fosse devagarinho e lhe apalpasse as mamas, será que se desconcentrava? E se fosse um missel de uma gaivota? Póhoho ...

Aqui vai a minha resposta.

Porque precisou Portugal de ajuda externa.
O pedido de ajuda externa resulta de não termos conseguido ultrapassar a crise financeira de 2002 (de que já ninguém se lembra). Depois de na década 1985/1995 (Governo do prof. Cavaco Silva) Portugal ter implementado um modelo de crescimento económico (de 3.7%/ano) sem endividamento externo, o governo do eng. Guterres conseguiu esse mesmo crescimento mas à custa de um virar da economia para os serviços e para a construção civil (com salários mais elevados do que na agricultura e a indústria) o que implicou um grande desequilíbrio das contas externas (um endividamento externo médio anual de 7.3% do PIB anual). Mas o modelo de governação pós-1995 tinha dois problemas inultrapassáveis. Primeiro, os serviços não eram exportáveis pelo que a nossa economia se viciou em endividamento externo e, mais grave, o estar na Zona Euro obriga a que o ajustamento da economia se faça à custa da flexibilização dos salários nominais o que, por convicção ideológica, foi combatido com a contratação colectiva e o aumento do SMN. Então, quando surgiu a crise financeira de 2002,  Portugal entrou num período de estagnação económica, crescimento do desemprego e crescimento do endividamento externo cujo resultado não poderia ser outro que não a nossa bancarrota de 2011. Entre 2002 e 2011, a economia cresceu apenas 0.2%/ano, o desemprego aumentou 50000 pessoas/ano e o endividamento externo médio anual foi de 9.5% do PIB anual.
Não foi o chumbo de um PEC, um almoço de amigos ou uma intriga do Sr. Presidente da República que nos obrigaram a pedir ajuda externa mas sim uma década em que Portugal esteve estagnado, perdeu 500 mil postos de trabalho e endividou-se face ao exterior em mais de 100% do PIB anual.

Fig. 3 - Como recordou o Tiago Mota, o pior do Sócrates foi o endividamento externo de 150€ por pessoa em cada mês.
Benzam-se: uma família de 4 pessoa, endividava-se 600€/mês ao exterior. Por isso é que se vivia bem. (dados: Banco de Portugal)

Mas, desde o resgate, a nossa situação económica ainda piorou mais.
Piorou substancialmente porque temos que “deitar fora” todo o crescimento económico que se baseou no endividamento externo porque esse endividamento não foi aplicado no sector produtivo de bens exportáveis. Então, agora é natural a “destruição” dos serviços e da construção civil excedentários em favor da industria e da agricultura. Infelizmente, a quase totalidade dos 25% que o nosso PIB aumentou no período 1995-2002 está condenada ao desaparecimento. É o problema do multiplicador do endividamento externo no PIB: o PIB aumenta quando nos endividamos mas contrai na hora de pagar essas dívidas mais os juros. 
No período 1995-2011 o sector da construção civil expandiu-se exageradamente porque o endividamento externo foi canalizado principalmente para infra-estruturas rodoviárias e construção de casas novas. Mas chegamos a 2011 sem necessidade de mais autoestradas ou novas casas (já havia mais casas do que famílias) pelo que, naturalmente, esse sector estava condenado a um processo de contracção. O redimensionamento do sector da construção civil às necessidades do país tem um efeito directo de levar à falência milhares de empresas e de lançar no desemprego centenas de milhar de pessoas e tem ainda o efeito indirecto da destruição de empregos no sector dos serviços de proximidade (restauração, vendas a retalho, etc.).
Apesar de a situação do país ter piorado relativamente a 2011 (e ainda vai piorar mais), essa dinâmica negativa é apenas aparente porque a nossa qualidade de vida era falsa porque se baseava em endividamento externo. É semelhante a uma pessoa que, vivendo com uma mascara de oxigénio, consegue subir o monte Evereste mas que, retirado o suplemento, asfixia imediatamente. A nossa asfixia só não foi, em 2011, imediata porque tivemos ajuda externa, mas agora temos que nos habituar a viver sem crédito externo.

O governo tem falhado em toda a linha as suas previsões.
A ajuda externa, por ser com taxas de juro muito inferiores às de mercado, tem metas que temos que cumprir. O problema é que as metas impostas para o défice público (inicialmente, 10068M€ em 2011; 7645M€ em 2012 e 5224M€ em 2013, respectivamente) são muito difíceis de atingir mas o governo não pode, à partida, dizer que não as vai, pelo menos, tentar cumprir. Então, o Orçamento de Estado como exercício de previsão para o défice público do ano seguinte, tem que ser construído com base num cenário macroeconómico, mesmo que muito optimista, que permita cumprir as metas a que estamos obrigados.
Se, por exemplo, o ministro Gaspar tivesse colocado no quadro macroeconómico do OE2013 que o PIB iria contrair 2.5% e que a taxa de desemprego iria aumentar para 18.5% (em vez dos 1.0% e 16.4%, respectivamente, que lá estão), teria que prever 1500M€ adicionais de impostos ou de cortes de despesa pública.
A parte positiva do resgate externo (que não está escrito no Memorando mas que foi dito naquela conversa do ministro das finanças alemão ao ouvido do ministro Gaspar) é que o atingir ou não as metas é um julgamento feito apenas pelos avaliadores da Troika. Assim, as previsões do governo não têm como objectivo adivinhar o futuro mas apenas que os avaliadores concordem com elas e que permitam a construção de um OE plausível. O problema de comunicação do governo é que isto (de que as previsões e as metas são um “faz de conta”) não pode ser tornado explicitamente público.
No final de cada ano, o défice público conseguido não é um número em concreto pois basta a Troika concluir que “o governo esforçou-se e atingiu a meta possível (revista)”.

E como vai ser o nosso futuro pós-troika?
Vamos terminar o plano de resgate com as nossas contas externas equilibradas o que é notável porque estas incluem o pagamento de juros do enorme stock de dívida externa que foi acumulada ao longo dos 16 anos que antecederam o pedido de resgate (acumulamos um défice externo de 140% do PIB anual). Então, vamos terminar o programa de ajuda sem precisarmos de novos financiamentos externos sendo apenas necessário ir ao mercado de dívida trocar (fazer o roll-over) as obrigações que se vão vencendo o que é possível de ser conseguido a taxas de juro baixas.  
Mas também vamos terminar o plano de resgate com uma taxa de desemprego nos 20% da população activa. Este ponto é muito negativo mas está quase totalmente fora da mão do governo dependendo mais da vontade de cada um de nós. Para que o desemprego volte aos 8% de 2004, é preciso uma descida significativa, na ordem dos 15%, dos custos do trabalho, CT. Essa redução vai sempre acontecer mas poderá ser mais lenta (e com taxas de desemprego mais elevadas) ou mais rápida (e com taxas de desemprego mais baixas).
O governo tentou uma redução dos CT pela transferencia da TSU do empregador para o trabalhador mas foi “derrotado” pela rua mas penso ser obrigação do governo tentar novas soluções como, por exemplo, voltar à transferencia da TSU ou avançar com a redução do salário nominal mas contratadas de forma voluntária ao nível do contracto de empresa ou, melhor ainda, ao nível do contracto individual de trabalhado.
Vamos terminar o plano de resgate com a poupança bruta (das famílias e das empresas) a aumentar mas ainda muito baixa (na ordem dos 14% do PIB) porque se mantém insuficiente para substituir o capital que se vai depreciando (18% do PIB) e porque ainda está muito abaixo dos níveis dos anos 1980 (20% do PIB).  A poupança baixa impossibilita o investimento o que nos prende numa armadilha de estagnação económica. Mas alterar o paradigma da sociedade de consumo vai obrigar a medidas muito duras ao nível da Segurança Social pois a principal razão para a poupança é fazermos face aos imprevistos futuros que actualmente são cobertos pelo nosso Estado Social (desemprego, doença, contingências, escolaridade dos filhos e rendimento na velhice).

E que podemos concluir destes últimos 2 anos?
Viveu-se o possível. Custa muito fazer dieta mesmo com a esperança de que vamos viver mais anos e com mais saúde.

A Vanessa escreveu esta peça.
Vanessa Cruz(2013-04-06 02:02), Portugal pós-resgate: caixa fechada, com tensão e sem saídas, tvi24.iol.pt.

A escrita jornalistica é muito complicada porque é preciso uma eneorme capacidade de concentrar ideas complexas em duas ou três pequenas frases. Sabia que o meu amigo Pedro Araujo tinha essa capacidade e vejo que a Vanessa também a tem. Parabéns.
Pedro Cosme Costa Vieira
2 de Abril de 2013

6 comentários:

Pedro disse...

pois é...até gostei da explicação, formalmente tão calma e aparentemente tão equilibrada como a "Yogger" da foto.


Mas assim como deduziu que a autora do mail seria de esquerda...eu tb fiquei com uma duvida que me leva a deduzir que esta é tambem uma "explicação de direita".

E o que me leva a concluir isto ?
(podendo obviamente estar errado nas minhas deduções)

então vejamos, quando isola o periodo 2002-2011 e refere que no mesmo foi o inicio do descalabro, das construção civil e das auto-estradas...assumindo que o periodo anterior o crescimento era constante e tal, e a industria e a agricultura do Cavaco e etcs...parace esquecer alguns promenores que gostaria de trazer para cima da mesa, deixando-lhe algumas questões objectivas.

E então passo a expor:

1- O crscimento previo a 2002, da tal era Cavaco, foi ou não "suportado" pelos FSE que entraram no pais a rodos ?

2- O desemprego na era Cavaco, foi ou não "escamoteado" com todos os processos de "Formação Profissional/ FSE"? se se recordar eram centenas, milhares até, de cursos de formação subsidiados pelo Europa, que dávam ocupação a milhares de Formadores, Formandos e uma miriade de empresas de formação ?

3- Na tal era Cavaco, quando fala de Agricultura, refere-se aos progamas de apoio a JovensAgricultores, que na epoca financiavam agricultores em barda? e que por via disto tb "escamoteavam" os numeros reais ?

4- Quando refere que desde 2002 se migrou para Serviços e Construção...esquece-se das AE e contruções (CCB, etc...) da era cavaco ?

5- Quando refere que temos de voltar á Agruicultura e afins...tb parece esquecer que na Era Cavaco, foram financiados os desmantelamentos das nossas frotas de pesca, e algumas industrias ?

6- Recorda-se por exemplo, dos mega projectos de Agricultura, da Era Cavaco, lançados no Alentejo por um tal senhor SR THIERRY RUSSEL ?

7- Da suposta "Formação Profissional" financiada pelos FSE, qual foi de facto a "mais valia"/"riqueza humana" transposta para o futuro/dias de hoje ?

8 - de todos os "jovens agricultores" financiados na "era Cavaco", quantos ainda teem os Jipes a andar? e quanto teem alguma semente plantada ?


Concluido: Nada do que aqui escrevi, contradiz aquilo que explica no seu post. Embora na minha humilde opinião tudo aquilo questino no meu comentário, seja tb causa dos dias de hoje. Se de 2002 para cá, se "martelaram" numeros e se tentou "escamotear" a realidade...verifique nas questões que lhe deixei, se já muito antes de 2002 não se estaria a fazer o caminho que nos trousse aqui?

È que isto de "diraitas" e "isqêredas" ... e coisa para lhe balancear o desequilibrio...e assim parece-me que nunca atingirá o nirvana...pois ainda pensará que é em casa do Cavaco ou qqr coisa do genero!

,o)

tiago mota disse...

os anos que portugal recebeu mais dinheiro da europa nao foi nos anos de cavaco mas depois de cavaco com aquele individuo que nao sabia fazer contas de cabeça.

ADM disse...

Caro Pedro, a sua análise está correcta.

Não o conhecia.

Fui procurar mais informação. Quando li que defende a saída do Euro fiquei chocado.

Um microeconomista, com formação em engenharia duvidar da capacidade das empresas de se adaptarem e subirem na escala de valor, é chocante. Se fosse um ignorante macroeconomista, como Pedro Arroja, essa conclusão seria expectável.

Joana Cunha disse...

Sr.Pedro,a avaliar pela falta de ética e pelas imagens associadas ao seu texto, realmente formação não é sinónimo de educação.

Manuel disse...

Cara Joana Cunha

Apesar de ninguém me ter nomeado defensor oficioso, não resisto a um pequeno comentário.
Se é de educação que falamos, então o tratamento dirigido ao autor deste blog deveria/poderia ser Professor e não "Sr.".
Quanto às imagens, apenas posso dizer que têm um texto à volta, será que não lhe ocorre dizer nada sobre o mesmo? E com tantos outros blogs por aí para ver/ler que apenas conjugam o verbo "eu acho".

zero0sete disse...

Então aquelas histórias da crise financeira e da crise da divina soberana são tudo invenções ?
E a Grécia existe mesmo ? E a Espanha ? e a Itália ? E a Irlanda ?
Espera aí! o Pedro Vieira existe ?

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