quarta-feira, 10 de abril de 2013

Está-se a aproximar a noite das baionetas

O meu amigo João Ferreira do Amaral
escreveu um livro sobre a necessidade de sairmos do Euro.
Realmente, o Euro está condenado a desaparecer. Por mais que se tente, o projecto está ferido, desde que nasceu, de morte. O fim do Euro pode não ser no próximo domingo às 20h, mas, mais dia menos dia, vai ser o fim que, como a nossa morte, se aproxima mais a cada dia que passa.
Por agora não vou comentar o livro (para não perder mais um amigo) mas vou falar sobre o Passos Coelho nada fazer em resposta ao chumbo do TC do corte do subsídio de férias dos funcionários públicos e pensionistas.
 
A melhor política é a política do nada fazer.
Decidir e fazer coisas desgasta a nossa imagem. Mesmo quando carregamos uma pessoa às costas (para a ajudar de forma altruísta), surge logo a ideia de que apenas o fazemos porque é bonita e jeitosa. Depois, ainda aparecem mais duas ou três a dizer mal de nós porque "também temos direito e não nos queres carregar".
 Fig 1  - Esta também se acha com direito e eu que aguente.

É o pão nosso de cada dia.
Entramos numa fase em que o Gasparzinho quer ir descansar, o Macedo diz que "isso não está em cima da mesa" e o Seguro só grita que não precisa fazer nem dizer nada porque quer eleições.
Quer eleições para quê se não tem nenhuma ideia?
É tão fácil governar a atirar as culpas para o abstracto.
Identifica-se alguém abstracto com  que nenhum votante se possa identificar.
Foi a técnica do Hitler que ideentificou os omunistas, judeus, ciganos, deficientes, complôt internacional, intelectuais da treta.
No nosso caso, avançam com os mercados, os especuladores, o BCE, as PPPs, os alemães, o directorio da UE.
Depois, vai-se à despesa pública e identificam-se verbas que também não pareça interessarem a ninguém em concreto.
São os juros, as gorduras do Estado, os desperdícios, as rendas excessivas.
Depois, cruza-se uma coisa com a outra e sai o discurso do Seguro.
- Baixam-se os juros dos mercados especuladores.
- Vão-se buscar os lucros imorais do BCE.
- Os alemães têm que nos compensar porque vivem à custa do que exportam para os parceiros europeus.
- Exige-se junto dos do Norte da Europa o fim da austeridade.
- A banca e as PPPs têm que pagar a crise que ajudaram a criar.
O Passos tinha muito para fazer mas já não quer fazer nada.
Como amostra do que não tem acontecido, decorridos 2 anos de Passos Coelho, continuam centenas de pessoas nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo a coçá-los. Não fazem exactamente nada e nada o governo faz para acabar com isso. Vi«olta e meia anuncia que vai fazer alguma coisa apenas para distrair o povinho. O Passos Coelho vai sair e aquilo vai estar exactamente igual a quando entrou.

O desemprego, os salários e a desvalorização.
O fim da Zona Euro vai acontecer pela dificuldade de diminuir os salários nominais.
Não existe qualquer dúvida que, para combater o crescimento do desemprego, é preciso flexibilizar os salários.

Se tivessemos o nosso Escudo.
Desvalorizávamos a moeda 25%.
Nos bens e serviços que circulam em Portugal, 40% do valor é importado e 60% é produzido cá. Então, se o Escudo desvalorizasse 25%, haveria uma inflação de 10%.
Se os salários ficassem na mesma (quando existe muito desemprego, os salários não acompanham o aumento dos preços), haveria uma redução do poder de compra dos salários em 10% que traduz a redução dos custos do trabalho.
Os preços dos bens exportados, convertidos em moeda estrangeira, diminuiriam 15% porque a moeda desvaloriza 25% mas os preços aumentam 10% por causa da incorporação de importações nos bens exportados.
O mecanismo de transmissão seria o seguinte:
     Início -> Escudo desvaloriza 25% 
               -> Preços sobem 10% e salários mantêm-se
               -> preços face ao exterior descem 15% e salários diminuem 10%
O ajustamento é quase instantâneo sendo apenas preciso mudar as etiquetas dos preços. De uma semana para a outra, haveria uma diminuição do poder de compra dos salários de 10% e uma redução dos preços dos bens exportados em 15% o que, em pouco tempo, acabaria com o desemprego.
A desvalorização afecta igualmente os salários baixos e os altos. Assim, o poder de compra do Salário Mínimo Nacional diminuiria dos actuais 485€/mês para 441€/mês.
Se os salários aumentassem 10%, haveria nova desvalorização, nova subida dos preços, nova correcção dos salários e acabávamos em hiper-inflação como no Zimbabwe. Mas isso não acontece. Por exemplo, na Islândia a moeda desvalorizou 60% e os salários subiram pouco.

Agora que temos Euros.
Podemos atingir os mesmos resultados baixando os custos do trabalho mas o mecanismo de transmissão é inicialmente mais custoso porque o ajustamento é pela diminuição dos custos:
     Início -> Salários diminuem 25% 
               -> Os custos de produção diminuem 15%
               -> Preços descem 15%
               -> preços face ao exterior descem 15% e salários diminuem 10%

Este mecanismo tem muito mais dificuldade porque é lento, a diminuição inicial dos salários é muito maior e não existe capacidade política de aplicar os cortes.
Neste caso, será preciso descer, em termos nominais, o SMN para 365€/mês sendo que a redução dos preços em 15% fará com que o poder de compra suba, em termos reais, para os mesmos 441€/mês.
O FMI (e o Passos Coelho já falou nisso) indica que o SMN tem que descer para 370€/mês que corresponde a 32.5% do nosso PIB per capita.
Como não há força política para descer os salários, implementa-se a politica do nada fazer e a economia não ajusta o que se traduz pelo enfraquecimento das exportações e o elevada taxa de desemprego.

Vejamos como a Zona Euro está errada.
Imagine o seu carro. Tem as rodas que andam em contacto com a estrada e estas estão ligadas ao habitáculo. A estrada tem altos e baixos (que actuam de forma diferente em cada roda) que são violentamente transmitidos às rodas mas a ligação por mola / amortecedor permite que a oscilação (acelerações) do habitáculo seja muito menor que a oscilação induzida nas rodas pela estrada.

Fig. 2 - Como o sistema mola / amortecedor da bicicleta tem pequena capacidade, têm que se usar as pernas para executar essa função.

Vamos imaginar que o ciclista (Fig. 2) quer descer a pista sentado. Naturalmente que vai rebentar com a bicicleta e vai derreter o ponto de ligação, os tintins.

Por isso é que uma construção em madeira resiste melhor a um terramoto que uma em betão armado: a energia é absorvida nos diversas zonas do edifício.

Com as zonas monetárias passa-se o mesmo.
A economia mundial vai oscilando violentamente ao longo do tempo e o impacto dessas oscilações é diferentes nas diversas regiões do mundo. Por exemplo, se um ano há muito calor, isso é mau para as regiões agrícolas mas é bom para as regiões turísticas.
O mecanismo de ajustamento / amortecimento do impacto das oscilações externas numa região são os preços relativos dos bens, serviços e trabalho. Por exemplo, os bens agrícolas aumentam de preço.
Mas, se a Zona Monetária for muito grande e as regiões muito diferentes relativamente ao impacto das oscilações mundiais na sua economia (o problema dos "choque assimétricos"), as oscilações dos preços terão que ser muito grandes e feitos de forma muito rápida.
Se os preços e salários não ajustarem, o ajustamento é pelas quantidades que é o desemprego e a falta de compradores (redução das exportações).
Neste caso, será preciso uma variável (a taxa de câmbio) que implemente rapidamente a maior parte do ajustamento que é necessário fazer.

Mas o Euro diminui os custos de transacção.
Pois diminui mas induz custos de ajustamento da economia que, verificamos hoje, são muito superiores à diminuição dos custos de transacção (de cambiar as moedas).
Quando tudo corre bem (quando a estrada é lisa) o Euro é um factor de progresso (não queremos molas/amortecedores na bicicleta) mas quando vem um período de crise (um buraco na estrada), a economia não ajusta (a bicicleta parte).
Globalmente, a Zona Euro conseguiu ajustar à crise de 2002, à crise de 2008 mas o efeito foi diferenciado nas economias o que levou à crise das dívidas soberanas que não parece ter solução (ver Fig. 3).

Agora, a economia não ajusta pelos preços
Alguém está preparado para uma descida média do salário em 25%?
Eu estou mas mais ninguém.

Eu previ há 2 anos que o desemprego iria atingir 20%.
E ninguém acreditou.
Em finais de Maio de 2011, ainda estávamos no princípio do Passos Coelho e eu previa que, se se continuasse a política do Sócrates de nada fazer (se não se reduzissem os custos do trabalho), a taxa de desemprego atingiria os 20%.
E previa ainda que, quando o desemprego atingisse os 20%, Portugal se tornava ingovernável.
E é o que estamos a assistir.

Não é só Portugal que não ajusta.
Em termos europeus, a taxa de desemprego não pára de crescer já estando acima dos 12% da população activa. Ajustando uma função do 2.º grau, o desemprego vai atingir um máximo de 13.5% em 2015, apenas diminuindo a partir daí.

Fig. 3 - Evolução do desemprego na Zona Euro (dados: BCE, grafismo e previsão do autor)

Eu previ que o PIB iria cair 20%.
Em meados de Outubro de 2011, comparei o ajustamento de outros países europeus e previ que teríamos uma contracção do PIB nessa ordem de grandeza.
E ninguém acreditou (rever, O PIB vai cair 20%).
Como sem trabalhadores não há produção, associado ao desemprego veio a contracção do PIB.

Será que o problema é a "austeridade"?
O problema é que não estamos em austeridade. O povinho, ouvindo o asno do Seguro, pensam que o problema está num sitio (a falta de despesa pública) quando está noutro (na dificuldade de ajustar os preços e salários relativos na Zona Euro).
Apesar de os esquerdistas atacarem com este ruído de fundo ("acabar com a austeridade") de facto, desde 2008 que os países da Zona Euro estão a injectar dinheiro à força toda na economia.
Assim, partindo de um endividamento estável em torno de 70% do PIB, em 4 anos o endividamento público aumentou 20% do PIB (ver, Fig. 2).

Fig. 4 - Desde 2008, os Estados já injectaram na economia 23% do PIB  (dados: BCE) sem qualquer resultado.

Em 4 anos, os governos na Zona Euro injectaram 2400 milhares de milhões de euros, 1650 milhões€ por dia na economia e continua-se a gritar pelo fim da austeridade.
E a economia não mostra sinais de ajustar.

Já estão a ver o problema da Alemanha?
É que, apesar da austeridade, o endividamento da Zona Euro não pára de aumentar e os povos do Sul da Europa não param de pedir mais financiamento (mais despesa e menos impostos,  o famoso "outro caminho").
E quem vai pagar isto tudo no futuro, quando a ZE, globalmente, for à bancarrota?
As sondagens dizem que nunca a Sr Merkel foi tão apreciada, estão com 64% de opiniões favoráveis.
Pelo contrário, os governos do Sul da Europa que procuram implementar as mesmas políticas da Alemanha (a contenção dos custos do trabalho e a austeridade pública), estão pela rua a amargura.

Outro indicador negativo é a taxa de juro Alemã.
Se algum dos países periféricos abandonar a Zona Euro é previsível que o Euro valorize.
Se é expectável que o Euro vá valorizar (ou a moeda que for usada na Alemanha), os aforradores ficam disponíveis para aceitar uma taxa de juro abaixo da taxa de inflação porque a valorização da moeda vai compensar a perda induzida pela subida do nível geral de preços.
Então, a taxa de juro alemã diminuir é um indicador de que o risco de fractura da Zona Euro está a aumentar (Fig. 3).
E a taxa de juro alemã está a renovar mínimos históricos (ver, Fig. 3).
Fig. 3 - Quando a probabilidade de desagregação do Euro aumenta, a taxa de juro das bunds alemãs diminui (fonte: Bloomberg)

Estou com o Marinho Pinto.
O Passos Coelho, conhecido o acórdão do Tribunal de Contas, deveria começar a trabalhar para conformar o Orçamento 2013 a esse documento.
Se o corte do subsídio de férias aos funcionários públicos e pensionistas fere o principio da igualdade então, altere-se esse artigo estendendo o corte a todos.
É um coisa simples, que não causará nenhum drama. E se for drama, pelo menos tentou.
Agora, congelar a acção e entrar numa paranóia, vai levar o governo ao fracasso total. 
Vai aguentar lá mais uns meses e sair pela porta pequena quando tem a oportunidade de ser um estadista.

Fig. 4 - Goste-se ou odeie-se, pelo menos tentou com todas as suas energias.

Estimados amigos, estou a ficar muito pessimistas.
Que isto estoure de um momento para o outro.
Como aconteceu em Chipre que não queriam, depois tiveram que pedir socorro e, mesmo assim, não há dinheiro para salários dos funcionários públicos.
O que será que o Tribunal Constitucional deles vai dizer disto?
 
Pedro Cosme Costa Vieira

2 comentários:

Diogo disse...

Caro Professor Cosme,

O Professor diz que: Como sem trabalhadores não há produção, associado ao desemprego veio a contracção do PIB."

Já que os custos do fator trabalho estão altos, as empresas podem estar a investir em tecnologias mais capital intensivas. Se for o caso, a produtividade por trabalhador está a aumentar. Ou seja, pode não seguir logicamente que mais desemprego implique quebras na produção.

Mas quanto ao desemprego queria fazer duas perguntas (1 e 2), que me acompanham desde que comecei a ler as suas ideias, que são as seguintes:

Imagine que Portugal saía do Euro e ficava com moeda própria.

1. Os sindicatos sabem que uma desvalorização da moeda nacional, embora mantenha os salarios nominais, faz reduzir os salarios reais (o poder de compra baixa).
Não poderão eles (se é que já não o fizeram) indexar os salários à inflação nos contratos de trabalho?
E se isso é possível, não perderia a desvalorização a sua eficácia?

Também gostava de saber até que ponto acha que os ganhos (artificias) de competitividade compensam a inflação importada (as importações, como o petróleo, ficavam mais caras) decorrente duma desvalorização.

2. Em Portugal, por estarmos em câmbios fixos, as políticas fiscais são eficazes para aumentar o produto. Logo, não admira que os governos as tenham vindo a adotar (nem que seja para ganhar eleições).
Ora, essas políticas expansionistas resultaram em défices orçamentais (ainda que as politicas tomadas não tenham feito o produto crescer).

Na mesma lógica, em câmbios flexíveis, os governos usariam políticas monetárias expansionistas... As (potenciais) tendências inflacionistas não o preocupam?

Muito obrigado e cumprimentos

Mundo Real disse...

Caro Pedro,
Concordo em tudo com o post. É preciso desdramatizar a saída do Euro porque é a melhor saída. Agora para mais que temos as contas externas equilibradas.
JAA

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