sábado, 13 de abril de 2013

O ajustamento da Islândia como case study

A Islândia foi dos países do mundo mais prejudicado pela crise do sub-prime. O seu sector bancário estava muito virado para o mercado americano e inglês e, com a desvalorização dos activos que se verificou nestes países em 2008, foi terrivelmente mais afectada do que nós pela crise internacional.  Mas, o facto de poder desvalorizar a sua moeda permiti que a economia digerisse rapidamente a crise.

Fig. 1 - Vê-se bem na imagem que o mar da Islândia é muito frio e bravo.

E o que separa as nossas economias?
A Islândia tem moeda própria e nós estamos na Zona Euro.
Dizem as teorias que a Islândia tem uma desvantagem relativamente a nós que resulta do risco cambial. Quando uma empresa inslandesa faz um negócio de exportação (em euros), não sabe no dia de receber o dinheiro quanto vai receber em coroas islandesas. Então, um negócio que parece lucrativo pode-se tornar em ruinoso (e vice-versa).
Mas as teorias, e eu tenho massacrado nisto, que os islandeses têm um instrumento que pode ser usado para equilibrar rapidamente a sua economia (em termos de custos do trabalho e preços relativamente ao exterior).

Vamos ver a evolução da cotação da Coroa Islandesa.
Nos sete anos entre o inicio de 2001 e o fim de 2007, a cotação da coroa esteve estável nos 85.1 K/€ com um uma variação padrão mensal de 5.6%. Neste período, a cotação média mensal máxima foi de 95.3 K/€ e a mínima foi 73.0 K/€.

A crise do sub-prime e a desvalorização.
A crise faz com que, a coroa desvalorize da média de 85.1 K/€ para fechar o ano a 180 K/€. Foi uma desvalorização de 50%.
Se no principio de 2008 a gasolina custava 90 K/ litro, no fim de 2008 tinha duplicado de preço.

A recuperação.
Vencida a desvalorização inicial, a coroa estabilizou nos 160 K/€. Comparando a cotação actual com a que existia antes da crise, a coroa desvalorizou 43%.

Será que os salários acompanharam a desvalorização?
Esta questão é crucial para que a desvalorização seja de facto um instrumento de equilíbrio da economia.
Vou considerar a manufactura porque há quem entenda que é o índice por excelência do custo do trabalho em termos de ajustamento macroeconómico (bens transaccionáveis).

Comparando com 2007, os custos do trabalho em 2012 estão 33% acima mas como  a moeda desvalorizou 43%, os custos do trabalho diminuíram quase 30%

2007  -> um período de trabalho custava 85.9 K = 1€
2012 -> o mesmo período de trabalho custa 85.9 x 1.33 = 114,3K = 0,71€

O custo do trabalho face ao exterior diminuiu de 1€/período para 0.71€/período.

Eu já só peço uma diminuição de 15%.

Não estou a pedir muito, apenas metade da desvalorização salarial que sofreram os islandeses num espaço de poucos meses.
Também, em termos relativos, a nossa crise foi muito menos grave mas está-se a agigantar porque o nosso governo não quer mexer nos custos do trabalho.
É impopular.

Vamos ver a evolução da taxa de desemprego.
Por incrível que possa parecer, a desvalorização ajustou quase instantaneamente o mercado de trabalho. A crise teve um efeito imediato de destruir 6% dos postos de trabalho mas, desde então, a economia já recuperou metade desses postos de trabalho. Em Portugal, a evolução foi mais suave (em 2008 só se destruiram 2% dos postos de trabalho) mas, entretanto, não tem parado de aumentar (ver, Fig. 2).

Fig. 2 - Desemprego na Islândia e em Portugal (dados: Satistic Iceland e INE)

E será que a inflação "comeu a desvalorização?
Como os custos do trabalho aumentaram muito menos que a desvalorização, os custos de produção aumentaram relativamente pouco pelo que a inflação acumulada até hoje foi de 47%. então, em termos de euros, os preços diminuíram 20% em euros.

E em Portugal?
Os preços aumentaram 10%.

E na Irlanda?
Os preços aumentaram 3%.

E como foi a bancarrota?
Fui muito mais violenta porque o poder de compra dos depósitos diminuiu com a desvalorização. Assim, quase de um dia para o outro, as poupanças ficaram reduzidas a metade (em termos de euros).

E a história do ingleses?
Os bancos aceitaram depósitos em libras e em euros e depois não conseguiram devolver os depósitos nessas moedas porque a coroa desvalorizou. Então, a transformação em coroas causou perdas de 4 mil milhões de euros aos não residentes.
Esse quantitativo é relativamente pequeno (muito menor que a dívida da Madeira).

Concluindo.
Penso que a Islândia é um óptimo case stude para vermos como a desvalorização equilibra uma economia.
Os custos do trabalho e os preços diminuem imediatamente relativamente ao exterior e, posteriormente, os custos do trabalho aumentam bastante menos que a inflação (33% compara com 47%) pelo que os custos do trabalho diminuem não só face ao exterior como internamente.
Então, estanca-se o aumento da taxa de desemprego.

Pedro Cosme Costa Vieira

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