sexta-feira, 19 de abril de 2013

Porque pede o Passos o apoio do PS?

É importante dar resposta a esta questão, colocada por um leitor,porque, tendo o Governo apoio maioritário na Assembleia da República, não parece ter qualquer lógica a tentativa actual do Passos Coelho de chamar o PS à tomada de decisão do governo.
Vou apresentar duas razões.

Fig. 1 - Como seria ternorento ver o Passos assim abraçado ao Seguro

1. Diminuirá o poder do CDS e dos populistas do PSD dentro do Governo.
Interessa ao CDS estar no poder (porque os seus militantes têm acesso aos benefícios do Estado) mas tem que, nessa posição, maximizar a captação de votos. Quanto mais o governo estiver dependente do apoio do CDS, mais as suas ideias demagógicas terão que ser adoptadas pelo Passos. Ter o apoio do PS fará com que diminua a capacidade do CDS marcar a agenda do Governo.
Passa-se o mesmo com os populistas do PSD, maioritariamente autarcas. Estão-se borrifando para o acontece ao Passos desde que aumente a sua influencia autárquica. Havendo apoio do PS, as vozes de burro que vão surgindo no PSD desaparecem.
 
Fig.2 - Diz o Portas, Só assino mais austeridade se me comprares meia dúzia de submarinos.

2. A ameaça do PS acabar com a austeridade estancou o caminho de redução das taxas de juro.
No curto prazo, até 18 meses, Portugal já se consegue financiar a taxas e juro bastante baixas, já com juro real negativo. Por exemplo, a última colocação 2000M€ de 18Abrl2013 a 12 meses foi a 1.394%/ano.
Com esta taxa de juro, na simulação que fiz no outro dia (Crescimento de 1.5%/ano e inflação de 2%/ano), com apenas 2% de saldo primário, reduzimos o actual endividamento de 130% do PIB para 60% do PIB em 20 anos.
É possível passar toda a nossa dívida que se vai vencendo para curto-prazo  mas envolve muitos riscos de ruptura de tesouraria do Estado.
Por exemplo, se passássemos toda a nossa dívida pública menos a da Troika para 12 meses (130MM€), seria preciso rolar no mercado de dívida soberana cerca de 1.5% do PIB cada semana (2500M€/semana).

Primeiro problema - A taxa de juro parou de descer
 Antes de entrarmos na Zona Euro, as taxas de juro eram muito superiores às taxas de juro do centro da Europa (Alemanha e França, D + Fr) principalmente porque tínhamos risco de inflação.
Mas, no processo de convergência para o Euro, a taxa de juro exigida à República foi reduzindo até ficar com um spread quase nulo face aos dois países nucleares da Zona Euro (ver, Fig. 3).

Fig. 3 - Evolução dos juros a 10 anos da dívida pública portuguesa e do "centro da ZE" (dados: BCE)

Seria bom se a nossa taxa de juro descesse para a tendência de longo prazo (3%/ano) mas o nosso primeiro problema é que, desde 1 de Janeiro, a taxa de juro deixou de descer estando estabilizada em torno dos 6.2%/ano (ver, Fig. 4).
Para esta taxa de juro, para reduzirmos em 20 anos o nosso endividamento a 60% do PIB já precisamos de um superavit do saldo primário de 6.5% do PIB, 11MM€, que não se me parece possível. Por isso, a nossa dívida de longo prazo ainda está insustentável.
 
Fig. 4 - Evolução recente das taxas de juro portuguesas de longo prazo (fonte: bloomberg)
 
O governo pensa que tal resulta do discurso agressivo do PS.
Alguém que empreste dinheiro a Portugal a um prazo de 10 anos, sabe que algures pelo meio vai ter um governo do actual PS. Então, ouvindo deles "acabe-se já com a austeridade" e "renegocei-se a dívida pública", ficam preocupados.  Qualquer pessoa de bom senso antecipa que Portugal vai piorar ainda mais a sua capacidade e vontade de pagar o que deve de forma que não quererá emprestar dinheiro a Portugal a menos que a taxa de juro compense o risco.
Se o PS se tornar a comprometer com o Memorando de Entendimento, pensa o Gaspar+Passos que a taxa de juro vai recomeçar a cair, em esperança, até atingir os 3%/ano (e na taxa a 12 meses descer a barreira do 1%/ano).
 
Problema 2 - Será possível quebrar a barreira psicológica do spread de antes do Euro?
Aqui está um problema mais grave pois traduz um descrédito de longo prazo do nosso país honrar os seus compromissos.
Antes de se das inicio à criação do Euro (em 1992), cada país tinha a sua taxa de juro que traduzia o risco de haver inflação. Nos anos 2003-2005 o nosso spread face aos países centrais (Alemanha e França) era de 4 pontos percentuais. Mas assim que aderimos à Zona Euro, o nosso spread caiu para zero.
Como a crise das dividas soberanas europeias nos atirou com spreads muito altos, a questão que se coloca agora é se, mesmo que a nossa economia responda bem, algum dia voltaremos a quebrar a barreira dos 4 pp (ver, Fig. 5). Actualmente estamos com um spread de 4.4 pp.

Fig. 5 - Será que algum dia vamos tornar a descer a barreira dos 4pp de spread?

A Irlanda ainda não o conseguiu.
No período 1993-1995, o spread da Irlanda era de 1.0pp e actualmente é de 2.1pp.

Eu já não acredito.
Por todas estas razões, o Passos está a queimar o último cartucho a ver se consegue endireitar o barco.
Talvez seja melhor termos um governo do PS com apoio parlamentar do PSD.
Ao discurso de "acabou a austeridade", as taxas de juro vão disparar. Depois o funcionamento da "política de crescimento" precisa de crédito que o PS vai tentar conseguir mandando o Galada mais o Sócrates, cheios de força, renegociar o memorando. Vão trazer um manado de urtigas.
Sem dinheiro e sem crédito, o PS vai-se ver obrigado a fazer reformas para ter algum dinheirito da Troika e aí, o PSD estará na oposição mas mais disponível para as reformas estruturais, a começar pela constituição, necessárias para termos um país moderno e rico.
Já não vimos isto em 1982-85? A tal reforma da Constituição que, partindo do PS, permitiu os Despedimentos Colectivos, os Contractos de Trabalho a Prazo e os Recibos Verdes?
 
Fig. 6 - Já não acredito que o Passos consiga segurar a nossa crise.

Pedro Cosme costa Vieira

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