segunda-feira, 22 de abril de 2013

Rogoff e Reinhart - Todos queremos fazer parte da carneirada

A discussão sobre economia nos meios de comunicação social é mais pobre que a discussão sobre o Terceiro Milagre de Fátima.
Pois ninguém fala da banhada do TMF e, pelo contrário, sobre economia fala-se muita mas dá no mesmo pois ninguém acrescenta conhecimento.
Em particular, depois de ouvir o burro do Sócrates, tenho que clarificar o que é esse estudo e contra estudo do Rogoff e Reinhart.
Depois de ouvir o Sócrates não compreendo minimamente como, no fim de 6 anos da tão brilhante governação, ele próprio teve que ir com as calças na mão pedir socorro pois estávamos na bancarrota.
Alguém é capaz de explicar a essa cabeça de tijolo que ele endividou cada português em 10 mil euros para fazer coisas que não servem para nada?

Fig.1 - Eu e o Kim Jung-Il somos estadista do mesmo nível: com meia dúzia de anos de políticas correctas, levamos os nossos países à miséria.

Vamos ao que dizem que diz o estudo.
Dizem que diz que os países mais endividados crescem menos.
Será verdade, será mentira, haverá erro no Excel deles ou dos outros, serão os dados bons ou maus?
Nada disso me interessa porque os dados estão disponíveis para quem os quiser ver e eu tenho o Excel para fazer as contas.
Claro que essa cambada de burros onde se inclui o Sócrates, não fazem ideia que os dados estão online nem como se usa o excel.
Burro só sabe comer palha e urrar.

O que disse esta semana o Sócrates?
Hói, ói, óhi, ó

Vou então buscar os dados.
Fui ao Banco Mundial buscar os dados e calculei o endividamento dos países e o seu crescimento médio nos últimos 5 anos de que existem dados (2007-2011). Usar uma média de 5 anos retira a questão do desfasamento temporal dos efeitos. consegui uma amostra com 72 países responsáveis por 80% do PIB mundial.
Deixo os dados online para verem que não arranjei dados para a China (que tornaria a estimativa ainda mais negativa, -0.0293).
Regredindo o crescimento relativamente à dívida pública com o PIB como ponderador da estimação (porque os países pequenos têm menos importância), tal como Rogoff e Reinhart obtive uma relação negativa entre endividamento público e crescimento económico (ver, Fig. 2):

       Crescimento esperado = 2.74 - 0.0212 Dívida pública (em pontos percentuais)
       R2 = 21.2%

Quer esta estimação dizer que um país com um endividamento público maior em 50% do PIB que a média, cresce em termos esperados menos 1 ponto percentual que a média. 
Apesar da relação ser, em termos médios, de razoável magnitude (se tivéssemos uma divida pública de 60% do PIB, cresceríamos mais 1.2pp do que o que temos agora potencial de crescer), pode-se ver na figura 2 que o modelo tem pouco poder explicativo (há muita dispersão em torno da recta de regressão que se traduz num R2 de 21.2%).
Mas a relação é negativa.

Fig. 2 - Relação entre crescimento económico e endividamento público (dados: Banco Mundial, cálculos e grafismo do autor)

A carneirada não quer usar a cabecinha.
É muito mais fácil ser como as lagartas procissionárias (aquelas dos pinheiros que umas seguem cegamente as outras) do que por a cabeça a pensar e tentar criticar a informação que vai sendo posto cá fora pelos esquerdistas, com o único objectivo de intoxicar o povo no sentido de que o despesismo que usaram durante 15 anos e que nos levaram à bancarrota actual, era a política certa.
Como pode ter sido a política certa se nos deixou na bancarrota?

Mas esta relação empírica não é importante.
Eu podia batalhar nesta relação negativa mas não o posso fazer pois a economia é principalmente uma ciência teórica porque não é possível fazer experiências controladas.
Por exemplo, se eu quero estudar o efeito de um novo medicamento no aumento da esperança de vida de doentes com cancro da mama. Então, pego em 100 doentes, dou a todos comprimidos exactamente iguais mas em que apenas metade deles tem o novo medicamento. Depois, vejo se existem diferenças significativas entre os dois grupos (Tenho que dar medicamento, mesmo falso, a todos para despistar o efeito psicológico).

 
Na economia eu não posso fazer uma experiência controlada.
Não posso pegar em metade dos países e fazer de conta que o endividamento público aumenta sem aumentar, e pegar noutra metade fazer de conta que o endividamento público aumenta e aumenta mesmo.
É por demais evidente que esta experiência não é possível de fazer.
Isto é conhecido na Economia como Critica de Lucas de 1975: com os dados agregados não é possível validar empiricamente as políticas macroeconómicas.
Então temos que fazer, como Galileu introduziu, uma experiência teórica imaginária.

A queda da pena.
A experiência do Galileu pretende contrariar a ideia Aristóteles de que os corpos mais pesados caem mais rapidamente.
Imaginemos um martelo e uma pena. O martelo sendo mais pesado, cai mais depressa. Agora amarremos a pena ao martelo. como o conjunto pesa mais, pela verdade Aristotélica, tem que cair mais rapidamente que apenas o martelo.

 
Vamos à experiência económica imaginária.
Verdade de Sócrates: Mais endividamento público leva a mais crescimento económico.
Então, os países vão quer-se endividar mais para crescer mais.
Como os países com maior divida crescem mais e isso implica que esses países têm mais facilidade em pagar a sua divida pública então, os aforradores vão preferir emprestar dinheiro aos países mais endividados.
Por exemplo, dizendo o BM que, em termos médios de 2007-2011, Portugal deve 85% do PIB e a Suíça deve apenas 25% do PIB então, os aforrados preferem emprestar dinheiro a Portugal relativamente à Suíça e nós teremos muito maior crescimento que a Suíça (não me parece!).
Como o país mais endividado vai ter mais facilidade em captar crédito então, temos que concluir que o mundo vai evoluir para que apenas um país capte toda a poupança mundial, ficando o país com mais crescimento do mundo e a dever milhares de milhões de por cento do seu PIB.
Isto não se observa.

 
Verdade de Rogoff-Reinhart: Mais endividamento público leva a menos crescimento económico.
Então, os países vão querer amortizar a divida para poderem crescer mais.
No limite, os países não terão divida pública.
Mas isto não acontece. Porque será?
É por causa do multiplicador de curto prazo do défice público nos votos.
Os governos são eleitos num ciclo curto e estão sempre pressionado pelas sondagens e pela rua. Ora, amortizar divida pública obriga a cortar despesa pública e a aumentar impostos o que, vemos todos os dias, tem um impacto negativo no apoio dos governos.
Então, o procurar resolver os problemas de curto prazo não permite que os estados evoluam para o endividamento zero.

Fig. 3 - Amor, deixa o blog e anda-te deitar.

Pedro Cosme Costa Vieira

7 comentários:

Bruno BaKano disse...

Acho que a sua síntese sobre o que disse o Sócrates esta semana está 100% correcta :-)

Dizem que vozes de burro não chegam ao Céu, mas como Portugal está mais perto do Inferno, estes urros chegam a todo o lado...

António disse...

Pois é mas quem levantou o problema não foi o burro do Sócrates foi o Paul Krugman será que também é burro?

vazelios disse...

O Paul Krugman não é burro, aliás, é bastante inteligente e ainda mais esperto que inteligente.

Para mim o homem quer ficar na historia, um discípulo de John Maynard Keynes.

Keynes já por diversas vezes ganhou o debate economico mundial, a Hayek, Mises, Friedman, entre outros.

O tempo e o mundo em que ele se inseria assim o ajudou. Realmente as guerras impulsionavam o consumo, e como o mundo era todo ele colonizado, qualquer coisinha ia-se roubar aos países de terceiro mundo. Havia petroleo controlado pelos ocidentais. Havia povos subjugados.

Hayek e Mises sempre realçaram a importãncia da poupança, ao invés do consumo. Da Liberdade e do investimento, ao invés do consumo. Mas quem queria ouvir falar nisso? Os baby boomers queriam era consumir, o tempo era deles.

E assim foi.

Hoje em dia, o terceiro mundo cresce a olhos vistos e nós queremos continuar a viver no século passado e Krugman é o maior palhacito desse mundo.

Ele sabe muito bem que o que diz tem importãncia e também sabe que o que diz não é inteiramente verdade. Conta meias verdades, porque é o que o povo quer ouvir.

Mas passa pela cabeça de alguém querer mais austeridade pela austeridade? Quem quer viver com menos rendimento disponivel que no ano anterior? Alguem é masoquista?

Portanto 80% da população do mundo ocidental ainda gosta é de ouvir falar de mundos cor de rosa. Estes actores anti-austeridades, keynesianos, socialistas, esquerdistas e populistas, demagogos, só querem carregar na mesma tecla de sempre, porque sabem que o João acredita. E assim vão-se mantendo no poder, porque a crise não lhes bate a eles.

Temos de mudar de politica economica drasticamente. Mas para la caminharmos temos de ter austeridade e corrigir tudo. Recomeçar do 0. Para mim até preferia austeridade ainda mais severa, mas pelo lado da despesa entenda-se. Deixando os realmente pobres de fora da equação.

De resto subscrevo o post do Professor, e sempre a fazer-me rir pelo meio.

Obrigado e cumprimentos

Mundo Real disse...

Caro Pedro
Boa resposta para o apoio do PS!!

Para fazer a chamada refundação do estado porque não se faz um orçamento de base zero inverso, ou seja dos grandes para os pequenos números em percentagens (%)? Nem que seja começar por um orçamento simulado. Ou seja:

1) Por comparação com outros países, chegar a uma % do PIB das despesas do estado e das receitas dos impostos que tem de ser igual.

2) Fraccionar esse valor (100%) em
%s das grandes despesas agregadas: juros, saúde, educação, reformas (estado e privados), etc. onde estes números em % teriam por base também outros países. E o mesmo para as receitas, por tipo de imposto.

3)Depois de chegar a estas %, recalcular o valor para euros. Algumas subiam, outras desciam, etc. Quando se diz que Portugal gasta muito em educação não sei se é verdade, porque não sei quanto representa do PIB e quanto os outros paises simulares gastam.

Isto era muito dificil de fazer ? Porque tinha mais lógica do que aplainar as despesas em 4000ME a ver quem grita mais ou menos.

Cumprimentos
JAA



Blue Rider disse...

Caro JAA, só não percebo por que é que as percentagens não podem ser diferentes em Portugal (em relação às médias), desde que assumidas politicamente por quem Governa.

Económico-Financeiro disse...

Estimado Blue Rider,
É muito dificil saber o nível da despesa pública óptima porque depende de muitos factores. Esta dificuldade é geral na nossa vida, por exemplo, não sabemos qual deverá ser a pressão arterial óptima.
A forma que a Gestão encontrou foi a comparação com casos de sucesso(o benchmarking).
No caso, se queremos que a economia cresça e o desemprego diminua, temos que ver o que temos de diferente relativamente aos países de sucesso e procurar anular essas diferenças.
Uma delas é o nível da despesa pública (que têm abaixo dos 40% do PIB) mas há mais.
Podemos querer inventar um caminho próprio (my way) mas, depois, não podemos ter inveja de a Alemanha crescer e ter taxa de desemprego baixa e nós não.
Um abraço,
pc

Blue Rider disse...

Caro PC,

Agradeço a resposta. Eu compreendo isso perfeitamente. Queria apenas dizer que acredito ser possível atingir o mesmo fim, ainda que com despesas nuns casos acima, e noutros casos abaixo, das médias de referência. O total é que teria que ser os tais 4000Ma ou mais. Aliás, a própria troika ofereceu um menu de hipóteses que, de certa forma, permitem definir um "my way". Haja é vontade política de assumir esse caminho de modo que efectivamente se criem condições para o crescimento económico.
Falta ainda uma "ideia para Portugal" (prioridades, condições, modos de fazer) que ajude a estabelecer o caminho.

Foi o que Salazar fez... (e julgo que era o que Passos queria dizer com a tal "refundação" do Estado)

"Não temos o encargo de salvar uma sociedade que apodrece, mas de lançar, aproveitando os sãos vigamentos antigos, a nova sociedade do futuro. Ela é ordeira e pacífica; ela conhece as fronteiras da Pátria, alargadas por esse Mundo, a golpes de audácia, por antepassados ilustres; ela respeita a hierarquia e diferenciação de funções como facto natural e humano, necessário ao progresso geral, ela honra e defende o trabalho, como base da prosperidade e lei inelutável da vida, fonte de riqueza e de saúde física e moral; ela tomará a capacidade e o mérito como os critérios fundamentais de valorização social; ela compreenderá, na luta incessante pelo pão de cada dia, que o homem não vive só de pão e que uma vida, esmagada pelo anseio de materialidades sem o culto dos valores morais, seria humanamente inferior e indigna de viver-se.
Nessa sociedade nova haverá certamente ainda a dor, o luto e as lágrimas – a nenhum homem é dado eximir-se a elas ou fazer que os seus semelhantes as não chorem; mas
na paz que cobre a terra trabalhada e as almas conformadas e simples, na alegria do esforço criador, na garantia do trabalho e da suficiente satisfação das necessidades, na segurança do lar e no doce convívio familiar, o homem tem providencialmente o bálsamo para a dureza da vida. Que nos importam a nós os gritos de ódio que dividem os homens e os povos, as revoltas e os crimes que aumentam a miséria em vez de diminui-la? À sombra do castelo augusto, oito séculos depois de Afonso Henriques, o nosso grito no limiar da nova idade, trabalhadores do Norte, trabalhadores do meu País! O nosso grito é: Na
ordem, pelo trabalho, em prol de Portugal!
(...)
A maior dificuldade que se tem encontrado em pôr em ordem alguns sectores da administração pública é proveniente da verdadeira hostilidade do nosso espírito a um programa de acção. Tudo na administração do Estado e na administração local, se pretende deixar à improvisação do momento, aos desejos da ocasião; a disciplina de um plano estudado, aprovado, assente, que se executa anos sucessivos custa-nos a suportar como violência ao nosso temperamento."

http://www.oliveirasalazar.org/download/documentos/Volume%20II___CC1A20C6-0A63-4D4C-A50E-F95E02AD13C4.pdf

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