sábado, 25 de maio de 2013

A desvalorização e a inflação

O Bernardo Moniz pergunta se desvalorização não leva a inflação.
Realmente, muita gente diz que a "desvalorização competitiva" leva obrigatoriamente a mais inflação que come essa desvalorização. Isto é repetido à exaustão até o meu amigo (ex?) Ricardo Reis mas não tem qualquer aderência à realidade. Nada, mesmo nada.

Porque se alteram os câmbios das moedas?
A desvalorização/valorização acontece para anular desequilíbrios da economia face ao exterior.
Se a balança corrente estiver deficitária, as reservas de divisas do banco central diminuem o que leva à desvalorização da moeda que encarece as importações e embaratece as exportações.
Se, pelo contrário, a balança corrente estiver superavitária, as reservas de divisas do banco central aumentam o que leva à valorização da moeda que embaratece as importações e encarece as exportações.
Este movimento de tesoura (importações+exportações) faz com que a desvalorização diminua o desemprego.

Porque a desvalorização não tem ligação com a inflação.
Porque a balança corrente deficitária acontece quando há desemprego elevado.
O motor da inflação começa nos custos do trabalho. Estando a taxa de desemprego abaixo da NAIRU (non-inflationary rate of unemployement), que é na ordem dos 6% da população activa, a desvalorização leva à diminuição do desemprego, aumento do PIB e não leva a aumento da inflação. No caso português, a taxa de desemprego de 18% é muito superior à NAIRU pelo que uma desvalorização, mesmo de 30% ,não teria qualquer efeito inflacionário.

Já estou farto de conversa, vamos a um exemplo.
Os nosso comentadores acham que uma desvalorização da nossa moeda em 30% seria uma tragédia total para o nosso país. Mas esquecem-se de dizer que, por exemplo, entre 2002 e 2004, o dólar americano desvalorizou 35% face ao euro (e 48%  entre 2001 e 2008) e não cosnta que tivesse acontecido nada de trágico por lá (ver, Fig. 1).

Fig. 1 - Cotação diária do USD/Euro, 4:1:1999 / 24:5:2013 (dados, BCE)


Como evoluiu a inflação nos USA?
A desvalorização americana entre finais de 2001 e princípios de 2004 poderá ser uma simulação do que irá acontecer a Portugal quando sairmos do Euro. eu penso que a desvalorização será bastante menor, metade deste valor, mas vamos ver este caso como um exemplo ilustrativo do nosso futuro.
Contrariamente ao que dizem os economistas da praça, no período de maior desvalorização do dólar americano, foi quando a inflação dos USA foi mais baixa. Se antes (e depois) a inflação era de 3.3%/ano, entre 2002 e 2004 desceu para 2.0%/ano (ver, Fig. 2).

Fig. 2 - Inflação USA 1:1999 / 5:2008 (fonte: tradingeconomics, US Bureau of Labor Statistics)

E o desemprego?
Ali por volta de 2001-2002 houve uma crise global que estava a fazer crescer o desemprego nos USA. Pumba, uma desvalorização de 35% e vamos ver o que aconteceu. O desemprego parou logo de aumentar e começou a descer até atingir os 4% da população activa.


Fig. 3 - Desemprego USA 1:1999 / 5:2008 (fonte: tradingeconomics, US Bureau of  Labor Statistics)

E como evoluiu o desemprego em Portugal?
Tivemos a mesma crise de 2001/2002 e, desde então, o desemprego não parou de crescer.

Fig.4 - Evolução do desemprego em Portugal (fonte: INE e exercício de previsão)

Penso que os dados convencem.
Penso que os dados que apresentei são irrefutáveis mesmo pela mente mais brilhante.
Quando há uma economia tem um desequilíbrio das contas externas (como temos) e uma elevada taxa de desemprego (acima da NAIRU), o caminho é a desvalorização não havendo risco de a inflação induzir um ciclo de desvalorização.

Sobre o palhaço do Miguel Sousa Tavares.
É completamente ridiculo o Cavaco Silva sentir a instituição Presidencia da Républica porque alguém disse que ele Cavaco Silva (e não o Presidente da República Portuguesa) é um palhaço.
Palhaço é uma profissão digna como sapateiro, ourives, professor, juiz ou médico. Todas as profissões são igualmente dignas.
Naturalmente que qualquer palhaço se pode candidatar à presidencia da república e, se o povo votar nele, teremos um palhaço a chefe de estado. Isso não faz com que o cargo seja palhaço.

Não foi nada grave.
O MST não disse que o povo deveria pegar em armas e derrubar o regime (como diz repetidamente o Otelo).
Nem chamou gatuno, vigarísta, tóxico como eu ouço regularmente na TV?
E aqui não é crime? É só o MST dizer que o Cavaco Silve é um palhaço?

É o retornar da técnica do Salazar
Para o Salazar não interessavam as massas mas atacavam individuo a individuo para fazer nascer o medo no individuo.
É como a técnica do Salazar de usar a "segurança do Estado" (que continua a ser um crime) para meter os opositores na cadeia.
É isso que se está a ressuscitar em Portugal: o medo.
Temos todos os dias que estar atentos para que o autoritarismo não renasça.

Estou em greve de fome em defesa da liberdade de expressão.
Hoje, entre as 10h30 e as 13h00, estou em greve de fome como luta contra o atentado às liberdade de expressão do MST.

Fig. 5 -Efeito de 2h30 de greve de fome e um toquezinho de fotoshop.

Pedro Cosme Costa Vieira

7 comentários:

Vasco Pereira disse...

os USA não têm inflação nos dados adulterados pela administração americana. e só não é maior porque ainda tem o dollar como moeda universal, por isso exportam inflação. do maneira como imprimem dollars, não me parece que seja saudável para quem tem dollars.
não concordo que desvalorizar moeda será bom, se não a moeda que valesse menos seria a melhor economia. pobres dos australianos, suiços, noruegueses ou new zelandeses. estes sempre têm mais capacidade para comprar bens ao exterior que lhes permita aumentar a sua qualidade de vida. nós se tivermos uma moeda fraca não compramos aos que têm moeda forte (economia forte) logo consumimos produtos da nossa economia, que nos dão pouca qualidade de vida. para a aumentarmos deviamos ter moeda mais forte para poder trocar com bens de melhor qualidade de outros países. parece-me melhor ter moeda forte que fraca.

Vivendi disse...

De acordo com o Vasco Pereira.

Atualmente a grande exportação dos EUA são os dólares e principalmente a China lá vai aceitando para manter os seus empregados entretidos a exportar. Quando seria muito mais benéfico valorizar o yuan e assim aumentaria naturalmente o padrão de vida dos chineses.

Quanto aos dados do índice de inflação faz décadas que os gráficos não são fiáveis.

Caso o € valorizasse para o dobro do dólar não haveria certamente portugueses a passar fome.

Kão Vadio disse...

Naturalmente devo estar a ler o gráfico de forma errada....mas se um euro valia 1,2 dólares e agora só vale 0,7, isto mostra que o euro desvalorizou face ao dólar ou então que o dólar valorizou face ao euro... não estou mesmo a perceber....

Talvez no gráfico devesse estar indicado no eixo vertical esquerdo dol/eur em vez de eur/dol...é que não é a mesma coisa...

Diogo disse...

Caro Kão Vadio,
é meramente uma questão técnica, mas no gráfico está a cotação ao incerto (€/1USD)
Ou seja, 1USD valia 1.2€ e agora 1USD vale 0.7€

Logo, o dólar desvalorizou face ao euro.

Bernardo Botelho Moniz disse...

Mas o professor tem de concordar que esse desemprego de 4% nos Estados Unidos não durou muito... E porquê? Porque não era um desemprego sustentável! A manipulação do dinheiro e da moeda por parte do Estado (e entenda-se que a desvalorização é uma manipulação do valor do dinheiro) leva a que a uma expansão creditícia se siga um crash! Neste caso foi no mercado imobiliário!

Não duvido que a desvalorização possa de certa maneira atenuar as assimetrias em relação ao exterior e levar a maior competitividade! Mas há inconvenientes! É preferível do ponto de viste económico fazer o ajustamento pelo lado do sistema de preços: salários! Não concorda?

skeptikos disse...

Há quem diga exactamente o contrário:

«In the U.S., the last several years have witnessed an unprecedented expansion of the money supply. Even America’s failed experiment with Continental currency, while incorporating a larger expansion of the money supply, is not truly comparable. For in Revolutionary War-era America, alternative currencies were readily accessible and used in the daily course of business, thus providing a measure of ability to disengage from the failing Continental money. But no such options exist for today’s Americans who must transact their daily business in U.S. dollars. So while the Continental dollar was disastrous, the future situation for today’s dollar may prove far worse.»

http://mises.org/daily/6432/Killing-the-Currency

Económico-Financeiro disse...

Estimado Skeptiko,
Em 2000-2010 a quantidade de dolares em circulação aumentou 5.2%/ano. Realmente, desde 2000 tem aumentado mais, na ordem dos 9%/ano que se verifica sempre que se antecipam de crises economias (as pessoas preferem liquidez).
Mas, ainda assim, existem menos dólares e circulação que euros.
Mas este poste não pretende avaliar a Teoria Quantitativa da Moeda mas apenas dizer que não existe uma ligação entre desvalorização (do escudo) e inflação.
Um abraço,
pc

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