segunda-feira, 13 de maio de 2013

A moeda, o crédito, o financiamento e o juro - parte 2 - O sistema de preços

Na tentativa de explicar que o sistema monetário não tem nada a ver com o sistema bancário (a poupança e o endividamento), descrevi no primeiro poste o funcionamento do crédito, financiamento e juro e de como o sistema bancário pode existir sem haver moeda. Para isso considerei uma economia em que apenas existe poupança de galinhas.
Mas na economia onde vivemos, por um lado, são produzidos milhões de diferentes bens e serviços e, por outro lado, cada pessoa trabalha numa empresa que produz um pequeno número de B&S. Como as pessoas querem emprestar e pedir emprestado uma grande multiplicidade de B&S (que torna o sistema muito complexo) e também cada individuo quer consumir B&S que não produz então, é necessário que existam trocas entre as pessoas. Mas para que isso seja possível é preciso que exista um sistema de preços.
Podemos pensar que o sistema bancário apenas funciona com galinhas mas que as pessoas que têm outros bens, trocam-nos por galinhas que depositam no banco e quem quiser pedir emprestado sapatos, pede emprestadas galinhas ao banco que depois troca por sapatos.

O sistema de preços.
Imaginemos que uma pessoa trabalha numa fábrica de sapatos. Naturalmente que a única coisa que pode receber como pagamento do seu trabalho são sapatos, 30 pares por mês. Mas o trabalhador não precisa de tantos sapatos querendo, pelo contrário, electricidade, roupa, pão, transportes, telecomunicações, etc. Então, tem que haver um sistema de trocas em que o sapateiro possa trocar os sapatos que recebe por outras coisas que quer ter e não recebe.

A relação de troca.
Se eu quero trocar sapatos por pães, eu tenho que saber quantos pães eu obtenho por cada par de sapatos, por exemplo, 300 pães por cada par de sapatos. Esta relação de 1:300 é a relação de troca entre sapatos e pães.
Também haverá uma relação de troca entre sapatos e camisas, sapatos e chamadas telefónicas, etc. e também entre camisas e pães, pães e chamadas telefónicas, etc.
Se houver 10 mil B&S na economia, haverá quase 50 milhões de diferentes relações de troca  mas parcialmente relacionadas. Por exemplo, com as relação de troca sapatos:pães e sapatos:camisas posso calcular a relação de troca pães:camisas.

Simplifica se tivermos uma referência de valor.
Haver relacionamento entre as relações de troca indica que, em termos de informação, podemos condensar todas as relações de troca a 9999 relações de troca de cada B&S a um determinado bem referencia, por exemplo, gramas de ouro. Agora, vou chamar Preço à relações de troca do Ouro com o B&S.
          1 par de sapatos  -> 10.31 kg de galinha
          1 pão                   ->    0.03 kg de galinha
          1 camisa              ->    3.17 kg de galinha
          ...
Agora, tendo na economia em que vivemos 10000 bens e serviços, em vez de 50 milhões de relações de troca já só preciso ter 10000 preços (relações de troca com a galinha).
Agora, o meu trabalho que resultava em 30 pares de sapatos, também tem um preço :
          1 mês de trabalho do sapateiro -> 309.10 kg de galinha

A galinha é um bem como outro qualquer.
A referencia para o preços dos B&S poderia ser uma coisa qualquer. historicamente, surgiu o Ouro que tem a vantagem de parecer um bocadinho de Sol (a fonte da vida), não se deteriorar com o tempo, ser difícil de falsificar e ser de difícil multiplicação (não se pode criar).

Ainda não existe confusão entre B&S e moeda.
Apesar de eu referir todos os preços a galinhas, não é preciso eu trazer galinhas no bolso. Basta eu ter essa referencia, por exemplo, a memoria das pessoas ou numa tabuleta colocado à porta do "cantineiro" (como acontece com a cotação de activos transccionados na bolsa de valores mobiliários) onde se afixam os 9999 preços referentes a todos os bens e serviços produzidos e trocados na economia.
O sistema de contabilização pode ser apenas um caderninho centralizado no "cantineiro" onde vão sendo lançadas todas as transacções, a dinheiro ou a crédito e calculado o saldo de cada pessoa (que funciona como o dinheiro no bolso).

Mas o preço absoluto é indeterminado.
Dos 10000 B&S eu consigo ter 9999 preços relativos às galinhas e o preço da galinha é unitário (o preço de 1kg de galinha é 1 kg de galinha).
Se os preços forem

          1 par de sapatos  -> 10.31 kg de galinha
          1 pão                   ->    0.03 kg de galinha
resulta que 1 par de sapatos é equivalente a 343.7 pães. Mas se os preços fossem antes

          1 par de sapatos  -> 1031 kg de galinha
          1 pão                   ->       3 kg de galinha
continuava a resultar que 1 par de sapatos é equivalente a 343.7 pães.
Então, o "meu" sistema de preços consegue registar o preço relativo entre quaisquer 2 bens mas não consegue um valor absoluto para os preços.
Como será que esta indeterminação pode ser "levantada"?

Fig. 1 - Se conseguires manter isso estável, mesmo que não saibas cozinhar, caso já contigo.

O Ouro como moeda.
Vou agora pedir que, em vez de galinhas, passemos a usar o Ouro como moeda porque a quantidade é praticamente fixa. No Mundo existe na forma de metal cerca de 170 mil toneladas de ouro (24 g por cada humano) e esta quantidade aumenta 1.5%/ano principalmente por causa da África do Sul, Austrália e USA (somam 40% da mineração mundial).
Fixemos na nossa mente que a quantidade de ouro aumenta 1.5%/ano.

A moeda como reserva de valor.
Se a moeda não tiver existência física, seja na forma de moedas ou de um registo num livro, as transacções têm que se feitas em simultâneo e em valor equivalente. Por exemplo, se os preços relativos permitem que eu troque um par de sapatos por 50 pães, 500 chamadas telefónicas e uma camisa, eu tenho que arranjar forma de a troca entre o meu bem e os outros 3 bens se realizar em simultâneo. Naturalmente que isto cria muitos problemas pois é impossível que a mesma pessoa queira um par de sapatos (do número que eu tenho) e que tenha disponíveis para troca os 3 bens que eu pretendo.
Para resolver este problema vou ter que cortar as trocas usando a moeda como intermédio das trocas.

A moeda como reserva de valor permite pagamentos diferidos no tempo.
Agora cada troca vai ser dividida numa venda e numa compra.
A venda será eu trocar o meu par de sapatos por 1.031g de Ouro que guardo até realizar as compras dos pães (a uma pessoa), das chamadas telefónicas (a outra pessoa) e da camisa (a uma terceira pessoa) a quem entrego o Ouro onde eu tinha "guardado" o preço do meu par de sapatos.
Eu posso "guardar" valor nas moedas para pagar compras que vou fazer no futuro. Ao deter moedas (mesmo que isso seja apenas um registo num livro), vou "guardar" recursos para o futuro podendo assim fazer pagamentos diferidos no tempo.

Agora começa a confusão entre bens e moeda.
Eu recebo 30 g de Ouro pelo meu trabalho de 1 mês porque o meu patrão vende sapatos (em troca de Ouro) e consegue pagar as peles e demais factores de produção e ainda ficar com 30 g de Ouro para pagar o meu salário.
Com os 30 g de Ouro eu vou comprar, ao longo do mês, B&S que vou consumindo.
Se eu comprar B&S de forma constante ao longo do mês, em média vou ter 15 g de Ouro no bolso.

Os preços absolutos - a restrição de liquidez.
Agora já estamos preparados para compreender porque os preços têm um determinado valor em termos absolutos.
É que a quantidade de Ouro é fixa, 24 g de ouro por pessoa, crescendo 1.5%/ano.
Como as pessoas precisam ter na sua carteira moedas para poderem separar o momento em que realizam as vendas do momento em que realizam as compras, o nível de preços vai compatibilizar a necessidade das pessoas terem moeda em termos de capacidade de comprar B&S (valor real) com a quantidade física de moeda que existe (valor nominal).
A quantidade em termos de valor real que as pessoas precisam ter, m, vai ser igual ao valor nominal de moeda que existe (kg de Ouro), M, a dividir pelo nível geral de preços, P.

    m = M / P

O nível geram de preços é o preço médio de todos os B&S transaccionados na economia e dá o preço do Ouro relativamente à média dos preços (o preço da moeda é o inverso do nível geral dos preços, P).
A quantidade de moeda em termos real que eu preciso ter na carteira é proporcional ao meu rendimento. Então, vou ter uma igualdade em que, de um lado tenho a quantidade m de moeda e, do outro lado, tenho as necessidades de moeda como uma percentagem do PIB. Por convenção representa-se essa percentagem como 1/V em que V é a velocidade de circulação da moeda (quantas transacções são feitas com a mesma moeda num ano)

    m = PIB / V

É a teoria quantitativa da moeda.
Igualando a quantidade de moeda que existe com a quantidade de moeda que é precisa, obtemos uma relação que determina o nível geral dos preços em função da quantidade física de moeda que existe, M, de quantas transacções uma moeda faz por ano, V, e do valor do PIB: 

       M / P = PIB / V    =>      P = M x V / PIB 

Se a velocidade de circulação, V, diminuir porque as pessoas passam a guardar as moedas  mais tempo ou se o PIB aumentar ou a quantidade de moeda M diminuir, o nível geral de preços, P, vai diminuir (haverá deflação) e vice-versa.
Em particular, se a quantidade de moeda, M, aumentar, o nível geral de preços, P, vai aumentar (haverá inflação).
Estando, desde há 40 anos, o PIB mundial a crescer 3.0%/ano (ver, Fig. 2) e a quantidade de ouro 1.5%/ano então, os preços (em ouro) têm tendência a cair 1.5%/ano (o Ouro aumenta o seu poder de compra por kg em 1.5%/ano).

Fig. 2 - Crescimento do PIB mundial, 1961-2011 (dados: Banco Mundial)

Vamos ver a velocidade de circulação do ouro.
O PIB mundial são 70 mil milhares de milhões de dólares americanos.
A cotação do ouro é de 50 dólares americanos por grama e existem cerca de 175 mil toneladas de ouro. Estas relações traduzem que a velocidade de circulação do ouro é 8 vezes por ano. Em média, ao longo de uma ano, uma moeda de ouro é usada para intermediar 8 compras/vendas. Entre cada duas transacções, a moeda de ouro fica parada 45 dias.

A quantidade de moeda não tem efeito real.
O Ouro não são bens e serviços mas apenas um sistema contabilístico que regista o saldo de todas as compras e vendas de bens e serviços que cada pessoa fez no passado. Se eu vendi coisas mais valiosas que as coisas que eu comprei então, tenho saldo positivo que posso usar em compras futuras. Se eu vendi menos coisas que as que comprei então, tenho saldo negativo que tenho que compensar com vendas a realizar no futuro.
 Haver mais ou menos kilos de ouro em nada influencia o PIB. A única coisa que vai acontecer é que, quando a quantidade de moeda aumenta (mais kg de ouro), os preços aumentam (o ouro desvaloriza) e vice-versa.
Por exemplo, se, de um dia para o outro, fosse descoberto um tesouro com 175000 toneladas de ouro, duplicando a quantidade existente no Mundo, os preços em termos de ouro duplicariam ( => a cotação do ouro desceria para metade).


Fig. 3 - Os meus colegas ensinarem que mais inflação leva a mais crescimento económico (e menos desemprego) é um crime do calibre de ensinarem em medicina que uma sangria diminui o colesterol, digo eu que não sei nada de economia (dados: Banco Mundial, médias 2005:2011, 180 países, ponderado pela população).

Moeda Fixa e crescimento do PIB => deflação.
Apesar de os comentadores dizerem repetidamente que a deflação é algo nunca visto, de facto, durante todo o tempo de duração do Império Romano foi exactamente isso que se observou. Na Europa não existiam jazidas significativas de ouro pelo que a quantidade era praticamente fixa. Como o PIB crescia e a quantidade de moeda, Ouro, era fixa, os preços tinham que cair para se manter constante a relação M/P.

A velocidade de circulação é estável no longo-prazo mas variável no curto-prazo.
No passado (antes de 1950), os governos pouco se importavam em estabilizar os preços.
Havia uma determinada quantidade de moeda em circulação e, quando as pessoas queriam ter mais moeda, os preços caiam (deflação => a moeda física valorizava) e quando queriam menos moeda, os preços subiam (inflação => a moeda física desvalorizava). As pessoas tinham sempre os mesmos kilos de ouro que umas vezes valia mais (havia deflação) e outras vezes valia menos (havia inflação).
Só depois da WWII, os governos começaram-se a preocupar com a estabilização dos preços porque deu-se conta que as oscilações criavam dificuldade no ajustamento da economia.

Como se pode variar a quantidade de moeda em circulação?
Vamos supor que o governo quer manter os preços estáveis (inflação nos 0%/ano). Para um crescimento económico de 3%/ano, a quantidade de moeda em circulação tem que aumentar 3%/ano.
Apesar de o Japão tem como política a manutenção do nível geral de preços, política que a China também manteve entre 1996 e 2003, o aceite actualmente como bom é manter a inflação em torno dos 2%/ano (ver Fig. 4). Mas se for outra taxa qualquer, também não vem grande mal ao mundo (ver, Fig. 3).

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Fig. 4 - Evolução do nível geral de preços, 1995:2011 (dados: Banco Mundial)

A estabilidade de preços no longo-prazo.
Se a moeda fosse o ouro que cresce apenas 1.5%/ano, como o PIB mundial cresce 3.0%/ano, no longo-prazo haveria uma tendência de queda dos preços (deflação de -1.5%). Mas para a nossa análise não nos interessa qual o nível que o governo determina qual deve ser a taxa de inflação de longo-prazo. Vamos supor que a quantidade de ouro aumenta exactamente 3.0%/ano de forma a que a inflação seja 0%/ano.

A estabilidade de preços no curto-prazo.
Mas, no curto prazo, as necessidades de moeda variam muito (a velocidade de circulação da moeda diminui nos períodos de crise) pelo que o governo que quer manter o nível geral de preços estável tem que ter à mão formas de aumentar rapidamente a quantidade de moeda em circulação quando os preços têm tendência a cair e vice-versa.
Agora, existem várias formas de o fazer.

O uso do sistema orçamental no controle da inflação.
É um sistema conceptualmente muito simples e a mãe de todos os outros sistemas. Neste sistema não existe taxa de juro mas apenas o saldo do Orçamento do Estado.
Vamos supor que existem em Portugal 400t de ouro em circulação (correspondente a 8.3% do PIB, 40 g por pessoa) e que o governo tem, adicionalmente, 100t de ouro em reservas monetárias (2% do PIB) que vai usar para manter a inflação estável.

Quando a inflação estiver abaixo do objectivo,  -1%/ano do objectivo, o governo vai ter que usar parte das reservas cambiais para aumentar a quantidade de moeda em circulação em 1% (+4t de ouro) o que consegue aumentando o défice público no valor correspondente às 4 t de ouro (140 milhões€) pelo aumento da despesa pública ou pela redução dos impostos. O governo vai financiar o aumento do défice com as reservas monetárias.

Quando a inflação estiver acima do objectivo, -1%/ano do objectivo, o governo tem que reduzir a quantidade de ouro em circulação em 1%, 4t, aumentando as reservas monetárias. Agora, o governo vai ter que ter superávite de 140 milhões €. Vai ter que reduzir rapidamente a despesa pública ou aumentar os impostos. O governo vai retirar moeda de circulação guardando parte dos impostos (em ouro).

Este sistema é perfeitamente adequado para controlar a taxa de inflação. No entanto, o governo tem que ser capaz de manter sólidas contas públicas e completamente "escravas" do objectivo de control da inflação. E, reparando como funcionam os nossos governos, isso é muito difícil de conseguir.

Fig. 5 - É possível ser feito mas ouvindo os ex-governantes que se tornaram comentadores de economia, é muito difícil que se consiga fazer.

Sob o padrão ouro (a quantidade de moeda é fixa), quando um governo queria "politicas fiscais expansionistas" durante muito tempo, esgotava as reservas de ouro deixando de poder controlar a inflação. As politicas monetárias expansionistas não têm qualquer efeito no PIB (rever, Fig. 3).

O sistema orçamental não confunde com o sistema bancário mas confunde com o Orçamento de Estado.
Este sistema de controle da inflação não tem qualquer intersecção com o sistema bancário (o credito, débito e o juro) mas confunde o conceito de umas contas públicas equilibradas  com uma politica monetária expansionista.
Este sistema tem a vantagem de ser um sistema intrinsecamente estável.
Quando há crises, as pessoas querem deter mais moeda (a velocidade de circulação diminui) havendo necessidade de aumentar a quantidade de moeda em circulação. Se nada for feito, há deflação.
Por acaso, quando há crises, a receita fiscal diminui e a despesa pública aumenta (há défice público). Financiando o défice com as reservas monetárias, há uma correcção da deflação e consegue-se financiamento para o défice público.
Nos períodos de expansão, o mecanismo funciona em sentido contrário.

Acabo por aqui mesmo.
Agora que já consegui ter um sistema de preços sobre um sistema monetário em que se consegue controlar o nível geral de preços sem usar qualquer taxa de juro, penso que posso parar por aqui.

Podia falar um pouco da actualidade política.
O FCPorto já estava morto havia várias semanas e cheirava mal. Não foi num domingo, ao 3.º dias por 5-0, mas apenas ao 91.º minuto de um dia de Sabatt.
Aleluia que o bicho ressuscitou.

Passou-se o mesmo com um fulano búlgaro.
O primeiro-ministro búlgaro, Boyko Borisov, demitiu-se em Fevereiro de 2013 porque toda a gente protestava nas ruas contra a austeridade.
Agora, vamos-nos benzer. Não é que Domingo houve eleições na Bulgária e o homem ganhou-as?
Por isso, Passos aguenta-te que, mesmo com os do teu partido contra, sem 2015 vais ganhar.
Depois de medidas tão duras, o silêncio da rua demonstra que o nosso povo sabe que vamos no bom caminho.
É que já nem os fulanos da CP fazem greve.
Devias era ter a coragem de permitir que, nos privados, os salários desçam e o horário de trabalho aumentem, voluntariamente.

Pedro Cosme Costa Vieira

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