terça-feira, 28 de maio de 2013

O erro keynesiano

No Sábado fui até à praia com um colega meu que me falou de um artigo muito interessante do Michael Spence, prémio Nobel da economia de 2001, sobre a crise europeia. Mandou-me o link e estive a ler.
O artigo tem algumas ideias boas para compreender a crise que vivemos e conselhos que eu tenho andado a martelar. No entanto, ninguém é perfeito. O Spence tem um texto mal organizado e com incongruencias porque mistura ideias keynesianas, esquerdista, com clássicas mas eu vou resumir o que tem de bom.
Num prato de comida, se há coisas menos boas, pomos de lado.
 
Fig. 1 - Uma pessoa pode ter boas ideias misturadas com asneiras da grossa. Só temos que aproveitar o que é bom.
 
As principais ideias do artigo Learning About Growth from Austerity, Michael Spence
 
Primeira ideia - Reinhart e Rogoff identificam uma relação negativa entre endividamento público e crescimento. Apesar de poder haver erros na folha de cálculo, ninguém questiona a existência desta relação negativa.
 
Segunda ideia - O endividamento (externo) persistente no tempo é negativo pois des-estrutura a economia favorecendo o sector não transaccionável e prejudicando o transaccionável (que pode ser exportado /  importado). Depois de uns anos de endividamento externo (no caso português, 15 anos), atingiu-se um endividamento excessivo que obrigou à correcção rápida da situação (em 2 anos). Esta correcção obrigou a reverter rapidamente a des-estruturação económica (transaccionaveis/não transaccionaveis) o que tem por efeito a destruição massiva de postos de trabalho (dos sectores não transaccionaveis) sem haver uma igualmente rápida recuperação no sector transacionável (motivado por rigidez da economia).
No tempo do Sócrates, endividavamo-nos 1500 milhões € por mês e agora estamos positivos (Dez2012 a Marc2013, um saldo positivo de 578 milhões €) (ver, Fig. 2). A evolução das nossas contas com o exterior, a balança corrente, é estraordinária precisando de um poste.
 
Fig. 2 - Evolução da balança corrente portuguesa (Dados: Banco de Portugal)
 
Terceira ideia - O crescimento económico e o emprego resultam apenas de crescimentos na produtividade. O endividamento externo, sendo expansionista da procura, silencia as dificuldades estruturais da economia que dificultam o crescimento da produtividade. As principais falhas estruturais são a rigidez do mercado de trabalho, as deficiências do sistema de ensino e a falta de investimento. Apenas quando chega a hora de pagar é que ouvimos essas dificuldades a gritar.
O desestruturar / re-estruturar  prejudica a tendência de crescimento de longo-prazo.
 
Quarta ideia - O ajustamento tem que ser resolvido principalmente pelos privados mas está dependente da vontade dos governos em levar a cabo reformas estruturais (que flexibilizem o mercado de trabalho e facilitem o investimento produtivo), única forma de melhorar as perspectivas de crescimento de longo-prazo.
 
Quinta ideia - Apesar de estímulos fiscais poderem atenuar a trajectória do ajustamento económico, isso não é possível nos países europeus em crise porque pagariam taxas de juro muito elevadas e crescentes (o prémio de risco aumentaria).
 
Sexta ideia - Os políticos pensam que o banco central pode resolver o problema de curto-prazo do ajustamento. Apesar de terem feito um papel importante, os bancos centrais não têm instrumentos que permitam acelerar o caminho para a recuperação. Medidas mais interventivas, levariam os países periféricos a voltar às políticas de endividamento externo, suspendendo o processo de ajustamento estrutural que tem que ser feito.
 
Conclusão - Actualmente, os países periféricos europeus têm problemas difíceis para resolver que resultam de terem baseado as suas politicas economicas em "caminhos de crescimento" naives e incompletos que os fizeram eleger o endividamento externo como motor do crescimento económio. Agora, a austeridade pode ser dura, mas é necessária. Ao menos que estes tempos difíceis façam com que as pessoas aprendam o valor de terem um crescimento equilibrado (sem endividamento externo), nunca mais voltando a ser utilizado o endividamento externo como o motor de longo-ppazo do crescimento económicos.
 
Eu tenho dúvidas que tenhamos aprendido alguma coisa.
 
 
Vamos ver o que pensam os keynesianos.
1. Apenas há necessidade de produzir se houver alguém que queira comprar.
Isto traduz que o principal da economia é a procura. A economia vai se puxada pela procura agregada, seja consumo, investimento ou exportações.
Vamos supor que o consumo, investimento e exportações são 80%, 20% e 40% do PIB. Se o consumo (investimento / exportações) aumentar 5%, o PIB irá aumentar 4.0% (15% / 2.0%, respectivamente). 
Isto parece ter toda a lógica.
 
Fig. 3 - Segundo a lógica keynesiana, para haver mais peixes, os tubarões têm que aumentar o apetite.
 
2. A despesa de uma pessoa é o rendimento de outra pessoa.
Quando tomamos um café, os nossos 0.60€ vão ser rendimento do dono do café. Depois, o sr. do café paga 0.10€ de água que vai ser rendimento dos vendedores de água e por aí fora.
Isto parece ter toda a lógica.
 
3. A despesa tem um efeito multiplicador.
Acompanhando o caminho da despesa ao longo de todos os agentes económicos por onde vai passando então, o 1€ inicial terá um efeito no rendimento de todas as pessoas muito maior que 1€ .
Vamos supor que cai 1.00€ do Céu. Esse 1.00€ vai ser rendimento de quem o apanhar que o pode gastar em consumo ou poupá-lo.
Se o poupar, é a mesma coisa que mandá-lo para o Inferno (as importações terão o mesmo efeito).
Vamos supor que 80% do rendimento é gasto em consumo.
Os 0.80€ gastos em consumo vão ser rendimento de outra pessoa que vai gastar 80%, 0.64€, em mais consumo. Este processo vai continuando, multiplicando o 1.00€ que caiu do Céu.
Consumo total = 0.80€ + 0.64€ + 0.51€ + 0.41€ + 0.33€ + 026€ + ... = 4.00€
Assim, o 1.00€ que cai do Céu vai ser aumentado na economia pelo multiplicador keynesiano resultando num total de 4.00€ de consumo adicional.
Estes 4.00€ adicionais de consumo são geradores de emprego e de receita fiscal que faz diminuir o défice público.
Isto parece ter toda a lógica.

Mas não tem lógica porque os euros não caiem do céu.
Então, primeiro, os esquerdistas keynesianos pensam que se pode substituir o "1€ que deveria ter caído do Céu mas não caiu" por "um financiamento pago com imposto sobre o consumo".

Vamos imaginar um imposto para financiar o 1€.
Pedindo 1€ emprestado, haverá um efeito na despesa agregada de 4€. Então basta cobrar 25% em cada transacção para termos 1.00€ de receita fiscal que vai ser usada para pagar o 1.00€ que deveria cair o Céu mas que não cai. Como o consumo total é de 4.00€, em cada transacção é preciso cobrar 25%.
O Galamba, e demais loucos do PS, são especialista nesta teoria a que a sr.a Merkel responde:
-Nicht, nicht, nicht, nicht, ihr seid völlig verrückt, und ich habe keine zeit für dumme lehren
Esta substituição até parece ter lógica mas não tem o efeito pretendido porque o "1€ que deveria cair do Céu" é exógeno à economia e por isso qualitativamente diferente do "1€ de receita fiscal que seria recebido se 1€ caísse do Céu".
O problema é que agora, a cada transacção, o rendimento do vendedor vem diminuído no valor do imposto:
 
Geração  Rendimento   Consumo      Imposto       Rendimento do vendedor
1               1.00€              0.80€            0.20€            0.60€
2               0.60€              0.48€            0.12€            0.36€
3               0.36€              0.29€            0.07€            0.22€
... ... ... ... ...
Total         2.50€             2.00€            0.50€

Somando agora todas as parcelas, o total da receita já só soma 2.00€ pelo que o imposto só consegue arrecada metade do previsto, 0.50€, não sendo suficiente para substituir o 1.00€ que deveria cair do Céu e não vai cair.
como precisamos de 1€ de receita temos que subir a taxa de imposto para 50%. Mas agora o consumo fica reduzido a 1.33€ e o Imposto sobe mas para apenas 0.67€.
Se o Imposto permitir obter o 1€, o efeito multiplicador fica nulo. Desaparece.
Mau.
Afinal não existe o milagre keynesiano do nada que se transforma no tudo.
 
 
Fig. 4 - O problema é que o Portugal precisava encontrar 1500 milhões de € por mês na rua para financiar as politicas keynesianas do tempo do Sócrates.

Pedir emprestado expande a economia mas, na hora de pagar, contrai.
No multiplicador keynesiano, a economia pode ser expandida à custa de endividamento externo mas existe o efeito contrário quando chegar a hora de pagar os valores em divida.
Mas todos nós sabemos da governação da nossa casa que, num momento de aflição, o endividamento externo alivia o nosso sofrimento, mas isso tem o reverso de, no momento de pagar, o nosso nível de vida diminuir.
Não é preciso grandes estudos para sabermos isto.

Como é a realidade (como pensam os clássicos).
Temos que nos concentrar na produção.
Com trabalho, as pessoas produzem bens e serviços. Se não houver produção, não pode haver consumo, investimento nem exportações.
Agora, a economia vai se empurrada pela produção agregada. Produzindo-se mais, aumentam os pagamento dos salários, juros, renda, lucros iguala o valor da produção pelo que havendo mais produção, haverá mais consumo, investimento, exportações e menos importações.
 
Mas sabemos que os cafés poderiam produzir mais mas que estão às moscas.
Este problema é microeconómico e traduz dificuldade de ajustamento, e termos micro, da economia.
Faz-me lembrar os directores dos cursos universitários que não têm alunos a alegar que há falta de natalidade quando se nega a ver que, no mesmo país, medicina tem milhares de candidatos. O problema está no produto deles não ter procura e não de, globalmente, haver falta de procura.
O sr. do café te o mesmo problema. As pessoas não querem cafés mas querem outra coisa qualquer.
O café tem que fechar para libertar recursos (trabalho e capital) para a produção de outros bens.
A afectação microeconómica faz-se pelo sistema de preços relativos: o que as pessoas querem, aumenta de preço e o que as pessoas não querem mais, diminue de preço.  
 
É o confronto entre o paradigma keynesiano e o paradigma clássico.
No pós-25-de-abril-de-1974, as nossas escolas de economia ficaram contaminadas pelo paradigma keynesiano. Como as universidade são instrumentos de lavagem do cérebro (quem não responder assim, reprova), as novas gerações estão contaminadas desde a nascença com o keynesianismo.
Mesmo o gasparzinho, nas suas previsões para o PIB, fala em consumo, investimento, exportações, importações (lado da despesa) quando deveria falar em "aumento do capital", "aumento do número de empregados", "incremento tecnológico" (lado da produtividade total dos factores).
O interessante é que as teorias keynesianas estão totalmente erradas mas parecem ter lógica.
 
Vamos imaginar um agricultor keynesiano.
Precisando aumentar a produção, pede ao governo para que lance politicas fiscais expansionistas que aumentem a procura interna. Vai defender o aumento dos salário (de todos os trabalhadores excepto o dele). Vai clamar por "politicas de crescimento".
O keynesiano vai estar dependente do resto do mundo para resolver os seus problemas. Vai barafustar contra tudo e contra todos mas vai acabar por não conseguir resolver o seu problema.
 
Vamos imaginar um agricultor clássico.
Vai optimizar o processo produtivo, plantando macieiras mais produtivas e procurando novas formas de organização do trabalho, de forma a conseguir conseguir produzir mais maças com os mesmos factores de produção.
O clássico vai optimizar a sua situação com as variáveis que tem à mão de forma a produzir mais e com menores custos de produção o que lhe permitirá baixar o preço de venda e, assim, conseguir vender mais (e ter mais lucro).
Acreditando no que tem à mão, o agricultor clássico consegue resolver os seus problemas enquanto que o keynesiano, dependente da NS de Fátima, não vai a lado nenhum.
 
Fig. 5 - Para vender mais é preciso plantar mais macieiras e das variedades que as pessoas querem comprar
 Pedro Cosme Costa Viera

8 comentários:

Vivendi disse...

Excelente desmontagem do Keynesianismo!

Esta frase até doeu... :)

Segundo a lógica keynesiana, para haver mais peixes, os tubarões têm que aumentar o apetite.



Daniel Tomé disse...

Caro Professor,
Pode dizer o que acha do "paradox of thrift"? Sei que o professor quer que as pessoas poupem mais (em vez de gastarem dinheiro no café), mas se as pessoas fizessem isso a poupança total diminuiria (daí o paradoxo). Posso explicar melhor, mas acho que o professor já conhece a história melhor que eu.
Obrigado pelo esclarecimento,
Daniel

Gonçalo disse...

Caro Pedro,

Fiquei sem perceber o que acontece aos 20% que são poupados por todos os agentes económicos.

O Pedro assume que a dívida será externa, não pode ser interna?

O agricultor vai investir na optimização do processo produtivo quando à sua volta vê o desemprego a disparar e o PIB a diminuir? Devemos acreditar que todas as empresas que faliram no passado recente eram geridas por "keynesianos", já que as geridas por "clássicos" teriam resolvido os seus problemas ?

Económico-Financeiro disse...

Estimado Gonçalo,
A "perda" dos 20% faz parte da argumentação keynesiana pois, a não existir, o multiplicador vem infinito.
As falencias são problemas microeconómicos e não da economia macro. Mesmo na China, todos os dias há empresas que falham mas há outras que prosperam. E.g., a Renault está em crise mas a Mercedes prospera.
As empresas individuais falham porque não se adaptam à dinamica da economia.
É um processo de selecção natural.

No caso português, acrescem as falencias dos sectores que viviam refens do crédito externo (construção e distribuição).
pc

Mundo Real disse...

Caro Pedro

Não considero o keynesianismo como uma doutrina de esquerda ou direita mas um modelo que pode funcionar sem grandes problemas em sociedades auto-suficientes mas desastroso se aplicado entre muros a pequenas sociedades como a nossa.

A moeda (euros, dolares, etc) não é uma matéria-prima em si mesmo mas é um meio de troca de trabalho por bens. Uma sociedade autosuficiente e dispondo de recursos em excesso (matérias-primas, inovação, inteligência) pode promover o keynesianismo e politicas expansionistas e só ocupa toda a mão de obra com desperdício. Os EUA são um exemplo de keynesiano desde os anos 30-40 que sustenta guerras verdadeiras, guerras frias, idas à Lua, desperdícios gigantescos de todo o tipo (energia, alimentos, ...) e assobiam para o lado.

Em síntese, as sociedades evoluidas devem ter como objectivo o progresso e o bem estar, SUSTENTÁVEL e não a especulação e a acumulação de capital. O tal caír do céu (especulação) e ir para o inferno (fundos) da moeda de 1 euro ....

JAA

Luís Pombo disse...

Professor,

1) será possível explicar melhor porque razão não podemos assumir uma taxa de consumo de 100%?

2) Assumimos que em termos reais (vs. matemáticos) não faz sentido assumir a taxa de 100%. Focando-nos então nos 80% consumo e 20% poupança, pela igualdade entre poupança e investimento, esses 20% não poderiam resultar numa maior diversidade de bens e serviços e, como tal, gerar fontes de receitas fiscais para pagar a dívida contraída?

Obrigado

Orlando Silva disse...

Gostei do texto mas... Keynes estava redondamente enganado: Não existe efeito multiplicador!
correcção proposta

Wyrm disse...

"Produzindo-se mais, aumentam os pagamento dos salários"

Veja os ganhos de produtividade e a evolução salarial nos ultimos 30 anos.

E um professor universitário esquecer-se de enfiar a expressão "contra-ciclica" num texto sobre Keynesianismo... bom, eu até percebo. É sempre mais fácil desmontar espantalhos...

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