quarta-feira, 12 de junho de 2013

A mentira, o senso comum e a argumentação política

Vamos renegociar com a Troika.
Os esquerdistas pensam que basta o Passos Coelho dizer que quer renegociar as condições do memorando e "os alemães ficam logo a tremer das pernas". Que, quando chegarem ao poder, vão dizer "Acabou a austeridade e começou a politica de crescimento" e, imediatamete a troika vai descer os juros dos actuais 3.2%/ano para 0.75%/ano, vêm pipas de dinheiro fresco e só vamos pagar metade do que devemos.
A troika e a Sr.a Merkel vão tremer tanto das pernas que vão dar origem a um tremor de terra.

Fig. 1 - Até pedi à Dr.a Filipa que organizasse, juntamente com o coro da FEP, uma manifestação contra a Troika (mas do tipo das da FEMEN).

Diz o relatório do FMI que se enganaram.
Mas o engano não foi as condições do resgate (original) serem muito duras mas o engano foi totalmente ao contrário: as medidas que hoje estão a ser aplicadas à Grécia (muito mais rígidas que as originais) deveriam ter sido aplicadas desde o primeiro minuto.
Dizem que acreditaram que com apenas um toquezinho a economia iria ajustar e não ajustou.
Para a próxima, quando houver um caso semelhante, têm que entrar logo a matar porque o dinheiro do FMI vem de países muito mais pobres que a Grécia (e que Portugal).

O problema são os factos.
Os cipriotas falaram grosso, berraram e gritaram que era inconstitucional isto e aquilo e a Troika, mesmo a tremer, meteu-lhes a marretada do corte de 90% dos saldos bancários acima dos 100 mil euros.
Os gregos andaram em manifestações e gritaria a defender os direitos adquiridos. O tribunal constitucional veio dizer que era proibido despedir os funcionários públicos, blá, blá, blá. Em resposta, pumba, a TV grega pura e simplesmente fechou.
Claro que a RTP não se cansa de anunciar essa noticia porque estão-se a rever na coisa.
Será que os cipriotas não ouvem o Seguro?
Será que os gregos estão moucos ao Galanda?
Ou será que a Troika não são aqueles meninos de coro que os esquerdistas nos querem vender?
É que fome mesmo há naqueles campos de refugiados da Birmânia.

Fig. 2 - Pobreza é na Birmânia (Myanmar) onde o salário médio é de 0.25€/h e os dos rohingya ficam-se pelos 0.10€/h. O positivo é que não há desemprego nem baixa natalidade.

A mentira do Sócrates.
Portugal já foi 7 vezes avaliado pela troika e já houve várias alterações das condições do memorando inicial mas foram todas no sentido de diminuir as restrições e não aumentar.
Eu sei que o Sócrates é burro como uma porta mas como pode ele, depois de vincular o governo de Portugal (no caso, o Pedro Passos Coelho) a garantir para 2012 um défice orçamental  de 4.5% do PIB, afirmar que o Passos ter atingido um défice de 6.4% indica que está a ir além do que ele acordou com a troika?
Só pode estar completamente louco.
Mais burro ainda é ter negociado 3% para 2013 e o Passos ter conseguido renegociar para 5.5% e vir dizer que as condições agora são piorares que as condições iniciais.
O homem não só é burro como explora a burridade que existe dentro de cada um de nós.

Vejamos outra burridade - o cancro da dívida
Vamos imaginar uma pessoa que foi casada 6 anos com o Sócrates e que em 2010 lhe foi diagnosticado cancro da mama. Entretanto, divorciou-se e casou-se com o Passos Coelho. Passados 2 anos é perguntado à pessoa se, decorridos os 2 anos de casamento com o Passos, a sua saúde está pior do que estava quando se divorciou do Sócrastes.
A resposta foi que sim, que está pior.
Será que podemos concluir daqui que a pessoa estava a dizer que o Passos foi o responsável pelo degradar da sua saúde e que o Sócrates era um grande marido?
Numa sondagem do Expresso 75% do nosso povinho diz que estamos pior que há 2 anos mas não diz que isso seja culpa do Passos. Portugal sofria de cancro da dívida e está em quimioterapia. Apesar de estarmos a viver pior, isso é culpa do cancro da divida e não do tratamento.
O Sócrates ao dizer que estar pior quer dizer que ele foi um grande estadista faz-me lembrar um que se intitulava Chefe (no programa Hells Kitchen ) mas que não era capaz de fazer uma omolete.

A balança corrente - a verdade do INE.
Há pessoas que pensam que o dados que apresento são invenções minhas. Em particular, os dados sobre a Balança Corrente que mede as transacções com o exterior.
Mas não  e quando se olha para os valores que estão no sitio do INE temos que reconhecer sem qualquer reserva que durante os mandatos do Sócrates cada português se  endividava face ao exterior em 150€/mês e que, decorridos 2 anos de Passos Coelho, esse endividamento acabou. Não sou eu que digo isso, é o INE.
E, naturalmente, se nos endividamos em menos 150€/mês e ainda temos que pagar os juros da divida do tempo do Sócrates, vivemos todos pior. Seria algo nunca visto que estivessemos a viver melhor mas é totalmente demagógico dizer que vivíamos então melhor porque  a nossa economia era forte e o nosso país era bem governado.
Bullshiit. Era o cancro da dívida que fazia crescer as mamas.

Mas afinal o que é a verdade?
Mas comentaristas atacam com "há muita mais fome, miséria, muita mais não sei quê". Pode ser que haja mas o INE não consegue apanhar essas narrativas.
Concerteza que há sempre alguém que come menos que o que queria. Mesmo no mais rico dos países há pessoas nessa situação mas ninguém pode afirmar que há 2, 5 ou 10 anos havia em Portugal mais ou menos pessoas nessa situação porque não há dados credíveis sobre o assunto.
É normal que haja mais pessoas a passar necessidades porque, tendo o endividamento ao exterior parado, também foram prejudicadas as pessoas de menores recursos mas ninguém pode dizer que o Sócrates sem os 50 milhões de euros de endividamento conseguisse ter o povo contente como estava.
Mas, se ninguém recolhe os dados usando uma metodologia quantitativa rigorosa, cai na graçola do Gasparzinho (o investimento reduziu por causa das condições atmosféricas adversas).

Se a Birmânia se pudesse endividar
50 milhões € por dia (como fez o Sócrates), o salário médio dos 50 milhões de birmaneses subiria entre 70%  e 100%.. E como são tão pobrezinhos, a Troika poderia ajudá-los. emrpestavamos apenas 1€/dia para cada birmanês.
Isto dá uma ideia do impacto positivo que o endividamento externo tem no bem-estar das pessoas.
O problema é quando chega a hora de pagar.

O senso comum engana-nos.
Quantas horas demorará a Terra a fazer uma rotação sob si própria?
 Como o Sol ilumina a parte que está virada para si, sabemos que o alternar entre o dia e a noite resulta de a Terra rodar. Então, o senso comum diz que demora um dia, exactamente 24 horas. 
Eu estudei Física (até já dei aulas ao nível do 12.º ano) e nunca pensei que fosse diferente.
Mas está errado. Uma rotação da Terra demora 23h56m04s  (menos 3minutos e 56 segundos que as 24h)!
Para compreendermos o nosso erro temos que imaginar que a Terra dava uma rotação por ano. Neste caso não haveria alternância dia/noite porque a Terra teria sempre o mesmo lado virado para o Sol. Então, para haver 365.25 dias/ano, a Terra tem que dar mais uma rotação, 366.25 rotações/ano. Desta forma a Terra demora 23h56m04s/rotação e não 24h0m0s/rotação!
Pois é. O senso comum engana.

Em particular, houve comentaristas a dizer que Portugal está cada vez mais endividado face ao exterior.
As pessoas confundem endividamento do Estado Português (interna e externa) com endividamento externo português (público e privado).
O endividamento total dos agentes económicos residentes em Portugal face ao exterior atingiu o seu máximo nominal de 405.6 mil milhões € em meados de 2010 e está actualmente nos 385.2MM€ (-5.0%). Em termos de preços constantes (inflação de 2%/ano), a redução foi de quase 10%.

Fig. 3 - Evolução da divida externa nominal

Será que eu disse que o Passos Coelho é o responsável por isto?
Apesar de nos últimos 2 anos a Balança Corrente ter corrigido, eu disse no Poste que isso não se devia ao Passos Coelho ("e não o Passos Coelho pois nenhum homem tem essa capacidade").
De facto, o que corrigiu as nossas contas com o exterior foi a taxa de juro (rever, Porque é que a taxa de juro equilibra a economia). A subida da taxa de juro traduz as dificuldades dos residentes em Portugal obterem crédito externo. Com menos crédito (que se traduz numa taxa de juro mais elevada), reduziu o consumo (importações) e o investimento (também importações). Por esta razão é que o ajustamento da Balança Corrente aconteceu principalmente pela redução das importações.
Se os salários tivessem diminuído (e, consequentemente, os preços) o ajustamento teria acontecido principalmente pelo aumento das exportações (rever, Porque é que os salários equilibram a economia).

Se lá estivesse o Sócrates.
A Balança Corrente teria corrigido mesmo que lá continuassem o Sócrates + Teixeira dos Santos.
E no futuro, mesmo que os comunas formem governo, nunca mais será possível implementar as políticas despesistas públicas e privadas porque nunca mais teremos um acesso ilimitado ao crédito externo.
Enquanto que há 5 anos o mercado a divida pública era muito estável, agora é um mercado nervoso, de grande volatilidade. Ao mais pequeno problema, as taxas de juro voltam a díspar e o crédito seca. Por exemplo, no dia 21/Maio a nossa divida a 10 anos estava nos 5.2%/ano e hoje, decorridos apenas 21 dias, está nos 6.5%/ano.
Em apenas 21 dias, os títulos da divida pública a 10 anos desvalorizaram 11.6%.
No período 2003-8 a variação média  absoluta da taxa de juro entre dois meses contíguos era de 0.14 p.p. e, desde 2010, a  variação média absoluta mais que quadriplicou para 0.59 p.p. (a taxa de juro medida pelo indicador da divida pública a 10 anos, dados, BCE).

E como está  a posição liquida face ao exterior.
A nossa posição liquida externa (dívida menos crédito externos) está estável desde princípios de 2010, exactamente quando as taxas de juro começaram a subir de forma explosiva.
E se não fossem os 78 MM€ da ajuda da Troika e do BCE (a 3 ponto qualquer coisa por cento), a balança corrente (e a posição liquida) teria corrigido de forma muito mais violenta e rápida. Teria sido a bancarrota total.

Fig. 4 - Evolução da posição liquida externa nominal e a preços constantes (dados. Banco de Portugal)


Em termos líquidos a dívida oscila ligeiramente abaixo dos 200MM€.
A posição liquida é semelhante à divida pública porque os privados portugueses apenas  se conseguem endividar no exterior com garantias que são os seus activos (privados) no exterior mais a divida pública portuguesa. Então, a única garantia sem fundamento real (com origem em Portugal) é a divida pública.
Sabendo desta ligação, compreende-se que porque a Troika impõe limites ao défice público (que leva ao crescimento da divida pública). Se, por exemplo, os privados ficassem impossibilitados de usar a divida pública como garantia no exterior (e.g., o caso dos certificados de aforro), não haverá qualquer problema em termos défice pois será financiado internamente.

A economia ajusta sempre.
Seja qual for o governo, seja o Chaves, o Bukassa ou o Seguro, a Economia ajusta sempre seja pelos preços (taxas de câmbio, juros e salários) ou pelas quantidades (suspensão dos câmbios, limitações de crédito e desemprego).

A taxa de câmbio.
É o mecanismo mais rápido e eficaz para corrigir uma economia face ao exterior. De um dia para o outro a moeda pode desvaloriza 20 ou 30% o que implica uma redução imediata dos preços dos bens exportáveis face ao exterior e o aumento dos preços dos bens importáveis no interior.
Pela velocidade e magnitude com que a taxa de câmbio consegue ajustar as economias é que, tirando a zona euro (e mais 2 ou 3 pequenos estados relativamente à África do Sul e à Índia), todos os países do mundo têm moeda própria e uma grande percentagem mantém câmbios flexíveis.

A taxa de juro.
Quando há câmbios fixos, a outra variável de ajustamento que pode alterar-se rapidamente é  a taxa de juro. No caso português, de 2003-8 a taxa de juro (medida pelo indicador da divida pública a 10 anos)  esteve estável em torno de 4.11% e, desde princípios de 2010, a média foi de 8.45%.
Vendo as taxas de juro do lado do valor de mercado da divida pública, desde princípios de 2010 a princípios de 2012, as obrigações portuguesas a 10 anos desvalorizaram 60%, 4%/mês, e, desde então, recuperaram 2/3 do valor (ver, Fig. 5).

Fig. 5 - Evolução de uma obrigação portuguesa a 10 anos (cupão de 4.11/ano, dados sobre a taxa de juro do BCE, cálculos do autor)

Os salários e o desemprego
É uma certeza tão forte como a morte, é a descida dos custos do trabalho que reduz o desemprego. E nos custos do trabalho a parcela mais importante são os salários e a duração do horário de trabalho. Basta ver que nos países asiáticos (que adoptaram esta verdade) não existe desemprego. 
Em Portugal, a rua não permitiu que o governo desse passos no sentido de haver uma diminuição dos custos do trabalho. O governo tentou com o aumento do horário de trabalho em 0.5h/semana e com a transferencia da TSU do empregador para o empregado mas patrões e sindicalistas saíram à rua a gritar que não queriam.
Como não temos taxa de câmbio e o salário não ajusta em termos nominais, é a taxa de juro e o desemprego que têm sido o escape de ajustamento da nossa economia.
Ninguém que esteve contribuiu para a manutenção das coisas como estão pode dizer que está surpreendido por o emprego estar sempre a crescer.
É hipocrisia, burrice, loucura ou argumentação politica do tipo "quero mamar na coisa pública".

O ajustamento da Economia é como a Morte.
A morte pode vir mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos sofrimento mas vem sempre.
Também a economia pode ajustar para um valor mais alto ou mais baixo do PIB, com maior ou menor desemprego e com maior ou menor sofrimento dos mais desfavorecidos mas acontece sempre.
Podem dizer que a N.S. de Fátima ou o PEC 4 nos teriam salvo mas isso são apenas ilusões para vender banha da cobra aos papalvos.


Fig. 6  - E como diz sabiamente o Vazelios, já ninguém acredita no Pai Natal.

Pedro Cosme Costa Vieira

17 comentários:

Vivendi disse...

Muito bom!

Isto devia ser publicado no jornal de negócios ou no económico e o professor ser chamado à sic notícias ou à tvi24.

Mas o país anda muito afastado da verdade.

Chilavert disse...

Eu li isto com muita atenção e fiquei com 2 "impressões": O Sr é um fundamentalista neo liberal que se limita a socar o Sócrates e dá como exemplo a Birmânia(????) em relação a não haver desemprego!Mas...que futuro é que queremos para nós???Porque é que o trabalho é que tem de ser castigado por 30 anos de incompetências, corrupções e ganâncias de sucessivos Governos portugueses e de estratégias da CEE e UE?
Quando o Sr diz que "tão certo como a Morte que a redução dos custos de trabalho diminuiem o desemprego" significa mais empregos a ganhar menos mas eu pergunto: ainda menos?????o Sr sabe que cerca de 70% da força de trabalho em Portugal ganha menos de 900 eur líquidos?O que é que pretende com este tipo de intervenções?

Pedro Miguel disse...

O velho argumento do fundamentalista neo liberal, do fascista, do comunista...

Quando não se sabe o que dizer, não se percebe nada de nada aparece sempre o argumento do você é um fundamentalista.

vamos lá então aumentar os salários dos portugueses, mas espera, isso vai aumentar os preços... Vai diminuir as exportações... será que vai aumentar as importações? Parece que sim...
Hmmm deixa-me pensar, mais importações e menos exportações leva a falências e desemprego? Parece que leva...
Mas se não vendemos para o exterior e compramos mais do exterior esse dinheiro dos aumentos vem de onde? Exterior? Mas como? Dívida? Parece que sim! Fora com a troika!

Pois, mais ninguém nos empresta dinheiro não é? Por isso podemos aumentar os salários que pelo menos os que consigam manter os empregos vão ganhar mais de 900 euros líquidos...

Económico-Financeiro disse...

Estimado Chilavert,

Agradeço muito que tenha lido o poste e que continue leitor. Como disse Jesus numa passagem qualquer, interessa muito recuperar a ovelha tresmalhada.

A questão não é "que futuro queremos para nós" mas "que futuro vamos nós ter".

Isso do neo-liberalismo é uma invenção dos comunistas para esconderem o seu fracasso total nos países que adoptaram essa ideologia.
Últimos 20 anos, os países que adoptaram o liberalismo (a China, India, Bangladesh, Indonésia, etc.), melhoraram mais o nivel de vida das suas populações do que tinham conseguido nos 1000 anos anteriores.

Falei na Birmânia porque foi governada (destruida) por um regime comunista que acabou em 1988e desde essa altura (apesar de ser uma ditadura politica) tornou-se uma economia liberal. Em 1990 mais de 70% das pessoas ganhava menos de 0.10€/h e, apenas 20 anos depois, o salário médio aumentou de 0.10€/h para 0.25€/h.
Um notável progresso apenas com trabalho (sem fundos estruturais nem ajudas da Troika).

Um abraço,
pc

Chilavert disse...

Sr Pedro Miguel acalme se porque eu só questionei se este será o caminho indicado para nós eu n falei em aumentar salários e mandar a troika a fava nem sequer falei de exportações e importações.
Sr Económico Financeiro antes de mais nada eu nem sou defensor de nenhuma ideologia politico financeira e eu sei muito bem que comunismo Marxista é um falhanço histórico.Eu só o questionei pela génese dos desiquilibrios que nos assolam á cerca de 30 anos sem que(direitistas ou esquerdistas,liberais ou comunas) fizem nada acerca disso( pelos vistos em muitos países desta UE)
Pergunto novamente: Qual é a génese de todo este chorrilho de disparates de à 30 anos a esta parte?

Nuno disse...

Podemos acreditar na ciência, na matemática e na física ou podemos acreditar em mágicos, astrólogos ou quiromantes. É mais ou menos isto que se passa actualmente na política portuguesa - há quem prefira os segundos para acreditar que é possível uma cura sem sofrimento.

Francisco disse...

Continue Prof. Cosme. Os seus artigos, semeados de argúcia e ironia, mas tambem de profundidade, muito saber e muita investigaçao própria, são uma fonte de informação notável. Raramente encontramos tantas análises e estatisticas trabalhadas e relacionadas, noutros blogs, mesmo de economistas. Se calhar o pçrobleam é se m,esmo. Eu tambem estudei economia há muitos anos, mas nesse tempo, o que valia era o Keynes, o Marx e pouco mais. Agora tenho redescoberto a Escola Austríaca,que tem lógicas muito interessantes para se perceber a situação actual e o papel nefasto das ideologias socialistas (ou neo-comunistas, como queira dizer) que pregam o distribuir, o gastar, o fazer despesa, em vez de poupar, produzir, investir. Estou a acabar de ler o seu livro e tenho aptendido muito com ele. Bem haja e continue, firme!

Manuel Galvão disse...

Brilhante! mas não explica o porquê destes acontecimentos.
Para mim só há uma explicação: crédito barato e fácil (sem garantias reais).

Quem montou o esquema sabia o que fazia, e ia dizendo que era para dar uma casa a cada americano (ou a cada português, em Portugal)...

O resultado é sempre o mesmo, facilitar a venda ao desbarato das empreseas rentáveis dos países que cairam no conto do vigário...

Gonçalo disse...

"O velho argumento do fundamentalista neo liberal, do fascista, do comunista...

Quando não se sabe o que dizer, não se percebe nada de nada aparece sempre o argumento do você é um fundamentalista."

Ou talvez a intransigência ao argumento do "você é um fundamentalista" seja também uma atitude fundamentalista e, de igual forma, estas linhas sejam também fundamentalistas sob a forma de intransigência à intransigência.
Aparentemente, somos todos fundamentalistas.

Felizmente, o Pedro Miguel sabe tudo de tudo, ao contrário do Chilavert que "não (...) percebe nada de nada".

A relação salários, aumento de preços pode ser variada.
Por exemplo, o aumento de salários pode aumentar a poupança, que pode ser investida. Por outro lado, o aumento de salário pode aumentar a procura e a produção beneficiar com economias de escala, reduzindo custos de produção que podem absorver o aumento de salários.
E também pode, claro, fazer subir preços.

Se mais importações e menos exportações, ou um saldo comercial negativo, levasse necessariamente a desemprego e falências, então os EUA deveriam ter uma taxa de desemprego muito mais alta.

A relação entre salários e exportações não é sempre a mesma. Depende também da quantidade de produtos intermédios importados ( como o petróleo, software) que são necessários para o produto final.

Acresce que, se os particulares estão endividados, perderem rendimento aumentaria os incumprimentos.


Caro Pedro,
"Basta ver que nos países asiáticos (que adoptaram esta verdade) não existe desemprego".

Mas isso mão é porque ainda estão a sair da produção agrícola e a entrar na produção industrial? E quando passarem para aos serviços?

Caro Nuno, está a considerar a teoria económica uma ciência?

Pedro Miguel disse...

Boas Gonçalo,

"Ou talvez a intransigência ao argumento do "você é um fundamentalista" seja também uma atitude fundamentalista e, de igual forma, estas linhas sejam também fundamentalistas sob a forma de intransigência à intransigência.
Aparentemente, somos todos fundamentalistas."

O que eu estava a dizer mesmo era isso, o argumento do "você é um fundamentalista" é um argumento fundamentalista.
Na minha opinião, o argumento fundamentalista é um sinal de não haver caminhos para a explicação, é em si unicamente fundamentalismo. Por isso escrevi que é o argumento do que não sabe ou não percebe.

No meu comentário apenas me limitei a debitar acontecimentos possíveis derivados do aumento dos salários, tudo com base em senso comum e em nenhum lado explicados por mim. Só procurei demonstrar que, nem todo o senso comum é certo.
A teoria dos salários mais elevados sustentar a economia tem que ser muito bem explicada e provada, de resto é meramente demagogia. Chamo de demagogia porque é o argumento que cai bem no ouvido.

"Por exemplo, o aumento de salários pode aumentar a poupança, que pode ser investida."
Poupança por parte de quem? Da empresa ou do funcionário? É que podemos estar meramente a falar de transmissão de poupança de alguém produtivo para alguém consumista. A economia progride porque segue o consumo ou porque segue o que pode ser preciso?
Posso estar enganado, mas o endividamento nacional aconteceu mesmo porque foram debitados grandes valores na economia para aumentar o consumo. No final não foi criada produção ou investimento produtivo.
No estado que temos a economia, essa transmissão de poupança só pode vir de dívida face ao exterior. E parece-me que neste momento o exterior não nos vai emprestar para cometer erros do passado.

Concordo que devem ser criadas economias de escala, mas discordo que isso tenha que ser feito para responder à procura interna.

"Se mais importações e menos exportações, ou um saldo comercial negativo, levasse necessariamente a desemprego e falências, então os EUA deveriam ter uma taxa de desemprego muito mais alta."
Esse é o mesmo motivo pelo qual a taxa de desemprego em Portugal esteve controlada, enquanto a economia caminhava para o abismo. O emprego está a ser sustentado com dívida, a diferença é que o FED é muito mais interventivo na economia. Na minha opinião, apenas está a criar uma bolha, mas estamos apenas a dar visões da realidade.

"A relação entre salários e exportações não é sempre a mesma. Depende também da quantidade de produtos intermédios importados ( como o petróleo, software) que são necessários para o produto final."
Não percebi o que queria explicar a frase. Se a parte principal é o "depende também", percebo e concordo, mas o depende também existe sempre e apenas estava a falar dos salários.

"Acresce que, se os particulares estão endividados, perderem rendimento aumentaria os incumprimentos."
Sem dúvida, e como qualquer argumentação minha ou tua, nada é 100% perfeito. Mas a dívida é para pagar, mais cedo ou mais tarde. O mal do individuo é que não é um ser racional. Temos visto vários estudos que se pergunta às pessoas o que vão fazer se aumentarem os rendimentos e as respostas são 3: férias, comprar casa e comprar carro.
Ou seja, as pessoas optam pelo consumo e não pelo cumprimento. Como escrevi atrás, a dívida é para pagar, e um dia com o acumular de dívida, o incumprimento aparece.

Como disse atrás, estou apenas a debitar argumentos, não procurei provar que estão mais certos que os teus, mas é sempre bom para as pessoas pensarem sobre alternativas.

Mas para mim, não devemos aumentar os salários sem que seja para acompanhar o aumento de produtividade.
Uma coisa é unânime porque já vi os sindicatos a reconhecer isso, o aumento do salário mínimo, vai atirar uma franja da sociedade para o desemprego. A única coisa em que sindicatos, patrões, governo concordam é que o aumento do salário mínimo, no imediato cria emprego. O depois, logo se vê.

Chilavert disse...

Meus caros os problemas( sim porque são vários e estruturais) vão bem mais além que a direita produtiva e a esquerda distribuidora.
Portugal em 39 anos de Democracia nunca teve superavit( se não me falha a memória)Porquê?
As mesmas elites que detinham e controlavam a riqueza produzida orbitavam junto do Estado Novo continuaram a faze lo junto dos Governos democráticos através de lobbies e influencias.Porquê?
Portugal recebeu cerca de 81 mil milhões da na altura denominada C.E. em fundos estruturais.Onde foram aplicados?
Esta União Europeia foi mal desenhada especialmente no aspecto económico financeiro promovendo os mais fortes, depauperando os mais fracos e acentuando ainda mais as diferenças no que nível de vida diz respeito.De quem é a responsabilidade e o que fazer perante este cenário?
O pessoal fala de aumentar exportações e diminuir importações.Certissimo mas...exportar o quê mesmo? deve ser exportar ouro porque o nosso aparelho produtivo quase não existe.Sectores Primário e Secundário é quase residual(comparativamente com o Terciário)
Mais do que ajustar salários e cortar despesas de que certos iluminados fazem o seu Santo Graal(uma dor necessária todos nós percebemos que isto teria de ser feito) o maior desafio estará em reconstruir os sectores Primário e Secundário!Na minha optica este é a grande tarefa para os próximos 25 anos

jorge gaspar disse...

"O mal do individuo é que não é um ser racional. Temos visto vários estudos que se pergunta às pessoas o que vão fazer se aumentarem os rendimentos e as respostas são 3: férias, comprar casa e comprar carro.
Ou seja, as pessoas optam pelo consumo e não pelo cumprimento."

Optar por ir de férias, comprar casa ou comprar carro em vez de poupar ou por fazer outra coisa qualquer com dinheiro é obviamente uma opção racional. As pessoas optam porque acham que é melhor para elas, que assim são mais felizes, da mesma maneira que há outras que fazem exactamente a opção inversa e também de forma racional. Irracional seria queimar o dinheiro ou deitá-lo para o lixo

Pedro Miguel disse...

Jorge, o que queria dizer com não ser racional é o indivíduo esquecer que vai ter que pagar.
Não falei em optar poupar ou gastar, falei em optar diminuir dívida ou aumentar dívida.
Se aumentamos sempre dívida ela vai acabar por nos consumir. Mais cedo ou mais tarde temos que pagar e quanto mais tarde, quanta mais acumularmos, mais ela nos vai afundar.

Chilavert, pelo menos no tempo do outro senhor, as contas estavam equilibradas e Portugal melhorou de forma abismal a sua economia. Não o defendo, porque sabemos o que se passava no resto.
Esses milhares de milhões, enviados para cá por países como a Alemanha, estão em alguma parte investidos em coisas não produtivas ou serviços que nunca teríamos sem eles.
Temos bastants hospitais e centros de saúde (até mais do que o necessário), temos estradas a mais do que o necessário, temos piscinas em todas as freguesias (para quê?). Temos pavilhões multiusos, temos coisas e mais coisas que o povo quer e que significam qualidade de vida, mas dívida.
O que é mal gasto já não pode ser bem gasto.

Mas quem mais beneficiou com a Europa foram mesmo os países mais fracos e mais pobres. Individualmente nem podemos comparar a pobreza de finais de 70 e inícios de 80 com a que há agora. A miséria era imensamente maior.
E por algum motivo os países ricos estão com as contas mais ou menos equilibradas e os pobres andaram a contrair dívida e a viver de aparências. Podíamos estar todos melhor na Europa e se não estamos a culpa não é certamente do Norte.

Chilavert disse...

Sr Pedro Miguel não posso concordar consigo.
Esta U.E. é tudo menos comum!Serve os interesses de 2 ou 3 Estados membros aliás foi implantada nesses moldes.Ter uma moeda forte fez com que dependesse muito da procura interna e isso favorece os países que produzem mais ( e consequentemente mais competitivos).O endividamento é um problema de toda sociedade ocidental mas os países sem autonomia monetária não tem outra solução do que submeter.Não me lembro de haver conceito de comum apenas para as vantagens e quando aparecem as dificuldades (desculpem o vernáculo) o termo é "desemerdem se" especialmente quando alguns problemas dos países em dificuldades foi a UE que os promoveu

jorge gaspar disse...

a opção entre aumentar divida ou diminuir divida, é uma opção racional. podes criticar uma opção ou outra, mas eu não tou a falar disso.
tu disseste isto "O mal do individuo é que não é um ser racional." eu não concordo com essa frase. O individuo é um ser racional e o teu argumento não prova em nada que os indivíduos não sejam racionais, porque optarem por se endividarem ou não, não deixe de ser uma opção extremamente racional

ii-v-i-aflat disse...

O Myanmar tem desemprego

http://www.elevenmyanmar.com/business/2230-myanmar-unemployment-rate-near-40-percent-study-

A produtividade da economia do país é ridiculamente baixa, que é um facto conhecido como sendo transversal a todos os países onde o salário mínimo é inexistente ou demasiado baixo para que os trabalhadores saibam que vão poder comer e alimentar os seus dependentes no fim do dia. É essa baixa produtividade que impede a economia do Myanmar de crescer e limitar o desemprego e a extrema miséria (contra a qual é suposto defendermo-nos).

Mas obviamente que tratando-se de uma análise ultra superficial, o autor do texto nunca iria abordar com seriedade qualquer tema que eventualmente entrasse em contradição com a sua crença, mal disfarçada de resultado matemático.

De facto, estes problemas são muito mais complexos do que o que está a querer fazer parecer, e mete-me confusão que um professor da faculdade de economia do Porto se exprima com uma argumentação tão básica. Por essa razão, na falta de tempo para lhe explicar ponto por ponto as fraquezas do seu texto, recomendo-lhe que explore a literatura do vasto campo da behavioural economics, na esperança que venha a compreender a necessidade de uma análise mais profunda para compreender problemas desta complexidade, ao invés de se ficar ao nível do que se espera de um aluno do secundário, ou do primeiro ano da faculdade.

Diogo disse...

Caro ii-v-i-aflat, é verdade que pressupor que a economia tende para um equilíbrio geral (que "a economia ajusta sempre.") vem da teoria neoclássica.
Mas Economia comportamental (Behavioral economics) também parte da teoria neoclássica.

Agora, Economia evolucionária (Evolutionary economics) para mim isso sim, parece-me bem mais interessante.

Seja como for:
1) uma análise consistente com os dados empíricos + 2) grande sentido de humor
é tudo o que se pode desejar um blog sobre economia, destinado ao publico em geral.

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