sexta-feira, 14 de junho de 2013

Como o desemprego se liga ao défice externo?

Olhando para os comentários.

Existe a ideia que a economia é um sistema em que tudo está interligado. E, apesar de ser verdade, umas coisas estão mais ligadas que outras.
Em particular, o problema é como o desemprego pode estar ligado à necessidade de equilibrarmos as contas com o exterior (redução da velocidade com que estava a aumentar o endividamento externo).
Numa economia flexível, quando há um choque exógenos que desequilibra um mercado, há variáveis que vão actuar rapidamente no sentido de o mercado se equilibrar com um pequeno impacto nos outros mercados. No caso concreto, o salário (real) ajusta o mercado de trabalho e a taxa de câmbio ajusta as contas com o exterior. Na nossa crise, como não termos moeda própria, o ajustamento é uma onda que se iniciou com o aumento da taxa de juro e propagou-se negativamente para o mercado de trabalho. Com o avançar do processo, os custos do trabalho diminuem, os preços caiem e a taxa de juro volta ao seu nível de equilíbrio.
A onda que varre uma economia desequilibrada com a taxa de juro na crista afoga tanto mais o mercado de trabalho quanto mais rigido for.

A análise parcial. 
A Ciência precisa dividir a complexidade do Mundo em parcelas pequeninas e simples que depois se ligam entre si. Chama-se a essa divisão "análise parcial mantendo tudo o resto constante".
A Ciencia Economica não foge à regra e divide a globalidade do mundo em partes mais pequenas que são denominadas por mercados. Sendo a divisão artificial há sempre ligação entre um mercado e os outros mercados mas as ligações são mais fracas que as ligações dentro de cada mercado.

Vamos ao mercado das batatas  - o sistema de preços.
Vamos supor que o mau tempo reduziu a produção de batatas em 50%. Então, no próximo ano as pessoas apenas vão poder comer metade das batatas que costumavam comer.
Na economia planificada teria que sair um decreto de racionamento a reduzir o consumo de batatas.
Na economia de mercado a informação de que há menos batatas vai passar aos consumidores pelo aumento do preço das batatas.
O impacto do preço da batata na quantidade transaccionada é medido pela elasticidade preço que, se por exemplo for -2, traduz que o aumento de 1% do preço das batatas faz reduzir a quantidade transaccionada em 2%.
Se assim fosse, Q = k.P^-2, para "obrigar" as pessoas a comer menos, o preço das batatas iria aumentar 41.4%.

E os outros mercados?
O aumento do preço das batatas vai influenciar positivamente o mercado do arroz, da massa e de todos os parcialmente substitutos mas em menor magnitude, por exemplo, o aumento de 1% do preço das batatas faz aumentar o consumo de arroz em 0.3%. Neste caso, se o mercado de arroz pudesse responder em quantidades, o consumo de arroz iria aumentar cerca de 15% mas, caso contrário, o preço do arroz também subiria ligeiramente até anular a tendencia de aumento do consumo de arroz. O efeito ir-se-ia propagando a todos os mercados.
Um mercado também pode influenciar no mesmo sentido outros mercados por causa do efeito rendimento. Por exemplo, o aumento do preço das batatas em 1% também vai diminuir o consumo de electricidade em 0.2% porque as pessoas ficam com menos rendimento disponível.
Existem bens que a produção responde rapidamente às variações dos preços (bens elásticos) enquanto outros não (bens inelásticos).
A alteração diária dos milhões de preços individuais dos bens e serviços consegue digerir os choques exógenos que vão acontecendo no sentido de manter uma igualdade entre o que se produz e o que se consome. Por exemplo, se está mau tempo e não se pode pescar, o preço do pescado aumenta o que despoleta o ajustamento das decisões dos consumidores no sentido de comprarem mais frangos (os abates aumentam 3% pela diminuição do tempo de vida dos frangos em 1 dia).
A falha da economia planificada era que construir a folha de racionamento com os milhares de produtos que existem exigia enormes quantidades de informação quanto às possibilidades de produção e quanto aos gostos dos consumidores.
A nível de cada bem ou serviço individual (microeconómica) a igualdade entre produção e consumo é apenas estatística (i.e., em média).

Mas a evidencia parece dizer que os cafés estão vazios.
Todos nós pensamos que os cafés poderiam produzir mais mas de facto assim não é.
Para um café vender mais teria que baixar o preço. E os cafés (e muitos outros produtores) não estão em mercado concorrencial. Os produtores têm "preços concertados" porque, se um descer o preço, todos os outros retaliam descendo também os seus preços.
Vamos imaginar um café que cobra 0.60€/café, tem uma margem de 0.30€/café e vende 200 cafés por dia (margem de 60€/dia, ocupação de 50%) e que, se cobrasse 0.50€/café passava a vender 400 cafés por dia (margem de 80€/dia, ocupação de 100%). O problema é que todos os concorrentes retaliavam descendo o preço para 0.50€/dia e ele passava a vender mais, 250 cafés por dia, mas a margem descia (margem de 50€/dia, ocupação de 62.5%).  
Para haver possibilidade de retaliação, os cafés têm que ter capacidade excedentária. Os cafesistas dizem que precisam de mais clientes porque têm capacidade excedentária mas de facto apenas têm capacidade excedentária para manter uma ameaça aos concorrentes (o equilíbrio de concertação ficar estável).

Fig.1 - O marketing estuda o impacto nas vendas de todas as variáveis "não preço".

Os macro-mercados.
O grau de agregação depende do detalhe com que se pretende compreender os problemas económicos. Na microeconomia o detalhe chega ao comportamento individual (a Teoria dos Jogos) enquanto que na macroeconomia se agregam mercados à escala de um país.
Normalmente a macroeconomia considera 3 mercados agregados.

1) O mercado de trabalho - Salários.
Neste mercado agregam-se todos os contractos de trabalho e o seu preço (salário). Como se consideram qualidades diferentes de trabalho (por exemplo, médicos, advogados, professores de inglês, canalizadores e trabalho indiferenciado), o salário é um índice construído com os diversos salários (por exemplo, o salário médio).
Por ser um macro-mercado, não apanha a dinâmica de mercados de trabalho especializado. Por exemplo, não é certo que o salário médio diminuir vá equilibrar o mercado dos licenciados em arquitectura em que o caminhar para o equilíbrio obriga a uma diminuição do salário específico deste micro-mercado. Se, por exemplo, o salário médio diminuir 5%, não quer dizer que todos o salários diminuam 5% podendo mesmo haver aumento de alguns.
Este mercado considerar como medida do equilíbrio a "taxa de desemprego" (a percentagem de pessoas que diz não ter emprego e que está à procura de emprego).

2) O mercado de bens e serviços - Taxa de Juro.
Neste mercado agregam-se todos os bens e serviços sejam de consumo ou de investimento.
Como já mostrei para o caso das batatas, o preço é a variável por excelência que equilibra cada um dos micro-mercados mas, juntarmos  todos os bens e serviço no mesmo mercado, os preços relativos deixam de ser relevantes no equilíbrio do macro-mercado. Então, em termos macroeconómicos a variável mais forte neste mercado é a taxa de juro.
Pode parecer estranho como a taxa de juro equilibra o mercado de bens e serviços mas temos que pensar que, quando a taxa de juro aumenta, o investimento diminui (a procura diminui) e a poupança aumenta (a procura diminui).
Então, se existe mais procura interna (consumo + investimento) que produção interna (em economia fechada, a diferença é a diminuição dos stocks e o trabalho extraordinário), vai haver tendência para que a taxa de juro suba até a procura ficar igual à produção.

3) O Resto do Mundo - Taxa de Câmbio e Nível Geral de Preços.
O Resto do Mundo faz com que o mercado de bens e serviços possa estar com défice à custa do aumento do endividamento externo. O mercado interno pode estar superavitário pelo aumento constante dos créditos face ao exterior (como acontece com a Alemanha, China, Japão, Arábia Saudita e Kuwait).
Numa economia com moeda própria a variável mais forte que equilibra as contas com o exterior é a taxa de câmbio.
Se há um défice externo, uma desvalorização faz com que os preços face ao exterior (em dólares) diminuam o que aumenta as exportações e os preços das importações (em escudos) aumentem o que diminui as importações. Este duplo efeito equilibra rapidamente as contas com o exterior. Se há um superávite externo, uma valorização promove o equilíbrio mas em sentido contrário.
Se há uma desvalorização de 5%, os preços face ao exterior diminuem instantaneamente 5% mas os salários também diminuem 5% face ao exterior.
Se o país pertencer a uma zona monetária vasta (Zona Euro), não pode desvalorizar pelo que o ajustamento deve ser feito com uma descida do Nível Geral de Preços.

Depois, há  os efeitos cruzados.
A correcção do desequilíbrio de um mercado tem impacto, mas menor, em todos os outros mercados.

Onde liga o desemprego com o défice externo?
Quando uma variável está fixa, no nosso caso a taxa de câmbio,  para anular o défice externo o nível geral de preços tem que cair relativamente aos nossos parceiros comerciais (parceiros da Zona Euro). O problema é que isso não está acontecer (ver, Fig. 2). 

Fig. 2 - Preços em Portugal (INE) relativamente aos da Zona euro (BCE) base 1999.

Entre 1999 (que começaram os câmbios fixos) e 2005, as nossas contas externas desequilibraram-se porque os preços aumentaram 7.3%/ano relativamente aos nossos parceiros da Zona Euro e, desde então, essa diferença mantem-se (ver, Fig. 2).
Os custos do trabalho aumentaram 1%/ano até meados de 2010, altura em que começaram a diminuir cerca de 7%/ano (ver, Fig. 3).
Apesar da redução dos custos do trabalho, ainda não se observa uma redução dos preços relativamente aos nossos parceiros da ZE.

Fig. 3 - Evolução dos custos nominais do trabalho, Business (dados: Eurostat).  

A taxa de juro "atacou primeiro".
Até 2010 tínhamos um défice externo de 10% do PIB que o Sócrates se recusou a corrigir promovendo aumentos do salário mínimo, dos salários dos funcionários públicos e majorou as transferencias sociais.
Como os preços e os salários não foram chamados a corrigir esses défice externo, a taxa de juro começou a entrar em funcionamento. Se inicialmente o Sócrates tentou combater isso baixando as taxas de juro dos Certificados e Aforro e lançando a Dívida Pública no exterior, por fim a taxa de juro libertou-se e em 2010 atacou com toda a força na missão de equilibrar a nossa economia. Se em finais de 2009 tínhamos uma taxa de juro a 10 anos abaixo dos 4.0%/ano, em meados de 2011 já a taxa de juro estáva acima dos 13%/ano.
Com uma taxa de juro tão elevada, as importações, o consumo e o investimento reduziram rapidamente mas com impacto negativo na rentabildiade das empresas (aumento dos custos).
Se os diversos mercados não ajustassem, a taxa de juro teria que ficar sempre alta mas a boa notícia é que os outros mercados já entraram numa dinâmica de ajustamento.

Depois veio o desemprego.
Em 2010 a taxa de desemprego já era elevada o que traduz que o mercado de trabalho já estava desequilibrado. Mas a subida da taxa de juro vem meter grande pressão neste mercado porque a margem das empresas (antes de amortizações e juros) teve que aumentar para pagar os juros.
Um posto de trabalhado que tenha associado 30 mil € de capital amortizável em 10 anos, para uma taxa real de 2%/ano precisa de uma margem de 275€/mês enquanto que quando a taxa de juro real sobe para 11%/ano, a margem tem que subir para 400€/mês (para manter o posto de trabalho, o salário tem que reduzir 125€/mês).
Com a pressão dos juros,  as empresas começam a ir à falência e a despedir (ficam só com os mais produtivos). E este problema soma à necessária reestruturação da economia de bens locais (não transaccionáveis) para bens expostas à concorrência (para substituir importações e aumentar as exportações).

O combate ao desemprego.
Todos os candidatos autárquicos dizem que vão apostar na reabilitação dos centros urbanos porque isso vai criar emprego e atrair pessoas para o centro das cidades. O problema é que essas pessoas já têm casa nas periferias e ninguém diz que vai comprar e demolir essas casas. Estando a população portuguesa a diminuir então, cada nova casa que se construa no centro de uma cidade é uma outra casa que vai ter que ficar vazia na periferia.  
Dizer não sei quem que vai, com novas casas, atrair 50 mil pessoas ao centro do Porto é o mesmo que dizer que vai deixar vazias casas de 50 mil pessoas em Gondomar, Valongo, Matosinhos, Rio Tinto e V.N. Gaia.
Serei eu que estou a ver mal o problema ou estaremos em presença de demagogia massiva?

Depois vêm os salários nominais.
Havendo muitas pessoas desempregadas e com o subsídio de desemprego a diminuir, as pessoas vão-se sujeitar a ganhar menos.
Ainda ontem eu estava a falar com umas colegas e fomos unânimes: se hoje qualquer um de nós fosse despedido, teria dificuldade a arranjar um emprego a ganhar metade do que ganha actualmente. Eu prefiro que me cortem o salário em 10% do que ser atirada uma moeda ao ar e eu ter 5% de probabilidade de ser despedido.

Ainda na crista da onda, aparecem os preços.
Só depois de os custos reduzirem é que os preços podem começar a cair.
Apesar de esse movimento ainda não se ter observado, as últimas estatísticas dizem que em Maio Portugal foi o país com mais baixa taxa de inflação da Zona Euro.
Vamos lá ver se este movimento deflacionista vai acelerar pois é o único passo que falta para o ajustamento.

Voltamos aos juros com a onda a quebrar.
Quando os salário caiem os preços também começam a cair pelo que o mercado externo passa lentamente a ser controlado pelo nível geral de preços podendo a taxa de juro recuar.

Só depois vem o emprego e o crescimento económico.
Só depois dos rpeços cairem é que haverá uma descida da taxa de juro para niveis normais o que anula a pressão financeira sobre as empresas. Desta forma aumenta a margem para que os preços caiam mais rapidamente (o que aumenta as exportações) e que sejam contratadas mais pessoas.
Nesta altura, o desemprego começa a diminuir e, como mais pessoas a trabalhar implica mais produção, o PIB re-começa a crescer.

Finalmente, voltamos aos salários reais de 2010.
Com a redução do desemprego o salário nominal deixará de cair. Juntando a queda dos preços, depois de atingir um mínimo, o poder de compra dos salários aumenta para o seu que tinhamos em 2010. Sob as minhas previsões (a produtividade horaria do trabalho aumenta 1.9%/ano e a correcção dos preços em 7.3% precisa de uma diminuição dos salários reais em 12%), lá para 2020 voltaremos a ter o nivel de salário real de 2010.
São só 10 anitos para recuperar os erros de 15 anos de despesismo.


Fig. 4 - A onda que se iniciou em 2010 vai passar lá para 2020.

Um mercado rígido cava a onda.
Se os nossos mercados de trabalho e de bens e serviços fossem flexíveis, em finais de 2010 os preços e salários já teriam caído 15%  e não teria havido um efeito tão profundo no mercado de trabalho.
É isso que acontece, por exemplo, nos USA, que consegue digerir os choques muito mais rapidamente que a Zona Euro. Não tem nada a ver com a intervenção monetária da FED (como querem fazer crer os esquerdistas) mas tem a ver com o mercado de trabalho ser muito mais flexível que o mercado europeu.
Recordo aos esquerdistas que nos USA um trabalhador pode ser despedido sem pré-aviso e sem ser apresentada qualquer razão. Pura e simplesmente, rua. Quando começou a crise de 2008, 6 milhões de pessoas perderam o emprego  quase instantaneamente, mas essa reacção rápida faz com que a digestão da crise comece quase imediatamente (ver, Fig. 5).

Fig. 5 - Evolução da taxa de desemprego nos USA (dados: BLS)

Mas o problema é o futuro.
Se a nossa economia continuar rigida, cada nova crise que aí venha (e nos próximos 5 anos naturalmente vai aparecer outra), a economia ter+a mais dificuldade a ajustar pelo que o desemprego estrutural (de longo prazo) será cada vez maior e o crescimento cada vez menor.
Vamos rezar para que isso não aconteça mas sabendo que a nossa RTP gasta o dobro do dinheiro que gastava a RT Grega e dizem que aquilo era um buraco sem fundo, vemos que a coisa por cá está preta.

Pedro Cosme Costa Vieira

1 comentários:

Chilavert disse...

Convem dizer também que não existe a garantia que os preços ajustem o suficiente devido ás assimetrias económicas da Zona Euro. Os preços irão ajustar á média europeia logo os países em dificuldade estarão outra vez mais longe dos mais ricos ou seja o fosso será maior depois de todo este processo.Uma União com cada vez menos unidade...

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