terça-feira, 4 de junho de 2013

Como pode a nossa situação económica ser boa vista de fora e má vista de dentro?

Dois anos decorridos desde as legislativas de 2011.
A propaganda do Sócrates e demais esquerdistas cada vez grita mais alto que o governo do Pedro Passos Coelho é péssimo mas, estranhamente, todas as instituições estrangeiras dizem que Portugal está a ser um  estrondoso caso de sucesso.
Os esquerdistas dizem que, decorridos 2 anos, em 50 indicadores, o governo falhou totalmente em 48. Falhou largamente no desemprego, no crescimento económico, no investimento público e privado, na receita fiscal, na despesa pública, no défice público, na divida pública, na competitividade, etc., etc., etc. Assim, parece que toda a gente tem que concluir que a performance do Passos Coelho está a ser um fracasso quase total.
Mas depois aparecem os estrangeiros, desde o FMI, o BCE, a Comissão europeia e até o Obama (que há uns 2 anos disse que os USA não eram Portugal),  dizer que somos um exemplo de enorme sucesso porque atingimos nos dois indicadores que verdadeiramente interessam (a balança corrente e a taxa de juro da dívida pública), valores que há 2 anos pareciam impossíveis de atingir.
Será possível a nossa economia (e não o Passos Coelho pois nenhum homem tem essa capacidade) falhar em quase tudo que o cidadão normal observa e, mesmo assim, ser um grande sucesso?

Fig. 1 - As mãozinhas estão a postos para garantir que a Troika nunca mais terá hipóteses de atacar.

A variável do sucesso é a Balança Corrente.
A economia é como uma casa que tem a realidade interna e a realidade vista do exterior.

A realidade interna da nossa casa.
Imaginemos um família vive numa barraca mas tem um Mercedes último modelo, que os seus membros são uns porcos, tendo tudo desarrumado, cheio de pó, louça suja amontoada na cozinha, roupa espalhada pelo chão, o cão morto na varanda, os país batem nos filhos e os filhos dizem palavrões e só vêm televisão e vídeo-jogos. Qualquer assistente social concluiria que estávamos em presença de uma família disfuncional.
Ninguém poderia dizer que esta família era um caso de sucesso, aparentemente.

A realidade externa da nossa casa.
Imaginemos também que o pai se levanta bem cedo, faz a barba e vai trabalhar certinho, nunca faltando e respondendo sempre ao que lhe pedem na fábrica. Os filhos andam na escola e são os melhores alunos. A mãe, todos os sábados, coloca à porta uma banca onde vende produtos hortícolas e roupas que produz durante a semana.
Imaginemos ainda que no passado a mãe ia ao supermercado e comprava coisas muito caras que ficava a dever e que, ultimamente, vai ao supermercado, compra coisas mais económicas que paga a dinheiro e ainda paga os juros sem se endividar mais.

O que dirão os vizinhos sobre esta família?
Que devem ser sarracenos, devem ter uma cultura muito própria. Que dentro de casa são uns porcos onde ninguém pode entrar por causa do entulho e do mau cheiro. Mas que, se até há 2 anos atrás, deviam cada vez mais dinheiro, desde que a paróquia lhes nomeou uma pessoa para os ajudar na gestão doméstica, equilibraram as suas finanças.
Por isso é que na 7.a avaliação, a Troika olhou para derrapagem do défice de 2012 (de 4.5% passou a 5.5% e depois a 6.4%) e disse estar tudo bem.
 
 
Fig. 2 - Na nossa família só somos 4. Os outros 12 da foto são penetras. 

Vamos então ver as contas da nossa família.
Vamos imaginar uma família com 4 pessoas, escalando as variáveis agregadas (de 10.5 milhões) a estas 4 pessoas.
 
A divida - Somando as dividas acumuladas no passado, a família tem uma posição liquida negativa (que deve aos vizinhos) de 76200€ (corresponde ao valor de  40 meses de exportações).
 
O PIB - A família cozinha, trata da casa, e tem um pequeno campo que amanha. Também fazem umas roupas, sapatos e umas peças para automóveis. O sistema de contatibilização interna do que é produzido e consumido indica que o PIB referente às 4 pessoas é de 5400€/mês (12 meses por ano). Este valor não é idêntico ao rendimento de uma família porque tem um certo faz de conta calculado internamente (por exemplo, a mesada que os pais dão aos filhos e o pagamento que os filhos fazem aos pais pelas refeições).
 
A BC crédito - A família consome parte da produção e outra parte vende ao vizinhos. Também fazem trabalham umas horas no exterior. Destas vendas ao exterior, no último ano a família conseguiu, em média, facturar 2540€/mês. Este valor é mais comparável com o rendimento de uma família que o PIB.
 
A BC débito - Como ninguém consegue produzir tudo o que consome, a família compra ao exterior bens e serviços (combustível, água, electricidade, adubos, peles, carne, arroz, etc.) que paga com o dinheiro conseguido pelas vendas ao exterior e, quando há défice, endividando-se. Nos últimos 12 meses a família adquiriu ao exterior, em média, 2570€.
 
 A BC saldo - Nos últimos 12 meses, a família endividou-se 30€/mês. Apesar de a família se estar a endividar, sabendo que até há 2 anos a família se endividava 600€/mês, os vizinhos estão bastante optimistas quanto à situação financeira da família. Além disso, nos últimos 3 meses, não se endividou (ver, Fig. 3).   
 
Fig. 3 - Evolução do endividamento da família (dados: balança corrente, Banco de Portugal, escalado a 4 pessoas)
 
A amortização da dívida - Não existe a certeza que a família já esteja a amortizar a divida mas, dado nos últimos 12 meses a família ter-se endividado apenas 30€ quando pagou 185€/mês em juros, tudo indica que estão a entrar nos eixos. Se olharmos à tendência de evolução da balança corrente (ver, Fig. 3), podemos mesmo afirmar que a família já está a amortizar a divida (a BC está positiva).
O aumento da confiança de que a família consegue pagar o que deve, traduz-se em haver quem esteja disponível a reformar a divida a uma taxa de juro mais baixa (ver, Fig. 4).
 
Fig. 4 - Evolução da taxa de juro soberana a 10 anos (dados: ECB)

Comparemos com os dois 2 anos do pós- crise do sub-prime.
Nos dois anos do  pós-crise do Sub-prime (do Sócrates), continuou tudo normal, com a família a endividar-se 600€/mês face ao exterior (Fig. 3) e a taxa de juro a manter-se constante nos 4%/ano (Fig. 4). O governo nada antecipou e nada procurou fazer pensando que seria sustentável prosseguir ad infinitum com o endividamento externo.
Mas não era sustentável. Motivado pelo acumular da dívida e a bancarrota da Islândia, em princípios de 2010 as taxas de juro começaram a subir rapidamente. Mas, mesmo assim, o endividamento continuou as usual. Parecia que Portugal não conseguia viver sem se endividar.
A crise das dividas soberanas instalou-se em 2010 e o governo do Sócrates rebentou.

O povo penso e decidiu que estava na hora de escolher outro.
Nos últimos 2 anos de governo PSD+PP, o endividamento externo de cada mês foi diminuindo e, desde princípios de 2013, parou (Fig. 3). Incrivelmente, já não nos endividamos face ao exterior e ainda pagamos os juros da dívida assumida no passado (maioritariamente pelos governos socialistas).
O PPC entra com taxas de juro a 10 anos na ordem dos 10%/ano e, não só pela redução do endividamento externo mas também, no último ano a taxa de juro começou a descer rapidamente com tendência a voltar aos níveis anteriores a 2010 (Fig. 4). Ainda não estamos lá, mas tudo indica que para lá caminhamos.
 
Mas somos um sucesso ou não?
Quando os vizinhos pediram à paróquia que arranjasse um gestor familiar, imaginaram que a família apenas conseguiria equilibrar a sua vida se tivesse a casa limpa, o cão enterrado, os filhos a fazer os TPC mas nada disso aconteceu.
No entanto, mesmo mantendo a casa desarrumada e a berraria, a família conseguiu cortar na sua despesa (importações) e aumentar um pouco as suas receitas (exportações) o que permitiu equilibrar as suas contas externas. Agora, a família paga as suas coisas a horas (incluindo os juros da divida que é grande) e não precisa de novo endividamento.
O resultado da balança corrente excedeu largamente o que tinha sido antecipado.
Se pensarmos que o Salazar começou em 1926 (1932 como primeiro-ministro) com uma situação idêntica à nossa de 2011 e que demorou até 1940 para equilibrar as contas, já vemos como o resultado dos 2 anos qeu leva o governo do PPC é francamente positivo.
 
Será grave termos um défice público de 6%?
A Troika está-se borrifando porque esse défice, agora, é financiado internamente. O pai gastar e os filhos pouparem para emprestar ao pai ou o pai poupar e os filhos gastarem é exactamente igual ao litro para quem está a ver do lado de fora.
Apesar de as emissões de divida pública serem compradas maioritariamente por aforradores exteriores como a divida que essas emissões substituem (reformam) também são maioritariamente no exterior, o saldo (novo endividamento) é zero. Pode haver um pouco de aumento do endividamento externo público mas compensado por um pouco de redução do endividamento externo privado.

Será grave termos um desemprego de 20%?
A Troika também se está borrifando porque esse desemprego não se traduz nas contas externas. A mãe cozinhar ou estar a dormir, desde que os filhos não vão comer fora (gastar dinheiro no exterior) vai dar tudo na mesma.

Só uma variável está bem mas, para os credores, vale mais que todas as outras juntas.
Se Portugal conseguir manter a balança corrente a zero, como os juros e dividendos que paga já incluem a inflação, conseguiremos, em 35 anos, diminuir o endividamento externo para metade do que nível actual. Se conseguirmos melhorar a balança corrente para um saldo positivo de 0.75% do PIB, conseguiremos amortizar a totalidade da divida em 60 anos. E conseguir 0.75% não é nada extraordinário se pensarmos que a Alemanha tem desde 2006 um saldo positivo de 6.0% do PIB (ver, Fig. 5).
60 anos parece muito tempo mas, comparando com os 100 anos que demoramos a pagar a bancarrota de 1892, vemos que estamos no bom caminho.
É esta a razão para os últimos 2 anos sermos visto do exterior como um caso de grande sucesso.

Fig. 5 - Balança corrente alemã e quanto precisamos para amortizar a nossa divida externa em 60 anos(tradingeconomics)
 
E como poderíamos melhorar a situação interna?
Deixando a conversa louca dos direitos adquiridos e da defesa do estado social e baixando os salários uns 15%. Os salários já estão a corrigir e vão continuar a diminuir até ajustar o mercado de trabalho. Mas o desemprego poderia reduzir muito mais rapidamente.
Deveríamos deixar a lengalenga da procura interna, do caminho do crescimento baseado no consumo  e demais bull shiit e iniciar o caminho da realidade.

Ontem ouvi no Castle um pensamento interessante.
Chega um momento na vida em que perdemos a ilusão de que o Mundo alguma vez será como o idealizamos. Esse é um momento importante pois só a partir desse instante é que damos conta das muitas oportunidades que o Mundo nos dá de sermos felizes.
 
Pedro Cosme Costa Vieira

7 comentários:

Vivendi disse...

Muito bom post!

Ricardo Igreja disse...

Excelente post.

vazelios disse...

Excelente post!

É realmente uma pena não se ouvir na televisão que atingimos o segundo superavit comercial desde1975 e que a nossa crónica necessidade liquida de financiamento neste momento, Junho, não existe.

Se a imprensa ajudasse e as pessoas fossem mais ligadas à realidade do que aos sonhos, tudo se faria mais rapidamente.

O governo não fez tudo bem, mas fez algumas coisas bem que se revelaram importantes.

David Seraos disse...

Excelente post, deviam passar estas ideias na imprensa mainstream.

E o que eu me ri a ler isto, "Quando os vizinhos pediram à paróquia que arranjasse um gestor familiar, imaginaram que a família apenas conseguiria equilibrar a sua vida se tivesse a casa limpa, o cão enterrado, os filhos a fazer os TPC mas nada disso aconteceu.", mas é tudo o que a oposição se queixa ahaha

Novamente os meus parabéns por este post, muito bem conseguido.

Eduardo Santos disse...

Já tinha lido demagogia barata, mas tão elaborada é a primeira vez! De facto até parece pelo discurso que tudo vai muito bem, ora acontece que o desemprego continua a aumentar, e esse é verdadeiramente o real indicador do estado da economia, pois sem emprego não há receita de impostos além de haver aumento da despesa. Quanto à balança estar actualmente equilibrada, também aqui isto é falso, pois a mesma apenas acontece porque o consumo interno caiu a pique, uma vez que as pessoas deixaram de ter dinheiro para comprar o que normalmente importávamos. Além disso, a nossa taxa de juro baixa actual não se deve a estarmos a cumprir um programa, que tanto o FMI como a TROIKA já vieram dizer ser errado, e que o governo actual tinha exagerado na receita, porque o BCE está a actuar como garante das nossas vendas de dívida no mercado. Mas para os apioantes do governo nada disto interessa, apenas fazer crer ao povo que estamos a crescer a um ritmo alucinante a recuperar como uns loucos. Pena é que a nossa dívida externa continue a crescer, sendo já o governo que bateu o recorde a esse nível, mas nisso não convém falar!

Gonçalo Gonçalves disse...

obg

vazelios disse...

Eduardo, aqui a diferença é que você considera ser um factor negativo o facto do consumo via importações ter caído, enquanto que eu e muitos aqui consideram ser um factor bastante positivo.

Positivo na medida em que:
1) É um consumo via importações (muito dele não é imprescindível como se vê) e que prejudica a nossa balança comercial. Logo a sua queda é positiva até certo ponto que porventura ainda não terá sido atingido. A meu ver devemos consumir, mas responsávelmente, sempre com capitais próprios e poupando sempre que se possa.
2) Este consumo/importações é (foi) possibilitado pelo crédito, acesso à divida, o que prejudicou e irá prejudicar as nossas contas externas durante muito tempo.

Aumentar o consumo estúpido não é bom nem para uma simples contabilidade, logicamente, nem para o PIB porque esse consumo faz aumentar as importações e o beneficio que traz para o PIB, como vimos nos ultimos 15 anos, é bastante reduzido.

Muita gente comprou mercedes, audis e VW nesta ultima década, rodes de consumo, onde é que isso aumentou o nosso PIB? Onde isso melhorou a nossa situação?

Sobre o desemprego sugiro que vá aprender e ler bastante por exemplo em alguns posts do Professor Cosme sobre esse tópico.

Sobre os juros, apesar da forma crítica e destrutiva com que expôe a situalção, concordo consigo. Mas duma coisa lhe garanto: Se o BCE, FMI, UE não acreditassem no nosso trabalho, no que fizemos até aqui, não serviam de garantia para a nossa dívida. Tomaram uma posição diferente face à Grécia. Esperam rapidamente por um caso de sucesso. Este ajustamento nunca se faria em pouco tempo, há que dar tempo à economia a se ajustar. E se se diminuisse a despesa mais rapidamente, essa econpomia ajustava-se mais rapidamente. E como não se diminui a despesa, demora mais tempo.

Na demagogia continua o discurso de esquerda, que como nos levou até aqui, não sabe nem nos diz como sair, basicamente continuam a bater nas soluções "neo-ultra-renovadas liberais".

Está a pregar no sitio errado porque aqui NINGUÉM ACREDITA NO PAI NATAL.

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code