quarta-feira, 26 de junho de 2013

O FED, a causalidade e as expectativas racionais

A causalidade.
Na passada quinta feira, a Semi-Nova  (amiga da minha assistente operacional doméstica), ficou viúva.
- Mas porque morreu o homem? Foi acidente de trabalho? 
A minha assistente identificou que a causalidade foi:
- Como o Sergueianev bebia muita vodka então, o fígado rebentou.
Nos últimos dias tenho andado a convencer a minha mãe de que a Semi-Nova estava boa para tomar conta de nós (ou vice-versa). Claro que a minha mãe disse logo que ela era muito feia e magrita tal e qual uma colega da minha irmã mais nova que, por ser exageradamente feia, se casou com um preso que não se cansava de repetir, Tu és a mulher mais bonita que eu conheci na minha vida.
A rapariga imaginou a causalidade:
- Como ele me ama verdadeiramente então, acha-me muito bonita.
O problema é que o dito cujo omitia o fim da frase, "que conheci na minha vida prisional". Então, quando saiu em liberdade, deixou-a para todo o sempre. A moça ficou de rastos.
Afinal a causalidade era,
- Olhando para estes gajos então, tu és muito bonita.

Fig. 1 - Tens mesmo as melhores mamocas das que se vêm por aqui.

A cadeia trouxe à mente outra causalidade.
A minha mãe teve, em tempos tão recuados que eu não me lembro, uma rapariga como empregada doméstica. Apesar de ser gorda e parecida com um sapo que acabou de comer um saco de batatas, teve um filho que, algures na adolescência, se meteu pelos maus caminhos da vida. Começou por uma estadia de 2 anos "no colégio" por atirar o irmão ao poço e agora está a cumprir uma pena de 12 anos de cadeia por assaltos com violência.
Diz a minha mãe, Quando o João Paulo sair da cadeia, vai-se meter noutra brincadeira e não tarda nada, volta para lá  porque a cadeia é uma escola do crime.

Qual será a verdadeira relação?
Sendo certo que a percentagem de ex-condenados que comete crimes é maior que a percentagem de pessoas no geral, não terá a questão ser colocada ao contrário?
R2 -> "Estadia na cadeia" ---------------------> "Maior tendência a cometer crimes"
R2 -> "Maior tendência a cometer crimes" --> "Estadia na cadeia"
Em termos aparentes.
A relação de causalidade parece ter a ver com a precedência no tempo.
Se dou uma martelada no pé e, imediatamente a seguir, sinto dor então, a martelada causou a dor.
Quando eu era pequenino, volta e meia ouvia uma sirene que lançava ondas de barulho a quilómetros de distância.
óóóóÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓóóóó
Eu, na minha curiosidade infantil, vinha à rua e logo via alguns carros a passar a grande velocidade. Pensava eu para os meus botões, parecem os grilos a sair da toca quando eu lhes encharco a casa com a mangueirinha.
 
Fig 2 - Não tarda nada, o grilo sai a toda a velocidade.

Passados poucos minutos ouvia ao longe uma sirene que, mesmo sem ver de onde via, notava que se ia movendo, tiróri, tirori, tirori, tirori.
Finalmente, percorrendo o horizonte com os meus olhinhos pequeninos (mas que viam melhor que agora), não demorava muito a aparecer fumo na direcção em que o tirori se tinha calado.
Concluía eu que a sirene dos bombeiros era a causadora do aparecimento do fumo.
Afinal o que incendiava o fósforo era o barulho de raspar a cabecinha na caixa, zzzzzzzzzzzu.

Certo dia estavam 2 amigos no café
óóóóóóóÓÓÓÓÓÓóóóóóóóó - óóóóóóóÓÓÓÓÓÓóóóóóóóó
- É pá, tenho que ir rápido.
- Então pá, dizias que nunca, já mais, nunca mesmo, nem depois de morto mas afinal tenho que concluir que sempre te tornaste bombeiro.
-Toca a sirene ---> sais rápido ---> és bombeiro!
Não é nada disso, estás completamente enganado.
- Toca a sirene ---> saio rápido ---> arranjei uma amante toda boa cujo marido é bombeiro.

Será que hoje está calor porque os metereológos o anunciaram há uns dias?
Há 3 dias estava um vento frio mas os metereólogos anunciaram que hoje iria estar muito calor.
Será que foi o anúncio que induziu a onda de calor ou os metereólogos apenas previram, bem, o estado do tempo de hoje?

A precedência temporal não indica nada.
Penso que os meus exemplos convencem  que um acontecimento verificar-se antes de outro não obriga a que exista uma causalidade entre o primeiro e o segundo podendo mesmo a relação ser ao contrário.
Para que a causalidade exista tem que haver uma razão lógica que justifique a causalidade.
No caso da sirene dos bombeiros, mais tarde vim a saber que os bombeiros tinham um sistema de alerta que detectava os incêndios antes de ser ver fumo. O fumo e os bombeiros respondiam aos mesmo acontecimento (o incêndio).
Na economia existem relações empíricas que têm uma base teórica forte (por exemplo, se uma economia tiver mais capital então, o trabalho será mais produtivo) mas outras relações empíricas apenas existem porque a variável que a precede é como o cão que ladra antes dos assaltos.

Vamos ao caso do FED e da taxa de juro.
Uma das relações empíricas que existe mas que é do tipo "cão ladra -> ladrão vai entrar pela janela", é a relação entre a restrição de liquidez do FED e o aumento da taxa de juro.
Mas mesmo que o FED não fizesse nada, a taxa de juro subiria na mesma.
A diferença é que se o banco central não actuasse, nos períodos que precedem as crise económicas a inflação ficava muito baixa e nos períodos que precedem a expansão económica, a inflação subia muito.

Basta olhar para o ouro.
Há pessoas que pensam que se a moeda fosse o Ouro, haveria estabilidade dos preços. Mas se traduzirmos o nosso salário em gramas de ouro vemos que isso não é verdade.
Em Jul2010 o SMN seria de 15.645g/mês, em Jul2011 teria diminuído para 14.265g/mês, em Jul2012 já estaria nos 11.265g/mês para voltar em Jun2013 a ser 15.645g/mês. Nestes três anos, o SMN denominado em Ouro variou mais de 10%.

Fig. 3 - Cotação do Ouro Jun2010-Jun2013 (fonte: www.gold.org

Estimado Vivendi, 
É publicamente sabido que Ben Shalom Bernanke é judeu mas não é correcto referirmo-nos a uma pessoa desta forma porque há milhares de anos que ser judeu é motivo de perseguição.
Em Outubro de 2001 fui visitar Belmonte e, vendo a sinagoga fechada, sentei-me num degrau daquela rua estreita lá ao fundo da aldeia, já quase fora do casario em ruínas. Devo dizer que a arquitectura é horrível mas o Gehry está a desenhar outra.
Indo a passar uma velhota com um manado de couves à cabeça, meti conversa e logo se lhe juntaram outras duas ou três.
- As senhoras podem-me dizer onde mora aqui a comunidade judaica?
- Meu senhor, aqui não há judeus, só há uma velhota maluca que diz isso. Isso são tudo invenções de uns que vêm de Lisboa para ouvir um marroquino que vive na casa dessa maluca. Veja lá o senhor que ele diz que é pecado comer coelho e carne de porco.
Mas o pior estava para vir.
- Alto que se calhar o senhor é um desses de Lisboa.
- Se calhar, quem sabe.
Imediatamente viraram costas e continuaram o seu caminho.
Para recordar como nós portugueses somos intrinsecamente maus, recordo aqui António José da Silva, O Judeu.
Se o Vivendi disser publicamente que é judeu (mesmo não o sendo), verá que é imediatamente posto de parte mesmo por quem nunca imaginou e passará a viver com medo.
Isso é a maior prova de que, afinal, não vivemos num mundo livre e seguro.

A causalidade macroeconómica.
O trabalho de Muth (1961) Rational Expectations and Prices Movements ao afirmar que, tal como os metereólogos, os agentes económicos usam  toda a informação que têm disponível para prever o futuro (e não uma regra adaptativa simples), causou uma revolução na Teoria Economia.
Este trabalho foi a semente da Nova Macroeconomia Clássica (que os comunas denominam por neo-liberalismo) na qual se prova que as politicas de estabilização macroeconómica são ineficazes (e.g.Kydland & Prescott, 1977).
Depois de 1961 sabemos que os agentes económicos alteram o seu comportamento antes que se observe a variável à qual eles estão a reagir. 
Por exemplo, sabendo nós que em Outubro vem o fio, em Setembro começamos a arejar a roupa de lã.
Como os bombeiros sabem que nos dias de calor a probabilidade de haver incêndios é muito maior então, antes mesmo de aparecer a mais pequena das fagulhas, já os bombeiros andam pelos matos armados com baldes de água.

No mercado monetário acontece o mesmo.
O FED e demais bancos centrais têm que manter a inflação baixa, na ordem dos 2%/ano e para isso aumentam e diminuem a quantidade de notas em circulação na economia.
A inflação ser alta ou baixa não tem grande impacto na economia mas existe o consenso de que a melhor taxa é 2%/ano. A taxa de inflação não tem significativo impacto económico porque não altera as taxas de juro reais que no triénio 2009-2011 foram de 4.3%/ano com desvio padrão de 9.9 pontos percentuais (ver, Fig.4).

Fig. 4 - Relação entre taxa de inflação e juro real, 2009-2011 (dados: Banco Mundial, estimação ponderada, 85% da população mundial)
  
Como o banco central controla a inflação.
Aumentando (ou diminuindo) a quantidade de notas em circulação, aumenta (ou diminui) a inflação.

O Juan Gomez quer saber como o dinheiro chega aos nossos bolsos.
No longo-prazo, o banco central tem uma taxa de aumento da quantidade de notas mais ou menos fixas,
Taxa de aumento da moeda = Taxa de inflação + Taxa de crescimento do PIB
Por exemplo, se o crescimento for de 2%/ano e a inflação de 2%/ano, a quantidade de moeda aumenta 4%/ano.
Como existe em circulação cerca de 10% do PIB, esse aumento é de 0.4% do PIB, 680 milhões €/ano.
O Banco central dá esse dinheiro que ao governo que compra com ele coisas, indo assim parar ao bolso das pessoas.
No curto-prazo os bancos centrais usam diversos instrumentos desde a "janela de desconto" até à compra no mercado secundário de activos (operações de open-market) passando pela alteração das reservas obrigatórias da banco comercial.

O Nemo insiste que o investimento não é igual à poupança.
Mas é sempre (mesmo que o investimento seja involuntário) porque a variação de stocks faz parte do investimento.
Não tem nada a ver com as reservas bancárias pois existe variação involuntária de stocks mesmo numa economia sem moeda.
(Pedia-lhe o favor de reler  A moeda, o Crédito, o financiamento e o juro)

Concluindo, o FED não tem nada a ver com a subida das taxas de juro 
O que acontece é que os governadores dos bancos centrais sabem que quando o risco de recessão aumenta (a crise  aproxima), as pessoas querem guardar notas como activo de refugio o que, se não for respondido rapidamente, causa a queda dos preços. Então, quando a crise se aproxima, o banco central injecta moeda no mercado monetário.
Os bancos centrais antecipam a crise usando de forma cega uma multidão de variáveis de fácil leitura num modelo de previsão do desempenho futuro da economia, por exemplo, o algoritmo rpart do R. Pegam em coisas diversas como "consumo de aço", "número de chamadas telefónicas", "carros que pagam portagem", "pluviosidade do mês anterior", etc., para prever as necessidades de liquidez.
Em sentido contrário, os governadores sabem que, quando a crise se aproxima do fim, as pessoas deixam de querer ter tantas notas pelo que há necessidade de absorver a liquidez em excesso.
Não é que a restrição de liquidez do FED tenha impacto nas taxas de juro mas o FED e a taxa de juro apenas respondem em simultâneo ao fim da crise.

Não são os bombeiros irem passear nas florestas que causam os incendios florestais mas ambos (bombeiros e os fogos) respondem ao calor e à baixa humidade.

O Ouro também antecipa o fim da crise.
O Ouro mas não existe nenhum banco central que tente manter estável os preços em Ouro. Então, a cotação do Ouro aumenta na antecipação das crises (os preços em Ouro diminuem) e a cotação diminui quando se aproxima a expansão económica (os preços em Ouro aumentam).

Fig. 5 - As mulheres boas adoram o Ouro.

Pedro Cosme da Costa Vieira

4 comentários:

Nemo disse...

Eu nunca afirmei que a poupança não é igual ao investimento. A minha questão incide sobre a relação de causalidade que propõe "mais poupança causa mais investimento".
Produzir mais 100 carros aumenta o PIB em 100 carros. O PIB depende da produção de roupa, carros, batatas, casas, etc. Ora, nesta situação não dizemos que o aumento do PIB causou o aumento da produção de carros, mas sim o contrário, mesmo tendo as duas variáveis aumentado simultaneamente. Foi isso que tentei dizer no meu comentário, que afirmar que mais poupança causa mais investimento é como afirmar que o aumento do PIB causou o aumento da produção de carros.
Desta forma, a poupança apenas é um indicador da qualidade do investimento, sendo que mais desta é desejável, no sentido em que isso significa que está a ocorrer investimento produtivo e que a produtividade do trabalho está a aumentar.

Vivendi disse...

Caro prof. Cosme,

A minha utilização do "judeu" foi propositada porque o historial do FED assim o impõe. Estou curioso de ver quem será a próxima escolha do FED...

A herança de Ben Bernake é muito pesada e perigosa para passar despercebida.

Os americanos em 1970 eram os maiores credores do mundo e hoje são os maiores devedores do mundo.

O mundo livre é aquele que também nos deixa falar livremente das coisas. Não tenho problemas nenhuns com judeus e acho até que foi uma pena que n tivesse colocado hj uma imagem da Bar Rafaelli.

Sabemos que os judeus se caraterizam por uma inteligência acima da média (ver o rácio dos prémios nobéis) mas isso não significa que a sua inteligência esteja sempre a ser utilizada para o bem.

E a minha tolerância é reduzida para os manipuladores financeiros tal como foi a de Jesus contra os cambistas do templo.

Por fim é engraçado verificar também que a internet anda cheia de comentários a apelidar os alemães de hoje de nazis com mais alguns insultos do piorio e vê-se pouca gente a indignar com tais comportamentos. E não, não sou admirador do nazismo pois foi mais uma experiência socialista baseada no "homem novo" completamente fracassada com milhões de mortes só superado pela experiência comunista. E quem conhece aquilo que eu vou escrevendo sabe que sou contra o socialismo e qualquer planeamento central porque no final dá sempre merda tal como o judeu Ludwing Von Mises (do qual sou um admirador) já o demonstrou de uma forma superior.

Vivendi disse...

E ao contrário do que diz o FED tem tudo a ver coma subida de juros pois andou a criar este tempo todo uma série de bolhas pelo mundo que vão agora pipocando a menos que tenhamos um QE to the infenity.

E como diziam muito bem os escolásticos a função do dinheiro é apenas a de promover a troca.

Gonçalo disse...

"Depois de 1961 sabemos que os agentes económicos alteram o seu comportamento antes que se observe a variável à qual eles estão a reagir"

Convém dizer que os agentes alteram o comportamento de acordo com as "leis" da teoria dos neoliberais, o que "valida" estas últimas, e como elas dizem que as políticas são ineficazes, ENTÃO elas são.

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