sexta-feira, 7 de junho de 2013

Porque é que a crise não para?

A economia continua a encolher.
Saíram os dados do 1T2013 sobre a economia portuguesa onde se vê que nos últimos 12 meses encolhemos 4%. Muita gente berrou, desde comentadores a políticos, que estamos em queda livre, que são números totalmente imprevisiveis e chocantes mas este valor não é nada de extraordinário. Os comentadores apenas podem berrar porque o povinho é muito ignorante quanto ao que é uma crise.
Desde o princípio de 2011 o nosso PIB contraiu 5.7% que se compara com a contracção de 2009 da Alemanha (5.2%), é menor que o da Finlândia (-9.1%) e uma pequena fracção da contracção da Ucrânia (-16.7%).

Encolheram 16.7% mas ainda estou boa.


Vamos comparar com 2009.  
Na Alemanha a variação homologa do PIB  trimestral foi -6.3%, -6.8%, -4.4% e -1.3%.
Na Finlândia a crise foi ainda pior, com -8.8%, -9.9%, -8.3% e -6.4%.. É verdade, a Finlândia teve um trimestre com -9.9%.
Mas crise a sério teve a Ucrânia, que, no mesmo ano de 2009, viu o PIB variar -19.6%, -17.3%, -15.7% e -6,7%.
Comparando com estes valores, a nossa contracção de 4.0% é uma criancinha mas que tem relevância porque é maior que a média dos 4 trimestres anteriores (-3.2%).
Quando eu Nov 2011 eu estive na Antena 1 (a minha única aparição pública), referi que o nosso ajustamento levaria o PIB a contrair 20%. Decorridos 18 meses, tenho que fazer uma re-previsão para valores mais optimistas. Agora acredito que a retoma acontecerá em 2015 e que a contracção do PIB será de apenas metade, 10%, do que eu então previ (ver, Fig. 2).
Pensando que estamos exactamente a meio da crise, espero eu não me enganar outra vez. Mas posso estar enganado e a coisa atingir mesmo os -20% como já contraiu na Grécia!


 As minhas previsões para o PIB ......
 ANO ..... 2013 ........ 2014 ......... 2015
 ... PIB ........ -3.7% ..... -1.9% ....... +1.7%

Fig. 2 - Evolução do crescimento do PIB (dados: INE) e a minha previsão de que a crise acaba em 2015


Quais as causas da nossa crise?
Sem qualquer dúvida que é o fim do endividamento externo (que era de 10% do PIB).
É difícil aumentar as exportações sem cortar nos preços pelo que o melhor que conseguimos fazer foi atingir o nível de princípio de 2008. Então, de repente, foi preciso cortar a torto e a direito nas importações (que 1/3 era comprada a crédito) e isso deprimiu o sector das vendas a retalho e da construção civil.
Porque era impossível continuarmo-nos a endividar para todo o sempre, os esquerdistas continuarem a repetir que o PEC4 era a solução para todos os nossos problemas só demonstra que estávamos a ser governados por alucinados, tresloucado, dementes. Éramos um manicómio em auto-gestão.
Mesmo que fosse a NS de Fátima a governar-nos, a única solução era cortar nas importações.

Agora, o problema não está na quebra da procura agregada.
Os comentadores, esquerdistas e direitistas, dizem que a causa para a nossa crise está no lado da procura (menos consumo, exportações fracas e investimento reduzido) e nunca falam na necessidade de re-estruturar uma economia que vivia de endividamento (um tipo de  "Doença Holandesa").
Havia actividades muito dependentes das importações (a distribuição), da entrada constante de crédito fresco (a construção civil e obras públicas) e de apoio às populações (restauração) que estão condenadas a mirrar.
Argumentar que o nosso problema está no lado da procura (se não há procura, as empresas despedem pessoas e não investem) é apelativo mas está errado. Apesar de ser aceitável distrairmo-nos com conversas erradas, se quisermos compreender mesmo o que se está a passar, temos que observar cuidadosamente a evolução da nossa economia.

Porque está a análise errada?
Porque Portugal está integrado numa vasta economia em que as quantidades procuradas são dezenas de vezes maiores que a nossa capacidade produtiva total. Desta forma, as nossas empresas podem aumentar a sua produção quase sem limite.
O problema não está na procura mas na concorrência, i.e., na falta de capacidade das nossas empresas competirem junto dos clientes em termos de preços e qualidade.
Num mundo de sonho, podemos pensar que é fácil competir no mercado pela qualidade, fazendo Mercerdes, Audis e BMWs mas isso é apenas em sonho. No mundo real, temos que competir baixando os preços que apenas é conseguido se as nossas empresas conseguirem diminuir os custos de produção.


E como se diminuem os custos de produção?
Pois aqui é que está o problema do nosso país, vivermos com a cabeça na Lua.
Nas taxas de juro não é possível mexer porque a nossa poupança é muito baixa e os exteriores não nos querem emprestar recursos a taxas de juro menores.
Nos custos de periferia, não podemos mexer pois não podemos mudar o país para cima do Luxemburgo.
Sobram os custos do trabalho mas os "direitos adquiridos" não permitem a diminuição dos salários nominais nem o aumento das horas de trabalho (ver, Fig. 3).
Então, como o único direito adquirido que cede é o direito ao emprego, toca a despedir as pessoas menos produtivas.

Fig. 3 - Número de horas de um trabalhador a tempo inteiro (dados: INE)

Será que é isso que está a acontecer?
Até meados de 2008, princípio da crise do sub-prime, trabalhavam-se em Portugal 185 milhões de horas por semana, 17.6h/sem para cada português. Apesar de sabermos que a taxa de desemprego estava a aumentar desde 2002 e o horário semanal a diminuir, até 2008 o aumento da população activa contrabalançava estas duas variáveis.
Em finais de 2008, bastante antes do Passos Coelho entrar no governo, o número de horas trabalhadas começou a diminuir 3.7%/ano e actualmente já acumula uma perda de 17% (ver, Fig. 4).

Fig. 4 - Milhões de horas trabalhadas em Portugal por semana, a tempo inteiro e parcial (dados: INE))


Como pode o número de horas diminuir 17% e o PIB só cair 7.1%?
Se a perda de horas de trabalho fosse de pessoas identicamente produtivas, mantendo-se o nível de capital, esta queda de 17% induziria uma contracção do PIB de 11% (2/3 dos 17%). Apenas não há tamanha contracção porque, a produtividade por hora trabalhada tem aumentado 1.9%/ano (ver, Fig. 5).

Fig. 5 - Produtividade por hora, 2/3 do PIB para o trabalho e 1/3 para o capital (dados: INE)

A economia está a evoluir.
A produtividade do trabalho estar a crescer 1.9% é positivo porque indica que a economia continua-se a transformar. Se acrescentarmos que o investimento tem estado em valores muito baixos, vemos que assistimos a uma transformação muito positiva. Então, temos um potencial para, a médio-prazo, ter um crescimento do PIB acima dos 2%/ano. Penso mesmo que no período 2016 - 2020 vamos ter crescimentos acima dos 3%/ano.

 
2015 vai acabar com um desemprego de 22%.
O lado mau deste número é que a contracção do PIB de mais 5% até finais de 2015 (é a minha previsão) vai estar associada à diminuição do total de horas trabalhadas o que traduz mais desemprego. Se a contracção entre 2011 e 2013 do PIB de 5.7%  foi induzida pelo aumento do desemprego de 12.9% para 17.5%, uma nova contracção de 5% do PIB vai estar associada a um aumento do desemprego para os 22%..
Se eu não errar, o anos de 2015 será de estabilização do desemprego e só em 2016 é que a coisa vai começar a diminuir.
Não digam depois que os números os surpreendem.

 Pedro Cosme Costa Vieira

1 comentários:

Chilavert disse...

O Sr acha mal os "direitos adquiridos"??? Não seria melhor que o BCE tivesse uma estratégia concertada de empréstimo de dinheiro ás administrações centrais em juros de 1%/1,5% e baixando a cotação do euro para conseguirmos competir com as economias emergentes?Não seria benéfico para todos nós que a Alemanha tivesse memória e se lembre de onde veio em vez de manipular os centros de decisão para continuar a ser a única beneficiada da UE????

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