quinta-feira, 27 de junho de 2013

The Teixeira dos Santos Reloaded

Ontem estava com curiosidade de ouvir o Teixeira dos Santos.

O homem já viu que é impossível arranjar um tacho na PT sem fazer um acto de contrição e, como não é burro, pensei que, ao dizer (pedir) à Judite de Sousa que estava pronto, se estava a preparar para abrir o bico.
Mas não. Foi um reload da cassete que eu ouvi em Outubro de 2011.
Então, mantém-se o que eu disse nesse dia:

O que eu queria ter ouvido do TS
 - Enganei-me.
 - Pensava que a expansão da despesa pública seria apenas durante um ano e que depois a economia recuperava mas falhei.
 - Durante a noite acordo com pesadelos e suores frios e penso "será que fiz o melhor que podia ter feito"?
 - Esforcei-me muito mas não fui capaz de estar à altura da crise. Estava convencido da minha razão e não ouvi ninguém pelo que este erro me vai perseguir pelo resto da minha vida.
 - Desculpem-me.

O que eu ouvi
- A culpa é de todos.
- O PEC4 ia-nos salvar.

O que teria o PEC 4 de especial?
PEC, PEC, PEC, PEC, PEC, PEC, PEC, PEC, PEC, PEC, PEC, tipo pica-pau a martelar na madeira podre.
Mas o que teria o PEC4 de tão especial que nos ia salvar sem sofrimento? Seria sem a austeridade que vivemos?
Porque é que o PS, continuando a ter o PEC4 na gaveta, não avança com isso para a discussão pública?
O que eu penso é que o PEC4 era pior que a austeridade do Passos Coelho. Se o PEC3 foi cortar 10% nos salários dos funcionários públicos (que ainda hoje perdura), como seria o PEC4 para resolver todos os problemas das contas públicas.
Não vale a pena eu bater mais no dorso do animal pois dali não sai mais nada.
Mais vale fazer o reload do poste Quem será o culpado da crise que Portugal vive?

Fig. 1 - Para reload, reload e meio


Agora falta falar de umas perguntas que recebi por e-mail.
Já que não preciso gastar o meu tempo a repetir-me, fica tempo para as 4 questões muito pertinentes do Ricardo Mendes que já deveria ter respondido há umas semanas mas que ainda não consegui responder.
São interessantes porque mostram que apenas faltam alguns pormenores.
Aqui vão.

1 - Depósitos compulsórios nos bancos comerciais e as notas mortas.
Os depósitos bancários não são notas. Podem ser usados para pagamentos e recebimentos (com o multibanco e os cheques) mas não são, de facto, notas. 
As notas existem para facilitar as transacções económicas mas existem outros instrumentos que também podem ser utilizados com esse objectivo (e.g., o multibanco, os cheques, os tickets refeições, os pontos no cartão Continente). Toda a gente se lembra do usar cheques pré-datados para fazer pagamentos diferidos no tempo.

O controlo do nível geral de preços.
Acontece que os governos querem que haja estabilidade de preços (mandatam o banco central para isso) o que apenas se consegue alterando continuamente a liquidez na economia (os meios de pagamento).
É fácil alterar a quantidade de notas em circulação. O banco central sabe todas as notas que imprimiu (que até estão numeradas) pelo que é trivial aumentar a quantidade de notas (dá-as ao governo que as gasta) .
As "reservas compulsivas" servem apenas para tornar o sistema mais controlável.
Se as reservas compulsivas fossem zero e fossem permitidos outros meios de pagamento alternativos às notas  (por exemplo, o Continente fizesse vendas a descoberto "em cartão"), o Banco Central teria que intervir mais vezes e com quantidades maiores de notas.
Vamos esquecer a lengalenga de que os bancos criam moeda pois estes apenas aumentam a velocidade de circulação da moeda (medida como o stock total de notas a dividir pelo PIB).
Não vamos gastar o nosso pensamento em coisas que só servem para nos confundir a mente. Quando alguém disser que toda a gente fala disso, diga pura e simplesmente bullshit. Também muita gente dizia (e ainda diz) que o Sol andava à volta da Terra.

Pergunte antes?
O que aconteceria se as reservas compulsivas fossem 100% (o banco é um cofre)? A única coisa que aconteceria é que a quantidade de notas em circulação (fora do Banco Central) teria que ser muito maior .
E se fossem 0%? A quantidade de notas em circulação (fora do Banco Central) teria que ser muito menor.
Vendo que não haveria qualquer impacto económico logo vemos que a lengalenga da "criação de moeda" não tem pés para andar. Os depósitos bancários são alternativas às notas (são inside money) pelo que existe necessidade de controlar a sua capacidade de alterar a liquidez total da economia.

2 - Um banco tem toda a liquidez que deseje do banco central à taxa em vigor.
Mas tem que prestar garantias para que a falta de liquidez não seja o resultado de o banco estar falido (o total do activo ser menor que o total de passivo).
As garantias são de todo o tipo mas ponderadas pelo risco de fracassarem.
As garantias que têm menos risco são os títulos de divida pública que são tomados ao valor nominal.
Depois, há os créditos hipotecários que as pessoas têm para com os bancos. Por exemplo, o Ricardo tinha a sua casa hipotecada ao BCP por uma divida de 100000€. Depois de o banco central calcular a  probabilidade de o contracto não ser pago, por exemplo, 3%, o BCP poderia usa este contracto para garantir um empréstimo de 97000€ junto do BCE à taxa de juro em vigor. O crédito hipotecário apenas passaria para o banco central se o BCP falisse.
Poderão ainda ser aceites activos com maior risco (por exemplo, divida das empresas públicas) mas apenas em casos excepcionais de falta de liquidez na economia.
Os activos não precisam ser líquidos no sentido de que são dinheiro mas devem ser transaccionaveis em mercado (que funciona como uma medida do risco) para o banco central poder desfazer-se deles no caso do banco credor falir.

3 - O que aconteceu no Chipre estará correcto?
Quando um agente económico vai à falência alguém vai ter que sofrer o impacto do prejuízo. Se o Estado assumir o prejuizo, somos todos nós que temos o prejuizo. Senão, são apenas os credores.
No caso dos bancos, públicos ou privados, passa-se o mesmo e os "credores" do activo são os accionistas, os obrigacionistas, os depositantes, outros bancos do mercado EURIBOR e as instituições (BCE, FMI, Estado e outras instituições europeias).

Antes da crise do sub-prime a Lei dizia que o fundo de garantia dos depósitos assumia o pagamento das contas bancárias até 25000€ por depositante. Todos nós sabíamos isso mas pensávamos que tal nunca iria acontecer. Toda a gente pensou que era como a claúsula de rescisão do Ronaldo  de 94 milhões € que ninguém imaginou ser possível alguém bater até o Real Madrid se chegar à frente.
Como em 2010 a garantia dos depósitos passou (provisoriamente) para 100 000€ por depositante, no Chipre apenas havia a discutir se as perdas seriam nos depósitos acima dos 25 000€ ou acima de 100 000€ e se seria em todos os bancos (perdas solidarias entre todos os depositantes) ou apenas nos que faliram (cada depositante assumir o risco do negócio).
Foi-se pela solução mais de acordo com o lógica do mercado: perderam as pessoas que não se acautelaram e depositaram o seu dinheiro nos bancos falidos porque estes pagavam (prometiam) um juro muito mais elevado.
Mas nunca ninguém disse que os depósitos estão totalmente garantidos. Nos USA quase todos os dias há bancos que abrem falência.

A fiscalização do Banco de Portugal.
A fiscalização compete, primeiro, a cada um de nós.
Quando nós vamos a um restaurante e a comida cheira a podre não podemos confiar que não nos vai fazer mal porque existe a ASAE.
Mesmo numa passadeira, temos que olhar para um lado e para o outro antes de atravessar.
No caso dos bancos é a mesma coisa. Se o BPP oferecia 6%/ano de taxa de juro e a CGD oferecia 1%/ano, alguma coisa estava mal.
Os bancos são muito difíceis de supervisionar e, também, o Banco de Portugal não é muito competente.

4 - Quem alimentou a nossa festa?
O grande interface entre os aforradores e os gastadores são os bancos comerciais, as companhias de seguros e os fundos de pensões (que quase não existem em Portugal).
Por exemplo, uma pessoa deposita 1000€ num fundo de pensões na Alemanha e esse fundo vai canalizar esse dinheiro para um local que tenha uma relação rentabilidade / risco elevada. Esse local pode ser o Metro do Porto, obrigações do BPI, títulos da divida pública portuguesa ou uma carteira de créditos hipotecários do BCP.
Depois, o Metro do Porto usou esses 1000€ para pagar salários a portugueses.
O BPI usou os 1000€ para emprestar para um crédito pessoal.
O Estado entregou esses 1000€ em RSI e em ordenados aos professores.
O BCP usou os 1000€ para emprestar a empresas portuguesas.
Não foi nenhum português pedir directamente os 1000€ emprestados ao alemão mas fez pressão (pelos votos em governos despezistas, obras nas autarquias e pedidos de empréstimos bancários) para que isso acontecesse.
A balança corrente da Zona Euro está equilibrada pelo que, em termos liquidos, o dinheiro veio para cá de outros países da Zona Euro. Mas como os fundos têm participações de outros fundos, não se sabe com certeza a quem, no fim, Portugal deve dinheiro.
SAbemos que, em termos mundiais, há paises que são credores importantes (as pessoas da China, Japão, Arábia Saudita, etc.) e outros que são devedores importantes (USA, Grécia, Portugal, etc.).
Cerca de metade da divida externa portuguesa (os 78 mil milhões € da Troika mais 50 mil milhões € que o BCE emprestou aos nossos bancos) é de instituições públicas e outra metade é de instituições privadas espalhadas um pouco por todo o Mundo, mesmo de países muito endividados (USA) e pobres (Angola).

Como diz o Razia Pereira.
"Eu não quero pagar essa divida" mas, no tempo do Guterres, do Santana Lopes e do Sócrates, não o ouvi dizer uma única vez  que o défice público tinha que ir a zero pois não queria que Estado Português se endividasse.
Nem agora o diz. Grita por mais endividamento para depois dizer que a divida é impagável.

O nosso maior inimigo é a esperança.
Não foram os políticos incompetentes que nos levaram à bancarrota.
Foi a nossa esperança de, mesmo sabendo que era impossível continuarmo-nos a endividar ao exterior 17 mil milhões € por ano, pensarmos que com dois acorda do tribunal constitucional, uma greve aos exames, duas greves gerais e três manifestações gays, a coisa se resolvia de um dia para o outro e sem doer.
Foi a nossa esperança de que, mesmo sem qualquer lógica, o Holland ia falar grosso à Sr.a Merkel e todos os direitos adquiridos pelo 25-de-abril-1974 iriam ser pagos pelos contribuintes alemães.
É a nossa esperança de que, quando o Seguro for primeiro-ministro, o IRS vai descer, os salários vão subir, o desemprego vai desaparecer, o IVA da restauração volta aos 13% e a economia vai crescer.
É a nossa esperança de que o Mar ou a Agricultura, que contribuem em conjunto com 2.5% do nosso PIB, nos vão salvar (se a agricultura e mar crescessem 40%, o impacto no PIB seria de apenas 1%).

É acreditar que o PEC4 resolvia a nossa crise.
Os esquerdistas tresloucados repetem sem se cansarem que a Sra Merkel estava toda contente com o PEC4. Alguém, alguma vez, jamé ouviu a Sr.a Merkel ou qualquer das pessos que esses loucos referem como tendo dito que o PEC4 era uma coisa excepcional?
Já ouvi muita dessa gentes dizer que o Gasparzinho está a fazer um trabalho notável mas nunca ouvi ninguém dizer que o Sócrates ou o Teixeira dos Santos tenham feito algo de jeito.
Continuam e continuarão em negação.
Eu só tento imaginar como estariamos se essa cambado nos tivesse continuado a governar.

Como é possível?
Termos como líder do PS um cabeça de vento que anuncia como solução para todos os nossos problemas a Caixa Geral de Depósitos pagar as dividas do governo.
Afinal o sócrates não repcisava pedir ajuda a ninguém pois a CGD poderia pagar tudo o que fosse necessário.
Já agora, poderia pagar o Subsidio de Desemprego e os salários aos funcionários públicos.
É um asno de tamanho tamanho que não compreendo como alguém pode responder que vá votar em tal partido.
É a esperança no inverosímel que nos derrota.

Fig. - Muito obrigado a todos os que contribuiram para este número.


Pedro Cosme Costa Vieira

1 comentários:

Diogo disse...

Mais um excelente post.

Felicitações pelo meio milhão de visualizações!

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code