sexta-feira, 12 de julho de 2013

A crise, o Cavaco e o Resgate II

Quem será responsável pela actual crise política?

As principais apostas vão para o Gasparzinho, o Portas, o Passos Coelho e o Cavaco Silva mas não é nada disso.
A verdadeira culpa da crise vai para as sondagens que dizem que, se hoje houvesse eleições legislativas, o PS ganhava.
Para quê o Gasparzinho esforçar-se, o Portas perder votos ou o Passos ficar sem cabelo a fazer coisas que, havendo eleições, o Seguro vai anular?
Se o povinho quer seguir "outro caminho", o melhor é tirar férias e engonhar até ao fim do mandato.
O governo deve prometer tudo e, como fez o da Educação, adiar tudo para 2015 que logo o PS resolve como o povinho quer.

Que susto!
Reparemos num pormenor.
A crise politica implicou uma subida muito pronunciada das taxas de juro. Assim que o risco de o governo do Passos Coelho cair aumentou, a taxa de juro que estava nuns razoáveis 5.2%/ano (do dia 21 de Maio), explodiu para uns proibitivos 8.2%/ano.
A queda do governo do Passos, dizem as sondagens, levará o PS ao poder e à implementação do "outro caminho". Mas não é esse "outro caminho" o caminho do crescimento e da prosperidade? Então porque sobem as taxas de juro se vem aí esse governo formidável?
Mau.
Afinal quem nos empresta dinheiro apenas acredita que o tal "outro caminho" do PS é o mesmo caminho que foi traçado entre 2005 e 2011 e que nos levou à bancarrota de 2011.

O povinho quer continuar a acreditar na NS de Fátima.
Não se recorda o povinho que entre 2005 e 2011 o crescimento da nossa economia foi ZERO?

Antes de o Passos Coelho tomar posse
Eu previa que Portugal nunca mais conseguiria financiar-se no mercado liberalizado (ver, por exemplo, um poste de há 2 anos).
Nos primeiros meses de Passos Coelho a nossa situação financeira degradou-se muito parecendo em Jan2012 que o nosso colapso estava iminente (taxa de juro a 10 anos ultrapassou os 18%/ano) mas, como por milagre da NS de Fátima, a taxa de juro começou a cair cerca de 2 pontos base por dia (0.02 pp por dia).
Da mesma forma que tinha subido, o nosso spread relativamente à divida pública alemã foi caindo rapidamente até que, nos princípios de 2013, estabilizou num spread de 4.67 pontos percentuais.
Fig. 1- Spread da divida pública a 10Y portuguesa relativamente à alemã (Fonte: contryeconomy)

Será a actual taxa de juro sustentável?
A taxa de juro a 10 anos está nos 7.5%/ano.
Em termos históricos não é uma taxa de juro muito elevada. Por exemplo, na década de 1990 a Alemanha pagou taxas de juro acima dos 6.0%/ano (com inflação média de 2.4%/ano).
Se compararmos com o endividamento do tempo do Guterres, no seu primeiro mandato a taxa de juro chegou a mais de 10%/ano.
O problema é que agora a nossa divida pública é massiva, acima do 205 mil milhões € e tem que ser reduzida.
Para reduzirmos (com prestação fixa em termos nominais como se amortizam as casas) a divida pública a metade em 50 anos, à taxa 7.5%/ano precisamos de 15 mil milhões € por ano.
Cada português tem que pagar mais 150€/mês em impostos para amortizar a divida pública.
Em termos teóricos, é possível mas não é fácil .

O que irá acontecer nos próximos meses?
O Cavaco disse que, provavelmente, haverá eleições em meados de 2014. Se as sondagens mantiverem o PS à frente, a taxa de juro terá tendência a subir.
Chegaremos ao fim do actual resgate e não nos poderemos financiar a uma taxa de juro de 7.5%/ano.
O Cavaco pode ter prometido ao PS que 2014 poderia ser ano de eleições mas vai ter que mudar de opinião. Com o aproximar do fim do resgate ficará cada vez mais claro que quando o PS chegar ao poder quem vai governar o nosso país e com rédea curta vão ser as instituições internacionais.
Nunca, jamais poderemos ter um novo Sócrates.

Será preciso o 2.º resgate?
Não será preciso um segundo resgate quando ainda quase nada foi feito do que nos obrigamos no primeiro resgate.
O que será preciso é cumprir o primeiro memorando de entendimento, aquele assinado pelo Sócrates.
O PS quando entrar vai ter que, finalmente, dar cumprimento ao que se comprometeu

=> 4521M€, 2.8% do PIB, de défice público (previsto para 2014). Como pode o PS ter assinado no ponto 1.33 do memorando que o défice em 2014 seria de 2.8% do PIB e, depois de o Passos ter conseguido rever este números para o dobro (5.5% e a crescer), dizerem que o governo está a fazer mais austeridade que o que estávamos obrigados?.
Os do PS sabem mesmo que estão a lidar com um eleitorado verdadeiramente estúpido

=> Privatizar a TAP.
Está no memorando assinado pelo Sócrates que a TAP seria privatizada até ao fim de 2011. (ponto 3.30)

Mas há coisas que estão a ajustar.
O mercado de trabalho está a ajustar
Os dados da EUROSTAT indicam que os custos do trabalho estão, desde princípios de 2011, a descer 5% por ano (ver, fig.2). Eu não me acredito muito mas se a EuroStat diz, tenho mesmo que aceitar como verdade pois a Economia não depende da minha impressão.
Estando os custos do trabalho a diminuir então, o mercado de trabalho está numa dinâmica de ajustamento pelo que, a prazo, observaremos uma redução da taxa de desemprego.

Fig. 2 - Evolução dos custos do trabalho portugueses relativamente à ZE17 (dados: EUROSTAT)

Haverá necessidade de fazer alguma coisa no Mercado de Trabalho?
O Salário Mínimo Nacional está muito elevado.
Apesar de estar congelado há alguns anos nos 485€/mês, como o PIB tem caído, o seu valor tem subido relativamente ao PIB per capita. Os dados internacionais indicam que o SMN deve estar abaixo dos 40% do PIB pc o que implica uma redução do SMN para 400€/mês sob pena de uma percentagem grande de trabalhadores ser excluída do mercado de trabalho por conta de outrem.
Tem que haver alguma maneira de diminuir o SMN nem que seja pela subsidiação dos empregos com salários mais baixos (perdoar parte da TSU dos empregadores).

O mercados com o exterior está a ajustar
A balança corrente equilibrou estando em 2013 no nível mais elevado dos últimos 25 anos.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, 2013 será um dos 3 anos com um maior superávite da balanço corrente.
Isto é positivo.

Nota final: O discurso do Cavaco é um plágio do discurso do Jorge Sampaio quando, em 2004, deu posse ao governo do Pedros Santana Lopes + Paulo Porta
- Atenção que eu vou estar atento e, de um momento para o outro, dou-vos uma marretada que não se endireitam mais.
Só espero que o Paulo Portas tenha aprendido alguma coisa em 2004.

Pedro Cosme Costa Vieira

7 comentários:

António disse...

O eleitorado é inteligente só quando vota PSD e CDS?

Nemo disse...

Pergunto-me se se pode realmente dizer que o mercado de trabalho ajustou. O salário médio do privado aumentou, pelo que a diminuição das remunerações vem da diminuição do salário médio da função pública e do desemprego. Além disso, o aumento da produtividade do privado, mesmo com recessão económica e o aumento do desemprego, dá indicações preocupantes acerca da população desempregada.

Quando se começar a criar emprego, quer por decreto quer por iniciativa privada, é que se vai ver o ajustamento. Aí, sim, o salário médio do setor privado descerá. E, por isso, deverá haver muita conversa em torno das desigualdades salariais. Mesmo assim, não me parece que nos livremos de um desemprego estrutural elevadíssimo.

Mais preocupante que a subida das yields da dívida pública a 10 anos é o facto das yields de dívida a prazos menores estarem a aproximar-se demasiado da primeira. Isso só mostra a confiança que depositam em nós.

Económico-Financeiro disse...

Estimado António,

A estupidez não tem a ver com os partidos. É estupido quem vota em pessoas que dizem resolver tudo com "outro caminho" sem nada dizerem sobre os passos concretos desse caminho. Por exemplo, o António Costa é capaz de estar a falar 24h seguidas sem dizer uma única ideia. Mas também existem milhares dessas pessoas no PSD (por exemplo, o Rio) e há pessoas lúcidas no PS (por exemplo, o Amado e o Daniel Bessa).

Estimado Nemo,
O mercado de trabalho não pode ter ajustado quando temos 18% de desemprego mas está numa dinamica de ajustamento. Mas o ajustamento é muito dificil em cambios fixos. Por isso é que eu defendo uma intervenção legislativa (por exemplo, o fim dos subsídios de férias e de Natal) e prevejo que teremos que sair do Euro. Ainda teremos muitos anos de desemprego elevado.
Quanto à taxa de juro, as de longo prazo aumetarem é mais grave que as de curto prazo porque traduzem que os nossos problemas não são passageiros mas que, nos últimos dias, houve uma alteração estrutural na nossa vontade de resolver a crise.
Se o nosso problema de contas públcias fosse apenas de um ano de instabildiade (morrer ou escapar), o aumento da taxa de juro a 10 anos de 5.2%/ano para 7.5%/ano teria sido por causada pelo aumento da taxa de juro a 12 meses para 25%, o que não aconteceu.

Obrigado pelos comentários,
pc

Diogo disse...

Como fica caro aos privados despedirem, e por não poderem baixar salários, o mercado de trabalho está a ajustar à custa dos jovens com contratos a termo.
Esses é que não têm proteção nenhuma.

Prata do Povo disse...

Quanto ao eleitorado deve-se aquacionar novas variantes, na verdade variantes antigas mas sem grande peso, que intrevêm no comportamento eleitoral.
A DEMOCRACIA em Portugal tal como no Liberalismo político da Monarquia gere-se pelo voto útil, na necessidade de mudar. Sabemos contudo que cada 20-40 anos o sistema regenerava-se mas isso porque só as elites podiam votar, e por vezes tinham a genialidade de mudar as coisas, ou o povo enraivecido lá fazia mais uma Maria da Fonte, e as elites aproveitavam a deixa e regeneravam os políticos. A III república europeísta trouxe algo estranho, a premiscuidade da politica e da elite económica, mas isso porque os políticos se tornaram em elite "económica" (os industriais do antigamente, mas agora não h´+a quase industria), mas entretanto começamos a perceber que essa nova elite económica está a ficar farta destes políticos, ou da forma como este regime cria e escolhe políticos. Por outro lado existem revoluções como o capital protestativo dos eleitores tem vindo a aumentar ao longo da última decada, e acelarou-se nos 2 últimos anos (na primeira republica a populaça de Lisboa e do Porto habituaram-se a fazer revoluções a da 6 a 12 meses de acordo com os ciclos agrícolas, mas isso aconteceu porque acomulou capacidade protestativa(revolucionária) e com isso cada vez mais potencial de mais revoluções fazer, por fim já nem os ciclos agricolas respeitava e começou a morrer à fome, o que não tinha tanta piada e por isso abriu os braços, o peito e as pernas à mãe de todas as contra-revoluções... Abriu-se um ciclo de revolução palaciana, e isto agora nunca mais para. Eu não acredito que o PS ganhe. Eu estou mais à espera de uma radicalização das intenções de voto não declaradas o que ditará supresas invulgares.

O fim do euro virá porque queremos todos varrer muita coisa que por aqui existe e muita da que virá...

Joao F. disse...

Professor, só um pequeno reparo: O défice pode, ou não, incorporar todas as despesas/responsabilidades assumidas pelo Estado (legais ou não, morais ou não). Há que desmitificar ? Porque se fala no défice sempre em percentagem e não em valores absolutos ? Porque não se explica ao povo qual a origem do montante de divida astronomico existente no Estado e na banca privada? Porque não se explica como tencionam pagar e com que dinheiro vindo de onde? Porque não se explica que as PPP's, empresas públicas e outros esquemas contabilisticos não contam para défice ? Porque não se conta que o défice derrapou em 2012 por 'desvios' do tipo BPN e afins...e já agora porque não se prende ninguém em Portugal, porque o fisco não pune os criminosos ?

Económico-Financeiro disse...

Estimado João F.
1- Nem tudo vai ao défice. Quando um encargo vem do passado, por exemplo, as dividas hospitalares às farmácias, pode ser autorizado pela EuroStat a passagem a divida sem cotnar no défice. As privatizações também abatem divida sem ir ao défice (como receitas).
2- O défice é em percentagem para se poder comparar com outros paises e ao longo do tempo.
3- A divida do Estado vem de gastar mais do que recebe (em impostos). Esse dinheiro foi principalmente para as pensões e ordenados da função pública.
4- Os pagamentos que se fazem às PPP's contam para o défice no ano de pagamento. Quanto à divida, o EurStat obriga a contabilizar os encargos totais se as receitas das PPP's forem maioritariamente públicos.
5- É verdade que os encargos do passado (seja o BPN mas também os pensionistas e os funcionários públicos) tornam muito dificil controlar o défice. Quando um governante faz uma asneira, por exemplo, subir os salários e pensões em 2009 por causa das eleições, vai ter impacto orçamental durante décadas.
6- Cada euro da divida pública traduz alguém que foi beneficiado. Custa aceitar mas, no caso português, foram maioritariamente milhões de pensionistas e funcionários públicos (onde eu me incluo). Não podemos aceitar os benefícios e deixar as penalizações para os outros. Nos somos crianças que vivemos bem porque os nossos pais se endividaram em nosso nome.
7- A "fuga fiscal" não é necessáriamente mal. Prova disso é que o governo quer descer o IRC. REparemos na Conforlimpa em que uma questão fiscal já mandou milhares de pessoas para o desemprego.
Um abraço,
pc

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