segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A diminuição do desemprego em recessão

O Neno colocou uma questão muito interessante.
Como é possível haver redução do desemprego quando o investimento está pelas horas da amargura e a economia não dá sinais de crescer?
Realmente, na comunicação social não se para de dizer que o desemprego só começa a diminuir quando o crescimento do PIB estiver acima de 2%/ano ou 3%/ano. E ouvi mesmo de um colega meu, OF, especialistão em questões destas que "o desemprego só começará a diminuir 18 meses depois de o PIB começar a crescer pelo menos 2%/ano".


De onde vem esta ideia?
As aparições de NS de Fátima foi não sei quem que disse que não sei quem lhe tinha dito que ouviu dizer que umas criancinhas tinham dito que outras criancinhas que são filhos de não sei quem tinham visto não sabiam bem o quê, branco. E assim se fez NS pousar em Fátima. Mas isto são questões de acreditar.
No conhecimento científico as coisas têm que vir de um qualquer lado de forma sólida.

A relação entre investimento e emprego.
Na relação entre investimento e emprego parece natural afirmar que é preciso investimento (novas máquinas, instalações e ideias) para haver mas pessoas a trabalhar.
Para ser mais intuitivo, vamos imaginar uma empresa agrícola onde o capital é (principalmente) uma certa porção de terra na qual trabalham 10 pessoas.
Vamos imaginar que esta empresa agrícola produz 100mil€/ano, que 33 mil€/ano é a renda da terra (juros e lucros) e 67mil€/ano são salários (salário de 6700€/ano).
Sendo a empresa bem gerida, a empresa contratar 10 pessoas porque assim maximiza a renda da terra. Então, se a empresa empregar mais uma pessoa, o lucro vai diminuiu em 300€ (vou supor que a produção irá aumentar 6400€/ano).
Desta forma parece evidente que a única forma de aumentar o emprego será aumentar a quantidade de terra (capital) mas não.

O salário tem que diminuir.
No caso do salário diminuir (por exemplo, de 6700€/ano para 6000€/ano como defende o FMI para a Espanha), numa primeira fase, a empresa com 10 trabalhadores passará a ter um lucro de 40mil€/ano mas, agora, a empresa contratando 11 trabalhadores vê o seu lucro aumentar ainda mais 400€/ano.
Mantendo o mesmo nível de capital, o desemprego diminui se o salário  diminuir (os custos do trabalho).

Mas, mesmo assim, o PIB aumentou.
Mas a produção da empresa agrícola aumentou (equivalente ao PIB) de 100000€/ano para 106500€/ano. Quer isto dizer que, globalmente, a redução do salário faz aumentar o PIB porque mais pessoas trabalham. Com mais PIB, as pessoas ficam a viver, em média, melhor.

A relação entre crescimento económico e o emprego.
O PIB cresce principalmente por três razões. Porque aumenta o capital (a terra), o conhecimento tecnológico (as sementes e o saber fazer) e o número de trabalhadores (que foi o caso da empresa agrícola).
Agora tenho que separar o crescimento económico causado pelo trabalho do causado por todos os outros factores. Pegando no PIB desde 1995 e dividindo pelo total de  pessoas empregadas, obtemos o crescimento económico devido a todos os factores que não o trabalho.
Este crescimento é de 0.57%/ano (ver, Fig. 1).
Quer isto dizer que, mantendo-se o nível de emprego, o PIB cresce 0.57%/ano.
Então, para que o PIB cresça acima de 0.57%/ano, é preciso aumentar o número de pessoas que trabalham.

Fig. 1 - Crescimento do PIB por trabalhador (dados: INE e Eurostat)

Isto não tem a ver com o Passos Coelho nem com a Troika.
Os dados são do período 1995/2013 para mostrar que a politica do Guterres e do Sócrates de inundar a economia com divida não é a solução para o nosso problema de baixo crescimento económico.

Mas ainda há a evolução da população activa.
Aos 0.57%/ano temos que acrescentar a evolução da população activa que, no caso português, está a reduzir 0.12%/ano (ver, Fig. 2).

Fig. 2 - Evolução da população activa (dados: Banco Mundial e INE)

Fica um crescimento do PIB potencial de 0.45%/ano.
Pegando nos 0.57%/ano da tendência de aumento do PIB por trabalhador e retirando-lhe os 0.12%/ano da redução na população activa, fica um crescimento potencial do PIB de 0.45%/ano.
A economia portuguesa, no longo prazo, apenas cresce 0.45%/ano.

Não é preciso um crescimento de 3%/ano.
Infelizmente, o crescimento potencial da nossa economia é de apenas 0.45%/ano.
Então, em média, haverá diminuição do desemprego quando o PIB aumentar mais de 0.45%/ano e foi isso que aconteceu nos últimos tempos.
E a redução do desemprego tem sido principalmente pela redução, no semestre trimestre de 2013, da população activa (em 1.8%).

Por este andar.
Se a economia crescer 0.45%/ano, o desemprego para de crescer.
Se quisermos ver o desemprego passar de 17.4% para 6.6% em 12 anos (um aumento de trabalhadores de 1.0%/ano), terá que acontecer um  crescimento económico de 1.5%/ano.
Com um crescimento menor, apenas haverá redução do desemprego pela redução da população activa (saída de imigrantes e aumento dos emigrantes).

Esperemos que tudo corra pelo melhor mas a taxa de juro não vema baixo dos 6.50%/ano o que indica que vem aí o segundo resgate, seja lá isso o que for.

O ficheiro excel está aqui.

Pedro Cosme Costa Vieira

6 comentários:

Vivendi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vivendi disse...

Naturalmente a única coisa que é preciso é ajustar a oferta.

E no caso a oferta anda mais abaixo que o salário mínimo português.

E como se sobrevive? (perguntam alguns)

- Quando os salários descem os preços também tendem a descer.

Exemplo:
Na Europa do leste os salários são inferiores aos de Portugal e as gajas daquelas bandas continuam boas todos os dias, não andam a passar fominha.

A fome só existe quando existe socialismo a distorcer o mercado.

Nemo disse...

Segundo os dados do INE, publicados ontem, a população empregada no 2º trimestre de 2013 aumentou em 72400, o que é um salto significativo comparado com o aumento de 25700 do período homólogo (sendo que há efeitos sazonais em ambos os valores). Agora, o desemprego diminuiu devido ao aumento da população empregada, já que a população ativa aumentou 0,1%.

As pessoas que passaram a integrar a população empregada têm fundamentalmente o 3º ciclo, o ensino secundário e pós-secundário. Continua a sangria de jovens com Ensino Superior, cuja população empregada não deixa de diminuir (o que indica emigração). O país continua a não ser capaz de criar emprego altamente qualificado.

Houve uma queda salarial menor que 1% no global, que atingiu fundamentalmente trabalhadores altamente qualificados (4%) e trabalhadores da construção e indústria(2%). Curiosamente, houve um aumento de 6% nos salários da agricultura, floresta e pescas, algo que bate certo com os números da população empregada (60% do aumento foi neste setor, em comparação com 35% do período homólogo). Embora a atividade seja sazonal, o aumento salarial não é.

Mantenho-me otimista.

Ao Vivendi, importa dizer que a descida de salários não diminui instantaneamente os preços (tal como uma subida não os aumentaria instantaneamente). Há um período doloroso de transição.

Vivendi disse...

"Ao Vivendi, importa dizer que a descida de salários não diminui instantaneamente os preços (tal como uma subida não os aumentaria instantaneamente). Há um período doloroso de transição."

Caro Nemo,

A velocidade de transição é dependente do intervencionismo estatal.

Como acabar com uma depressão:

http://vivendi-pt.blogspot.com/2012/08/como-acabar-com-uma-depressao.html

Cumprimentos.

Gonçalo disse...

Chega-se à dúvida: Qual nasceu 1º?
A fome ou o socialismo?

Sobre 1921, argumentos não austríacos em:

http://krugman.blogs.nytimes.com/2011/04/01/1921-and-all-that/?_r=0

Havendo tanto endividamento, com deflação e quebra de rendimentos, como podem as dívidas ser pagas?

Ao baixar salários e preços de bens/serviços, as dívidas também vão diminuir?


Vivendi disse...

A dívida essa é impagável.

No atual sistema bancário com a criação de dinheiro a partir do nada não é possível que a economia real acompanhe a economia virtual...

E era para ter havido incumprimentos... As populações sofrem para salvaguardar os bancos que são os principais responsáveis pela crise da dívida juntamente com os políticos corruptos.

Por exemplo se houver calotes em alguns países do sul, o € até sai valorizado (diminui a oferta monetária), as pessoas ficam com mais poder de compra mas muitos bancos são condenados à falência...




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