sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Estaremos no ponto de viragem?

Acabou a primeira parte do ajustamento.
Em 2011, Portugal viu-se na necessidade de terminar o endividamento do Estado e da sua economia face ao exterior.
O ajustamento da economia face ao exterior já foi conseguido principalmente à custa da redução da importações de automóveis e bens de equipamento. Isto foi importante pelo que podemos dizer que metade do trabalho já está feito.
Mas ainda falta a parte que consome mais tempo de antena, o ajustamento da despesa do Estado às suas receitas (principalmente impostos), que, apesar de importante, é secundário face ao equilíbrio das nossas contas externas.

Qual o impacto do ajustamento no desemprego?
Houve uma quantidade muito grande de actividades económicas que ficaram condenadas ao desaparecimento. Antes de 2011 perdiam-se cerca de 21 mil empregos por mês e, desde o inicio do ajustamento, têm-se perdido 50 mil empregos por mês (dados, INE).
A perda de 50 mil empregos por mês é muito grande, cerca de 1 pessoa em cada 100 perde o emprego a cada mês.

Fig. 1 - Tudo passa por um bom ajustamento

Mas o mercado de trabalho tornou-se mais dinâmico.
Apesar de parecer que está tudo morto, a criação de emprego também aumento muito. Até 2011 criavam-se cerca de 23 mil empregos por mês e, desde que começou o ajustamento, têm-se criado cerca de 45 mil empregos por mês (dados, INE).
Apesar de o número de pessoas que encontra emprego ser menor que o número de pessoas que perde o emprego (5 mil/mês), a dinâmica de criação de emprego dá esperança para que, uma vez terminada a destruição de emprego nas actividades condenadas (construção civil e vendas), o mercado de trabalho consiga absorver os actuais desempregados (cerca de 1 milhão).
Quando alguém disser "o aumento do IVA na restauração vai atirar 100 mil pessoas para o desemprego" temos que relativizar porque, mensalmente, são atiradas 50 mil pessoas para essa situação mas 45 mil arranjam um novo emprego.
 Por isso, não vamos stressar porque, em média, por cada 10 pessoas que todos os meses caiem no desemprego, 9 pessoas encontram um novo emprego.

Fig. 2 - Dinâmica do mercado de trabalho (dados, INE)

Vamos sonhar.
Supondo o milagre de o nível de destruição cair para os 25 mil (valor próximo so anterior a 2011) e que se mantém a formação de emprego nos 45mil/mês, demorará apenas 2 anos a reduzir a taxa de desemprego a 450 mil desempregados (10%).
Mas isto é pedir demais.
Desde Janeiro de 2013 que a taxa de desemprego está a cair. 
Corrigida a sazonalidade, em Janeiro havia 935 mil desempregados e em Junho  já "só" havia 923 mil desempregados (dados, INE). Se considerarmos a tendência (média móvel do último semestre), é o primeiro mês, desde que rebentou a crise do subprime (maior de 2008) que tal não se verificava. Em Junho Inverteu a tendência de aumento do desemprego que durava há 60 meses.

Nunca ninguém está contente.
Em termos numéricos, a diminuição foi de 2400 desempregados por mês. Então, a esta velocidade, para voltar a 10% de taxa de desemprego serão necessários 16.5 anos. Só lá para 2030 é que o desemprego descerá abaixo dos 10% da população activa.
Mas será de acreditar que atingido o máximo da crise, a velocidade de diminuição do desemprego será maior.
Se a digestão do desemprego for ao ritmo de 1985-1990, voltamos em 2020 a uma taxa abaixo dos 10%  enquanto que se o ritmo for o de 1995-2000, só atingiremos esse valor em 2028.

Fig. 3 - Pode ser que entre 2020 e 2025 o desemprego volte a valores normais. Normalmente o desemprego oscila entre 3.6% e 9.6% com uma média de 6.6% da população activa(dados: Eurostat).

Mas vem aí a segunda parte do ajustamento - o Estado.
Vai ser necessário cortar os tais 4700 milhões na despesa pública e, daqui, é que vem a questão mais discutível.

Será que os cortes na despesa pública têm um efeito recessivo?
Não existe nada na Economia que diga com certeza que a diminuição da despesa pública tem um efeito recessivo na economia (ou o contrário).

Os keynesianos dizem que sim, no curto prazo. A redução da despesa pública obriga ao despedimento de trabalhadores nas actividades onde o Estado gasta mais dinheiro e, por existirem problemas nos mecanismos de ajustamento do mercado de trabalho, demora (muito?) tempo a que essas pessoas arrangem emprego. Durante o período de ajustamento, haverá menos pessoas a trabalhar pelo que o PIB será menor.

Mas os novos clássicos dizem que não porque 1) uma grande parte das actividades onde o Estado reduz a despesa (por exemplo, a saúde e o ensino) é substituída por privados e 2) o mercado de trabalho ajusta razoavelmente rápido. 

Todos (quase) reconhecem que, a médio-longo-prazo, a redução da despesa pública melhora a economia.
Há funções que o Estado tem que exercer, por exemplo, a segurança do Estado, mas essas actividades estarão por volta dos 25% do PIB. Entre 20% e 35% aumentar ou diminuir a despesa pública não tem grande impacto no desempenho da economia (é uma decisão politica) mas, acima de 35% de peso do Estado na economia, a diminuição da despesa pública aumenta a eficiencia económica.

Fig. 4 -  NS de Fátima ajuda-me a arranjar forma de cortar os 4700M€ sem afectar os velhinhos, os pensionistas nem os agricultores.

O impacto com financiamento interno é nulo.
Se o Estado tem despesa pública, vai ter que a financiar.
Se o Estado usar os impostos, vai haver uma redução do rendimento disponível das famílias. Então, cada euro de aumento da despesa pública causa uma redução em 1€ nas disponibilidades financeiras das famílias.
Se o Estado usar o endividamento, tem que haver um aumento da poupança das famílias para financiar o Estado (aumenta a taxa de juro). Então, cada euro de aumento da despesa pública causa uma redução em 1€ na parte do rendimento das famílias destinado ao consumo.
Se o Estado não pagar aos fornecedores, estes têm que se endividar junto dos bancos o que obriga ao aumento da poupança das famílias para financiar o Estado (aumenta a taxa de juro). Então, cada euro de aumento da despesa pública causa uma redução em 1€ na parte do rendimento das famílias destinado ao consumo.
Este fenómeno é denominado por crowding out.

Apenas há impacto se houver endividamento externo.
O endividamento externo tem um impacto positivo na actividade económica. Se usarmos os dados do nosso ajustamento, cada euro de redução do endividamento externo tem um impacto de cerca de 0.40€ no PIB (passamos de um endividamento de -10% do PIB para um saldo positivo de +1% do PIB com uma quebra do PIB de cerca de 4.5%).
Se o Estado se financiar no exterior, a diminuição da despesa pública estará associada a uma diminuição da entrada de "dinheiro fresco". Então, a redução de 4700M€ de despesa pública levará a uma quebra no PIB de cerca de 2000M€.
É qualquer coisa mas não é nada do outro mundo.

Mas o Estado não se consegue endividar no exterior.
O impacto positivo é do endividamento externo, seja público ou privado, mas o Estado (e os privados) não se consegue financiar no exterior pelo que o corte na despesa pública não vai estar associado a uma redução da entrada de dinheiro mas a um aumento da disponibilidade de recursos nos privados seja pela redução da carga fiscal (a prazo) seja pela diminuição da captação das poupanças internas (pelo défice).

Quero acreditar.
Que o corte da despesa pública não vai ter um efeito recessivo significativo porque actualmente o défice público é financiado com a poupança interna.
Claro que há pessoas que serão muito penalizadas com os cortes mas outras serão beneficiadas. 
Por isso, quero acreditar que estamos agora no olho do furacão pelo que nos próximos meses o desemprego vai começar a diminuir e o PIB a aumentar de forma sustentada.
Mas a coisa está muito tremida porque a taxa de juro mantém-se muito elevada e com tendencia de se manter nos 6.5%/ano (divida pública a 10Y).


Fig. 5 - 6.5%/ano de taxa de juro coloca em causa o investimento logo, o potencial de crescimento económico

O ficheiro excel com os dados está aqui.
Estão um bocadinho desorganizados mas penso que dá para ver.

 
Pedro Cosme Costa Vieira.

5 comentários:

Nemo disse...

Espero que em meados de Agosto o INE confirme as projeções da UCP em relação à evolução da economia no 2º Trimestre de 2013 (crescimento de 0,6%) e que daí siga a inversão de tendência.

Pode remeter-me para os dados do INE que utilizou neste post? Estes referem os setores, salários ou características dos contratados?

Além disso, pergunto-me como se podem aliar quedas substanciais de investimento e um aumento da criação de emprego.

Aurélio disse...

O Professor tem vários posts acerca da redução de salários, agora o FMI vem-lhe dar razão.

http://www.publico.pt/economia/noticia/fmi-recomenda-espanha-a-cortar-10-nos-salarios-para-recuperar-emprego-1602091

Gonçalo disse...

"a médio-longo-prazo, a redução da despesa pública melhora a economia."

Isso é ver a despesa como não investimento. No entanto a o florescimento da indústria automóvel americana não seria possível sem a existência de estradas construídas com "despesa" pública.
Sem a "despesa" pública na rede eléctrica, dificilmente se teriam conseguido economias de escala na produção de electrodomésticos.

Acresce, ainda, que muitas das inovações de finais do séc. XX foram resultado de investigação feita com "despesa" pública, em virtude da guerra fria.
A maravilhosa Internet e da Web foram desenvolvidas pelos militares americanos e pelo CERN - a beleza do mercado livre, como já alguém referiu, tem por base a "despesa" pública.

"Se o Estado usar os impostos, vai haver uma redução do rendimento disponível das famílias."

E porquê? As tributadas terão menor rendimento, enquanto as que recebem , por exemplo um casal desempregado, terão mais rendimento.
Se tiro 1000 a algumas famílias e dou 1000 a outras famílias o rendimento total é igual.
Se o dinheiro é usado para fazer uma ponte, então os 1000 irão para as empresas envolvidas na construção.

"Se o Estado usar o endividamento, tem que haver um aumento da poupança das famílias para financiar o Estado (aumenta a taxa de juro)"

Num mundo de livre capital financeiro a poupança não tem de ser interna. Aliás, a nossa entrada no euro trouxe baixas taxas de juro, e essa baixa não foi por termos poupado mais.

Económico-Financeiro disse...

Nemo,
Coloquei no fim do post um ficheiro excel com os dados.
Uma braço,
pc

Nemo disse...

Obrigado.

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