sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Vamos resolver o problema dos incêndios florestais

No Verão somos atacados pela histeria dos incêndios.
Como somos diariamente bombardeados com as noticias calamitosas, ficamos com a ideia que isso é algum problema. Mas, se pensarmos bem, os incêndios florestais não nos afectam em nada. A nós, a grande maioria da população portuguesa que vive em cidades, os incêndios florestais apenas nos chegam pelas notícias e por, ao andar numa auto-estrada, de vez em quando aparecer um bocadito queimado.  
Para rebentar com o bombo, aparecem comentadores, chefes de bombeiros  e da protecção civil que também vivem em cidades e que pensam que afirmam ser a floresta como um cofre de um banco que interessa preservar contra o fogo pelo que pedem leis punitivas contras os proprietários para que sejam obrigados a "limpar a floresta" (para a destruir).
Eles não fazem nada, mas os outros que sejam obrigados a fazer com as leis que vêm de Lisboa.

Fig. 1 - Tudo a arder

Vamos à ecologia da "limpeza das matas".
Um incêndio destroi o coberto vegetal o que aumenta a erosão e causa perda de habitat para os animais selvagens. Mas os incêndios afectam cada ano menos de 10% dos 9 milhões de hectares do nosso território e é em manchas dispersas. Assim, a grande maioria dos animais selvagens refugia-se nos 90% que não arde e, daí, recoloniza rapidamente as áreas ardidas. Até porque arde e, passados uns dias, a vegetação torna a nascer. 
Pelo contrário, limpar é destruir o coberto vegetal em 100% dos terrenos
Apesar de não dar imagens tão destruidoras para passar na TV, limpar a mata tem um impacto ecológico muito mais negativo que os incêndios porque estes são em zonas limitadas do território.
e para aumentar a gravidade da situação, depois da limpeza mecânica são usados herbicidas que não deixam nascer mais nada.
Aconselhava vivamente as pessoas da cidade a darem uma volta pelas matas que circundam as cidades para verem o impacto terrivelmente negativo da limpeza das matas. Em vez do normal coberto vegetal com manta morta, urze, carqueja, tojo e mais uma multiplicidade de outras plantas, apenas existe terra e pedras estéreis.

Vamos à economia da floresta.
Uma floresta verdadeira (não industrial) produz por ano cerca de 800kg de madeira por cada 1000m2 que, se for eucalipto, vale 30€/t em pé. Isto traduz um rendimento de 24€/ano, 2€/mês. Se for outra espécie, resulta um rendimento menor.
Vamos supor que a floresta é como um depósito bancário em que as árvores são os juros em que o proprietário não tem qualquer trabalho. 
Para uma pessoa facturar um salário mínimo (485 x 14 x 1.235%) precisa de 350 mil m2 de floresta.
Então, para uma taxa de juro real de 1%/ano (acima da inflação), o valor da floresta é cerca de 2.50€/m2 e decrescente com o risco  de incêndios (ver, Fig. 2).

Fig. - Valor económico do m2 de floresta em função do risco de incêndio (simulação do autor, ver código no fim)

Quanto custará reduzir o risco de incêndio a 1%?
Aqui é que está a questão.
Em Portugal o risco de incêndio anda ns 10%/ano e, para o reduzir a 1%/ano, é preciso destruir todo o coberto vegetal.
Um tractor para limpar floresta custa 50€/h e uma hora não chega para limpar os 1000m2 que só rendem 24€/ano. E o tractor não trabalha nos terrenos inclinados que formam a maior parte da floresta do norte de Portugal.
Cortar à foice, são precisos 40€/dia, um dia não dá para nada e nem não há quem queira cortar mato por ser um trabalho muito difícil e pesado.
Não é possivel em termos económicos. Se for obrigatório limpar as matas, as pessoas vão ter que as entregar ao Estado que vai ter que usar os nossos impostos para o fazer ou deixar ficar como estão as matas públicas.

Porque os incêndios começam ao anoitecer?
A floresta não rende quase nada pelo que os novos vão para a cidade procurar um emprego e ficam os reformados. Imaginemos um agricultor com 75 anos que recebe 227€/mês de pensão e uns 20€/mês da venda da madeira (10000m2). Um dia, recebe uma carta a dizer "se não limpar as suas matas, será multado entre 250€ e 2500€".
Ele começa a pensar na sua vida. Pedir aos filhos, que cortem, não vale a pena que estão lá para o Porto ou Lisboa. Chamar alguém, não ganha para isso. Então, o velhote vai tentar cortar umas silvazitas mas chega da fim da tarde e vê que pouco evoluiu.
Olha para um lado e para o outro e vai ser tentado a usar o melhor sistema de limpeza que a humanidade descobriu: o fogo.
Ao cair da noite ninguém vê o fumo. Então, pensando-se capaz de dominar a evolução da chama, fcheeet, chega-lhe um fosforo. 
Só o fogo é capaz de limpar a mata e, se a coisa se descontrolar, foge-se para longe que aquilo vale menos que a multa.
Isto aconteceu com os meus avós, os meus tios, os meus país, e comigo e acontece com  toda a gente que já alguma vez teve que resolver um problema de limpeza de matas.

Vou-vos contar um segredo.
É sobre a razão para haver várias frentes de incêndio.
Eu tinha recebido a tal cartazita e andava a calcar umas silvas já havia algum tempo. Tinha cortado a vegetação a toda a volta para lhe poder chegar fogo mas o problema é que é proibido e sabia que os vizinhos chamavam logo os bombeiros.
Um dia deflagrou um incêndio a uns kilometros e começou a cair cinza. Pumba, cheguei-lhe logo um fósforo (e queimei a caixa). Passados 5 minutos apareceu um vizinho a dizer que já tinha telefonado aos bombeiros (nessas alturas não vale a pena telefonar que eles têm mais que fazer).
E eu muito "aflito":
-Vieram fagulhas pelo ar e isto incendiou-se. Agora estou a tentar controlar.
Foi uma limpeza.

A floresta conta menos que 0.50% no PIB nacional (ver).
Apesar de nas noticias parecer que a floresta é o nosso petróleo, os factos dizem que, por cada 100€ que se produzem em Portugal, apenas 0.50€ são produção da floresta.
Ocupar 90% do território para 0.50% do PIB é uma irracionalidade. 

Como se pode controlar um incêndio?
Em África não há noticias de incêndios e não têm aviões nem helicópteros.
Certo dia perguntei a um tio meu que viveu muitos anos em África (no Congo) como se combatiam por lá os incêndios.
Disse ele.
- O preto é mais inteligente que o branco porque usa a própria Natureza para dominar a Natureza. Em África combatem o fogo com o fogo.
- Quando aparece fumo no ar, as pessoas capinam quadrados à volta das cobatas e queimam um de cada vez até o terreno estar limpo. Também usam a mesma técnica com os caminho para fazer contra-fogo contra o vento.
- Em centenas de incêndios que vivi, nunca vi ninguém usar água para tentar apagar o fogo e o certo é que os dominavam.

Não interessa tentar salvar o que já está perdido.
Quando uma encosta está a arder (ou a favor do vento), não existe qualquer possibilidade de dominar o fogo que não seja no cimo do monte ou numa estrada bem larga. Então, não interessa andar a gastar água e a meter pessoas em locais que vão de certeza arder. Meter aí meios é condenar os bombeiros à morte e destruir veículos.
O que deve ser feito é, primeiro, identificar um local que possa ser uma barreira ao contra-fogo, por exemplo, um caminho florestal, e depois, antes que o fogo chegue lá, lança-se contra-fogo apoiado pelos carros dos bombeiros para evitar o atravessamento do obstáculo. Como o contra-fogo é contra o vento, as chamas são muito mais fáceis de controlar e vai avançando a caminho do fogo até lhe cortar o caminho.
  

Fig. 3 - O contra-fogo é feito contra o vento e corta o caminho ao fogo

 É tudo uma questão de mudar os subsídios.
Os bombeiros recebem subsídios e contratam-se aviões por milhões para regar o mato. Não quer dizer que recebam uma luvas mas dá importância ser presidente ou qualquer coisa de uns bombeiros com altas instalações e dezenas de camiões.
Como o contra-fogo não precisa desses meios todos, retira poder.
Mas se queremos acabar com o problema dos fogos florestais de vez é assumir que arder á algo natural e faz parte do risco da floresta e avançar com acções de formação, experimentação no terreno e mentalização dos bombeiros e das população para o uso do contra-fogo.

Vou acabar com os números da execução orçamental.
O Gasparzinho falava muito do "défice estrutural" que seria o défice corrigido do efeito da contracção do PIB. Assim que acabasse a crise, pensava o Gasparzinho que por cada 1€ de crescimento económico haveria um aumento da Receita fiscal de 0.50€.
E de facto é isso que está a acontecer. Como no segundo trimestre a economia cresceu 1.1€% (acima do previsto),  a receita fiscal também cresceu acima do previsto.
O ministro da propaganda do PS, o dr. Duplo Queixo, fala só em miséria mas Agosto está-se a tornar o mês de férias das más notícias.

Pedro Cosme Costa Vieira

#Código em R que avalia um terreno florestal
juro<-0.01
mad <- 30 #euros por tonelada da madeira na floresta
anos <- 15#que tem que ter a árvore para poder ser cortada
h = 1000 #horizonte temporal de análise
m<-0 #para guardar o VA médio de 400 simulações a cada replica
d<-0 #para guardar o DP do VA idem
for (pi in 0:25)  # probabilidade de incendio em 100
{final=0
 for (j in 1:400) #número de simulações
{#sorteia incendios com aprob pi/100
inc <- sample(c(rep(1,100-pi), rep(0,pi)),h,rep=TRUE)#se houve incendio = 0
#seguir a floresta durante 1000 anos a ver se dá para cortar e facturar
# a floresta é plantada no ano 1
factura<-rep(0,h)#mete tudo a zero
idade<-0
for (i in 2:h)
{idade[i] <- (idade[i-1]+1)*inc[i]
if (idade[i]>=anos)
{factura[i] <- 0.8*mad*anos*(1+juro)^-i # neste ano facturei e descontei ao presente
idade[i]<-0}
}
final[j]<-sum(factura) #somo os anos todos
}
m[pi+1]<- mean(final)
d[pi+1]<-sd(final)
}
# resultados em função de pi, probabilidade de incendio
m
d

6 comentários:

jfdr disse...

Caro Pedro Cosme

Gostava de tecer dois comentários a este seu post e lançar um repto:

1) Visto que a esmagadora maioria dos incêndios no nosso país têem origem humana, é evidentemente importante compreender os incentivos dos incendiários.

No entanto, mais importante do que abolir a obrigatoriedade de limpar as matas é preciso pensar no incentivo que o actual sistema tributário coloca à correcta gestão do território.

O Pedro Cosme escreve "Ocupar 90% do território para 0.50% do PIB é uma irracionalidade". O nosso solo é paupérrimo e a esse facto não podemos escapar. O que é racional então, abandonar a terra ao mato?

Eu por acaso acho que sim. Mas acho que o dono duma terra deve ter a obrigação de não fazer dano aos vizinhos. Para o conseguir acho que era importante actualizar o cadastro predial e criar um imposto sobre o uso de solo: não faz nada ou arranca árvores paga mais; faz limpeza (bem feita, não como a que o Pedro Cosme descreveu, com corredores de terra lavrada a intervalos regulares) paga menos.

2) Nos últimos 25 anos creio ter assistido de perto a uma dúzia de incêndios e posso dizer que a eficiência dos bombeiros aumentou muito. Antigamente eles chegavam tarde e ficavam encostados à estrada a fazer contra-fogo (que às vezes corria mal). Agora chegam depressa, têm equipamento para atacar o fogo na serra e coordenam a partir de terra o lançamento de água do avião - e aquilo funciona.

O comentário simplista do Cosme relativamente à eficiência dos bombeiros foi despropositado. E a comparação entre as serras do nosso país e a savana africana é enganadora: uma estratégia que funciona num contexto não funciona necessariamente noutro.

3) O Pedro Cosme não quer fazer um post sobre a gestão do território, num contexto mais amplo? Deve a política actual continuar (isto é, sem impostos e com subsídios por tudo e por nada)? Devíamos ter impostos e subsídios para penalizar/compensar serviços de ecossistemas? O que acha da actual proibição de arrancar azinheiras?

A gestão economicamente racional do uso de solos é uma questão interessante porque mexe com duas escalas temporais muito diferentes: o que é economicamente racional no curto prazo (arrancar castanheiros porque a madeira está cara e a castanha barata) pode facilmente ser desastroso no longo prazo (e se o preço da castanha voltar a subir?).

Com os melhores cumprimentos
João

Henrique Pereira dos Santos disse...

O seu comentário tem coisas com interesse e certas, e coisas mesmo erradas (por exemplo, a de que em Portugal não se usa o fogo contra o fogo, ou o de que a maioria dos incêndios são ao anoitecer).
E tem uma grande omissão, que é a de esquecer que os matos, antes de serem um resíduo florestal, como acontece hoje, já foram matéria prima para a agricultura (era a fonte de nutrientes) e para a pastorícia).
Ora esquecer que existem fileiras económicas sustentáveis, como a pastorícia, parece-me um esquecimento que deveria ser eliminado.
henrique pereira dos santos

Abu Cat disse...

Uma pergunta para o jfdr, de onde tirou que a maioria dos incêndios em Portugal tem origem criminosa?

Vou-lhe contar uma história, a minha família tinha um terreno (em zona de paisagem protegida) a algumas gerações, e para aí a uns 15 anos, houve um incêndio muito grande em Cascais, aparentemente tinha começado no nosso pinhal, pois foi visível na TV na altura tudo o que era político e bombeiro a dizer que era de origem criminosa, e que eram os proprietários para poder vender os terrenos, foram feitas inclusive leis (ou decretos, não sei) que em Cascais proíbem a construção durante n anos (penso que são 3 anos) após uma área arder.

Agora, não fomos nós quem pegou o incêndio, até pode ter tido origem criminosa, mas não fomos nós, mas ficamos com a fama, afinal as autoridades e os bombeiros assim o diziam.

Por isso quando vejo, os bombeiros na TV, a dizer que os fogos tem origem criminosa de certeza, acho engraçado, lembro-me de ver um comandante a dizer que isso dos incêndios de origem natural não existia, mas eu vivia perto do mato, e lembro-me de estar em miúdo a jogar à bola de repente começar um incêndio num baldio pegado com o campo, não estava lá ninguém, nós os putos fomos a correr e apagamos com os pés...

Quanto ao fato dos nossos bombeiros, serem muito eficientes a apagar incêndios, lembro-me de a uns anos se ter contratado uma equipa de bombeiros profissionais chilena, e lembro-me deles dizerem que em Portugal não se sabia apagar incêndios, que os Portugueses dependiam demasiado de equipamento, que os incêndios se apagavam com contra fogo e criação de áreas limpas.

jfdr disse...

Caro Abu Cat,

Eu escrevi origem humana, não criminosa. O número ouvi no telejornal: 50% de origem acidental e 30% de origem criminosa.

Quanto às técnicas de combate a incêndio não sou especialista da área e por isso limitei-me a constatar a evolução das técnicas de há 25 anos para cá, notando-se uma clara melhoria. Há hipotese de melhoria? Provavelmente sim.

Quanto à criação de áreas limpas, isso não compete evidentemente aos bombeiros, é feito pelos particulares ou pelo Estado. A acção dos particulares não é de fiar, como explicado pelo Pedro Cosme. Mas quanto à acção do Estado posso dizer que aqui na aldeia onde estou este este ano uma empresa a limpar corredores.

Cumprimentos
Joao

Vasco Pereira disse...

A mim afecta como aos contribuintes em geral. Temos de canalizar recursos para o combate aos incêndios. Recursos que podiam estar a ser usados na produção de bens e serviços que me proporcionassem um melhor bem estar. O dinheiro que o estado paga em contratações de avioes e afins podia ser gasto em melhores equipamentos nos hospitais e escolas, saneamentos. Assim é gasto nesta "indústria" dos incendios. Para acabar com esta praga de fogos era por o exercito e a força aerea equipada com avioes para combater o fogo de verão. Não quero conspirar, mas a malta dos aviões e dos helicopteros vivem de quê? trabalham e podem trabalhar quando. É só piromanos neste país. Montaram um negócio com o meu dinheiro sem me pedirem autorização como em muitos outros negócios.

Afonso disse...

👍👍👍

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