sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O programa cautelar e o segundo resgate

As finanças públicas portuguesas têm 2 problemas.
O primeiro problema é a divida pública bruta ser massiva, cerca de 215 mil milhões de €, 130% do PIB.
O segundo problema é o défice público ser elevado, cerca de 10 mil milhões € anuais, 6% do PIB. 
Estes dois problemas são diferentes mas estão ligados porque, por um lado, a divida pública "cria" juros que fazem aumentar o défice público (são despesa) e, por outro lado, o défice traduz despesa pública que não consegue ser financiada com receita (impostos) o que obriga a aumentar a dívida pública.
A junção destes dois problemas cria na mente dos aforradores a dúvida quanto à nossa vontade colectiva e capacidade em cumprir as nossas obrigações financeiras o que faz com que as taxas de juro que exigem pela dívida pública aumentem.

Fig. 1 - Fujam que vem aí o segundo resgate. 

Um euro de défice é mais um euro de endividamento.
O Estado financia a sua despesa e investimento de cada ano com os impostos e com novo endividamento.
Mas o Estado apenas pode ter défice (mais despesa que receitas) se houver alguém que lhe empreste dinheiro.
É tal e qual a vida de um tóxico-dependentes: só há vício se houver onde ir buscar o carcanhol.

Fig. 2 - Pelas contas da EuroStat, o nosso défice tem andado nos 6% do PIB, cerca de metade devido aos juros

Há coisas que não vão ao défice.
Se tudo fosse às contas públicas, um euro de défice traduzia-se directamente em mais um euro de divida pública. Como o défice público acumulado do governo do Passos foi (em 2011-2012) cerca de 11% do PIB, a divida pública teria aumentado exactamente 11% do PIB mas aumentou bastante mais.
Acontece que o EuroStat considera apenas as receitas e despesas geradas no próprio ano. Quer isto dizer que, por exemplo, se forem descobertas despesas que foram escondidas em 2008, estas verbas vão directamente à divida sem haver revisão das contas do défice de 2008.

Mas também há défice que não implica novo endividamento.
Também acontece que há receitas (das privatizações) que não entram no défice mas que servem para financiar o Estado.
Há ainda o caso de despesas que vêm ao défice mas que já têm o financiamento garantido, por exemplo, prejuízos de empresas públicas que já estão financiados.
Então, apesar de haver uma ligação muito forte entre défice e necessidades de financiamento, há anos em que existem discrepâncias importantes.

As necessidade de financiamento do Estado.
É a soma do "novo endividamento" com o "velho financiamento que se vence".
Se, em média, a divida pública portuguesa tiver uma maturidade de 7 anos, cada ano vencem-se (i.e., é preciso pagar) 30 mil milhões €, 2.5MM€/mês. Se a maturidade média for de 2 anos, o estado precisará 108 mil milhões € por ano, 9MM€/mês.
A esta divida que é preciso reformar, o estado precisa acrescentar o défice do ano corrente.

A divida pública bruta e líquida.
Nesta última semana surgiu uma discussão entre os dados da Maria Luíz (da dívida liquida) e do Banco de Portugal (da divida bruta).
A divida bruta quantifica tudo o que o Estado deve enquanto que a divida líquida obtém-se subtraindo à divida bruta o valor de todos os activos vendáveis do Estado (leia-se, privatizações e créditos).
O problema do cálculo da dívida liquida está na quantificação do valor dos activos do Estado porque, se for obrigatório continuar a actividade, há valores positivos (por exemplo, os CTT) também há valores muito negativos (por exemplo, as empresas de transportes públicos onde se inclui a TAP).

Vamos ao endividamento do Estado.
Normalmente, o estado português endivida-se em leilão.
Primeiro, o estado anuncia quanto se quer financiar (e.g., entre 750M€ e 1250M€) e o prazo (e.g. 540 dias).
Segundo, os aforradores individuais dizem quanto querem emprestar e a que taxa de juro. Apresento o exemplo de 4 dos 100 aforradores que nos pretendem emprestar dinheiro:

     Aforrador       Quantidade         Taxa de juro anual
       António            1500€                    3.456%
       António            3550€                    4.143%
       Joaquina            2350€                   2.971%
       Manuel               790€                   3.431%
      Albertina            3525€                   4.563%
      Albertina            5000€                   5.863%

Terceiro, as ofertas são organizadas pela taxa de juro de forma crescente.

     Quantidade         Taxa de juro anual média
               ...                          ...
        754565€             2.955%
        754653€             2.956% <- quero aqui
        757749€             2.9611%
              ...                           ...

Quarto, o estado português decide qual o quantitativo de dinheiro que vai aceitar emprestado sujeitando-se à taxa de juro média exigida pelos aforradores.

O mercado secundário.
Todos os dias os aforradores podem comprar e vender dívida pública que está na mão de outros aforradores. Este mercado denomina-se secundário porque não é o Estado que está a emitir os títulos de dívida.
Apesar de o estado português não se estar a endividar, se hoje fosse pedir dinheiro emprestado (fosse ao mercado primário), a taxa de juro iria ser muito próxima da taxa de juro do mercado secundário.

Depois, há o financiamento da Troika.
Em 2010 os agentes económicos deram conta que a probabilidade de Portugal não conseguir pagar a sua divida era muito grande pelo que, para as garantias normais de mercado, os aforradores começaram a exigir taxas de juro demasiadamente elevadas. Por exemplo, 15%/ano sobre 215MM€ traduziam-se num encargo de 32MM€ por ano que é maior que a soma de todas as pensões, subsídio de desemprego e RSI.

Foi preciso arranjar financiamento fora do mercado.
Esse financiamento (na ordem dos 3.2%/ano), por ser a uma taxa de juro muito inferior ao mercado, é um favor que alguém nos faz, no caso, os nossos parceiros europeus e do FMI.
Acontece que esse financiamento, além do juro baixo, trouxe condições que temos que cumprir religiosamente.

A qualquer momento podemos sair do programa.
Se hoje o Passos Coelho quisesse, abandonávamos o Memorando de Entendimento mas seria preciso pagar de volta todo o dinheiro que nos emprestaram.
Interessante o Seguro nunca avançar com esta hipótese quando afirma que não vai cumprir nada do que nos é exigido.

Fig. 3 - O problema é que a taxa de juro irlandesa está 0.1 pp abaixo do nível médio de 2003/2008 e a nossa está 3.2 pp acima (dados, ecb)

Daqui a nada, a mama acaba-se.
Quando o nosso resgate foi assinado em princípios de 2011, pensaram que em 3 anos Portugal conseguiria ganhar a confiança dos aforradores. Eu nunca acreditei no que afirmava o Gasparzinho mas, lentamente, as taxas de juro foram descendo até que, em finais de maio 2013, atingiram 5.20%/ano. Parecia que ia tudo bem encaminhado mas descarrilamos.
A Irlanda já consegue crédito a 10 anos com uma taxa de juro 0.1 pp abaixo da média de 2004/2008 (3.9%/ano) enquanto que nós teríamos que pagar mais 3.2 pp (7.2%/ano), ver Fig. 3.
Se em Maio 2013 parecia que nos íamos safar, hoje é certo que não nos vamos conseguir financiar em mercado pelo que precisaremos de continuar a receber ajuda (e "conselhos") dos nossos parceiros.

Será possível termos um programa cautelar?
Não. Isso foi uma miragem que se esfumou com a saída do Gasparxinho.

O que será o programa cautelar?
O programa cautelar irá cobrir uma percentagem das necessidades de financiamento à taxa de juro de mercado.
Num leilão de divida pública, quanto mais dinheiro se quiser, mais elevada é a taxa juro média que se paga. Então, o programa cautelar ao assumir uma percentagem do valor pretendido, faz com que a taxa não seja tão elevada.
Por exemplo, Portugal precisa de 2MM€ a 5 anos indo, primeiro, ao mercado de divida pública captar 25% (e.g., conseguia 500M€ a uma taxa de juro média de 2.956%/ano). Depois, os restantes 1500M€ são emprestados pelos nossos parceiros a essa mesma taxa de juro (2.956%/ano).
O programa cautelar implicará uma "vigilância reforçada" mas pouco restritiva porque o mercado vai, com a subida da taxa de juro, criar os incentivos certos para que o governo se porte bem. Serão as normais condições de, tendencialmente, um défice público nos 1.5% do PIB mas, se não for cumprido exactamente, paciência. 

As taxas de juro establizaram num valor muito alto.
Mas não vamos poder ter um programa cautelar porque as taxas de juro, mesmo de curto prazo, estão incomportáveis. A 3 anos estão nos 6.33%/ano, muito acima dos 3.20% da Troika, enquanto a Irlanda já está nos 1.72%/ano (abaixo da taxa de inflação esperada).
Em Maio de 2013, quando a nossa taxa de juro a 3 anos estava nos 3.2%/ano (igual à da Troika), podiamos pensar num programa cautela. Agora, temos que avançar para um segundo resgate.

Fig. 4 - Mesmo no curto prazo, a nossa taxa de juro está ao nível de um país do terceiro mundo

A 8.a e 9.1 avaliação estão a preparar o 2.o resgate.
Primeiro, o novo resgate  vai implicar que os investidores privados terão perdas. As actuais taxas de juro indicam que quem tiver 100€ de divida pública portuguesa a 10 anos vai receber 66.67€ e, se for a 3 anos, 89.00€ em obrigações do Fundo de Resgate com o mesmo prazo e remunerados à taxa de 3.20%/ano em que, quem vai pagar os juros é Portugal.

O défice terá que cair para zero.
O défice vai ter que se reduzir rapidamente para zero de forma a acabar a necessidade de novo financiamento. Com um crescimento médio de 1%/ano e uma inflação de 2%/ano, um défice público nulo faz com que em 25 anos a nossa divida pública se reduza dos actuais 130% do PIB para o objectivo de Maastricht de 60% do PIB.
Para que isto aconteça é preciso avançar com cortes de 6000 milhões € (e não 3.7MM€)e com aumentos de impostos de 3000 milhões €.
Vai ser preciso cortar muito mais em  pensões, salários, saúde e educação mesmo que tal seja inconstitucional. Vai ser como na Grécia: se é incontitucional despedir funcionários públicos, o governo vai suspender os pagamentos dos salários a 24 mil e quem quiaer que se vá embora.
Quando o Seguro vier que pague.

O mercado de trabalho tem que progredir.
As reformas do mercado de trabalho terão que ser aprofundadas para reduzir a taxa de desemprego.
Terá que haver mais flexibilidade não só na contratação e despedimentos mas também  nos salários e horários.
Terá que haver mais cortes no regime do subsídio de desemprego.

Imaginemos o impossível.
Que algures no futuro, o Seguro vai chegar a primeiro ministro.
Onde vai ele arranjar financiamento para cumprir a promessa de repor as pensões, salários e demais gastos que o Passos Coelho tem que cortar?
A sorte dele é que isso nunca irá a acontecer. O que o Seguro anuncia são terrenos armadilhados para cortar o caminho aos seus opositores internos. Vai vale ser o bobo da corte que comido pelos tubarões.
O António Costa está calado mas vai ter que dar resposta a todas as babuzeiras que o Seguro vai avançando. Isto vai obrigar o Costa a pesar pois, no dia em que, eventualmente, tomar posse como primeiro ministro vai ter à perna o Seguro a gritar:
-Eu queria reconstruir tudo que o Passos Coelho destruiu mas o PS não me deixou.

Fig. 5 - Enquanto ninguém olha, vou-me esconder e fazer de morto porque o caminho para salvador da pátria está todo minado.

Pedro Cosme Costa Vieira

17 comentários:

Nuno disse...

Como é que os bancos portugueses, carregadinhos de dívida pública, se vão aguentar?

Diogo disse...

Caro Pedro Cosme, Já se perguntou porque é que o BCE está proibido pelos próprios estatutos de emprestar diretamente dinheiro aos Estados e só pode emprestar aos Bancos?

Assim, o BCE cria e empresta dinheiro aos bancos quase a juro zero, e estes, por sua vez, emprestam aos Estados, Empresas e Famílias a juros agiotas. Daí os défices brutais de Portugal e de outros países europeus.

E leva-me a uma teorizar o seguinte:

É sabido que quem tem o poder financeiro (diferente do poder económico) é que manda. Será o BCE um instrumento dos Bancos? Porque os que detêm o poder financeiro, têm o poder de comprar e controlar o Poder Político – Executivo e Legislativo, assim como o Poder Mediático, esse poder que, graças à sua propaganda, tem a capacidade de convencer a esmagadora maioria da população de que as coisas são mesmo assim, enquanto os banqueiros e acólitos engordam, engordam, engordam…

Diogo disse...

Outra coisa, caro Pedro Cosme, sabendo-se que a tecnologia é uma forma de aumentar a produção e a riqueza, porque estão tantos países a regredir a todos os níveis? Já pensou nisso?


O professor teria a coragem de aceitar uma lição de finanças?

Veja este vídeo: O Dinheiro Como Dívida - Money as Debt (legendado em português)

https://www.youtube.com/watch?v=mUvLl2iaFO8

Diogo disse...

"Porque é que o BCE está proibido pelos próprios estatutos de emprestar diretamente dinheiro aos Estados e só pode emprestar aos Bancos?"

Para garantir (pelo menos em termos operacionais) a independência do BC.

Mas a razão é mais profunda.
A regra de que a dívida pública de cada país ser da exclusiva responsabilidade dos governos (não haver lugar a bailouts) é simplesmente porque o povo alemão, holandês, etc não quer financiar os fracassos dos outros governos.

Neste momento na europa não existe solidariedade fiscal.

Diogo disse...

Diogo 1 disse: "Porque é que o BCE está proibido pelos próprios estatutos de emprestar diretamente dinheiro aos Estados e só pode emprestar aos Bancos?"

Diogo 2 disse: Para garantir (pelo menos em termos operacionais) a independência do BC.


Diogo 1 disse: Que independência é essa que só serve para engordar escandalosamente os Bancos e empobrece os Estados, as Empresas e as Famílias?

Haverá negócio melhor do que esse? Ter o privilégio e o exclusivo de obter dinheiro a 0,5% e emprestá-lo a juros 10, 15, 20, 30 vezes maiores? Será assim tão difícil perceber-se o roubo descomunal?

Económico-Financeiro disse...

Estimado Diogo,
O BCE não empresta dinheiro aos Estados porque não tem dinheiro para emprestar a ninguém.

Não tem a ver com independencia nem com a imposição de rigor às economias do Sul mas apenas que o BCE tem que controlar o mercado monetário e mais nada.

Há bancos que depositam notas no BCE, cerca de 3 milhões de milhões €, a taxa zero e este tem que as re-introduzir no mercado monetário (à taxa de 0.5% ganhando 15 mil milhões€/ano).
O BCE é apenas intermediário dentro do mercado monetário. Assim, não existe injecção na economia de novas notas porque as que existem saiem de uns bancos e entram noutross bancos mantendo-se a mesma liquidez no mercado.

Se as notas que saiem dos bancos fossem emprestadas aos Estados, a inflação dispararia.

pc

Portuendes disse...

Caro Pedro,

Se me puder esclarecer a seguinte dúvida: Quando escreve "Primeiro, o novo resgate vai implicar que os investidores privados terão perdas." eu interpreto que está à espera que no segundo resgate venha incluído um perdão de dívida. E a minha pergunta é: porquê? Qual o fundamento para julgar que as duas coisas virão juntas?
Obrigado

Económico-Financeiro disse...

Caro Portuendes,
Portugal, como a Alemanha, diz que vai pagar toda a sua dívida. No entanto, 100€ de dívida pública a 10 anos sem risco (garantida pela Alemanha, i = 1.977%/ano), se for garantida por Portugal (i=7.251%/ano) vale neste momento 60.40€ (está a ser vendida agora mesmo).

Como quem quizer vender agora perde 40% comparando com o activo sem risco da Zona Euro, é essa a perda (o hair-cut) esperada pelos aforradores.
Um abraço,
pc

Chilavert disse...

Ainda estou incrédulo com as noticias de um segundo resgate e das consequências agregadas.Quando todos nós achávamos que já tínhamos batido no fundo do poço, eis que nos dizem que o fundo do poço afinal não era ali. Cortar mais vencimentos, pensões, subsídios de desemprego e aumentar impostos são os "ingredientes" que vão "ferver" a coesão social e possivelmente lançar Portugal para um período muito negro.
Todas as soluções aplicadas por FMI,BCE e Governo falharam!Será que todos os portugueses vão ter de pagar pela incompetência das "elites" e serão os únicos castigados pelo falhanço do projecto UE?Será que a mesma UE nos vai dotar ao abandono com um problema(do qual a pópria U.E. foi uma das promotoras) de consequências imprevisíveis?
Professor Pedro Cosme os portugueses não merecem...

Portuendes disse...

Li o comentário de Chilavert que diz o que muitas outras pessoas dizem, mas confesso que não percebo a frase "Todas as soluções aplicadas por FMI,BCE e Governo falharam!" A meu ver, grande parte das soluções do governo não foram sequer aplicadas porque foram contrariadas pela opinião pública (ex: TSU) ou pelo TC (diversos cortes na despesa). Pior ainda quando se fala nas soluções da troika, pois muitas destas, constantes do acordo, nem sequer foram seriamente tentadas pelo governo (ex: fusão de municípios, venda da RTP, TAP). Eu ainda estou à espera que as soluções do governo e da troika venham a ser aplicadas - e só aí é que poderemos concluir se resultaram ou falharam.

Diogo disse...

Económico-Financeiro disse...
Estimado Diogo,
O BCE não empresta dinheiro aos Estados porque não tem dinheiro para emprestar a ninguém.



Estimado Económico-Financeiro, você está equivocado:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Banco_Central_Europeu

O BCE é a instituição central da política monetária da União Económica Monetária (UEM), e o centro do Sistema Europeu de Bancos Centrais (SEBC), e os seus objectivos são:

... Emitir as notas de euro e Estabelecer a quantidade de moedas de euro que os países membros devem cunhar para assegurar o fornecimento

Chilavert disse...

Portuendes na minha optica a maioria das soluções teve efeitos colaterais galopantes(desemprego triplicou ou seja muito mais que o previsto, falências em larga escala) e a ideia que passa é que a causa de todos estes problemas é o cidadão comum que ganha muito e trabalha pouco( nada mais longe da verdade), pode empréstimos para ir de férias e para comprar prendas para o Natal e que descontou pouco durante uma vida para um sitema de protecção social para auferir a pensão/reforma que aufere.
Senhor Portuendes então diga me porque é que o Executivo quer implantar a "mobilidade especial"( nome só pode ser piada de mau gosto) sobre o argumento de interesse publico e não faz o mesmo com as subvenções vitalícias?
Porque é que o Executivo pode quebrar contratos sociais e n pode quebrar os contratos das PPPs?

Económico-Financeiro disse...

Estimado Diogo,
Já parece a conversa dos surdos (Tu vais pescar? Não, estás enganado, eu vou pescar. Desculpa por ter pensado que ias pescar.)

O BCE ser a instituição central da POLITICA MONETÁRIA da UEM quer dizer exactamente que trata do mercado monetário, apenas, e não do mercado de financiamento e crédito.

Um abraço,
pc

Portuendes disse...

Chilavert,
Nao posso indicar a causa económica porque o governo não ataca as subvenções vitalícias enquanto (ou antes) TENTA reduzir pensões ou salários na FP, para além do compadrio. Ditto para os contratos sociais e para os contratos PPP, com a excepção de que os contratos PPP podem ser considerados dívida (que institucionalmente deve ser paga e tem prioridade sobre direitos prometidos)... As PPP tem a agravante potencial de (muitas delas, pelo menos) serem resultado de fraude ou corrupção, mas isso é diferente, e devia ser investigado e eventualmente punido.
Seja como for, os assuntos acima não inviabilizam que o combate à despesa pública (seja ela relativa a submarinos, estádios, rotundas, ajudas a bancos ou a monopólios, swaps e PPPs eventualmente fraudulentos ou mal-feitos, pensões exaeradas (todas da CGA e, se calhar, metade das SS), salários exagerados das FP (mutios), subsídios vários (até a associações beneméritas ou culturais), fundações, institutos, observatórios, a lista é infindável) deva ser feito com vontade e coragem, mas que infelizmente não depende só do governo ou da troika e a maior parte dele depende dos "interesses instalados" (a lista também é grande e inclui grande empresas, bancos, pensionistas, artistas de várias artes, FPs, e muitos outros ainda bem mais parasitas do que os acima)...

Diogo disse...

(continuação)

Em resumo: em qualquer dos dois casos existe necessidade de alguma quantidade de notas e moedas, embora não muito elevada. Admita-se que, por experiência, o Banco-A sabe que necessita de cerca de 0,5% do montante de Depósitos à Ordem criado em cada empréstimo para fazer face a este tipo de exigência. Sendo assim, o crédito de 100.000€ faz com que a área de tesouraria do Banco-A decida ir procurar 500€ de reservas de cobertura adicionais para responder à exigência mencionada em (a).

A exigência referida em (b - fazer face a eventuais cheques que a família venha a usar), refere-se ao facto de a família poder escrever um cheque, por exemplo no valor de 99 000€, e entregá-lo como pagamento de algum bem ou serviço. Se o comerciante que recebe o cheque possuir conta num banco que não o Banco-A, por exemplo no Banco-C, quando este banco recebe o cheque que o comerciante lá deposita, leva-o à compensação no Banco de Portugal. Com base nesse cheque, o Banco de Portugal moverá 99 000€ da conta de depósito do Banco-A no Banco de Portugal para a conta de depósito do Banco-C no Banco de Portugal. Para estar preparado para esta eventualidade, o Banco-A tem que possuir reservas suficientes na sua corta no Banco de Portugal.

Um raciocínio idêntico ao feito para o caso da exigência de tipo (a) mostra-nos, no entanto, que o montante de reservas necessárias para este efeito não é muito elevado. De facto, tenderá a existir uma situação simétrica, de uma família que obteve um crédito de 100.000€ junto do Banco-C, que passou um cheque no valor de 99 000€ a um comerciante que depositou o cheque no Banco-A.

Ao levar este cheque à compensação junto do Banco de Portugal, o Banco-A consegue assim reaver as reservas que perdera para o Banco-C. O Banco-A deve no entanto precaver a possibilidade de desfasamentos entre o montante que recebe e o montante que tem que pagar, facto que o leva a ter reservas preparadas na sua conta junto do Banco de Portugal. Admita-se que, por experiência, o Banco-A sabe que necessita de possuir 1% do crédito concedido para fazer face a este tipo de desfasamentos. Neste caso, o crédito de 100.000€ obriga o banco a obter 1000€ adicionais de reservas de cobertura.

Finalmente, a exigência referida em (c - cumprir as obrigações legais em termos de reservas), decorre do facto de os Depósitos à Ordem fazerem parte da base de incidência. Assim sendo, o crédito de 100.000€ implica um aumento na base de incidência e consequentemente no montante de reservas necessário para cumprir os requisitos de reservas legais. No entanto, sendo a taxa de reserva legal de 2% na Zona Euro, o montante de reservas que o banco precisa para este fim é também comparativamente reduzido: o Banco-A irá necessitar de 0,02 x 100.000€ = 2000€ de reservas para poder cumprir os requisitos legais.

A conclusão a tirar é que, para fazer face às exigências referidas nas alíneas (a), (b), e (c), o Banco-A necessita apenas de 3.500€ ( 500€ + 1000€ + 2000€ ) em reservas adicionais. Ou seja, para fazer face às exigências referidas em (a), (b), e (c), o Banco-A apenas necessita de um montante comparativamente reduzido de reservas adicionais (reduzido quando comparado com o valor do empréstimo, que foi de 100.000€ e que criou massa monetária também no valor de 100.000€). Se estendermos este raciocínio ao sistema monetário como um todo, chegamos à conclusão de que, para o conjunto da economia, a massa monetária é muito superior à base monetária. Esta ideia é traduzida quantitativamente pelo conceito de multiplicador monetário.

(continua)

Diogo disse...

(continuação)

Stock de moeda e operações de crédito bancário:

Como vimos, a operação de crédito do Banco-A à família provocou o aparecimento de Depósitos à Ordem - e portanto de moeda que não existia antes - no montante de 100.000€.

Vamos agora fazer uma afirmação mais forte: nas economias modernas, a principal fonte de criação de moeda é a concessão de crédito pelos Bancos Comerciais às famílias, às empresas e ao Estado. Repare-se que uma coisa é dizer que uma operação de crédito bancário cria moeda; outra, bem mais forte, é dizer que a maior parte da moeda que existe numa economia nasceu de operações de crédito bancário efectuadas até ao presente.

Note-se que, para que ocorra criação de moeda, a operação de crédito tem de ser de um banco para um agente do sector não monetário; caso contrário, não ocorrerá criação de moeda. Por exemplo, quando uma empresa emite obrigações que são compradas por famílias, as famílias estão a conceder crédito à empresa, mas esta operação não cria nova moeda - implica apenas uma transferência de Depósitos à Ordem já existentes das famílias para a empresa. Outro exemplo: quando um banco concede crédito a outro banco ocorre uma mera transferência de reservas de um banco para outro e nenhuma moeda é criada no processo. Terceiro exemplo: quando uma instituição financeira não monetária (por exemplo, uma locadora) concede crédito a uma empresa, não há criação de depósitos à ordem - ocorre uma mera transferência de depósitos à ordem da locadora para a empresa.

Repare-se também que quando a família paga um crédito que pediu anteriormente (e os juros) fá-lo por débito da sua conta de Depósitos à Ordem e, portanto, esse pagamento destrói depósitos e, assim, moeda. Consequentemente, pode dizer-se que nas economias modernas, a moeda está constantemente a ser criada e destruída: é criada quando os bancos concedem crédito ao sector não monetário e é destruída quando os agentes que pediram crédito aos bancos fazem o pagamento do empréstimo e juros correspondentes.


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(Texto meu) Em suma: E é aqui que está a suprema vigarice: os bancos só criam dinheiro a partir do nada quando o inventam e o emprestam a agentes do sector não monetário – Estados, Empresas ou Famílias.

Um banco concede crédito a uma família no valor de 100.000€ para a compra de uma casa, creditando a conta de depósitos à ordem dessa família no montante de 100.000€.

Para essa operação, um funcionário do banco altera os números que estão registados informaticamente na conta à ordem da família, somando 100.000€ ao valor que lá se encontrava anteriormente.

Esse dinheiro não existia antes em lado nenhum. O banco cria-o a partir do nada digitando essa quantia no teclado de um computador.

Como resultado desta «operação de crédito», passam a existir na economia mais 100.000€ de depósitos à ordem. Uma vez que os depósitos à ordem fazem parte da massa monetária, a operação de crédito fez aumentar o stock de moeda existente na economia.

Ao fim de 30 anos, a uma taxa de juro de 5%, a família pagou ao banco um total de cerca de 255.000€, dos quais 155.000€ são juros.

Resumindo, o banco inventou 100.000€ que emprestou com juros a uma família, e esta, ao fim de 30 anos, entrega os 100.000€ inventados pelo banco mais 155.000€ em juros, estes bem reais. A família foi espoliada pelo banco em 155.000€ de juros sobre um capital que o banco inventou e lhe «emprestou».

Esta fraude sem nome acontece quotidianamente em todos os empréstimos dos bancos comerciais às famílias, às empresas e ao Estado. Haverá roubo maior na história da civilização?

(continua)

Diogo disse...

(continuação

Ouçamos igualmente as palavras de Murray N. Rothbard [Professor de economia e liberal da Escola Austríaca] quando fala da gigantesca fraude bancária que os bancos comerciais têm vindo a praticar até aos nossos dias:
"Desde então, os bancos têm criado habitualmente recibos de depósitos, originalmente notas de banco e hoje depósitos, a partir do nada [out of thin air]. Essencialmente, são contrafactores de falsos recibos de depósitos de activos líquidos ou dinheiro padrão, que circulam como se fossem genuínos, como as notas ou contas de cheques completamente assegurados."

"Os bancos criam dinheiro literalmente a partir do nada, hoje em dia exclusivamente depósitos em vez de notas de banco. Este tipo de fraude ou contrafacção é dignificado pelo termo reservas mínimas bancárias [fractional-reserve banking], o que significa que os depósitos bancários são sustentados apenas por uma pequena fracção de activos líquidos que prometem ter à mão para redimir os seus depósitos."


**********************************

Os bancos comerciais praticam essencialmente dois grandes tipos de fraude:

1 – Quando lhes é pedido um empréstimo, os bancos criam dinheiro a partir do nada sob a forma de depósitos bancários, e cobram juros desse «dinheiro» que possui uma existência apenas contabilística.

Estas «operações» são tornadas possíveis porque os bancos comerciais funcionam em circuito fechado - o dinheiro levantado num banco é depositado noutro, e actuam sob a batuta dos bancos centrais, na sua maioria privados ou geridos por privados, que determinam as taxas directoras e regulam os movimentos financeiros entre os bancos comerciais.

2 – Os bancos facilitam ou dificultam a concessão de crédito, diminuindo ou aumentando as taxas de juro e os spreads, e levando, deste modo, a períodos inflacionários e depressões económicas que conduzem empresas e famílias à pobreza e à falência, e de cujos bens se apropriam por uma fracção do seu real valor.

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