sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A flexibilização dos salários em baixa

O FMI veio repetir o que toda a gente já sabe. 

Num documento com 88 páginas (24 menos que o relatório do Portas), existe apenas uma página com um pequeno texto e 4 gráficos onde  é afirmado que o ajustamento do mercado de trabalho se está a fazer principalmente pela destruição do emprego das pessoas com menor escolaridade e que as empresas do sector transaccionável (que são o motor das exportações) estão a trabalhar com margem de lucro muito baixa (que as levará ao desinvestimento). Então, para resolver estes dois problemas afirma que é preciso flexibilizar  os salários dos privados (em baixa).
Mas o relatório não afirma que todos os salários têm que descer. Diz apenas que, pontualmente, os custos do trabalho têm que ajustar (diminuir) às difíceis condições da nossa economia principalmente dos actualmente desempregados que têm menor escolaridade. Caso contrário, essas pessoas terão muita dificuldade em arranjar um novo emprego.

Produzo mais riqueza numa hora que muitas professoras numa vida inteira

Em termos textuais, o relatório da 8.a e 9.a avaliação do FMI diz (tradução minha e da google):

5. Não obstante o recente declínio na taxa de desemprego, o seu nível permanece elevado. De facto, o nível e a duração do desemprego em Portugal continuam a ser dos mais altos da Zona Euro, apesar de uma significativa recuperação pela emigração.
O ajustamento do mercado de trabalho tem, em grande  medida, ocorrido pela destruição  de postos de trabalho, com o emprego 13% abaixo do seu pico de 2008. Essa perda tem sido particularmente concentrada no segmento menos qualificados do mercado de trabalho (ver Fig. 1).
Fig.1 - Nível de emprego em Portugal (relativo a 2008Q4)

A redução dos salários nominais obtidos até agora tem sido impulsionado principalmente pelo evolução do sector público (a maioria da qual foi este ano revertida devido às  decisões constitucionais), enquanto que a flexibilidade salarial no sector privado mostra-se limitada (ver Fig. 2).

Fig. 2 - Nível de salários em Portugal (relativamente a 2009Q1)

7. A melhoria dos indicadores da competitividade ficou aquém do ajuste de conta corrente [que aconteceu em grande parte pelo esmagar da margem de lucro das empresas exportadoras].
Os custos unitários do trabalho em toda a economia (CUT) diminuíram em cerca de 4.5% desde o máximo do 1 º trimestre de 2009. No entanto, isso reflete principalmente a evolução do sector público, em particular os cortes nos subsídios de férias e de Natal mas que formam anulados pelo Tribunal Constitucional, enquanto que o ajuste dos CUT no sector privado têm sido limitados (ver Fig. 3), embora maior no sector dos bens transaccionáveis .

Fig. 3 - Nível dos custo do trabalho (relativamente a 2009Q1)

A rendibilidade do sector transaccionável ainda precisa se recuperar porque mantém um nível relativamente baixos (ver Fig. 4), o que, em parte, reflectem maior custo de capital (juros elevados) e, na outra parte, que os preços dos inputs locais e de contexto de mantêm elevados [os preços internos também estão com dificuldade em ajustar em baixa].

Fig.4 - Rentabilidade do capital (percentagem)

Qual o nível de salário necessário para competirmos com a China?
Repetidamente aparecem comentários (que agradeço sempre) a dizer que nunca poderemos competir com a China que tem salários muito baixos. Então, podemos todos ganhar, como o Cristiano Ronaldo e o Mourinho, 1 milhão de € por mês.
É uma realidade que na China os salários rondam os 170€/mês enquanto que em Portugal rondam os 900€/mês mas este raciocínio está errado porque actualmente, tirando a Coreia do Norte, todos os países competem entre si em mercado aberto.
Porque se preocupam as pessoas com a China que tem salários na ordem dos 170€/mês e não com Marrocos (com salários a rondar os 125€/mês) que está muito mais próximo de nós? E a Índia, onde os salários rondam 70€/mês, não aflige ninguém porquê?
E porque não conseguimos nós competir com o Luxemburgo, Suíça, Alemanha ou Inglaterra onde os salários são muito mais elevados que os nossos?

A questão é outra.
Porque o salário traduz a riqueza que uma pessoa produz em cada mês de trabalho, um país tem salários altos se tiver muitas pessoas que produzam muita riqueza.
Por exemplo, um kg de algodão fica mais barato produzido nos USA (onde os salários são elevadíssimos), do que em Moçambique (onde os salários são extremamente baixos) porque numa hora de trabalho um americano produz muito mais algodão que um trabalhador moçambicano.
Mesmo que Moçambique feche as fronteiras, nada altera o facto dos trabalhadores moçambicanos produzirem poucos kg de algodão em cada mês de trabalho.
Assim, apesar de todos os países estarem em concorrência, no Luxemburgo os salários mantêm-se muito mais elevados que na China ou em Portugal porque lá as pessoas produzem mais riqueza numa hora de trabalho do que na China ou aqui. 
Não é nos países menos sujeitos à concorrência (com a Coreia do Norte ou Cuba) onde os salários são mais elevados mas sim naqueles onde as pessoas produzem mais riqueza.

Será mesmo preciso descermos os salários?
Não é bem um descer generalizado porque a nossa balança comercial está, pela primeira vez desde os anos 1940, equilibrada. É antes preciso flexibilizar o salário (ou o horário semanal) de cada trabalhador para haver um ajustamento micro.
Porque numa hora de trabalho as pessoas não produzem a mesma riqueza, é necessário ajustar a cada pessoa um salário ou um horário semanal diferente.
Se uma pessoa do tipo A produz 3.00€/h, trabalhando 40h/semana pode receber 120.00€/semana. Se outra pessoa do tipo B produz 2.50€/h então, para receber os mesmos 120.00€/semana, terá que trabalhar 48h/semana. Se o B trabalhar as mesmas horas, só pode receber 100€/semana.

E se a empresa pagar 110€/semana a ambos?
Se a Lei impuser que A e B têm que ter o mesmo salário e o mesmo horário semanal, parece viável a empresa pague a produtividade média, 110€/semana, a ambos os trabalhadores. O problema é que uma outra empresa que só contrate os trabalhadores mais produtivos vai poder oferecer 120€/semana ao nosso trabalhador A o que faz com que a nossa empresa fique apenas com os trabalhadores do tipo B. Vai acumular prejuízo e falir.
Então, a Empresa terá que pagar 120€/semana ao trabalhador A e o trabalhador B vai ficar no desemprego.

E se for difícil observar a produtividade?
Aqui surge o segundo problema.
Se inicialmente não for possível distinguir os trabalhadores A dos B, quando são contratados o salário será igual (110€/semana) mas, com o tempo vai ficando claro que o trabalhador B produz menos riqueza que o A. Então, se a Lei não permitir ajustar em baixa o salário de B (de 110€/semana para 100€/semana), a empresa vai ter que o despedir porque tem que subir o salário do A (de 110€/semana para 120€/semana) pois, caso contrário, ele vai-se embora.
Mais uma vez, a alternativa é o trabalhador B ser despedido mas agora vai passando a sua vida entre longos períodos de desemprego interrompidos por curtos períodos de empregos.

A balança comercial.
O Jorge Gaspar interroga-se como podemos ter uma balança comercial positiva e, mesmo assim, a taxa de cobertura das importações pelas exportações se de apenas 81.3%.
É que a balança comercial tem a balança de mercadorias (que engloba as importações e exportações de bens e que é deficitária) e a balança de serviços (que é fundamentalmente turismo) que está positiva. Juntando as duas, dá a balança comercial que está, finalmente, positiva.
Relativamente a 2010, ano em que começou o ajustamento,  melhoria da taxa de cobertura aconteceu pela diminuição das importações (-3.4%) mas principalmente pelo aumento das exportações (+27%).

Antes de 2011, por cada euro importado, exportamos 0.63€ e agora exportamos 0.85€ (dados, INE).
A balança comercial está equilibrada por causa do turismo (balança de serviços).

O FMI está preocupado com a rentabilidade das empresas exportadoras porque a tendência de crescimento das exportações não são o sucesso que, volta e meio, o Pires de Lima anuncia (em MilM€/mês a preços correntes, dados: INE)

A balança de bens está deficitária mas o turismo dá uma ajudinha no equilibrio a balança comercial (MilM€/mês. dados: BP)

Como deve ser alterado o Código do Trabalho.
Se houver necessidade constitucional de manter que o "salário é igual para todos",  o conceito de salário deve ser clarificado como o "salário mensal" permitindo-se que cada trabalhador tenha no seu contrato um número diferenciado de horas de trabalho semanal, maior nos trabalhadores menos produtivos e vice-versa.
O valor máximo do horário de trabalho normal pode voltar, sem haver qualquer destruição do Estado Social, às 48h/semana. Se a Constituição de 1975 que era muito mais "defensora do proletariado" permitia um horário máximo de trabalho de 48h/semana, a actual também o permite.
Com um máximo de 48h(semana, o Salário Mínimo Nacional desceria dos actuais 4.25€/h = (485 x 14 + 233 x 4.27)/1865, para um mínimo de 3.78€/h que corresponderia para o empregador a uma redução de 485€/mês para 430€/mês mas sem haver redução do rendimento do trabalhador.

Ovelha manca que teima em dormir a sesta, acaba na chanfana

O horário ficaria escrito no contrato.
Mesmo que o salário mensal continue regulado por um contracto colectivo de trabalho, o contracto individual do trabalhador passa a ter escrito qual o número de horas semanais de trabalho.
Se ao trabalhador A forem propostas quiser 40h/semana e ao B 48h/semana, o B só aceita se quiser senão, continua a procurar.
Nas renovações do contrato (a termo certo) se a empresa detectar que o trabalhador é do tipo B, antes de o despedir, propõe-lhe o aumento do horário semanal. O trabalhador só aceita se quiser senão, vai, como actualmente acontece, para o desemprego.

Este relatório contém as condições para o 2.º resgate.
O Tozé Seguro diz que o Passos Coelho está a negociar o 2.º resgate em segredo apenas porque é surdo. De facto, as negociações estão a decorrer na praça pública.

O governo diz pela boca do Pires de Lima.
As taxas de juro estão muito altas pelo que queremos negociar um plano cautelar.

A Comissão Europeia vem dizer:
Ninguém ouviu falar disso e não sabemos o que é o tal plano cautelar.

O governo responde pela boca do Machete.
Então, queremos um 2.º Resgate porque não queremos ir ao mercado pagar mais de 4%/ano.

O FMI coloca as suas condições.
O vosso tribunal constitucional é uma coisa muito esquisita. Por isso, só avançamos se flexibilizarem o mercado de trabalho (ser possível descer os salários).

O governo ataca pelo Portas.
Não queremos uma economia baseada em baixos salários.

E a negociação irá continuar.

Pedro Cosme Vieira

17 comentários:

Chilavert disse...

Professor gostaria de saber a sua opinião sobre se a eventual introdução de tecto salarial( e correspondente tabela salarial actualizada)agregado em razão ao Salário Mínimo Nacional no Estado (leia se Administração Central, Local e E.P.E.s) e sobre criação/introdução de uma formula base única de calculo de pensões em reformas para TODOS os sistemas e subsistemas de protecção social tutelados pelo Estado.

Económico-Financeiro disse...

Estimado Chilavert,
Defendo que os empregos pagos pelo Estado têm que ser sempre menos remunerados que o Presidente da Républica e havia (ainda há) pessoas nomeadas (i.e., amigos) a receber na ordem dos 25000€/mês. Felismente que isso está a acabar.

Relativamente às pensões, sou a favor de uma regra única e uma pensão máxima na ordem do limite superior do Subsídio de Desemprego. O sistema de pensões foi pensado para proteger as pessoas na velhice e não para fazer dos velhinhos os novos milionários à custa de quem trabalha.

pc

Diogo disse...

O Professor Cosme diz que, para a mesma atividade, existe um trabalhador do tipo A (mais produtivo), e um trabalhador do tipo B (menos produtivo).

Isso parece sugerir, aos olhos de um leigo, que a produtividade do trabalhador depende (quase) totalmente do esforço que este põe na produção.
Mas a realidade é diferente. A produtividade do trabalhador depende muito mais da tecnologia e da quantidade de (bens de) capital que a empresa dispõe (maquinas, etc) do que convenhamos, o suor do trabalhador.

Aliás, ao ler o seu livro uma pessoa quase fica persuadida de que nós (os portugueses), por sermos latinos e preguiçosos, somos menos produtivos que os trabalhadores alemães, americanos, dos países nórdicos, etc.

Os portugueses emigrantes recebem mais do que os que ficam cá, não porque de repente ficam muito competentes e esforçados, mas porque lá têm melhores condições para produzirem mais.

Quanto a flexibilizar salários, se é certo que as empresas exportadoras (da industria textil, por exemplo) precisam de baixar salários (ou pelo menos que estes não subam) para competir com o resto do mundo, também é verdade que o ajustamento de mercado já tem sido em grande parte feito à custa dos dessas pessoas pouco qualificados e de jovens (com contratos a termo de 3 meses, muito mal pagos).
Não sei até que ponto permitir que se baixem os salários é uma boa medida de combate à precariedade para essas pessoas.

Económico-Financeiro disse...

Estimado Diogo,

Certo que produção da fábrica por trabalhador depende da tecnologia e da quantidade de (bens de) capital que a empresa dispõe (maquinas, etc) mas isso não cai do Céu, também tem que ser remunerado seja em royalties, lucros, aluguer ou juros.
Da produção total tem que sair uma parte para remunerar o capital e outra parte para remunerar o trabalho.

Os portugueses emigrados recebem mais no Luxemburgo mas não produzem mais. Acontece é que os do Luxemburgo, por questões xenófobas, querem proteger os europeus não deixando o mercado dos "pouco escolarizados" estar em concorrênia (e.g., não dão visto de trabalho a asiáticos).
Se houvesse livre entrada, o salários dos portugueses pouco escolarizados seriam tão grande no Luxemburgo como aqui.

Os dados do desemprego indicam que o ajustamento ainda vai obrigar a descer os salários dos menos escolarizados e dos licenciados (ver, Fig. 1) mantendo-se os de nível intermédio.

Um abraço,
pc

Fernando Gonçalves disse...

Tenho lido muitos dos seus comentários,concordando na generalidade com os diagnósticos,mas nem sempre com a solução apresentada.Não concordo com a baixa dos salários no privado,muito menos do salário mínimo.Também não concordo com o aumento do horário de trabalho.Mesmo que essas soluções fossem óptimas do ponto de vista económico,seriam desatrosas do ponto de vista social,causando muito descontentamento e revolta dos trabalhadores.Atuar por aí só em último caso,antes deve-se reformar o Estado eliminando burocrácias nomeadamente,também é necessário reformar a Justiça.Só essas 2 áreas teriam um impato significativo na atração de investimento.Baixar salários para o Estado poder acomodar-se não fazendo as reformas necessárias é mais uma vez tomar a decisão mais fácil,que só aumenta a pobreza e desigualdade deste país.A política é mais que economia,implica escolhas sociais,logo contributos de sociólogos,juristas,filósofos,são muito bem vindas.Não há decisões certas e decisões erradas,depende dos objetivos que temos,e da forma como se pretende alocar os recursos,benefeciando mais uns grupos sociais em detrimento de outros.Fui estudante da FEP mas não advogo pelo neoliberalismo.

Fernando Gonçalves disse...

Caro Pedro,gostaria de aproveitar para esclarecer melhor a minha posição contra a redução dos salários.Poderá parecer por uma questão ideológica,ou até pelo facto de eu ser um trabalhador,mas trata-se do seguinte:

-a redução de salários leva a uma redução de custos proporcional ao peso dos salários setor a setor,essa redução de custos leva a um aumento das exportações e à substituição de importações de facto,mas essa vantagem é apenas conseguida à custa dum único fator,logo é limitada.No final os trabalhadores perdem poder de compra pois a redução dos preços internos é apenas uma fração da redução dos salários(devido aos salários serem apenas uma parte do custo de produção e além disso,não havendo concorrência perfeita nem toda a redução de custos se reflete em redução de preços),além de que em caso algum a massa salarial fica pelo menos igual à que existia antes da redução(caso contrário todos aceitariamos de bom grado reduzir os salários em 10% para baixar a taxa de desemprego de 15% para 5%,infelizmente seria preciso bem mais que isso),enquanto que todo o ganho é repartido entre aumento dos lucros e o exterior conforme o impacto da redução dos custos no preço de venda ao exterior.Estive a procurar,e não encontrei qualquer estudo que diga qual é a elasticidade preço das exportações e a elasticidade preço da procura,no entanto eu fiz uns cálculos assumindo o valores de 2 e 1 respetivamente(no caso do segundo indicador significaria que toda e qualquer redução no preço da produção nacional levaria a um aumento da quantidade procurada na mesma ordem de grandeza,mas mantendo os termos de procura entre produção nacional e produção externa iguais face ao choque de rendimento positivo ou negativo,até porque nas simulações que efetuei a perda da massa salarial era muito semelhante ao ganho em termos de lucros ao assumir que os empresários não aumentariam a sua margem,mas sim que tentariam exportar o máximo possível),o que sendo demasiado elevados não benefeciam de todo os meus argumentos,mas não os ameaçam de forma alguma.Tem outros valores que considere mais razoáveis?Se sim,agradecia a sua opinião.

-de acordo com a sua argumentação o keynesianismo não funcionaria porque grande parte dos trabalhadores desempregados são obsoletos para serem de novo empregues,mas com um salário mais baixo então já podiam ser empregues,ora isso é incongruente porque o keynesianismo atuaria pela via da inflação exatamente da mesma forma que uma redução de salários,a diferença é que pelo menos os trabalhadores sentiriam que o custo era suportado por todos,e não apenas por si.Então significa que aceito a redução de salários?Não,mas se aceitasse então poderia perfeitamente aceitar a via do keynesianismo.Mas já sei que pensa que a competitividade deve ser dada ao setor exportador,então eu pergunto:mas as nossas exportações nos últimos anos não apresentam um valor acrescentado cada vez maior,e portanto cada vez menos dependente do preço,mas sim de factores extra preço?Afinal foi o pedro vieira que disse que o setor do calçado não tem assim tanta importância nas nossas exportações,e esse setor baseia-se em mão-de-obra barata,mas curiosamente os seus factores de competividade muito pouco se baseiam no preço,caso contrário o sapato português não seria o 2º mais caro do Mundo,a seguir à Itália.Ou seja nem o calçado precisa realmente de trabalho barato.

-podendo reduzir os custos salariais os produtores conformariam-se a essa solução,não procurando outras formas mais construtivas de aumento da competitividade.Era exatamente isso que acontecia na época do escudo,com as constantes desvalorizações cambiais.

Fernando Gonçalves disse...

(continuação)
-o Estado também acabaria por se livrar de fazer as reformas estruturais para o aumento da competitividade do país,como a reforma da Administração pública e a reforma da Justiça,fulcrais para a atratividade do investimento.

- questões sociais como desânimo e frustação,desincentivo ao trabalho(se o aumento da TSU em 7% tivesse avançado conheço várias pessoas que me diziam que preferiam trabalhar menos horas ou com menos esforço,não se importando de serem despedidas e ficarem a receber o subsídio de desemprego,por contrapartida a trabalharem e receberem ainda menos),aumento das desigualdades num país que já bate records nesse domínio(ninguém está a falar nisso,mas podemos estar a destruir a coesão social com estas políticas,até porque mesmo antes da crise o português médio já se sentia desfavorecido,não só porque via uma europa mais rica mas também porque internamente a desigualdade já era um facto),queda abrupta da natalidade(abaixo de 80000 para este ano,e tão barato seria por exemplo aumentar o abono para o 2ª filho em diante,sujeito à condição de rendimento das familias,já que o problema reside no filho único)que ameaça a sustentabilidade da Segurança Social.

-Ainda poderia referir o facto de não ser necessário concentrar mais o rendimento para aumentar a poupança,pois esta já tem vindo a aumentar de forma bastante expressiva “à custa”de quem pode,não obstante todos os sacrifícios que os portugueses já tiveram via salários congelados nos últimos anos(sem falar que pelas vias dos suplementos ao salário é possível reduzi-los),aumentos brutais de impostos,aumentos de taxas,aumentos nos transportes e eletricidade,o que por si só também já deixa muita resistência para se reduzir ainda mais o rendimento disponível!

Por tudo isto,não só não defendo uma redução dos salários,como pelo contrário defendo um aumento do salário mínimo,pois acredito que os fatores positivos superariam os negativos.Não tenho o dom da verdade,obviamente,mas os meus argumentos são tão válidos quanto os que defendem o oposto.Sim,sou keynesiano,tal como Krugman e Stiglitz.

Económico-Financeiro disse...

Estimado Fernando Gonçalves,

A questão não é se o salário deve ou não descer (ou aumentar) mas apenas flexibilizar em baixa, acabando os entraves legais a que as pessoas tenham o contracto de trabalho que acharem melhor (e conseguirem).

No ajustamento o que tem realmente reduzido é a remuneração do capital (lucro).
Comparando com 1999, diminuiu mais de 80% (ver, Fig 4).
Ninguém pode investir pagando juros acima dos 6%/ano quando a margem de lucro está nos 2%/ano.

Mas, em politica, gritando-se muitas vezes uma mentira esta passa a verdade. Mesmo com os bancos falidos e sempre a apresentar prejuizos terríveis, a esquerda vai-se gritando que os "banqueiros" e o "grande capital" que paguem a crise.

pc

Daniel disse...

Em resposta ao seu último comentário:

Terá o Professor noção que o número de milionários em Portugal aumentou, e muito, com a crise (desde 2009, a um ritmo de 4% ao ano)?

Vá lá, não custa muito, experimente uma busca no Google (com os termos "Portugal", "crise", e "milionários") e encontre as fascinantes e inúmeras notícias/artigos sobre esta realidade, que não entra muito bem na cabeça das pessoas.

Dou-lhe só um exemplo. Eis um artigo do Público, deste mês: http://www.publico.pt/economia/noticia/os-multimilionarios-portugueses-sao-mais-e-estao-mais-ricos-1611725. Cito: «No total, a fortuna dos 870 multimilionários portugueses aumentou 10 mil milhões de dólares (7,5 mil milhões de euros), apesar da crise económica que assola o país."»

Maravilha.

Diogo disse...

So! Professor? Tenho a sensação de que você continua a viver com ideologias de há 60 anos atrás.

A evolução tecnológica continua a evoluir de forma exponencial – o que significa que a capacidade produtiva (sem mão (nem cérebro) humano) continua a progredir a um ritmo crescente.

Como é que você pode continuar a falar em descidas de salários para aumentar a competitividade? Você é cego?

Económico-Financeiro disse...

Estimado Diogo,
Aertou. sou cego (parcialmente) do olho direito, tenho uma catarata a que tenho que me operar, e tenho grandes amigos (do judo) que o são completamente sendo pessoas como as outras.
Quanto ao progresso técnico ser exponencial, porque é que nos 6 anos do Sócrates esse progresso exponencial não aconteceu?
E eu é que sou cego.
O pior dos cegos é o que não quer ver.
Um abraço,
pc

Fernando Gonçalves disse...

Devem os salários descer de forma a ser possivel manter o regabofe de salários milionários de gestores de mercados protegidos encostados às negociatas políticas que lhe permitem rendas certas e permanentes?devem os salários descer para compnesar uma administração pública pesada,burocrática e ineficaz?para manter uma Justiça que não funciona?Que raio,os trabalhadores é que devem ser o saco de pancada?

Mundo Real disse...

Caro pc

Não é possível viver com uma moeda partilhada por vários países, a várias velocidades e com estruturas de custos semelhantes em todos os bens e energia e completamente dispares noutras. Por isso, baixar o salário mínimo ou os outros salários não resolve nada aliás aumenta a magnitude do problema. Mas continuem... os disparates têm de ser demonstrados.

Por exemplo, uma empresa do sector primário, uma mina ou uma exploração agrícola em Portugal. Não compra bens para valorizar, produz bens em primeira mão. Os custos de energia e de contexto (taxas, comunicações, etc) são semelhantes aos da Alemanha. Porquê, se os salários forem iguais aos da Alemanha, a empresa não é rentável ou deixa de vender o que produz ? Não percebo e gostava que me explicassem. O que é que para estas empresas é muito mais caro cá que as torna inviáveis.

Outro exemplo, uma empresa como a auto-europa. Tem custos de energia e de contexto iguais à Alemanha. Importa matéria-prima aço e alumínio ao kilo com custo igual ao da Alemanha. Porquê só é rentável se tiver salários baixos e se os subir para o nível da Alemanha deixa de ser rentável ? não percebo. Porque se desloca para a China ? OK, então porquê se eu tiver uma ideia de fazer uma fábrica de carros não consigo ?

Acredito que existam em portugal dois tipos de empresas. As que são iguais ao melhor da europa e que deviam pagar salários como no norte da Europa e outras que se comparam ao pior do terceiro mundo e que já deviam ter fechado. Mas OK se houver quem lá trabalhe que continuem.

Como se resolve? Baixar o salário mínimo ? NÃO. Acabar com o salário mínimo isso SIM. Deixem o mercado funcionar. Mas deixem em paz quem quiser abrir uma empresa, negócio ou seja quem quiser andar o governo, o estado ou seja lá o que for que saia da frente.

pc, gostava ainda que comentasse os rumores que têm vindo a público de que os custos do estado em bens e serviços e despesas de capital é actualmente a SEGUNDA despesa do estado com 15MMeuros ano, logo depois das pensões. Isto é verdade ?

JAA

Económico-Financeiro disse...

Estimado Mundo Real,
Salários:
Salário é poder de compra. Pensando apenas nas pessoas da nossa família, os salários são diferentes. Em média, as pessoas que produzem menos, têm salários menores.
Em Portugal o salário médio tem maior poder de compra que o salário médio em Marrocos porque aqui cada trabalhador produz, em média, mais riqueza.
A riqueza produzida pelo trabalhador (liquida da normal remuneração do capital) depende de muitos factores sendo o principal a escolaridade.
Se compararmos por escalões de escolaridade, engenheiro com engenheiro, professor com professor, os salários na Alemanha são menores que em Portugal.
O salário de um professor universitário na Alemanha permite um nivel de vida menor que o meu salário em Portugal.
O problema da nossa baixa produtiviade é que temos, em média, baixa escolaridade (poucos anos e de baixa qualidade).

continuemos no Euro ou voltemos ao Escudo, porque nos manteremos menos escolarizados (menos produtivos), o salário médio em Portugal continuará com menor poder de compra que na Alemanha (e maior que em Marrocos).

A despesa bruta de capital e consumos intermédios:
Era 19% da despesa pública (em 2009 e 10) e está previsto para 2013 que seja 14% (11MM€/ano), OE2013.
O problema é que os consumos intermédios são coisas que o Estado exteriorizou (eg, a despesa dos hospitais empresas e os serviços de limpeza e segurança) e a despesa bruta de capital são a manutenção das estradas e das outras infra-estruturas públicas.
Nestas despesas estão salários pelo que a sua redução é a única forma de controlar estas verbas.

Mas não é dinheiro deitado fora.

Um abraço,
pc

Fernando Gonçalves disse...

Pois,aí está:nas profissões qualificadas os salários em Portugal são iguais ou até superiores aos dos outros países,mas nas pouco qualificadas é o inverso,o nosso salário mínimo é menos de metade de outros países da EUROPA,por isso mesmo que se implementasse a flexibilização do salário,se há quem tivessemos obrigação de proteger é quem ganha o salário mínimo.Por uma questão de dignidade não se pode trabalhar e ser pobre,isso só é tipico dum pais não desenvolvido.

vazelios disse...

Por mais que discordemos dos salários dos gestores, não o devemos fazer porque eles também estão em mercado livre, em concorrência.

O meu patrão internacional deve ganhar uns 10milhões ao ano e eu nem 1% ganho. Porquê?

É uma injustiça?

A minha empresa se quer ser competitiva e ser a melhor tem de remunerar o melhor possível os seus funcionarios, desde que estes retribuam adequadamente ao que ganham.

A empresa, necessitando de liderança internacional, pode-me contratar a mim para presidente por 100.000€ anuais ou o Horta Osório por 10milhões/ano.

Sabe quantas empresas do TOP500 mundial me contratariam a mim?

Nenhuma.

Parem de bater nos que ganham mais! E eu ganho o que ganho porque a minha empresa consegue arranjar 1 milhão de pessoas iguais a mim!!

Tudo está em concorrência e não há mal nenhum nisso.

Só me resta trabalhar e mostrar que um dia posso ser eu o dos milhões!!

Fernando Gonçalves disse...

Lol,isso é quando há concorrência.Mas há concorrência na EDP?Na Galp?na Ren?nos parceiros priveligiados do Governo para as PPP?e TAMBÉM SÃO ASSIM tão especiais os magníficos gestores bancários que quase levaram os bancos à ruína?e aqueles gestores que tendo estado no governo abriram caminho para as empresas que foram gerir de seguida?Pois,não assuma que é assim tão líquido o que diz,o sucesso duma empresa é muito mais que o do seu presidente,e quem chega ao topo está muito longe muitas vezes do mérito que querem fazer passar.

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