domingo, 24 de novembro de 2013

O "incumprimento" alemão

Quando em 1992 a Zona Euro foi criada 
ficou combinado que a inflação ficaria nos 2.0%/ano, o que tem sido cumprido à risca.
Olhando para os dados (Fig. 1), desde o momento que os câmbios ficaram fixos (Janeiro de 1999) até agora (Outubro de 2013) a taxa de inflação média foi de 2,03%/ano (dados, BCE).
O BCE não pode ser governado pelos chavões políticos que pedem sempre mais crescimento económico e menos desemprego tendo antes que fixar os olhos na inflação e, quando esta está abaixo da meta, aumentar a quantidade de moeda em circulação e vice-versa. Como existe um atraso no efeito das medidas do BCE nos preços, o banco central tem que ter um modelo de previsão da evolução futura da inflação que inclui diversas variáveis onde se incluem as taxas de crescimento do PIB e de desemprego mas isso não quer dizer que o BCE tenha em atenção estas variáveis quando implementa as politicas monetárias.
Apesar de desde 1998 (a crise do Sub-prime e das dividas soberanas) ter sido mais difícil controlar a inflação, mesmo assim, a média desde Jan2008 até Out2013 está nos 1.99%/ano (o desvio padrão aumentou de 0.33pp para 0.84pp). 

Fig. 1 - Inflação na Zona Euro (dados,  BCE)

Taxa de câmbio.
O BCE não faz (quase) nada para controlar a taxa de câmbio do Euro que resulta das forças de mercado. O manter a taxa de câmbio num determinado valor obriga, no curto prazo, a endividamento/crédito face ao exterior e, no longo prazo, a uma política de salários e preços compatível com a taxa pretendida.
Se, num patamar muito inferior à taxa de inflação, considerarmos que também compete ao banco central da zona monetária promover o equilíbrio das contas com o exterior (a Balança Corrente), então o BCE também tem funcionado muito bem.
Os dados (Fig. 2) indicam que entre 1Q:1999 e 2Q:2013 o saldo da balança corrente esteve totalmente equilibrada (um saldo médio de -0.01% do PIB). 

Fig. 2 - Evolução da Balança Corrente da Zona Euro (dados,  BCE)

Nas variáveis que medem a performance do banco central, o BCE aproxima-se da perfeição (inflação na meta de 2%/ano e balança corrente equilibrada).

Então, onde estão os problemas da Zona Euro?
Estão nos países.
Antes da criação da Zona Euro os países do Sul da Europa tinham taxas de inflação superior aos países do Norte da Europa e, associada, uma maior taxa anual de crescimento nominal dos salários. Estas diferenças eram corrigidas com desvalorizações das moedas do Sul relativamente às moedas do Norte.
Como o câmbio fixo é uma das formas standard de controlar a inflação, quando se criaram as bases da Zona Euro (em 1992 no Tratado de Maastricht) acreditou-se que, com o câmbio fixo, as diferenças nas taxas de inflação iriam rapidamente desaparecer.
O problema já na altura identificado é que o processo de correcção nominal pelo câmbio fixo tem impacto económico negativo que os governos tentam torpedear aumentando o défice público financiado externamente (politicas fiscais expansionistas). Para evitar que tal surgisse na Zona Euro, os países comprometeram-se a manter o défice público abaixo dos 3.0% do PIB e a divida pública abaixo dos 60% do PIB.

Mas o problema de base não era o défice público.
Era o défice público ser usado para evitar que os preços (e os salários) ajustassem.
Usando politicas expansionistas (défice público) os governos permitem que se mantenham taxas de inflação diferenciadas o que causa a divergência dos preços. Desta forma, nos países com maior inflação (em que os salários também sobem mais que a média)  o nível de vida aumenta mas as empresas deixam de conseguir exportar. Este efeito é o motor do desequilíbrio das contas com o exterior (a balança corrente).

Vejamos o nosso Salário Mínimo Nacional.
O ser humano tem o problema de desvalorizar as coisas que tem. Chama-se a isto a "depressão pós parto": a mãe pensa que vai ficar muito feliz por ter uma criança mas, mal ela nasce, deixa de dar valor a isso. 
Nós também somos assim relativamente ao nosso salário.
Em 1998 as pessoas trabalhavam 45h/semana e o salário mínimo era de 298,80€/mês. Se actualizarmos esse valor com a taxa de inflação e corrigirmos o horário de trabalho, em 1998 o SMN era de 350€/mês.
Estava tudo bem, o Jorge Sampaio era o Presidente da Republica e o Primeiro Ministro o Guterres e não achavam esse valor pequeno e muito menos inconstitucional. Diziam então que quem trabalhava era justamente remunerado e ninguém se preocupava com isso.
Entre 1998 e 2011 o salário mínimo aumentou 65% em valor e o horário de trabalho reduziu 11%. Agora, o custo horário já é de 3,66€/h. Nestes 13 anos o SMN aumentou 83%, 4.7%/ano, mais do dobro dos 2%/ano previstos no tratado de Maastricht.
Agora o SMN são 485€/mês e toda a gente diz que é pouco.

E o crescimento económico?
Parece claro que os salários têm que crescer com o crescimento económico. O problema é que, comparando 1998 (antes do Euro) e 2013, o crescimento económico per capita foi 0,3%/ano.
Nestes últimos 15 anos tivemos 10 anos de governos socialistas, com politicas de crescimento que resultaram num endividamento massivo e em 0,3%/ano de crescimento.
Como pode ainda alguém acreditar nessa lengalenga da "politica do crescimento"?
Mesmo acrescentando o crescimento de 0.3%/ano, para respeitarmos o que assinamos em Maastricht (2%/ano), em 2013 o SMN teria que estar nos 365€/mês (ou 410,00€/mês com 45h/semana).

E quem se comprometeu pelos portugueses no tratado de Maastricht?
Em 1992, o Cavaco como primeiro ministro e o Mário Soares como Presidente da República.
Algum juiz do Tribunal Constitucional disse que era inconstitucional impor ao nosso país que o preços e salários só aumentassem 2%/ano?
Nada e até fizemos uma revisão da constituição de forma a ser possível passar para a ordem juridica interna as consequências do tratado mas, afinal, não foi suficiente porque agora tudo é ajustamento nominal inconstitucional.
Os preços subirem 10% e as pensões ficarem na mesma é exactamente igual a manter os preços e descer as pensões cairem 10%. No entanto, a primeira hipotese é constitucional e a segunda já não.
Nós somos mesmo governados por mentecaptos.

A subida do SMN é um crime contra os pobres.
Vamos imaginar uma lei cujo objectivo é defender as chouriças pequenina.
Essa Lei diz que uma chouriça só pode fazer parte do cosido se tiver mais de 20cm.
Em que é que esta lei protege os homens com uma chouricinha pequenina?
Passa-se o mesmo com as pessoas menos produtivas.
Se o salário mínimo acabasse com a pobreza, eu defendia já que tinha que subir para 1000000€/mês. O problema é que subir o SMN não é arranjar emprego para as pessoas a esse salário. É apenas condenar as pessoas que produzem menos à inactividade e à subsidio-dependência.
O aumento administrativos do SMN manteve o PS no poder mas roubou-nos o crescimento económico (que foi de 0,3%/ano), atirou centenas de milhar de pobres (as menos qualificadas) para o desemprego e isto porque o Estado tinha dinheiro fácil (a crédito) para as apoiar como subsidio-dependentes (do Rendimento Mínimo Garantido e do Subsídio de Desemprego).
Mesmo que a pessoa quiser trabalhar porque precisa, vem logo a Inspecção Geral do Trabalho para o proibir.

Depois, os esquerdistas queixam-se do desemprego.
Tornou-se oficial o discurso de que "os empresários que não conseguem pagar um salários digno têm que fechar" e "nós como sociedade não podemos permitir que as pessoas sejam exploradas pelos patrões".
E fecharam mesmo.
Os esquerdistas que façam empresas cooperativas.
Falências e mais falências, desemprego e mais desemprego foram respondidos com subsídios e mais subsídios, défice público e mais défice público, dívida e mais dívida, importações e mais importações até que BUMMMMMM, em 2010 rebentou.
Vamos ver como se comportou a Alemanha.
Em resposta às crises de 2002 e de 2008 a Alemanha teve défice público mas não foi considerado um problema porque a balança corrente estava positiva (em 2002:2004 estava positiva em 48€/mês/pessoa e em 2000:2010 em 115€/mês/pessoa).

Fig. 3 - Défice público

Fig. 4 - Balança Corrente alemã (M€ por trimestre, EuroStat)

O défice público de hoje são impostos, com juros, de amanhã.
O Estado paga a despesa pública com impostos e endividamento. Mas a única forma que tem de pagar a divida pública é, no futuro, cobrar mais impostos.
Se o país tiver balança corrente equilibrada, a divida pública está na mão dos nacionais que, mais tarde, vão usar esses títulos para pagar o incremento nos impostos.
De facto, a divida pública não é riqueza nacional (existem trabalhos científico sobre o não-efeito-riqueza da dívida pública) porque as pessoas sabem que, mais tarde, vão ter que a usar para pagar os impostos necessários para o Estado a amortizar.
Se a balança corrente for deficitária, a divida pública é riqueza dos estrangeiros que não são sujeitos aos impostos do país devedor. Então, quando a divida pública é detida por estrangeiros, é muito mais difícil arranjar base tributária para a amortizar.

Já percebem porque a Alemanha pode ter défice excessivo sem problema?
A Alemanha não respeita o limite dos 60% (tem 80% do PIB de dívida pública) mas os preços e salários face ao exterior estão baixos o que faz com que a economia seja superavitária. Desta forma, a divida pública não é um problema porque está na mão dos alemães que, mais tarde, a vão usar para pagar impostos.
No Japão passa-se exactamente o mesmo. A divida pública é mais elevada que a nossa (em termos líquidos o FMI diz que o Japão tem 140% do PIB e nós temos 115% do PIB) mas é interna (e.g., o IVA já começou a aumentar, de 5% para 10%).

Fig. 5 - We love Germany

Mas não tem nada a ver com o BCE.
O défice público não tem nada a ver com a governação da zona monetário, é antes uma decisão de cada um dos países que a constituem e de haver quem empreste dinheiro para que os países possam financiar o défice.
Um país pode pertencer a uma zona monetária sem qualquer supervisão do banco central, tal e qual como quando a moeda era o Ouro. Por exemplo, entre 1991 e 2001 a Argentina pertenceu à zona do dólar americano.
O problema é que, se o governo quiser torpedear a convergência nominal, a sua taxa de inflação elevada vai tornar a balança corrente deficitária.
No próximo poste vou mostrar como as economias periféricas estão a caminho do ajustamento.

Pedro Cosme Costa Vieira

6 comentários:

Vivendi disse...

Só os governos aldrabões e corruptos não se dão bem com o €.

jfdr disse...

Caro Pedro Cosme

Parabéns por mais um post lúcido e pertinente. Uma resposta informada aos actuais apelos de subida do SMN.

Apenas por uma questão de rigor, no parágrafo: "Em 1998 as pessoas trabalhavam 45h/semana e o salário mínimo era de 298,80€/mês. Se actualizarmos esse valor com a taxa de inflação e corrigirmos o horário de trabalho, em 1998 o SMN era de 350€/mês." não há uma gralha? (1998 duas vezes, com dois valores de SMN diferentes?)

Cumprimentos
joao

Económico-Financeiro disse...

Obrigado jfdr pelas palavras de incentivo e pela questão.

O que eu queria dizer é que, aos preços de 2013, o SMN de 1998 com 40h/semana era de 350€/mês.

A comparação dos preços em anos diferentes precisam de uma taxas de cambio como a comparação entre moedas.
Nós podemos dizer "nos USA o salário minimo é 7.25USD/h ou 5.33€/h".
Também podemos dizer "o SMN em 1998 é de 298,80€ desse tempo ou 350€/mês a preços de 2013" como se houvesse uma taxa de câmbio entre os euros de 1998 e os euros de 2013 (a inflação).

1€ de 1998 tinha o mesmo poder de compra que 1.35€ de 2013.

Um abraço,
pc

deathandtaxes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
deathandtaxes disse...

...Os preços subirem 10% e as pensões ficarem na mesma é exactamente igual a manter os preços e descer as pensões cairem 10%. No entanto, a primeira hipotese é constitucional e a segunda já não.
Nós somos mesmo governados por mentecaptos....

O problema, é que esses juízes do TC, são uns betinhos que fizeram o liceu às 3 pancadas, e não sabem de matemática! aliás, a carreira de jurista/advogado/juíz, nasce precisamente da necessidade de "fugir" da matemática.

não sabendo contas de subtrair e dividir simples, como haverão eles de saber calcular VAL do SMN, e taxas de inflacção/crescimento...?

obrigado Pedro Cosme, pelos posts iluminados e esclarecedores.

economistadebancada disse...

O banco central, neste caso o BCE, nao controla a massa moneteria, controla a taxa de juro.

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code