quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A troca de dívida de 3Dez foi o possível

As operações de troca são o pão nosso de cada dia.
Imaginemos uma família que ganha 3.000€/mês e que deve 200 mil € pagando 4%/ano de juros. Vai conseguir amortizar a divida em 50 anos com uma mensalidade fixa de 762€/mês.  Agora imaginemos que o contracto prevê que seja paga a mesma mensalidade de 762€ durante 5 anos mas, no fim desse prazo, paga uma prestação de 148810€. Naturalmente que a família não vai conseguir arranjar os quase 150mil€ pelo que vai ter que arranjar outro crédito (com o mesmo banco ou com outro) para rolar a divida. Apesar de tudo, estas duas situações são, em termos económicos, semelhantes.

Com Portugal passa-se o mesmo. 
Devemos 200 mil milhões de euros dos quais vamos pagando os juros mas não conseguimos amortizar o stock no prazo previsto nas obrigações. Assim, quando a divida se vencer, o Estado vai ter que rolar os montantes emitindo nova dívida.
Na tal conferência do NIFIP eu (também) organizei, um francês especialista em gestão de divida pública esteve mesmo a falar disto. Antigamente, o devedor esperava pelo vencimento das obrigações para arranjar novo crédito para as pagar. Agora, a gestão dinâmica do stock de divida consegue, intervindo continuamente no mercado secundário, rolar a divida por antecipação. Por exemplo, a divida pública francesa tem uma maturidade média na ordem dos 7 anos. 

Fig. 1 - A troca é uma oportunidade para ver como o mercado avalia o activo.

O mercado primário.
O Estado, porque tem défice presente e passado (stock de divida pública que precisa de ser rolada),  volta e meia cria títulos da divida pública (as obrigações do tesouro).
Por exemplo, o Estado precisa de 1000M€ e, sabendo que a taxa de juro no prazo de mercado no prazo de 5 anos está próxima dos 5,000%/ano, cria em Dez2013 10M de obrigação com o valor nominal  de 100€ e com um cupão anual de 5,00€ com a maturidade de 5 anos (os 100€ serão pagos em Dez2018).
Depois, o Estado faz um anúncio de que quer vender (pedir dinheiro emprestado) os 10M de obrigações e vai aceitando ordens de compra dos aforradores (que querem emprestar dinheiro) como de qualquer activo financeiro: cada ordem de compra contém a quantidade de obrigações pretendida e o preço que o aforrador pretende pagar, por exemplo, 500 obrigações ao preço unitário de 98,950€.
Quando a oferta tem um preço menor que 100€ quer dizer que o aforrador pretende uma taxa de juro maior que o valor do cupão e vice-versa. Supondo que o Estado vendeu cada obrigação a 98,950€ então, a taxa de juro foi de 5,224%/ano.
Também pode o valor nominal (a ser pago no fim do prazo) ser a variável-preço (o comprador "pedir" um preço maior que 100€ traduz uma taxa de juro maior que o cupão e vice-versa). No exemplo anterior, o valor nominal de 100€ pagos agora seriam 101,355€).
Por uma questão de normalização do mercado, o normal é o valor nominal ser 100€ e o preço de venda ser variável (a cotação).

O mercado secundário.
Todos os dias são vendidas e compradas obrigações do tesouro a determinado preço (a cotação da obrigação). Apesar de haver uma multiplicidade de obrigações do tesouro, em termos financeiros a sua principal característica é a maturidade pelo que as agências de informação financeiras, e.g., a Bloomberg, agregam as obrigações por intervalos de prazos (3 meses, 6 meses, 12 meses, 2 anos, 3 anos, 4 anos, 5 anos, etc.) e calculam a taxa de juro de mercado para cada prazo.

Onde aparece a gestão dinâmica do Estado.
Normalmente as taxas de juro fixas para os prazos maiores é maior pelo que os países são tentados a ter a divida pública com prazos curtos. No entanto, ter muita dívida de curto prazo causa nervosismo nos aforradores. Assim, o Estado tem que ponderar duas variáveis incompatíveis, uma taxa de juro baixa e uma maturidade elevada.

Fig. 2 - Taxas de juro fixas de dívida pública nas principais zonas monetárias

Cada dia que passa a maturidade média da divida diminui exactamente 1 dia. Então, se o devedor se comprometer a manter uma certa maturidade média tem que implementar  uma gestão dinâmica comprando obrigações de prazos mais curtos e vendendo obrigações de prazos mais longos.
Se, por exemplo, o gestor de dívida observa que no prazo de 2 anos a taxa de juro está anormalmente baixa e a 8 anos, pelo contrário, está anormalmente alta então, vai vender divida a 2 anos e comprar divida a 8 anos nas quantidades que fazem mercado evoluir para as taxas de juro que "deveriam estar" (que depende do que pensa o gestor).

Foi exactamente isso que o Estado fez a 3 de Dezembro.
Comprou (i.e., pagou) divida de mais curto-prazo (maturidade em 2014 e 2015) e vender (i.e., pediu emprestado) divida de mais longo-prazo (maturidade em 2017 e 2018) de forma a alterar o perfil de maturidades. Não interessa se a divida foi vendida para ser comprada pelos mesmos ou outros porque, para o Estado, em nada interessa saber a identidade dos aforradores.
Ao aumentar o prazo, a taxa de juro média ficou maior mas é mesmo assim.
O óptimo em termos de taxa de juro seria ter toda a dívida com maturidades muito curtas (abaixo dos 30 dias) mas isso obrigaria a emitir diariamente milhares de milhões de divida pública o que introduziria muito risco nos encargos do Estado com juros.

Essas operações são para continuar.
É uma pena termos, ainda, taxas de juro tão elevadas mas as taxas de juro conseguidas foram as de mercado para os prazos de 4 e 5 anos (entre 4,5%/ano e 5,0%/ano). Comparando com a Itália (paga entre 2,3%/ano e 2,7%/ano), a Irlanda (paga entre 1,9%/ano e 2,1%/ano) ou o financiamento da Troika (3,2%/ano) a taxa de juro é elevada mas o problema é que nós não somos a Irlanda e a Troika não nos quer emprestar mais dinheiro.
Como vamos ter que nos fazer à vida, esta operações de gestão de maturidade vão passar a ser cada vez mais normais pois até ao fim da legislatura vai ser preciso rola mais de 20 mil milhões de euros.

Será isto adiar o problema para o PS pagar?
A divida é, em si mesmo, fazer despesa hoje (que dá votos) para os vindouros pagar.
Quando o Mário Soares, o Guterres e o Sócrates e outros criaram divida pública massiva nunca imaginaram que seria o Passos Coelho a pagar na totalidade. Isso apenas seria possível se o homem estivesse lá uns 48 anos (precisava de um saldo primário de +3% do PIB). Então, todos sabemos que quando o PS assumir o governo, nem que seja daqui a 20 anos, terá lá toda a dívida que os seus anteriores governos fizeram.
Mas o Mário Soares já não se lembra desses tempos.

Fig. - Estará morto? Não, está apenas a recarregar as baterias da demagogia.

Pedro Cosme Costa Vieira

2 comentários:

Diogo disse...

Não, caro Cosme. Trata-se apenas de uma jogada feita em dois passos:

– Um partido cria uma dívida incomensurável. O outro partido trata de pagá-la.


Chris Gupta: Esta fraude consiste na fundação e financiamento pela elite do poder de dois partidos políticos que surgem aos olhos do eleitorado como antagónicos, mas que, de facto, constituem um partido único. O objectivo é fornecer aos eleitores a ilusão de liberdade de escolha política e serenar possíveis sentimentos de revolta contra a elite dominante.

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Dr. Stan Monteith: "O argumento de que os dois partidos deviam representar políticas e ideias opostas, uma, talvez, de Direita e a outra de Esquerda, é uma ideia ridícula aceite apenas por teóricos e pensadores académicos. Pelo contrário, os dois partidos devem ser quase idênticos, de forma a convencer o povo americano de que nas eleições pode "correr com os canalhas", sem na realidade conduzir a qualquer mudança profunda ou abrangente na política."

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George Wallace (foi candidato à Presidência norte-americana. Este afirmou: "... não existe diferença nenhuma entre Republicanos e Democratas."
"... A verdade é que a população raramente é envolvida na selecção dos candidatos presidenciais; normalmente os candidatos são escolhidos por aqueles que secretamente mandam na nossa nação. Assim, de quatro em quatro anos o povo vai às urnas e vota num dos candidatos presidenciais seleccionados pelos nossos 'governantes não eleitos.' Este conceito é estranho àqueles que acreditam no sistema americano de dois-partidos, mas é exactamente assim que o nosso sistema político realmente funciona."

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O Professor Arthur Selwyn Miller foi um académico da Fundação Rockefeller. No seu livro «The Secret Constitution and the Need for Constitutional Change» [A Constituição Secreta e a Necessidade de uma Mudança Constitucional], que foi escrito para aqueles que partilhavam os segredos da nossa ordem social, escreveu:

"... aqueles que de facto governam, recebem as suas indicações e ordens, não do eleitorado como um organismo, mas de um pequeno grupo de homens. Este grupo é chamado «Establishment». Este grupo existe, embora a sua existência seja firmemente negada; este é um dos segredos da ordem social americana. Um segundo segredo é o facto da existência do Establishment – a elite dominante – não dever ser motivo de debate. Um terceiro segredo está implícito no que já foi dito – que só existe um único partido político nos Estados Unidos, a que foi chamado o "Partido da Propriedade." Os Republicanos e os Democratas são de facto dois ramos do mesmo partido."

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O Professor Carroll Quigley, foi o mentor de Bill Clinton quando este era um estudante na Universidade de Georgetown. O Professor Quigley deu aulas tanto na Universidade de Harvard como na de Princeton antes de se fixar na Universidade de Georgetown.

No seu livro «Tragedy and Hope: A History Of The World In Our Time» - [Tragédia e Esperança: uma história do Mundo dos nossos dias], Quigley documenta as origens da sociedade secreta que controla os nossos partidos políticos hoje e que se manifesta nas posições chave ocupadas pelo Council on Foreign Relations [Conselho das Relações Exteriores].

"... De forma optimista, podem sobreviver para o indivíduo comum os elementos da escolha e liberdade no sentido em que ele será livre de escolher entre dois grupos políticos antagónicos (mesmo que estes grupos tenham pouca latitude de escolha política dentro dos parâmetros da política estabelecida pelos especialistas), e o indivíduo tenha a oportunidade de escolher mudar o seu apoio de um grupo para outro. Mas, em geral, a sua liberdade e poder de escolha serão controlados entre alternativas muito apertadas"...

Chilavert disse...

Professor esta troca de divida foi o possível mas isso não significa que seja o ideal!Visto que o montante absoluto de divida aumentou.Isto apenas prova que é não é possível sair deste circuito fechado nestes moldes de poltica financeira!O actual sistema apenas vai perpetuar esta situação. É preciso repensar toda a politica económica financeira do mundo desenvolvido

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