domingo, 1 de dezembro de 2013

ENVC - Tardou mas está resolvido

Estes últimos 2 dias estive na conferencia do NIFIP.
Durante dois dias discutimos formas de ultrapassar a crise que vivemos.
Foi uma coisa relativamente pequena (26 comunicações) de que eu fiz parte (muito pequena) da organização mas foi muito interessante porque, além de autores do UK, França, Alemanha, Finlândia e Polónia, estiveram autores de quase todos os países da Zona Euro em crise (Grécia, Portugal, Itália, Espanha) e também da Islândia.
O consenso foi de que ajustar em câmbios fixos (dentro do Euro) custa muito pelo que a maioria (75%) defendeu que o actual processo de ajustamento deve ser adiado porque, nas actuais circunstâncias, está condenado ao fracasso. Eu (e os restantes 25%) não pensamos assim porque o ajustamento que vivemos está escudado na teoria económica e tem que ser feito o mais cedo possível.

Os ENVC.
Entre o que é preciso fazer é acabar com as empresas públicas inviáveis. Muita coisa tem que ser re-dimensionada mas os ENVC - Estaleiros Navais de Viana do Castelo são um caso gravíssimo porque já há vários anos que não tem qualquer actividade produtiva.
É verdade que fomos pioneiros a fazer caravelas e os ENVC  fizeram nos anos 1960 uns navios  patrulheiros para a guerra do ultramar. Mas fazer hoje barcos é uma actividade tecnologicamente muito complexo que os nossos construtores de 4.a classe não são capazes.
Desta forma não conseguem vender os barcos pelo preço do aço que usam na sua construção.
Para termos estaleiros de construção naval é preciso que as universidades deixem de produzir candidatos a professores que ficarão no desemprego e passem a produzir engenheiros navais (curso que ninguém quer frequentar).
Não podemos ter trabalhadores quase analfabetos a receber ordenados mais elevados que engenheiros da construção naval na Coreia do Sul.
O futuro dos ENVC sempre foi o desaparecimento e já estava previsto no tempo do Sócrates (começava por liquidar 380 empregos). Mas quando entrou o Passos Coelho recuou, empatou e depois veio o Aguiar Branco dizer que ia salvar a coisa e isso tudo fez-me perder a a esperança na capacidade do Governo avançar com firmeza.
Mas, antes tarde que nunca, agora a coisa vai mesmo terminar.
A coisa nem sequer vai ser privatizada, vai mesmo ser liquidada mas deveria ir pura e simplesmente à falência.
Obrigado, União Europeia por nos livrares deste cancro económico.

Fig. 1 - Prova-de-mar de um navio construído nos ENVC (parece que está a adornar para a direita)

O multiplicador dos empregos é uma lengalenga.
Eu acho muito engraçado quando vêm dizer publicamente, e muitos deles são economistas, que "cada emprego perdido implica a perda de mais 4 ou 5 empregos indirectos". Então, a terminação dos 620 empregos dos ENVC vai traduzir-se na perda de cerca de 4000 empregos directos e indirectos.
Esta lengalenga é o re-escrever do multiplicador keynesiano.
Se cada posto de trabalho (na industria) cria indirectamente mais 4 ou 5 postos de trabalho na região de Viana do Castelo, a câmara Municipal deveria pedir ao Governo a criação de um imposto sobre esses 4 ou 5 trabalhadores de 10% do ordenado para subsidiar os ENVC (metade do ordenado seria pago pelos 4 ou 5 e a outra metade pelo que produzissem).

O que é preciso fazer para ajustar a economia.
O principal consenso da teoria económica (e que se reconheceu na conferência) é que os países não podiam continuar com uma balança corrente (contas com o exterior) e contas públicas deficitárias na ordem dos 10% do PIB e que o peso da despesa pública não podia estar, como tínhamos em 2010, acima dos 50% do PIB.
Para resolver isso é preciso fazer certas coisas.
  
Ajustar preços.
Para corrigir o défice da balança corrente, os países precisam fazer uma desvalorização dos preços relativamente ao exterior.
Se a Islândia ajustou muito rapidamente mesmo mantendo os preços porque desvalorizou a sua moeda em 20% (reduziu instantaniamente e em simultâneo os salários e os preços face ao exterior), dentro do Euro é preciso descer os preços nominais porque estamos limitados aos 2%/ano da inflação média. O problema é que a descida dos preços nominais tem que se transmitir aos salários o que, no processo, causa a compressão da rentabilidade das empresas, que gera desemprego e falências. O problema do nosso ajustamento não é só o ajustamento mas principalmente ninguém aceitar a descida dos salários nominais.

É a ilusão monetária.
Os preços subirem 10% (por influencia da desvalorização nos preços dos bens importados) e o salário manter-se parece mais aceitável que descer o salário nominal 20% (para os preços internos descerem 20% o que, juntamente com a manutenção dos preços dos bens importados) e haver deflação de 10%. É igual mas é muito mais difícil.
Então, o ajustamento dentro do Euro gera muito desemprego e, à partida, é incerto que dê resultado.
Mas era o mesmo problema no primeiro mandato do Cavaco Silva (1985-1990) quando tínhamos inflação de 20%/ano (e os salários aumentavam 20%/ano) e era preciso reduzi-la para 2%/ano para podermos entrar na Zona Euro. Também houve crise nas empresas, greves, e desemprego.
Então, o problema é apenas uma questão de expectativas quanto à inflação.

Ajustamento estrutural.
Também se concluiu que, mesmo não considerando o momento de emergência, é preciso reformas estruturais que levem ao aumento do crescimento potencial das nossas economias (que está nos 1.5%/ano). Porque a dívida pública e a despesa pública estão muito grandes, é preciso reduzir e consolidar as contas públicas o que passa por contrair o "Estado Social" e privatizar / desmantelar as empresas públicas.

Mas a consolidação fiscal é recessiva.
Aqui é que nos dividimos.
Por um lado, 75% dos conferencistas defendeu que as coisas devem continuar como estavam (ou estão) e aguardar por melhores tempos para fazer as reformas porque a consolidação orçamental tem efeito recessivo e as reformas levam muito tempo a dar resultado. Por outro lado, 25% dos conferencistas (onde eu me incluía) defendeu que isto tem que avançar rapidamente porque a consolidação fiscal é neutra no crescimento pois o que é recessivo é o equilibrar da balança corrente que é uma inevitabilidade por falta de crédito externo.
Além disso, a evidência passada indica que os governos aproveitam os tempos de "vacas gordas" para aumentar a despesa pública e não para a diminuir.

Mas já ninguém fala da "espiral recessiva".
Isto é a prova provada de que vamos no bom caminho´, de que estamos a recuperar.
Relativamente ao ano com mais alto PIB (a segunda metade de 2007 e a primeira de 2008), a recessão atingiu no primeiro trimestre de 2013 o máximo de - 8,2% do PIB mas, nos últimos 6 meses já recuperou 1,3% do PIB.
Dizem que 1,3% de crescimento em 6 meses é pouco mas se recordarmos que nos 6 anos de  "politicas de crescimento" do Sócrates (que entrou no 1T 2005 com um PIB trimestral de 39498M€ e saiu no 2T 2011 com o PIB em 40492M€) o PIB cresceu  2,5% do PIB já vemos que é um resultado muito bom.
Os dados indicam que podemos ter em 2014 um crescimento na ordem dos 1,8%/ano o que terá um efeito na redução do défice público na ordem dos 0.5 pp o que é necessário para OE2014 conseguir ser cumprido nos 4.0% do PIB.

Fig. 2 - Evolução do PIB relativamente ao seu valor máximo (dados: INE)

E, no entretanto, ajustamos a balança corrente.
Nunca pensei ser possível conseguir ajustar a Balança Corrente. No meu livro está lá preto no branco que "o Salazar não conseguiu com mão de ferro, como poderá o Passos conseguir?".
Mas o certo é que conseguiu (conseguimos cortando nas importações de automóveis).
Apesar de parecer um mau resultado ter hoje, relativamente ao ultimo trimestre do Sócrates, um PIB 5.1% mais baixo, é um bom resultado sabendo que se conseguiu corrigir a balança corrente em 10% do PIB (as contas com o exterior). Por cada 1€ de redução das  endividamento externo, o PIB contraiu 0.50€ o que é muito melhor que a Grécia que, por cada 1€ de correcção da BC, o PIB contraiu 1.90€.

Fig, 3 - Evolução da balança corrente portuguesa (dados: EuroStat)

E o ajustamento da BC tem acontecido em todos os países em dificuldades.
Os países do Sul, como nós, começaram a desequilibrar as suas contas com o exterior quando entraram no Euro. Este fenómeno acelerou em 2005 e não por causa da crise do Sub-Prime como o nosso ex-ministro Teixeira dos Santos quer fazer crer.
E
Sem considerar a Irlanda, os países do Sul (Espanha, Portugal, Itália e Grécia) entre 2005 e 2007 os PIGS mais que triplicaram o défice da balança corrente chegando no 1T 2008 a um défice de 60 mil milhões € no  (antes da crise do sub-prime rebentar) e, desde aí, corrigiu a uma média de 10 mil milhões € por trimestre.
A crise do sub-prime foi mesmo o momento em que a correcção começou, mais por falta de crédito que por vontade dos governantes.
Esta correcção é notável porque nega a ideia dos 75% de pessimista da conferencia de que o ajustamento é impossível em câmbios fixos (sem as moedas poderem desvalorizar). Não só é possível como aconteceu.

Fig. 4 - Balança Corrente de Portugal+Itália+Grécia+Espanha (dados: EuroStat)

E o que nos separa da Irlanda?
Nas últimas semanas muito se tem discutido o porquê de não estarmos como a Irlanda.
Para mim que sou um leigo na matéria médica, quando alguém diz que está com febre, eu penso que todas as febres são iguais. Febre é Febre.
Mas há febres de 30ºC e febres de 42ºC.
Também quando se fala nas crises económicas dos países periféricos, as pessoas pensam que as crises são crises, iguais mas há umas mais graves que outras.
Como ainda não vi ninguém na comunicação social conseguir explicar porque a Irlanda conseguiu airosamente ultrapassar a sua crise enquanto nós ainda estamos a lutar, vou mostrar a diferença na magnitude do desequilíbrio externo.
Se considerarmos a média entre a entrada no Euro e a crise das dividas soberanas (de 1999 a 2009), a Irlanda tinha anteriormente à declaração da crise um défice da balança corrente médio de -1.7% do PIB e Portugal teve 9,4% do PIB.

Fig. 5 - O desequilíbrio da Balança Corrente portuguesa era 5x o desequilíbrio da Irlanda (em % do PIB)

O nosso problema era 5 vezes o problema da Irlanda.
Mesmo considerando apenas o período pré-crise (2005 a 2008), o nosso problema era mais do dobro do problema irlandês (4.5% para 11%).
Se tivéssemos entrado em 2009 com um défice da balança corrente de 4.5% do PIB, neste momento estaríamos com um superavite de  6% do PIB, maior que o da Alemanha.

O desemprego está a reduzir muito rapidamente.
Nos primeiros tempos do Passos Coelho, foi repetidamente dito que "o desemprego é a maior chaga social". Eu sempre pensei que iríamos ter no fim da legislatura uma taxa de desemprego na ordem dos 20%. Mas contra as minhas previsões, nos últimos meses o desemprego começou a cair. Para saber se são apenas estatísticas, tenho perguntado a pessoas que tinham familiares desempregados e, realmente, as pessoas começam-se a encaixar.
Se quisermos ser sérios, vemos que conseguimos um ajustamento da balança corrente muito maior que a Irlanda com menor aumento da taxa de desemprego. O problema é que em 2008 (herança do Sócrates) tínhamos uma taxa de desemprego de 9% enquanto que a Irlanda tinha 5%.. Se corrigirmos desta diferença inicial, o nosso desemprego aumentou menos o Irlandês.
E temos que estar optimistas porque a taxa de desemprego apenas está a descer descer na Irlanda e em Portugal.

Fig. 6 - Taxa de desemprego relativamente ao valor anterior a 2007 (pontos percentuais, dados: EuroStat)

O que posso concluir?
O Passos Coelho está decidido.
Depois de uns meses em que sofreu de algum desânimo, de derrotas como a saída do Relvas, Gasparzinho e Álvaro, agora está a reganhar a força.
Por isso, estou com esperança.

E o regresso aos mercados?
Está melhor o que diminui a necessidade do badalado "segundo resgate".
E a taxa de juro a 3 anos em mercado secundário está a diminuir o que é muito importante porque vai ser a taxa a usar no swap da dívida da segunda metade de 20'14.
4.1%/ano ainda é muito grande estando eu (e o Passos Coelho) a rezar para a NS de Fátima meter de novo esta taxa de juro nos 3.20%/ano de meados de Maio de 2013 (quando se comemorou a Aparição).

Fig. 7 - Evolução da taxa de juro da dívida pública portuguesa a 3 anos (fonte: Investing)

O que é isso da troca?
Entre Junho (6000M€ que vêm de 2003) e Outubro (7810M€ que vêm de 2009) de 2014 precisamos amortizar 14000M€. A ideia é não esperar por esse dia e procurar entretanto uma oportunidade de adiar por mais 3 anos esta data. Assim, arranja-se antes quem se comprometa a pagar essa divida (substituindo o Estado) e, passados 3 anos, o Estado Português vai pagar com os juros observados em mercado secundário. a quem toma a obrigação de 2014.
Isso já foi feito pelo Gasparzinho (adiou dividas do Guterres contratada a 5.75%/ano que venciam em Set 2013 por 5 anos a 5.11%/ano) e vai ser feito outra vez com estes pacotes maiores.
É isto o anunciado regresso aos mercado.
Se o conseguirmos fazer, vamos conseguir continuar mais uns 4 anitos para acabar de executar o Memorando de Entendimento de 2011.
Vão ser mais umas 30 avaliações da Troika até conseguirmos, lá para 2017, um défice de 1.0% do PIB.

Só diz a verdade sob tortura.
É um fracasso se pensarmos que o Sócrates disse no PEC4 que iria conseguir isso já em 2014! e sem austeridade!
O homem era mesmo bom.

Pedro Cosme Costa Vieira

2 comentários:

Nemo disse...

O ajustamento com pressões deflacionárias não aumentará a dívida real das empresas e famílias, colocando toda a economia sob enorme pressão?

Económico-Financeiro disse...

Estimado Nemo,
Sim, a deflação aumenta a dívida em termos real mas também baixa a taxa de juro pelo que, no final, o que se paga (em termos reais) é o mesmo.

O problema não vem das questões nominais mas de 10% do nosso rendimento de 2010 ser endividamento externo.
Relativamente a 2007/8, o PIB contraiu 7.0%, exactamente o que aumentou o desemprego pelo que quem está empregado deveria estar a viver igual. Mas isso não acontece por causa do efeito do fim do endividamento externo.

pc

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