sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O emprego e a mensagem de Natal do Passos Coelho

O Passos Coelho apresentou a sua terceira mensagem de Natal.
Falou de coisas do Natal (banalidades) mas referiu três pontos que vou detalhar porque penso serem os mais importantes:
1) A correcção do desequilíbrio das contas externas, 
2) A redução do desemprego e o aumento do emprego e
3) O crescimento da economia.
Nos últimos 2.5 anos, Portugal conseguiu resultados que nunca pensei ser possível de atingir.
Confesso que me enganei redondamente, felizmente.

Fig. 1 - Passados 2,5 anos, parece que a criancinha está a querer começar a caminhar


1) O equilíbrio das contas externas.
Hoje pode-se dizer que foi fácil corrigir o défice da balança corrente mas tal não corresponde minimamente à verdade porque o défice externo é a droga dos governantes.
O défice externo incha a economia o que leva ao aumento do rendimento disponível das pessoas. Assim, apesar de esse efeito ter como contrabalanço o endividamento externo,  rende votos a quem o promove. 
Foi o défice externo que permitiu ao Guterres, Santana Lopes e Sócrates fazer obras públicas e pagar pensões e subsídios para além da receita do Estado que, canalizado para as pessoas, permitiu que o consumo das famílias fosse maior do que a nossa economia produzia. 
A promoção da compra de carros novos (o incentivo ao abate) e casas (os créditos bonificados) também levou as famílias ao endividamento que os bancos captavam no exterior.
Se olharmos para os 6 anos do socratismo, todos os meses foram metidos 150€ no bolso de cada português. Cada um, novo, velho ou assim assim e 150€ é muito dinheiro.

Fig. 2 - Balança Corrente portuguesa, euros por mês per capita (dados: BPortugal)

O problema já vinha do tempo do Guterres + ... + Santana Lopes.
O Guterres herdou do Cavaco Silva uma situação equilibrada mas, mês após mês, a situação foi degradando-se até chegarmos ao pântano dos 130€/mês. Veio o Durão com o discurso do "estamos de tanga" e, cortando 2.5€ cada mês, conseguiu reduzir em 2 anos o défice externo para metade (65€/mês). Mas a guerra foi tão grande que foram os próprios do PSD + CDS que o puseram a andar daqui para fora.
O Santana Lopes + Portas são indistintos do Sócrates: mais e mais défice externo até chegarmos em 2008 aos 180€/mês.
O Passos Coelho conseguiu reduzir a BC ao dobro da velocidade do Durão, 5€ a cada mês, conseguindo manter os do PSD no sitio deles e o Portas amarrado ao acordo de austeridade.
Isto só pode ser classificado como notável.

Fig. 3 - Balança Corrente 1:1995-10:2013 (dados: BPortugal)

2) A redução do desemprego e o aumento do emprego.
O que normalmente é usado como medida do desequilíbrio do mercado de trabalho é a taxa de desemprego que se calcula dividindo o total de pessoas que dizem estar à procura de emprego a dividir pelo total de pessoas activas (as desempregadas à procura de emprego mais as que têm emprego por conta própria ou de outrem).

    Taxa de Desemprego = Desempregados / (Desempregados + Empregados)

Então, a taxa de desemprego pode reduzir não só porque as pessoas encontram emprego mas também porque as pessoas desanimam de procurar emprego ou emigram.
Mas também pode acontecer o contrário, a malandragem deixam a inactividade porque acabou a mama dos diversos subsídios e de poderem viver à custa das pensões dos velhotes e passam a desempregados (começam a procurar emprego).

Fig. 4 - O número de pessoas inactivas que podem trabalhar mas que não procuram emprego aumentou em 150 mil (dados: INE)

O emprego caiu 15% mas as horas trabalhadas caíram apenas 5%.
Em 2008 o emprego começou a cair tendo acumulado até ao 1T2013 um total de 15%. Metade desta perda foi na recta final do Sócrates e outra metade na recta inicial do Passos Coelho. Então, em 12 empregos existentes em 1998, um perdeu-se com  o Sócrates e outro com o Passos Coelho.
Mas a perda do emprego em 15% foi acompanhada pelo o aumento em 10% do tempo médio que cada pessoa empregada trabalha. Assim, as horas trabalhadas reduziram-se apenas em 5%.

Fig. 5 - Índice do número de pessoas a trabalhar e do número de horas trabalhadas (dados: INE e cálculos do autor)

 Realmente, o emprego aumentou em 120 mil.
Se facto, se olharmos para o número de pessoas a trabalhar, no 1T2013 estava 4433,4 mil pessoas a trabalhar e no 3T2013 estavam 4553,6 mil o que traduz que no 3T estavam a trabalhar mais 120200 pessoas que no 1T, mais 2,7%.. Isto são dados do Instituto Nacional de Estatística (Fig. 5).
Podíamos dizer que as pessoas estão trabalhar mas poucas horas mas se e olharmos às horas, houve um aumento ainda mais forte, de 5,7 milhões de hora/semana trabalhadas, 3,6%.
Olhando para a variação entre trimestres (Fig. 6) parece que nestes últimos 2 trimestres o emprego cresceu relativamente à tendência.
O emprego está mesmo a melhorar mas vamos ver se nos próximos tempos a coisa se aguenta.

Fig. 6 - Variação do emprego relativamente ao trimestre anterior (dados: INE e cálculos do autor)


3) Crescimento da economia.
Os keynesianos acreditam que, primeiro, a economia cresce e, passados uns trimestres,  o desemprego começa a descer.
Mas estamos a ver que a causalidade é exactamente ao contrário. Primeiro, o emprego aumenta e, ao mesmo tempo, a economia cresce. Em 2 trimestres o número de horas aumentou 3,5%  e o PIB aumentou 1,4%. (e a produtividade desceu 2,1%).
Apesar de a produtividade por hora ter diminuído nos últimos 2 trimestres, tem-se mantido uma tendencia de crescimento de 1.2%/ano (Fig. 6). No cáluclo da produtividade do trabalho retirei 18% para a amortização do capital e 1/3 para a remuneração do capital.
(eu tinha aqui uma referencia ao Sócrates mas eu tirei porque, provavelmente, deve-se a uma quebra das séries do INE, base 1998 para a base 2002, que decidi "corrigir").

Fig. 6 - Produtividade do trabalho por hora (dados: INE e cálculos do autor)

Concluindo.
Considerando os problemas da nossa economia, 2013 foi um ano extraordinário.
Claro que o défice público foi um pouco elevado e a despesa pública derrapou mas isso deve-se a eu ter recebido o Subsídio de Férias.
Mas só depois de ver os Estaleiros Navais de Viana do Castelo definitivamente encerrados é que posso dizer que estou esperançado no bom sucesso deste governo.

Mas espero que todos tenhamos um bom 2014.
Parece que actualmente, mais grave que os cortes, são os larganços.
Um vive animado com os filhos e com as finanças, últimamente muito difíceis, da casa e, de repente, aparece alguém a dizer "apanhei o teu homem com a minha mulher".
Depois, chora, chora, chora e diz a toda a gente que nunca mais lhe perdoa mas com a certeza que vem aí um enorme pedido de desculpa, umas re-juras de amor eterno colossais, um rastejar como os soldados que vinham da guerra de África faziam em Fátima para, depois de dizer mil vezes que não, vir o momento do perdão.
Mas não. O que vem é o desamigamento seguido por um poste "só para amigos" que conta a história de um pássaro grande que vivia numa gaiola pequenina e que acaba por se libertar. O poste termina com um cometário "Como o pássaro está, finalmente, livre, sexta-feira à noite encontramo-nos no XPTO para curtir até rebentar".
Tal como o Exterminador Implacável desligou a luzinha quando mergulhou no ferro fundido, segue-se o desligamento total e para todo o sempre.

Fig. 7 - Eras tão boa que decorridos estes anos todos, ainda não recuperei de me teres torcado por esse mentecapto.

Pedro Cosme Costa Vieira

5 comentários:

Antonio Cristovao disse...

bom Ano de 2014 com posts felizmente diferentes e refrescantes. Que não lhe doa os dedos de escrever,nem a saude para o fazer.

Antonio Cristovao disse...

http://pmcruz.com/work/an-ecosystem-of-corporate-politicians

encontrei este grafico que poderá ter interesse para os leitores deste blog

Fernando Gonçalves disse...

Aumenta o emprego mas com que salários para os novos trabalhadores?Eu respondo:salários de miséria.E não obstante isso a produtividade aumenta tal é o exército de mão-de-obra ansiosa por ser útil.Triste país.Mais vale emigrar ou como conhexo várias pessoas que arranjam esquemas para estarem oficialmente em casa mesmo recebendo menos.Pudera,o trabalho assim não incentiva.

Económico-Financeiro disse...

Estimado António
Obrigado por ter partilhado esse sitio que ilustra as ligações entre as empresas e os governantes.
Em Portugal não existe a profissão de "governante" e as pessoas têm que viver de alguma coisa. Claro que essas ligações potenciam a corrupção mas a alternativa é termos como governantes apenas de funcionários do Estado como militares, juizes, médicos, professores ou administradores públicos.

Estimado Fernando
O nosso PIB traduz uma produtividade do trabalho de 11.6€/h (Fig. 6)o que implica que o ordenado médio poderia ser de 1540€/mês.
Mas sabendo-se que o Estado absorbe 50% do PIB, ficam apenas 720€/mês, pouco acima do SMN.
Apesar de todos aspirarmos a ganhar pelo menos 1000€/mês, infelizmente, isso não é possível.

Obrigado,
pc

Fernando Gonçalves disse...

As receitas do Estado são muito distantes dos 50% do pib,além disso parte dessa receita é devolvida a outros trabalhadores sob a forma de vencimentos públicos,por isso os números reais são muito diferentes do que fala.Independentemente do nosso nível de rendimento médio,todas as Estatísticas mostram um país muito desigual,mas os liberais ainda gostavam de as ver aumentar mais.

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