segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A desigualdade e a pobreza, o capitalismo e o comunismo

Eu fui acusado de não falar dos desgraçadinhos. 
O Fernando Gonçalves afirma que em "310 posts (...) equidade, justiça social, redistribuição de rendimentos e pobreza estão completamente ausentes". 
Eu agradeço este desafio mas não corresponde totalmente à verdade pois, por exemplo, falei disto em 29Abr2013.
No entanto, este tema precisa ser aprofundado. 
A economia tem duas partes igualmente importantes, a produção (a origem dos recursos escassos) e o consumo (o destino dos recursos escassos) e uma não vive separada da outra.
Em termos numéricos, o consumo (onde englobo o investimento) é exactamente igual à produção.
Então, a questão da pobreza tem a haver não só com a distribuição (ficarem algumas pessoas com pouco rendimento) mas principalmente com a produção (falta) e com a necessidade de haver diferenças de rendimento para que as pessoas se esforcem mais.

A produção. 
Em termos de produção líquida, em 2013, com equipamentos avaliados em 300 mil milhões € (não inclui os recursos naturais) e com o trabalho de 5 milhões de pessoas (1 milhão por conta própria e 4 milhões por conta de outrem), conseguimos produzir 135MM€/ano (82% do PIB pois 18% são depreciações do capital).
O total da produção vai ser distribuída pelos diversos portugueses, para uns mais e para outros menos.

A distribuição. 
Pegamos no total de produção e vamos dividi-la, primeiro, entre a depreciação do trabalho (18%) e a produção líquida (82%). Depois, a produção líquida é distribuída pelo capital (1/3) e pelo trabalho (2/3). Finalmente, a componente do trabalho é dividida por cada um de nós que é trabalhador.
Naturalmente, no final desta divisão ficam cerca de 5 milhões de portugueses sem rendimento porque não têm capital nem trabalham (os inactivos).
Do PIB total, à depreciação do capital são destinados 30MM€/ano, ao capital (que engloba o trabalho dos empreendedores e os recursos naturais) são destinados 45MM€/ano e para os trabalhadores são destinados 90MM€/ano. 
Se dividíssemos irmãmente os 90MM€ pelos 5M de trabalhadores, teríamos um salários total de 1285€/mês a que é preciso retirar 30% para as parcelas suportadas pelo empregador (principalmente, os 23,75% da TSU). Então, cada trabalhador ficaria com 990€/mês, 7,5€/h.



Fig. 1 - A produção (o objecto) e a distribuição (o reflexo) são duas faces da mesma realidade que, por vezes, é muito boa, mesmo muito boa ...

Para aumentar a equidade.
Muita gente refere na comunicação social que a desigualdade em Portugal tem que diminuir.
O problema é que, para isso, é preciso aumentar os salários inferiores a 990€/h mas também reduzir os salários superiores a 990€/mês de forma a que o total distribuído se mantenha igual ao total produzido.
Mas, pensando bem, todas as pessoas que falam neste problema (onde se inclui a mensagem de ano novo do Cavaco Silva) têm salários superiores a 990€/mês!
Cada um de nós que ganha mais de 990€/mês encontra sempre uma desculpa para ter um salário superior à média sem isso prejudicar seja quem for. Nós merecemos.
É como a pregação do Frei Tomás, faz como ele diz e não como ele faz.

Fig. 2 - É uma injustiça ninguém me querer. Se não fosse a retenção de líquidos, eu era tão boa como a da Fig. 1. (... mas, noutras vezes, é muito má, mesmo muito má)

A iniquidade, a justiça social e a pobreza resultam da distribuição.
Mas estão ligadas à produção porque apenas se pode distribuir o que se produz.
A ideia de que as pessoas têm direito a um rendimento digno independente da produção da economia é muito bonito mas é inconcretizável.
As pessoas terem o mesmo rendimento não acaba com a pobreza se não houver produção. Por exemplo, a Ucrânia (coeficiente de Gini de 0,27) e Cuba (0,30) têm muito menor desigualdades que os USA (0,45) mas, mesmo assim, têm muito mais pobres.

As diferenças no rendimento (e na riqueza) são algo necessário.
Existem diferenças no rendimento das pessoas porque nascemos diferentes mas mesmo que nascêssemos iguais, as pessoas acabam com rendimentos diferentes porque é preciso dar incentivos a quem se esforça mais.
Se o salário fosse, à partida, igual para todos, a economia parava porque não havia incentivos para que as pessoas se esforçassem. É o problema da função pública.
Então, existe uma trade-off entre equidade e nível de riqueza. Se, enquanto sociedade, quisermos viver num país com menos desigualdades, teremos que aceitar viver, em média, com menos rendimento.

Hipótese 1 - E se o capital não fosse remunerado?
Se o capital não fosse remunerado, parece que os salários poderiam ser maiores mas, de facto, assim não é.

Primeiro, a poupança cairia para zero. 
Como a taxa de juro, os dividendos e as rendas (que são a remuneração do capital) seriam zero, as pessoas reduziriam significativamente o esforço de poupança o que levaria ao fim do investimento privado. 
Por causa disto, o Estado teria que impor uma taxa de poupança obrigatória (como a TSU) o que, por ser obrigatória, já levanta questões de optimalidade. Depois, o investimento ficaria reduzido a Investimento Público o que, sabemos pelos prejuízos das nossas empresas públicas e pelas PPPs aloucadas, não é eficiente.

Segundo, a inovação pararia porque tem riscos que precisam ser remunerados. 
Numa economia complexa em que se produzem milhares de bens e serviços diferentes, o crescimento económico passa pela invenção (com esforço) e a consequente introdução no mercado de novos bens e serviços (que tem risco de inadequação aos gostos dos consumidores). A implementação de invenções obriga a investimento de risco que precisa ser remunerado no caso de sucesso para cobrir os fracassos. Não havendo remuneração do capital em função do risco, a inovação pára.

Se juntarmos os dois efeitos, poupança a zero e ausência de inovação, a economia entrará em regressão. Foi isso que aconteceu nas economias comunicas/socialistas (de que actualmente temos apenas alguns exemplos como Cuba e a Coreia do Norte) o que causou a queda dos salários. 

Hipótese 2 - E se tivéssemos todos o mesmo salário?
Neste caso, os trabalhadores deixavam-se de esforçar.

Exemplo 1 - Vamos imaginar que, aos 11 anos, tinha sido dito ao Cristiano Ronaldo que em 2013 iria ganhar o salário médio, 990€/mês, jogasse muito ou pouco, marcasse golos ou não, fosse gordo ou magro, fosse pedreiro ou futebolista do Real Madrid. Concerteza que o moço nunca mais iria treinar e hoje seria mais um pedreiro.

Exemplo 2 - Vamos imaginar que os pais tinham a certeza que os seus filhos, quando fizessem 18 anos, iriam garantidamente ter um emprego a ganhar 990€/mês para toda a vida, soubessem muito ou pouco. Concerteza que não se aborreceriam a mete-los na escola e muito menos a pagar explicações para preparar o melhor possível as crianças para fazer face ao futuro. E as crianças nunca mais fariam o sacrifício de estudar.

Exemplo 3 - Vamos imaginar que a nota final de cada aluno era a média da turma. Primeiro, os alunos  não se esforçariam pelo que as notas seriam fracas. Depois, os bons alunos mudavam de escola. Finalmente, os fracos, porque chumbavam todos, também acabavam por sair e a escola acabava.

Se o salário fosse, à partida, igual para todos, ninguém se esforçaria pelo que esse o salário seria muito baixo. A alternativa era haver trabalhos forçados. Ambas estas soluções foram observadas nas economias igualitárias, i.e., comunistas e socialistas.

Quem produz mais tem que ganhar mais.
Que faz o sacrifício de poupar tem que ver o seu esforço remunerado.
Quem faz investimentos e as empresas resultantes produzem bens e serviços que agradam às pessoas, tem que ser remunerado.
Quem se esforça trabalhando mais que a média tem que ter um salário maior.

Mas quem tem sorte, também tem que ganhar mais.
Se todos nós nascêssemos iguais, mesmo em mercado livre era possível que todas as pessoas tivessem o mesmo rendimento. É o Equilíbrio de Cournot.
Mas, como existe risco de sucesso/fracasso futuro nas profissões, mesmo que fossemos à partida todos iguais, no final resultaria algumas diferenças de rendimento.

Vejamos o exemplo das viagens à Índia.
Nos séculos XVI, uma viagem de ida e volta à Índia demorava 15 meses e permitia ao marinheiro obter um salário total de 15000 reais que eram 5kg de prata (ver, p. 17), idêntico ao salário de toda uma vida de um servente (ver, p. 145).
O salário do marinheiro era muito elevado porque também era elevada, entre 30% e 50%, a probabilidade do marinheiro morrer durante a viagem.
Este salário estava em equilíbrio com o salário de servente porque apenas as pessoas "sem amor à vida" se disponibilizavam a ser marinheiros. Se o jovem marinheiro tivesse sorte e sobrevivesse, com uma viagem conseguia passar a ter um nível de vida superior à média mas a vida poderia ser muito curta. Pelo contrário, o servente tinha vida pobre mas longa.
Na nossa vida não existem actividades com risco tão elevado mas, por exemplo, um engenheiro civil que há 20 anos optou por ser Técnico Superior numa câmara municipal (com um salário inferior ao privado), hoje está melhor que os colegas (que estão no desemprego).

Fig. 3 - Os marinheiros também tinham o incentivo das indianas (mas, dizia o meu pai que viveu 5 anos em Goa, estavam todas contaminadas com gonorreia).

Acresce que nascemos diferentes.
A inteligência com que nascemos é uma variável aleatória que está correlacionada, um pouco, com os nossos país quer pela genética (ro de 0.22) quer pelo seu grupo socio-económico (ro de 0.19).
Além da inteligência existem outras variáveis que nos distinguem como a altura, a beleza e o meio socio-económico de origem.
Todas estas variáveis têm influencia na nossa capacidade de gerar riqueza mas essa capacidade apenas se materializa em valor se nos esforçarmos. E se não houver incentivos, as pessoas não se esforçam, deixando de revelar as suas raras capacidades (muitas vezes, nem chegam a saber que as têm).
Por exemplo, uma pessoa que seja muito inteligente apenas se vai esforçar para ter uma profissão exigente em termos intelectuais se com isso tiver ganhos.
Na URSS, as crianças mais inteligentes faziam por passar despercebidas porque, caso fossem descobertas, eram obrigadas a estudar incansavelmente para ganharem o mesmo.

O Mercado desenvolve a desigualdade de rendimento. 
Não há ninguém que afirme que as forças de mercado acabam com as desigualdades de rendimento mas muito antes pelo contrário.
Como o motor da economia de mercado é a possibilidade de quem se esforçar mais ou tiver sorte vir a ter um nível de vida superior à média então, o mercado apenas é eficiente enquanto puder transformar as pequenas diferenças biológicas, sociais e de sorte em grandes diferenças de rendimento.

Para onde evoluirá o mercado livre? 
Os comunas dizem que evoluirá para a Lei da Selva (a lei do mais forte) mas não é bem assim pois mesmo a selva está em equilíbrio ecológico.
É sempre difícil prever o que aconteceria quantitativamente a uma economia que fosse deixada totalmente às forças de mercado livre (da oferta e da procura) porque não existe nenhuma economia onde isso se verifique plenamente. Mas, pegando nos dados do Banco Mundial, estimo que os 20% mais ricos da população teriam acesso a 50% do rendimento gerado na economia (e 45% da população não teria qualquer rendimento porque ser inactiva).
Estou a assumir que nesta economia o coeficiente de Gini de equilíbrio é de 0,55.
Quem quiser ver como seria esse país basta olhar para o Brasil que é, de entre os grandes países, o mais desigual, bastante acima da China (C. de Ginni de 0,46).

Será que morreria 50% da população de fome?
Não porque a re-distribuição é mais velha que a humanidade.
Se olharmos, por exemplo, para os lobos, concluímos que a partilha de rendimento faz parte dos nossos sentimentos animais.
O principal espaço de partilha é a família. Os cônjuges partilham rendimento entre si e com os filhos e, em grau decrescente, também os irmãos, tios, sobrinhos e primos o fazem.
Mas a partilha faz-se mesmo entre vizinhos e entre desconhecidos porque estamos dotados do sentimento da piedade.

Depois, criou-se o Estado Social.
O Mercado é feito para transformar pequenas diferenças em grandes diferenças de rendimento pelo que a economia de mercado tem pobres e deserdados que a piedade e a solidariedade familiar resolve.
Acontece que, algures no Sec. XVIII ou XIX, surgiu a ideia que a família e a piedade não eram suficientes para garantir rendimento aos desgraçados, havendo necessidade de o Estado criar mecanismos de re-distribuição.
Ninguém é contra isso mas o que se discute é a intensidade pois temos que ter sempre em mente que
     1) só se pode re-distribuir o que se produz
     2) mais equidade leva a pior desempenho económico

Finalmente, há a Dinamarca, a Suécia e a Noruega.
Como se justifica que estes países tenham uma grande equidade social (c. de Ginni nos 0.25) bastante menor que a nossa (0.38) e tenham um PIBpc que é muito elevado, 2,5 vezes o nosso?
É que estes 3 países em conjunto têm a mesma população que a zona metropolitana de Londres e apenas o dobro da população de Luanda.
São 15 milhões de habitantes que representam 5% da população do Brasil, e 1,1% da população da China.
Também se pegarmos apenas na população de Shangai (que tem 15M habitantes) também encontraremos um coeficiente de Ginni muito mais baixo que o valor da China e um PIBpc muito elevado. Se fizermos as mesmas contas para São Paulo, também vamos encontrar uma sociedade mais justa que o Brasil.

Se pegarmos na Europa.
Agora, vamos fazer a viagem contrária.
A Europa tem a fama de ter pouca desigualdade em comparação com as grandes economias mundiais, os USA (0,45), a China (0,46) e o Japão (0,38). Mas este facto resulta de as grandes diferenças de rendimento estarem entre os países. Por exemplo, temos o Luxemburgo com o PIBpc que é 70 vezes o PIBpc da Moldávia. Em termos de grandes países, o PIBpc da França é 15 vezes o PIBpc da Ucrânia.
Se pegarmos em todas as 740M de pessoas europeias, vamos obter inequalidade muito superiores à portuguesa (0,38 = Japão) e talvez mesmo superiores à dos USA (0,45) e da China (0,46) .

Fig. 4 - PIB pc na europa (2010, Wiki)

Concluindo,
É bonito falar que a diferença de rendimentos é uma aberração social mas ninguém está  verdadeiramente disponível para resolver esse alegado problema porque vai-lhe doer no bolso.

Acabei por calcular o Coeficiente de Gini Europeu => 0,48.
22 de Janeiro.
Peguei nos dados de 39 países europeus (exclui a Rússia e a Turquia, com c.Gini de 0.41,  porque estão mais fora que dentro da Europa) e arrangei no Banco Mundial umas médias para o PIB per capita, para a população (2007-2012) e para o coeficiente de Gini (1990-2012 porque os dados são mais raros). Os 39 países agregados somam 610M de pessoas e a Rússia + Turquia somam 215M de pessoas.
Apesar de a média aritmética dos coeficentes de Gini dar 0,32, considerando as diferenças de rendimento entre os países, o coeficiente de Gini europeu sobe para 0,48.
Realmente há mais desigualdade de rendimento na Europa que na China (0,46) que ainda tem a seu favor o facto de ter o dobro da dimensão populacional da Europa.

País PIBpc
(2005 US$)
Gini População
Albania 3385 31,2 3,2
Armenia 2711 35,0 3,0
Austria 39317 29,2 8,4
Azerbaijan 3033 35,1 9,0
Belarus 4507 28,0 9,5
Belgium 36791 33,0 10,9
Bosnia and Herzegovina 3351 33,3 3,8
Bulgaria 4496 29,2 7,5
Croatia 10739 29,9 4,4
Czech Republic 14223 26,2 10,5
Denmark 46836 24,7 5,5
Estonia 11085 36,2 1,3
Finland 38608 26,9 5,4
France 34159 32,7 65,0
Georgia 1897 40,5 4,4
Germany 36427 28,3 81,9
Greece 21091 34,3 11,3
Hungary 11067 27,9 10,0
Ireland 46942 34,3 4,5
Italy 29236 36,0 60,4
Latvia 7717 33,8 2,2
Lithuania 9093 33,3 3,2
Luxembourg 80601 30,8 0,5
Macedonia, FYR 3401 39,2 2,1
Moldova 992 36,2 3,6
Montenegro 4585 29,9 0,6
Netherlands 41238 30,9 16,6
Norway 65376 25,8 4,9
Poland 10031 33,2 38,3
Portugal 18364 38,5 10,6
Romania 5443 29,8 21,4
Serbia 3849 30,7 7,3
Slovak Republic 14344 26,6 5,4
Slovenia 19281 29,7 2,0
Spain 25793 34,7 46,0
Sweden 42802 25,0 9,4
Switzerland 54730 33,7 7,8
Ukraine 2049 29,3 45,9
United Kingdom 38230 36,0 62,3
Quadro 1 - Países usados no cálculo do coeficiente de Gini europeu (dados, Banco Mundial)

Se incluirmos a Rússia e a Turquia.
O coeficiente de Gini da Europa aumenta para 0,57.

País GDPpc
(2005 US$)
Gini População
Russian Federation 6527 40,6 142,5
Turkey 7947 41,0 72,2
Europa 20641 57,4 824,8
Quadro 2 - Coeficiente de Gini europeu com Rússia e Turquia (dados, Banco Mundial)

Fig. 5 - Curva de rendimento na Europa, com Rússia e Turquia (dados, Banco Mundial, cálculo e grafismo do autor). 10% da população europeia tem 40% do rendimento.

Pedro Cosme Costa Vieira

11 comentários:

Joaquim Abreu disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernando Gonçalves disse...

Ok,afinal havia 1 artigo em 300 e tal.Caro pedro,é natural que a desigualdade global na Europa seja superior à de outros blocos económicos mundiais,pois dentro da Europa existe muito pouca solidariedade na redistribuição dos recursos,a Europa não é um espaço soberano como os Estados Unidos,ou a China,em que há maçicas transferências internamente,além de haver um governo central com uso pleno de todas as políticas:monetária,orçamental e cambial.O que é de surpreender é que Portugal tenha níveis de desigualdade superiores a países muito mais populosos que nós,como a Alemanha,a França,Espanha,etc.O grande problema de Portugal não está na redistribuição até,pois as taxas de IRS até atingem valores exorbitantes,temos um serviço de Educação Pública e de Saúde aceitáveis,habitação sociale outros bens públicos que deviam envergonhar os Estados Unidos,muito mais ricos que nós.O grande problema está na criação de riqueza que é capturada por uma oligarquia económica,que arrecada rendimentos muito superiores à riqueza que cria,porque se apropriam de rendas de mercados protegidos,porque influenciam o poder político para legislar a seu favor,porque distorcem o funcionamento dos mercados financeiros a seu favor;no caso dos gestores que auto estabelecem os seus próprios salários,no caso dos funcionários públicos em que as suas remunerações estão pouco associadas ao funcionamento dos mercados,e toda uma série de imperfeições que distorcem os mercados.Stiglitz descreve isso muito bem na sua mais recente obra.Onde devíamos ser realmente liberais:produção de riqueza, é onde as falhas são maiores.Eu sou liberal na criação de riqueza e socialista na sua repartição,porque a repartição permite criar tanto quanto possível igualdade de oportunidades(se uma família não poder dar educação aos seus filhos,eles não poderão desenvolver o seu potencial,não tornando o jogo justo);o preço da desigualdade é elevada nas mais diversas áreas,como é o caso da saúde física e mental,na confiança entre as pessoas(a corrupção não é mais que a outra face da desconfiança entre as pessoas),nas taxas de encarceramento prisional,etc,como tão bem é descrito no livro "o espírito da igualdade".A questão da desigualdade não é apenas social(se quisermos por uma questão de humanismo digamos),a desigualdade tem custos económicos elevadíssimos,associados às repercussões no bem-estar.Mesmo numa perspetiva económica o mais estrita possível,esquecendo as questões sociais,podemos pensar assim:em 20 anos o país A cresceu 1% ano ao ano,mas os 90% mais pobres só cresceram 0.5%,no país B o crescimento foi de 0.8% com os 90% mais pobres a crescerem 1%,qual é preferível? É obvio que é o 2ª caso,porque se avaliarmos o bem-estar social do país como a média aritmética do bem-estar de cada indivíduo,então o país B agradou a muito mais gente.

Fernando Gonçalves disse...

O Pib tem sempre um preço.por exemplo nos EUA os salários podem não ser muito baixos na óptica dos portugueses,mas as pessoas suportam muito à sua custa as despesas de saúde e de educação.Já nos países nórdicos os salários são altos e os bems públicos são fortes,esses países combinam eficiência com equidade,logo não venham dizer que os 2 objetivos são incompatíveis,bem pelo contrário é o doseamento entre os 2 que pode marcar a diferença.A harmonia para o pleno social é os 2 caminharem a par e passo.Fazendo uma analogia com o nosso corpo:a altura é o crescimento,o peso é a desigualdade.Essas 2 medidas vão aumentando com o tempo,o que significa que as diferentes partes do corpo vão-se tornando cada vez mais desiguais porque umas crescem mais que outras,isso até certo ponto é bom,porque o desenvolvimento do conjunto fortalece-se por "essa desigualdade"(porque está associada à equidade que traduz a jsuta retribuição pelo desempenho),mas a partir de determinado momento jã nem há crescimento em altura e todo o ganho de peso é ineficiente,são apenas gorduras que estão a prejudicar o sistema global. É nesta fase que penso que já estamos,não só em Portugal,mas no Mundo em geral.Stiglitz demonstra que nos últimos anos so os muito ricos na america enriqueceram,os restantes grupos sociais estão iguais ou piores.Uma sociedade não pode reter-se nos 0.1 %,ou 1% ou 10% mais ricos,até penso que o valor do PIB devia excluir os 10% mais ricos do cálculo.Os liberais entendem justiça social como "assistencialismo"(os tais desgraçadinhos)mas não é isso na verdade, é a harmonia no todo, é haver uma retribuição justa que se pode aferir pelo papel no processo produtivo por um lado,mas também pela compensação pelos desiquilibrios socais e danos colaterais que o sistema capitalista produz.O sistema capitalista e de mercado é muito bom de facto,mas precisa de ser disciplinado.

BC disse...

Caro Joaquim Abreu,

Não é a sorte de ter recursos naturais que faz a riqueza de um país. O Japão é um bom exemplo disso, ou inversamente, muitos países africanos.

Porque os povos nórdicos são muito mais civilizados do que nós é que eu acho que não devemos copiar a sua organização mas antes ter um Estado muito mais pequeno (na minha opinião inexistente). A corrupção só persiste enquanto houver Estado.

É preciso ter consciência de que os países nórdicos são desenvolidos APESAR do Estado e não graças a ele.

Caro Pedro Cosme,

Mais uma vez obrigado por este fabuloso blogue. O Pedro é um daqueles raros portugueses que é capaz de ver a realidade como ela é sem ceder a colectivismos e demagogia fácil.

Na segunda-feira apanhei um pouco da discussão sobre o futuro do jornalismo no programa da Fátima Campos e lembrei-me deste blogue, por várias razões, quando alguns jornalistas referiram a "ameaça" da internet aos canais e aos profissionais tradicionais do jornalismo.

A internet de facto foi algo de fabuloso que aconteceu à informação. É incalculável o valor que tem a facilidade de acesso, diversidade e pluralidade da informação na internet. E são blogues como este que evidenciam a irrelevância e obsolescência do establishment jornalístico nacional.

Diogo disse...

Meu caro Pedro Cosme,

É sabido que nos países desenvolvidos a agricultura ocupa cerca de 4% da população e a manufatura 15% (a parte dos recursos escassos – que implicam bens tangíveis). Os outros trabalhadores, seja a mulher que aspira os corredores de um hotel ou o advogado que defende um caso, lidam com bens intangíveis.

Um exemplo: podiam-se fazer literalmente cópias infinitas (a custo praticamente zero) do sistema operativo Windows ou de qualquer programa informático, de um filme, de uma música, etc. Obviamente que serviços específicos não podem ser copiados – a mulher a aspirar os corredores de um hotel não pode ser replicada à borla a aspirar outro hotel.

Donde, hoje, a esmagadora maioria da produção não implica recursos escassos, exceto os recursos humanos.

O que verdadeiramente acontece é que cada empresa pensa apenas por si. Ao fazê-lo, esforça-se por cortar em todas as despesas, seja nas matérias-primas, seja nos gastos gerais de fabrico, seja na mão-de-obra. Deste modo, diminui o rendimento das famílias.

Diminuindo o rendimento das famílias, diminui o seu poder de compra. As famílias começam a consumir menos e as empresas a vender menos. Com menos vendas decresce a produção e com ela o emprego.

Em suma, a «iniciativa privada», virada para o seu próprio umbigo no corte de custos com o pessoal, é a causa primeira da sua própria falência. E no seguimento desta política marcha tudo para a miséria – empregados e empregadores.

Pedro Renner disse...

Caro professor,


Isto assim está tudo muito bom, mas como conciliar este texto com este outro, também seu:
http://economicofinanceiro.blogspot.pt/2012/01/o-catroga-edp-e-o-saque.html

Bom trabalho.

Gonçalo disse...

Caro BC,

Qual é a prova de que um país é desenvolvido apesar do estado? É que eu não conheço nenhum país desenvolvido que não tenha um estado de direito.
O que será um estado inexistente? Será um país sem governo? A extinção da política?

BC disse...

Bom é verdade que não existe uma experiência (pelo menos continuada e absoluta) de uma sociedade que tenha vivido sem Estado pelo que apenas poderemos especular o que poderia ser essa sociedade. Contudo existem alguns exemplos que permitem estabelecer uma relação inversa entre tamanho do Estado e desenvolvimento, sendo a colonização do Oeste americano um bom exemplo. O Oeste americano desenvolveu-se rapidamente num ambiente de grande liberdade individual.

Confesso que no começo também me causou estranheza a ideia de uma sociedade sem um Estado sequer poder existir quanto mais prosperar. Mas só porque uma solução é a tradicional não quer dizer que seja a única funcional ou até a melhor. Quanto mais pensei sobre o assunto mais fez sentido. E confesso que este blogue ajudou a clarificar algumas ideias nesse sentido.

Um país sem Estado é precisamente isso, laico, sem governo, sem políticos, sem impostos, sem constituição, sem leis gerais. Seria um país em que toda actividade económica resultaria da iniciativa privada, o mercado seria completamente livre. A segurança, a defesa, a justiça, a saúde, o ensino e a cultura seriam exclusivamente privados. Enfim, é aplicação prática da Escola Austríaca. Que alguns chamam de Anarco-capitalismo.

Quando se usa dinheiro alheio, como o Estado faz, a eficiência, racionalidade e competitividade são palavras vãs. Quando o Estado se torna insolvente não abre falência, aumenta impostos. O Estado consome recursos que os privados criam. Quanto mais pequeno for o Estado mais recursos ficam nas mãos de quem sabe efectivamente alocá-los da forma mais eficaz para criar riqueza.

Gonçalo disse...

Um país sem estado não existe nem nunca existirá. Seria uma região e apenas isso. Quanto muito uma colecção de bandos e tribos. Um retorno à pré história. Essa experiência já existiu, até que os estados emergiram. O oeste americano era uma região onde toda a gente tinha de andar armada, onde os conflitos eram resolvidos à lei da bala.
Um país ( aliás, uma região) sem estado apenas degenera no paradoxo da liberdade. O mercado pode ser livre, mas também a capacidade do poderoso oprimir o fraco.
O estado não consome nada. São as pessoas que consomem. Que diferença faz ser o estado a construir uma estrada, ou um privado? São feitas de maneira diferente? E não pode o Estado criar recursos? A electricidade não foi sempre criada pelo estado, em Portugal?

CsA disse...

Professor,

Seria possivel fazer um estudo semelhante pre e pós 1971? Ano em q entrou começou o sistema FIAT e acabou o padrão ouro? Este sistema em vigor tem ou não contribuido para uma maior disparidade no rendimento das pessoas? Obrigado.

Vasco Pereira disse...

"trade-off entre equidade e nível de riqueza. Se, enquanto sociedade, quisermos viver num país com menos desigualdades, teremos que aceitar viver, em média, com menos rendimento"

A Dinamarca contraria esta afirmação e em geral os países nórdicos. Sendo estes países capitalistas - em teoria mais até que os USA, já que estes taxam mais as empresas que o trabalho - têm uma componente de apoio social bastante forte. O que os torna mais ricos é um conjunto de ingredientes em que principalmente contribui a liberdade económica, pessoas e uma forte componente de educação escolar e cívica, bem como a cultura social forte. Portanto, podemos ser ricos, porque produzimos coisas que acrescentam um enorme valor qualitativo no ser humano, assim como ser equitativos porque temos uma mentalidade nórdica - coisa rara.

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