sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Ano Novo, Cavaco Novo

Mais um fim de ano, mais uma mensagem do Cavaco Silva.

Sendo o principal problema de Portugal o elevado risco do território (misto entre risco de crédito e risco cambial => sair do euro) porque tal se traduz nas elevadas taxas de juro exigidas ao Estado e aos privados, como nos dois últimos dias a taxa de juro desceu 0.40 pontos percentuais, temos que concluir que o discurso de Cavaco esteve extraordinariamente bem.

Se aplicarmos 0.40 pp a toda a dívida externa que é de 370MM€ (ver, Fig. 1), 225% do PIB, esta redução traduz uma poupança de juros a pagar ao exterior na ordem dos 1900 milhões € por ano que é equivalente a termos um aumento do IVA de 23% para 27%.
Deste movimento em baixa podemos concluir que cada uma das 1466 palavras do Cavaco Silva representa uma poupança anual face ao exterior de 1,3 milhões €.

Fig. 1 - Entre 1998 e 2010  a divida externa aumentou 25 mil milhões € por ano, 15% do PIB por ano (dados: Banco de Portugal).

O que teve a mensagem do Cavaco para ter tamanho impacto?
A grande mensagem é não haver qualquer mensagem. Finalmente, o Cavaco convenceu-se que governar compete ao governo e que o Passos Coelho está a fazer o que, tecnicamente, deve ser feito.
Espremendo nas 1466 palavras, encontramos apenas 4 pequenas ideias:

1 => A actual situação resulta de um passado desmiolado.
"Portugal chegou, no início de 2011, a uma situação de colapso financeiro iminente" (p. 8)  havendo "a consciência clara de que não era possível continuar a caminhar rumo àquilo que, na altura devida, classifiquei de 'situação explosiva'" (p. 9) iniciou-se a correcção da situação que, apesar de ter induzido uma "redução dos padrões de bem-estar," não pôs em causa nada de fundamental (p.10).

2 => O caminho de consolidação traçado pelo governo é o correcto.
"Em Maio deste ano chega ao fim o Programa de Assistência Financeira" (p. 26) ficando Portugal "dependente dos mercados e dos investidores internacionais para obter os meios financeiros de que necessita" (p.27) que "exige que a conclusão do programa de ajustamento seja feita com sucesso" (p. 28) o "que tem no Orçamento de Estado para 2014 um instrumento da maior relevância" (p. 29).

3 => Por isso, venha quem vier, o caminho será esse mesmo.
"É uma ilusão pensar que, no dia em que encerrar o atual Programa de Assistência Financeira, todos os nossos problemas ficarão resolvidos e poderemos regressar a um período de despesismo e endividamento descontrolado" (p. 37). Queremos um caminho "de equilíbrio das contas públicas" (p. 38) em que "estejamos bem conscientes das regras de disciplina orçamental e de supervisão das políticas económicas a que Portugal, tal como todos os outros países da Zona Euro, estão sujeitos" (p. 39).

4 => Por isso, deixem-se de demagogia barata.
"Neste contexto, de todos os agentes políticos, bem como dos agentes económicos e sociais, exige-se a máxima ponderação e bom senso, um sentido patriótico de responsabilidade. (p. 34) "estejam no governo ou na oposição" (p. 35). "Espero, pois, que todos os agentes políticos, económicos e sociais saibam estar à altura das exigências do futuro e das legítimas aspirações do nosso povo." (p. 89)

Dada a jurisprudência, nenhuma norma levanta dúvidas constitucionais.
Numa nota posterior, o Cavaco veio dizer que, apesar de no ano passado algumas normas lhe levantarem dúvidas de constitucionalidade (como, por exemplo, a CES-Contribuição Especial de Solidariedade que se abate sobre as pensões) como o tribunal as considerou constitucionais, não vale a pena insistir nessas dúvidas.

Fig. 2 - Como o amor é cego, desejo para 2014 que todas as mulheres feias, gordas e atarracadas pareçam aos olhos dos seus homens boas como esta.

O que faltou dizer.
Na mensagem do ano novo passado, o Cavaco referiu, ao contrário do que afirmava o Gasparzinho, que estávamos numa espiral recessiva  com origem nas políticas do governo:

Como "muitas famílias foram obrigadas a reduzir as suas despesas", "muitas pequenas e médias empresas encerraram as suas portas". "A execução do Orçamento [de 2013] irá traduzir-se numa [nova] redução do rendimento dos cidadãos" o que alimentará uma espiral recessão. Então, "Temos urgentemente de pôr cobro a esta espiral recessiva, em que a redução drástica da procura leva ao encerramento de empresas e ao agravamento do desemprego." (p. 7)

Mas, passado um ano, afinal a economia cresceu e o desemprego diminuiu. Então, apesar do Cavaco ter reconhecido isso, faltou-lhe ainda  dizer:
Quanto à espiral recessiva de que falei no ano passado, os factos vieram a provar que eu estava enganado e que as previsões do Gasparzinho estavam certas. Peço-te desculpa por não ter sido justo e envio-te votos de feliz ano novo. A Maria e o Presidente gostaríamos de te ter cá nos Reis para um chá com bolo-rei".

Fig. 3 - Já pensei em fazer um decreto a mudar o nome para Bolo Presidente mas o Vital Moreira disse-me que seria inconstitucional.

O governo tem o apoio do Cavaco para prosseguir.
Finalmente, a meta orçamental tem o aval do Cavaco.
Então, se o corte de 10% nas pensões dos funcionários públicos não pode avançar, avançou o anúncio de que já havia medidas alternativas a incidir principalmente sobre os funcionários públicos no activo e aposentados o que reforça a mensagem do Cavaco de que somos capazes de fechar o programa de assistência com êxito.

E vamos a caminho do sucesso.
Actualmente, com as taxas de juro a 2 anos na ordem dos 2,65%/ano, já começa a ser viável rolar os 150MM€ "fora da Troika" no mercado de dívida a uma taxa de juro média na ordem dos 3.2%/ano (maturidade ligeiramente acima dos 3 anos que é um prazo aceitável).
Se as coisas continuarem a correr bem como estão, podemos mesmo terminar os 3 anos da intervenção numa situação melhor que a que vivíamos em meados de 2010.

Em 2015 vai acontecer como em 2011.
Em 2011, as sondagens começaram por indicar que o PS (Sócrates) iria ganhar com maioria relativa mas, com o degradar dos indicadores económicos, passaram para um empate técnico e, mesmo na recta final, o PSD (Passos) conseguiu uma vitória tangencial.
Agora, as sondagens também indicam uma vitória do PS (Seguro) com maioria relativa mas, com o melhorar dos indicadores económicos, veremos em finais de 2014 as sondagens passarem para o empate técnico e, na recta final, o Passos vai ter outra vitória tangencial.

Fig. 4 -  Como é possível eu, o maior estadista do Sec. XX, ter sido derrotado pelo Passos Coelho.

Vou agora responder a uma questão pessoal do Fernando Gonçalves.
Considera aceitável um professor universitário só passar 10h por semana e 6 meses por ano na sala de aula e ganhar vários salários mínimos?
Um professor universitário doutorado, ganha 3028€/mês iliquidos que corresponde a pouco mais de 6 salários mínimos e de 3 salários médios.

Será isso um ordenado aceitável?
É inaceitável, não por ser 6.25 SMN mas porque há pessoas competentes que estão disponíveis para fazer esse trabalho por metade deste ordenado.
Porque nos anos 1990-2010 houve muitas bolsas para doutoramento e pelas actuais dificuldades do mercado de trabalho, se hoje uma faculdade oferecer contratos a doutorados a título definitivo por  1514€/mês, não lhe faltam bons candidatos.
Se reduzissem o meu salário a metade, eu não começaria a procurar outro emprego.

Eu já apresentei estas contas num poste.
Imaginemos uma pessoa que estudou na escola pública e que, exageradamente, em alternativa a frequentar a universidade, teria um emprego a ganhar 600€/mês.
     Estudar entre 9.º ano e 12.º amo =>    3 anos a 200€/mês   => 7200€
     Licenciatura e mestrado             =>     5 anos a 600€/mês   => 36000€
     Perdas de rendimento (600€/mês durante 70 meses)           => 42000€
Investimento total com uma taxa de juro de 2%/ano => 86500€

Para amortizar este valor em 45 anos, 14 meses por ano, é preciso um incremento no salário de pelo menos 220€ por mês.
Se o salário médio anda nos 900€/mês, em termos de investimento, estou a falar em ordenados para uma pessoa com mestrado na ordem dos 1100€/mês.

Mas um professor universitário é mais inteligente que a média.
E por isso é que 1514€ me parece aceitável. Já teria um prémio de 35% a que acresce o trabalho ser mais agradável e menos pesado que outro emprego qualquer.

Um paradoxo da teoria dos conjuntos.
O João é louro e diz que os todos os louros são mentirosos.
Então, se o João é louro, também é mentiroso pelo que a sua afirmação é falsa.
Sendo a afirmação é falsa então, o João é verdadeiro pelo que a afirmação é verdadeira o que faz dele novamente um mentiroso ...

Então, no que ficamos?
Apesar de eu ser professor universitário, ter tempo para escrever livros e blogs e estar pouco tempo na sala de aulas, sou uma pessoa lúcida.

Bom ano 2014

Ontem faltou-me dizer.
Que o mandato do Passos coelho acaba em Junho de 2015 mas o mandato do Cavaco Silva só acaba em Janeiro de 2016. Então, é importante saber o que o Cavaco pensa porque ainda vai condicionar a formação do próximo governo (em meados de 2015).

Pedro Cosme Costa Vieira

2 comentários:

Fernando Gonçalves disse...



Para evitar o paradoxo referido o professor auto considera-se assim um priveligiado pelo sistema,mantendo assim a lucidez.Saudo-o por tal,mas o que eu não considero aceitável é serem os novos "entrantes no sistema" a terem de suportar sozinhos o esforço do ajustamento,porque todos os outros têm direitos adquiridos quase intocáveis.Se tudo fosse flexível o mercado seria bem mais eficiente e equitativo.Veja-se os Estados Unidos,nem tudo me agrada por lá,mas o sistema de incentivos económicos funciona bem para a grande maioria dos trabalhadores,tornando-a numa economia dinâmica e eficiente,onde as pessoas sentem que vale a pena trabalhar e produzir riqueza.A questão é vermos um césar das neves e um Vitor Bento a defender o fim do salário mínimo mas não se vê a defender o fim dos salários e direitos adquiridos dos professores ou dos médicos(sim,porque podíamos importar milhares deles a preços mais baixos)por exemplo,deixando o mercado funcionar.Ora não seria justo socialmente serem os mais frágeis socialmente a suportar todo o custo dum mercado livre,porque se uma grande parte das pessoas sofressem uma redução do salário,a queda do poder de compra seria pouco expressiva para cada trabalhador,e a economia no seu todo ficaria bem mais competitiva certamente.Durante muitos anos fui um comunista convicto,mas esta recessão mostrou-me que afinal nem sempre a esquerda defende os pobres,defendendo mais os protegidos pelo sistema.Citando José Gomes Ferreira,os culpados da situação actual do país foram a esquerda irresponsável,a Direita dos interesses e o Grande centrão da Indiferença.

Antonio Cristovao disse...

belo post. entramos o Ano Novo com opé direito. deus lhe dê saude e vontade de continuar assim.

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