segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Não vai haver programa cautelar

Pensemos na situação pré Crise do Sub-prime. 

Em 2007, o ano anterior ao rebentar da Crise do Sub-Prime, o Sócrates estava no seu auge. 
Nessa altura de vacas gordas, o Sócrates aparecia sem barriga, fatos apertados e um cabelo ainda maioritariamente preto. Nos debates era uma autentica máquina de triturar.
Nessa altura a república conseguia-se financiar à taxa de 4,2%/ano e não havia uma única pessoa que dissesse que Portugal precisava de um programa cautelar e, muito menos, de um resgate do FMI e dos nossos parceiros da UE e Zona Euro.

Entretanto, a situação degradou-se e muito. 
A queda do Sócrates começou quando, nos princípios de 2010, as condições de financiamento da república se começaram a degradar o que levou, em princípios de 2011, à demissão do Sócrates mas com as sondagens a darem-lhe nova vitória.
Mas, no dia 20 de Maio de 2010, num debate televisivo o Passos Coelho ao ter sido o primeiro político a derrotar pela argumentação o socratismo, virou o curso da história. 
Depois a situação financeira foi-se degradando cada vez mais até ter atingindo, em finais de 2011, o olho do furação, com taxas de juro acima dos 20%/ano.
No Natal de 2011 tudo indicava que estávamos irremediavelmente no caminho da bancarrota a la grega. 
Recordemos que, em Dezembro de 2011, as obrigações a 10 anos negociavam-se com perdas de 80%. 

Fig.1 - Em 2007 fui muito feliz, até aparecer a crise que foi causada pelos outros. Se o PEC4 tivesse avançado ...

Mas o Gasparzinho acreditou sempre. 
E, lentamente, as taxas de juro lá foram descendo.
Cada acidente de percurso, fosse um chumbo do Tribunal Constitucional, uma manifestação, greve ou demissão, fazia com que os investidores pensassem que íamos a voltar ao tempo do Sócrates ou, dentro do PSD, do Santana Lopes. Mas não e, lentamente, em princípios de 2013 as taxas de juro voltam aos níveis de 2007 e, em princípios de 2014, estão significativamente abaixo do nível de 2007 (ver, Quadro 1). 

Prazo         2anos     3anos      5anos    10anos   Média(3)    Real(3)   Média(5)
2007            4,1%      4,1%       4,1%      4,5%         4,1%        2,1%        4,2%
Máximo     20,0%     22,8%     21,6%    16,4%       20,6%     18,2%       20,2%
Hoje           2,1%       2,8%       4,0%      5,3%         2,6%        0,6%         3,6%
Quadro 1 - Evolução das taxas de juro do mercado secundário (a média é calculada para uma maturidade média de 3 e 5 anos)

Não pode ser.
Hoje (em mercado secundário), a taxa de juro está bastante abaixo das taxas de juro que a república paga nos contractos assinados em 2007. Se Portugal rolar a dívida pública numa maturidade média de 3 anos (precisa colocar no mercado mil milhões € por semana), consegue uma taxa de juro 1,5 pontos percentuais abaixo do que conseguiu em 2007. 
Em 140MM€ que estão fora da Troika, com a taxa de juro de 2007 pagamos 6000 milhões € por ano e com as taxas de juro de hoje só precisávamos pagar 4000 milhões € por ano. 
Relativamente aos contratos feitos no tempo do Sócrates que os esquerdistas do PS não diziam nem dizem que foram ruinosos, hoje o Passos Coelho conseguiria em Mercado fazer muito melhor.

Fig2 - A divida pública a 3 anos está com uma taxa de juro muito inferior à de 2007

E em termos reais 
Parte dos juros é para pagar a inflação (de 2%/ano) e esta parte não traduz, em termos económico, o desembolso de recursos escassos. Desta forma, apenas a parte real traduz que temos que diminuir o nosso rendimento para pagar os juros.
Se retirarmos a taxa de inflação da taxa de juro, com as condições de mercado de 2007, a república tinha que pegar em 3 mil milhões € do nosso rendimento e entregar aos credores enquanto que com as condições actuais só precisaria de entregar 850 milhões €.

Afinal, no futuro em termos reais vamos pagar poucos juros. 
O Estado, para pagar os juros da nossa dívida terá que, nos próximos 50 ou 100 anos, destinar cerca de 0,6% do PIB para pagar os juros aos credores (mantendo a divida em termos reais). 
Não é como os esquerdistas dizem, que é impossível pagarmos a nossa dívida pública.
Afinal, não é grande coisa. 
Impossível é pagar as pensões (que vai nos 9% do PIB e sempre a subir) e os demais "direitos adquiridos".

E o programa cautelar?
Portugal compara-se um ciclista que andava à maluca e que se esbarrou contra uma parede, tendo partido uma perna, um braço e três dentes. 
Entretanto, foi socorrido, esteve no hospital, fez 3 anos de fisioterapia, está mais magro e, aparentemente, está fisicamente melhor do que estava antes do esbarramento. 
Agora, o ciclista precisa voltar a andar de bicicleta e tem todas as condições físicas para isso mas há no ar um nervoso miudinho.

Fig. 3 - Está mesmo a precisar de um programa cautela, uma mãozinha de cada lado, não vá cair e partir outra vez o pulsinho. 

As palavras do Seguro invializam haver um programa cautelar.
O Seguro tem colocado metas que a previsão económica dizem serem impossíveis de atingir (mais 2 anos de prazo, crescimento económico, descida do desemprego, não haver novo resgate, o acesso aos mercados) que, um após o outro, têm sido  conseguidos "por milagre da N.S.a de Fátima" (Maria Cavaco silva) . 
Agora, o Seguro lançou o último tiro de pólvora seca: apenas será uma vitória para o Passos Coelho e para a sua política neo-liberal (e uma derrota para si próprio e para o esquerdismo que representa) se sairmos do plano de resgate sem qualquer programa cautelar. 

Limpinho, limpinho, limpinho.
Um resgate, programa cautelar ou seja o que for não teria qualquer mal para Portugal mas agora, em termos políticos, já não é possível haver nada disto.
Concerteza (como disse o ministro das finanças alemãs Schauble ao Gazparzinho em 2011), em off a Sr.a Merkel vai mexer os cordelinhos junto dos gestores de fundos para haver sempre dinheiro disponível para o rolamento da nossa divida pública mas não vai ficar nada escrito. 

A política também é assumir riscos. 
E hoje o Passos Coelho + Portas apenas podem ganhar as eleições de 2015 se apostarem que Portugal vai,  até às eleições de meados de 2015, viver um período de crescimento económico, descida do desemprego e acesso aos mercados de divida pública a taxas de juro muito mais baixas que as de 2007. 
Agora, eu acredito que vamos conseguir e, desta forma, as sondagens vão castigar o Seguro que, sem discurso, vai entrar num período de grande sofrimento, a levar pancada de todos os lados. 
Se correr mal e as taxas de juro voltarem a disparar, paciência, pede-se então novamente ajuda e o Rui Rio , qual D. Sebastião, que avance.

Pedro Cosme Costa Vieira

2 comentários:

AG disse...

Parabéns pelo blog. Afinal ainda há pessoas lúcidas em Portugal e que entendem de contas, já estava a ficar preocupado! :)

O que me diz da recente análise da Tortus Capital Management? http://rehabilitatingportugal.com/rehabilitating_portugal.pdf

Prata do Povo disse...

Sem lhe retirar razão aos seus argumentos, há que ter em conta que muitos desses títulos serão uma dor de cabeça para futuros governos, veja-se que existirão picos de pagamento muito complicados.

Esses juros baixos de que fala são para títulos obtidos agora sem haver uma grande colocação de valor, visto o país estar ainda com emprestimos garantidos. Mas será que continuaremos com juros tão baixos quando sairmos do programa de assistência e o governo tiver de procurar elevados montantes nos mercados de capital?

Os bancos terão um 2014 muito complicado, obrigados a constituir no final do ano os rácios acordados nos acordos de Basileia, significa isso que a economia continuará estrangulada, ou não é assim?

Afinal já não percisamos de sair do euro?

ou será que deveria perguntar de outra maneira, com esses juros podemos continuar no euro?

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