sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O desenvolvimento com baixos salários

Todos já ouvimos falar de "modelos de desenvolvimento". 
Em particular, a esquerda tem falado no "modelo de desenvolvimento baseado em baixos salários" que pura e simplesmente não existe, nunca existiu e nunca existirá. É um embuste, uma cassete da esquerda co-adoptado pelo Paulo Portas.
Os únicos modelos de desenvolvimento que existem são o modelo centralizado (socialista/comunista) e, por oposição, o modelo descentralizado (de mercado/capitalismo). Depois, temos muitas variações, misturas e confusões.
Mesmo o denominado "modelo de desenvolvimento sustentável" é uma mão-cheia de nada.

O que distingue o modelo de mercado do modelo socialista/comunista?
É haver ou não liberdade de produzir, de comprar e vender , de exportar e importar. 

No modelo de desenvolvimento de mercado. 
As pessoas são livres de fazer tudo o que lhes venha à cabeça. 
As pessoas são livres de escolher quantos filhos têm e de como os educam.
São livres de escolher entre ser empresário, trabalhador por conta própria ou alheia, escolher a taxa de poupança, os bens que adquirem, a cidade onde vivem, etc., etc. etc.
O modelo de desenvolvimento capitalista é o liberalismo económico e condensa-se na máxima Laisser faire, Laisser Passer de Quesnay (1750) e de Adam Smith (1776).
Para que a economia funcione há algumas regras que têm que ser respeitadas em termos agregados (mas não é necessário que sejam cumpridas a 100%):
     Não matar (6.º mandamento);
     Não roubar (8.º mandamento);
     Não enganar (9.º mandamento)
Então, a economia de mercado acaba sempre com algum grau de coordenação centralizada.

Depois, da negociação entre as pessoas (o mercado) resultam os preços relativos.
Se eu quero produzir latas de conserva com doce de agulhas de pinheiro bravo, compro as latas, vou a um pinhal colher agulhas, meto-as nas latas com água e açúcar, tapo-as, cozinho/pasteurizo as latas e meto-lhes um rotulo a dizer "doce de agulhas de pinheiro bravo". Pago as latas, as agulhas, a água, o açúcar, a pasteurização e o rótulo.

Fig. 1 - Não confundir as agulhas de tatuagem com as folhas fininhas, agulhas, do pinheiro.

Depois, meto as latas na mala do meu carro, vou para uma estrada onde passem carros e tento vendê-las por um preço que cobra os custos de produção e ainda sobre algum para o meu salário.
Se eu não conseguir um salário pelo menos igual ao que posso ter noutra actividade qualquer (por exemplo, a fazer doces de abóbora), eu acabo por desistir desta actividade (e ir para outra) sem ser necessária nenhuma entidade centralizalizada para mo obrigar.

O salário é determinado no mercado.
São as pessoas que passam que decidem o meu ordenado. Ao querer ou não comprar a lata com agulhas de pinheiro, são as forças de mercado que vão determinar o meu salário. No final, é esse número que também vai decidir se eu vou ou não poder produzir doce de agulhas de pinheiro bravo.
Isto passa-se não só nos negócios por conta própria como também por conta de outrem.
O empresário tem que ir ao mercado e alugar equipamentos (ou pagar juros), comprar matérias primas e produtos intermédios e pagar os salários. Depois, vai ao mercado vender. Se a facturação não permitir pagar os salários e os preços dos bens comprados, ou os salários (e preços de aquisição) diminuem ou a empresa vai à falência (e as pessoas vão procurar outro emprego).

Fig. 2 - O meu sonho é ser empresário de caça de elefantes mas não consigo competir com os africanos. 

Para o Estado fica apenas a produção de bens e serviços que os privados não queiram produzir de todo e que sejam, sem dúvida, necessários à comunidade e ainda um pequeno sistema policial para evitar que as pessoas façam as (poucas) coisas que são proibidas. 

No modelo de desenvolvimento socialista/comunista. 
Existe uma entidade central que decidi o que as pessoas vão fazer, desde o número de filhos (como na China), até o local em que a pessoa pode viver e trabalhar. O resto é proibido.
No modelo socialista puro não existe sistema de preços ou, a existir, são números decididos de forma centralizada, e  as quantidade que cada pessoa vai adquirir é também uma decisão administrativa. Por exemplo, cada pessoa vai trabalhar 40h (não interessa quanto é o salário) e cada pessoa recebe um cabaz de bens com 10kg de arroz, 2 litros de óleo, uma camisa, etc. (não interessa quanto custa).

O salário é decidido de forma administrativa.
O Estado pode decidir que um trabalhador ganha 10000€/hora e que cada kg de arroz custa 0,01€/kg porque a pessoa é na mesma obrigada a trabalhar 40h e só tem acesso ao capaz de bens oficial.
Mas estes euros não podem ser os portugueses pois o resto do salário que no fim do mês sobrar do salário, vai ficar sem efeito porque não existem bens na economia com valor suficiente para pagar os salários. Terá que ser uma moeda local, como o Won Norte Coreano, sem qualquer valor de troca.
E as pessoas também não podem emprestar dinheiro porque o devedor não tem bens para adquirir.
É dinheiro equivalente ao do Jogo do Monopólio.

Fig. 3 - Na Venezuela, o Maduro aumentou os salários e diminuiu os preços (em Bolivares) o que parecia bom mas que fez com que deixasse de haver bens à venda (que têm que ser pagos em dólares). 

O mercado promove a eficiência.
A eficiência económica consiste na obtenção do máximo bem-estar possível para as pessoas. Assim, é uma média do grau de felicidade de cada um de nós pelo que depende dos nosso gostos individuais e das decisões das outras pessoas (que se agregam na nossa "restrição orçamental").

Há pessoas que gostam muito de fumar mas isso causa, a prazo, despesas de saúde. 
O legislador é tentado a proibir o tabaco porque causa despesas médicas pagas por todos nós.
Mas a maximização do bem-estar social tem que ponderar, por um lado, o bem-estar da pessoa que gosta de fumar com a perda social em despesas de saúde e morte precoce.
O balanço indica que não deve ser proibido mas haver um imposto que pague os custos sociais. Só as pessoas em que o custo social (o imposto) seja menor que o gosto de fumar é que vão continuar a fumar.
Se cada uma das pessoas actuar de forma a maximizar o seu bem-estar (sob a restrição das decisões das outras pessoas - as tais forças de mercado), obtém-se um resultado melhor que a ser o Estado a decidir  porque o decisor centralizado não tem conhecimento dos gostos individuais de cada pessoa. 

O Estado socialista não consegue promover a eficiência.
Além de não conhecer os gostos de cada uma dos milhões de pessoas que existem, é impossível promover a afectação centralizada de milhões de pessoas a milhões de diferentes actividades na produção de centenas de milhar de bens e serviços diferentes e ainda decidir como os bens produzidos vão ser distribuídos pelos gostos das pessoas. 
A economia socialista (afectação centralizada) apenas é eficiente em economias muito pequenas e pouco sofisticadas. Exemplo desse modelo de desenvolvimento é as empresas porque têm um número limitado de trabalhadores (a maioria tem menos que 250) e produzem poucos bens e serviços (menos que 100). 

Fig. 4 - From Russia with love

O modelo de desenvolvimento baseado nos baixos salários.
Isso não existe. É um embuste criado pela esquerda semelhante aos milagres financeiros da IURD.

O ajustamento dos salários em baixa.
Os esquerdistas querem-se fazer burros ou são mesmo burros.
Afirmar-se que os salários têm que ter a capacidade de ajustar em baixa, não é dizer que devem ser altos ou baixos.
A questão é que às vezes (em períodos de crise não antecipáveis) e para algumas pessoas (que se tornam menos produtivas), é necessário poder haver uma redução pontual do salário ou o despedimento. A economia, no curto prazo, ajusta melhor se houver possibilidade de ajustamento em baixa do salário e, no longo prazo, a taxa de desemprego média será menor.

Porque existem países com salários baixos?
Porque existem países onde as pessoas são pouco produtivas.
Por razões históricas e naturais, há países que têm  pouco capital (máquinas, equipamentos, capital humano, terreno fértil e recursos minerais) o que leva a que o trabalho seja menos produtivo.
O problema é que, para terem mais capital, as pessoas têm que pagar juros e isso só melhor o nível de vida desses pobres quando o aumento da produção for maior que o aumento dos juros pagos.

É que os salários resultam directamente do PIB.
Pegamos no PIB per capital do país, retiramos-lhe a depreciação do capital, multiplicamos por 2/3 (o outro 1/3 é para remunerar o capital), dividimos pela população activa e resulta o salário médio desse país.
O poder de compra dos salários tem a ver com as diferenças de preços dos bens não transaccionáveis (conversor PPP de 2005, Banco Mundial): nos países de baixos salários, os preços locais são mais baixos. Por exemplo, o salário de 148€/mês na China tem o mesmo poder de compra que na América um salário de 351€/mês.

Quadro 1- Salários médios nos 11 países onde vive 60% da população mundial. Usei como população activa a percentagem de população com idade entre 15 e 65 anos (dados: Banco Mundial, 12 salário por ano)

A produtividade é o PIB a dividir pela população.
Se um país produz muito per capita, os salários serão elevados. Se outro país produz pouco per capita, os salários serão baixos. E a produção é medida pelo PIB menos a depreciação do capital.
Não há volta a dar a isto.

Mas os esquerdistas dizem que a solução é aumentar a produtividade. Mas isso é uma verdade de Lapalisse pois PIBpc e a produtividade são exactamente a mesma coisa:
     Produtividade = PIB / Número de .pessoas.
     PIBpc = PIB/Número de pessoas = Produtividade
Uma não pode aumentar à custa da outra porque são a mesma coisa.
É como dizer que "para ter menos peso, tenho que pesar menos".
O problema é o que eu tenho que fazer para pesar menos, dieta (poupança) e actividade física (trabalhar mais).

Dizem "nunca poderemos competir com a China".
Os esquerdistas dizem isto o que me faz lembrar certos alunos que me vêm dizer que têm que passar sem ir ao exame porque "tenho problemas e nunca vou aprender isso".
Então, os esquerdistas querem dizer que os problemas da nossa economia nunca terão solução.

Todos os países são igualmente competitivos.
Mas, felizmente, estão errados porque nós já competimos com a China e com todos os demais países de onde importamos e para onde exportam bens e serviços. Competimos não só com os USA e Japão (com salários muito elevados) mas também com o Bangladesh, Paquistão e Nigéria (com salários muito baixos).
Mas os países não podem ter o mesmo salário porque num mês de trabalho no Bangladesh só se produzem 29€ (por falta de capital) enquanto que nos USA se produzem 2192€.
Se fosse imposto que no Bangladesh o salário mínimo era de 2192€/mês, ninguém teria emprego.
Interessante nunca ter ouvido ninguém dizer que "a China não consegue competir com o Bangladesh" (onde o salário é 10 x menor) nem que "Portugal não consegue competir com os salários da Nigéria" (onde os salários são metade dos salários chineses).

Fig. 4 - Repito o Sean Sullivan é para alegrar repetidamente as vistas da Sofia Santos

O problema das bolsas de doutoramento.
Se um aluno quiser fazer uma licenciatura ou mestrado e não tenha recursos financeiros, o Estado dá-lhe apoio. Sem este apoio em 1983-1988, nunca eu teria conseguido obter uma licenciatura.
O aluno faz a licenciatura para se valorizar pelo que nunca assume a ser bolseiro como uma profissão

Quanto é a bolsa para licenciatura?
Primeiro, tem um valor máximo que está relacionado com o IAS - Indexante de Apoios Sociais
     Valor máximo =  385€/mês + propinas = 465€/mês.
Mas a este  valor, é preciso retirar o rendimento per capita do agregado familiar.
Exemplo 1, uma família de 3 adultos + 1 menor  sem qualquer rendimento (a receber o RSI)
     Capitação = (178,15€ + 2 x 89,05€ + 53,44€ )/4 =102,43€/mês
     O Estudante vai receber 468 -102€ = 363€/mês.
O aluno vai usar esta verba para pagar as propinas (80€/mês), a comida (150€/mês), o alojamento (73€ numa residência) e, com os restantes 60€/mês, pagar os livros, deslocações, roupa e vida social.

Exemplo 2. uma família pobre mais normal, 3 adultos + 1 menores  em que ambos os país ganham o salário mínimo, vai resultar numa bolsa de 185€/mês:
  Capitação = (485*14 /12)/4 =283€/mês
  O Estudante vai receber 465 -226€ = 179€/mês.

Já estão que eu sei o que é ser um desgraçadinho.

Quanto é a bolsa de doutoramento?
Apesar de um curso de doutoramento ser um período em que o aluno está a estudar para adquirir um capital que vai fazer render onde lhe pagarem mais, no tempo do Sócrates tinha a filosofia de um emprego.
Primeiro, o seu valor é idêntico a um salário.
São 980€/mês no caso do doutoramento ser em Portugal e 1710€/mês se for no estrangeiro, acrescentando-se o valor as propinas (mais uns 350€/mês), completamente dados.
Segundo, não  é para dar igualdade de oportunidades pois não tem em atenção as necessidades financeiras do alunos mas parece-se com um salário para a pessoa não fazer o que lhe apetecer.

Mas a bolsa de estudo para doutoramento não pode ser um emprego.
A filosofia deve ser exactamente a mesma que leva às existência de bolsas para licenciatura e mestrado, podendo ser majoradas em função de critérios de mérito.
Com 50% de majoração, um bom aluno, no exemplo 1, receberia 424€/mês e, no exemplo 2, receberia 300€/mês mais o valor das propinas.
Se fosse assim, haveria bolsas para todos os que verdadeiramente precisam, aspiram e têm capacidade para fazer um doutoramento mas que não o podem fazer.

Finalmente, a coadopção.
Eu sou a favor da coadopção seja por casais, normais ou gays, ou por um frupo de pessoas separadas, dois, três  ou quatro pessoas, homens, mulheres ou mistura.
Actualmente, muitas dezenas de milhar de crianças têm os pais divorciados e vivem alternadamente com um dos pais e o seu companheiro. Assim, a família prevista como tradicional na adopção (2 país a viver na mesma casa) já não existe. Hoje o normal é a uma família de 4 pais que vivem em casas separadas.
Então, a legislação sobre a adopção, a existir, tem que se adaptar aos novos tempos.
Acho que o PSD deveria ter votado a favor mas entender o âmbito pela não consideração dos gays.

Deveria ser a Lei da Adopção
1) Podem adoptar uma criança até aos 15 anos de idade um qualquer grupo de adultos, com um máximo de quatro, com a condição de, em média, terem mais de 15 anos e menos de 50 anos de diferença de idade para a criança.
2) Se as pessoas viverem separadas, o poder paternal e a guarda da criança será, de forma equivalente aos divorciados e separados, conjunta. 
Desta forma, retirava-se "o problema gay" das cabeças mais reacionárias.

Fig. 6 - Por incrível que pareça, as crianças criadas por pais pobres sentem-se tão felizes como as criadas por pais ricos

E porquê a adopção?
São intitucionalizadas cerca de 8500 crianças, 2300 cada ano (ver) com um custo de cerca de 700€/mês. Cada criança fica quase 4 anos institucionalizada e acaba por custar cerca de 30 mil€.
É muito mais que o rendimento mínimo de um menor (89€/mês) e os resultados não são melhores que os obtidos em famílias mesmo desestruturadas.
Se há alguém que, por loucura, quer ficar com uma criança a seu cargo, mesmo que para isso o Estado tenha que dar alguma ajuda (eu defendo que deveria dar automaticamente os 89€/mês do RSI), deve-se dar toda a força a isso de forma a acabar-se com as instituições de acolhimento de menores.
Acabar com essas casas pias e outras coisas ainda piores que andam por aí e que custam 700€/mês por cada criança.

Quando comecei este poste, não tinha nada para dizer, mas até acabei por dizer qualquer coisa.

Pedro Cosme Costa Vieira

13 comentários:

Pedro F disse...

"A produtividade é o PIB a dividir pela população.
Se um país produz muito per capita, os salários serão elevados. Se outro país produz pouco per capita, os salários serão baixos. E a produção é medida pelo PIB menos a depreciação do capital.
Não há volta a dar a isto."

A produtividade é PIB a dividir pela população trabalhadora, não? O PIBpc pode aumentar sem aumentos de produtividade apenas porque sobe a % de população que trabalha.

Económico-Financeiro disse...

Estimado Pedro F,
A observação é muito pertinente.
Se for "produtividade por trabalhador", concerteza que se divide o PIB pelo número de trabalhadores.
Mas apenas "produtividade", não obriga a que seja por trabalhador.
De qualquer modo, a percentagem de trabalhadores na população é razoávelmente constante. Por exemplo, se a nossa taxa de desemprego descer de 16% para 6%, os trabalhadores aumentam 12%.
pc

Fernando Gonçalves disse...


"Querem mas não podem. Quatro em cada 10 jovens sem dinheiro para estudar":isto não é igualdade de oportunidades,isto não é eficiência porque mitiga a realização do potencial do indivíduo.A eficiência do pedro cosme pela via do poder capitalista pode levar a uma elevadíssima concentração de rendimento,em que em muitos casos nem se justifica pelo mérito,mas sim pela capacidade de intrusão política,pela promiscuidade entre o poder económico e político.Mesmo que acredite no lema que toda a oferta gera a sua procura,pode acontecer é que o investimento apenas sirva para satisfazer as necessidades dos mais ricos,isto é,o mercado pode crescer mais e mais mas não nos segmentos mais baixos.Mais consumo e menos investimento iria melhorar a vida de todos,até porque ao tornarmos a poupança mais rara todo e qualquer novo euro investido iria ter uma rentabilidade maior.O modelo de desenvolvimento que predomina no mundo está a acabar com muitos empregos mais trabalho intensivos destinados a produções mais associadas(em termos relativos) aos pobres(alimentação,vestuário,calçado)e a desviar-se cada vez mais para empregos mais qualificados mas em muito menor numero onde o valor acrescentado é alto,como é o caso de produção de automóveis de topo,de robots,de aparelhos sofisticados usados nas mansões de luxo,etc;isto é,em média a concentração de riqueza leva a uma produção mais capital intensiva onde quem tem a formação necessária pode até ter um bom salário,mas quem a não tem fica excluido,e como há cada vez mais excesso de mão-de obra(porque o crescimento da população é superior ao crescimento da população trabalhadora)o desemprego global é cada vez maior,então os países entram todos entre si numa competição cada vez mais feroz obrigando a que os salários se ajustem cada vez mais a essa realidade,e esse ajustar é ficarem cada vez mais desiguais entre quem tem capital humano e quem não o tem.O pedro Cosme até pode dizer que não bstante isso a economia no seu todo melhora,e mesmos os pobres estão menos pobres do que estariam com outro modelo, é verdade,mas a existência de alternativas piores não nos pode levar a não procurar melhorar o sistema,mas o que vejo não é isso,vejo os liberais a quererem que se mergulhe a todo o gás no modelo existente,mesmo com todos os seus defeitos.Quando se atacam pontos do modelo capitalista,lá estão eles a acenar com o socialismo,é como dizer a alguém que está gorda,e essa pessoa defender-se contrapondo os seus 100 kg a alguém com apenas 40 kg,muito magro.Será que eles não entendem que apenas se está a pedir justiça social,não que se acabe com o capitalismo. É contra este extremar de posições que sou contra. É necessária uma 3ª via que preencha o vazio social democrata que esta governação está a causar,ou então corre-se o risco da mesma se preencher com movimentos radicais,e tudo o que é radical é mau.

Fernando Gonçalves disse...

Quero ainda acrescentar que a forma como as empresas estão a actuar constitui uma verdadeira forma de dumping social e familiar,em que as pessoas em vez de 8 horas trabalham na prática 10 ou 12 horas,sem ganhar mais(porque teoricamente não é assumido)ameaçando assim todo o equilíbrio de uma saudável vida familiar e social,também por causa disso a natalidade está a cair a pique atingindo 82000 no ano passado.Mas claro,o que conta é as contas baixarem,o défice ser cumprido,não interessa com que custos humanos,isso é perfeitamente secundário no paradigma dominante,e não é nada bonito para se colocarem nos gráficos neoliberais.

João Pimentel Ferreira disse...

Eu acho que o caro Cosme tem muito erros conceptuais em relação ao socialismo. Num Estado socialista o cidadão é totalmente livre, tão ou mais livre como num estado capitalista. A clausura não é haver um regulamento administrativo para que eu possa ter direito a um carro, ou para que possa ter duas casas (quando vivo bem apenas com uma); a clausura é ser-se escravo, através da publicidade agressiva e incisiva, de uma série de bens que na realidade não preciso, e preciso de trabalhar, ou seja, gastar o meu tempo precioso, para suster todos esses bens frívolos que me são impostos como uma necessidade.

Se for pai, estabelece regras para partilhar equitativamente o seu dinheiro para os seus filhos. E mesmo que um tenha piores notas, o rácio de ganho entre os dois nunca será superior a cinco (digo eu). No mundo capitalista moderno, é como se o caro Cosme deixasse morrer à fome o seu filho que chumbou no exame, e oferecesse um Ferrari ao que teve 20. Aí o Cosme (o Estado) intervém!

Pense bem e reconsidere os seus modelos humanitários! Liberdade, não é Libertinagem, nem Pornografia. Redefina os seus conceitos de Liberdade! Felicidade, como muito bem disse!

Gonçalo disse...

Caro Ferreira, permita que discorde.

Se não precisa de um bem, não vejo porque irá adquiri-lo, a não ser que não seja imune à publicidade. Mas se não é imune, minimize a sua exposição. E se há tanta publicidade é porque são as empresas que são escravas e têm a necessidade de dar a conhecer os seus produtos e de nos convencer que são melhores que os da concorrência. Se vive bem com uma casa é porque não tem o prazer de ter mais! Felizmente, eu tenho e nada melhor que passar um fim de semana de sol na minha casa junto à praia e ter outra casa junto ao local de trabalho!

O seu tempo, se não se criasse tantos bens materiais "inúteis" seria ocupado a cultivar. Felizmente, passámos já bastante além da mera subsistência e ocupamos o nosso tempo a trabalhar precisamente para não ter de voltar a tal nível de vida.

No mundo capitalismo moderno, o fraco é protegido pelo estado através de impostos progressivos e há escolas, hospitais e transportes públicos, entre outros serviços fornecidos.

Quanto à igualdade, ela é bonita de apregoar, mas vou dar um exemplo:

suponha uma Aldeia, com 100 trabalhadores com rendimento mensal de 1000 euros cada.
Suponha agora que existe 1 cantor que visita a aldeia e cobra 10 euros por bilhete, vendendo 100. Ganha num dia o mesmo que os outros num mês. Suponha que o cantor vai a outras 19 aldeias, sempre com casa cheia. Ao fim de um mês ganha 20.000. 20 vezes mais que os da aldeia.
Junte mais meia dúzia de outros artistas, e lá começa a desigualdade e a concentração de riqueza.
Mas qual dos aldeões ficou pior? Não vejo nenhum a ganhar menos. Má sorte não ter dotes de artista, isso sim. Mas se todos o fossem, as pessoas não iriam pagar para ver/ouvir tais artistas. Nesse caso, seria antes má sorte ser artista.
O Bill Gates fundou a Microsoft. Graças a isso os PCs tornaram-se operáveis por qq leigo, o que permitiu o florescimento dos PCs e de tudo o que lhes está associado (apesar de haver melhores sistemas operativos na altura). Com isso o Gates tornou-se a pessoa mais rica do mundo. Bom para ele, bom para mim. Viver sem PC seria muito mais chato (ou será um bem de que não preciso e serei seu escravo??). Porque ganharia ele o mesmo que eu?
Porque ganharia o Ronaldo o mesmo que o Postiga? E porque ganharia eu, que sou um perneta, o mesmo que o Postiga?

João Pimentel Ferreira disse...

Caro Gonçalo, obrigado pela resposta, mas começa logo com um sofisma!

"Se não precisa de um bem, não vejo porque irá adquiri-lo, a não ser que não seja imune à publicidade"

Vive em que mundo? Desde quando nos dias de hoje as pessoas compram por "necessidade"? Não precisa de levar uma vida de asceta, mas o mundo moderno do consumo pode basear-se em tudo, menos na necessidade. Necessidade de 3 telemóveis, de comer carne de vaca todos os dias, de fumar 3 maços de cigarro por dia, de produzir 5km de lixo por dia, de ter um carro topo de gama, de ter um casa 200 vezes maior que a casa do comum dos mortais. Refere-se a que "necessidades"? Às mesmas necessidades da nobreza medieval? Estatuto? Imagem? Poder? Necessidades muito dúbias!

Se o homem moderno trabalhasse menos horas, sendo mais racional nos gastos e no consumo, o tempo extra, com a tecnologia corrente seria gasto em lazer! Passear com a família num jardim, ir à praia, aprender música, ler um livro, escrever em blogues! Há muita coisa boa na vida que é de borla, sabe? Volto a referir: precisa de 3 telemóveis e de um BMW topo de gama para ser feliz? Serão razoáveis perante as suas necessidades de comunicação e de mobilidade respetivamente?

Em relação ao cantor. Bem, se é um génio como parece que seja, ainda bem. O melhor retorno do artista é a apoteose do publico! O dinheiro vem por acréscimo e por certo daria para os seus gastos e ainda sobraria. Se o seu rendimento fosse o que refere, deveria ser taxado progressivamente de forma condizente.

Quando diz que "no mundo capitalismo moderno, o fraco é protegido pelo estado" refere-se ao modelo social Europeu, mas não é nada disso que se passa no país que é a sede ideológica dos liberalismo. Educação paga, saúde paga, justiça muito bem paga, etc.... Martin Luther King dizia que os EUA gastava mais dinheiro para matar um vietnamita do que gastava na saúde de um americano.

Cumprimentos

Gonçalo disse...

Caro Ferreira,

A única coisa de que necessitamos é de ar, água e comida. Sem isto não vivemos, tudo o resto não é imprescindível e é acessório.

A diferença é que agora é possível.

É possível ter 1 BWM, ou ter 10 ou mesmo 20. Há quem tenha. Há quem queira ter.
Há quem seja feliz assim. Há quem não seja. Há quem goste de mulheres, há quem goste de homens. Se o Ferreira não precisa, óptimo. O Ronaldo também não precisa, mas como pode, pimba. Conhece algum craque da bola que ande de Fiat Punto?

Antigamente lá em casa a TV era a preto e branco. Será que tinha mesmo necessidade de comprar uma TV a côres? A preto e branco não via? E agora, tem um LCD? 3D?
Antigamente tinha um leitor de cassetes. Será que tinha mesmo necessidade de comprar um leitor de CD's?

Gosta de blogues? Então deve ter um PC, ou tablet, ou smartphone, o que fôr. E então? É porque pode, certo? Mas um timorense se calhar já não pode. Para ele blogue é um luxo. Terão os ocidentais mesmo necessidade de blogues? Certamente que há timorenses felizes, sem blogues.
Mais de que necessidade, é a possibilidade de ter. Se eu ganhasse vários milhares por mês, andava num Clio? Claro que não. Ia escolher o melhor carro que coubesse no meu orçamento. Se um Ferrari coubesse, pimba.
Lá porque o Ferreira não tenha necessidade de 3 telemóveis, não quer dizer que haja quem tenha. Há quem não tenha carros e ande de bicicleta, há quem faça 200 mts de carro.

Cada um é como é e diferente do outro.

Se aquilo que não é necessário, não o é mesmo e toda a gente concorda com isso, as empresas produtoras das inutilidades fecham.

O Ferreira sabe porque é que as mulheres têm necessidade de ter dezenas de pares de sapatos? Eu já desisti de perceber a minha!

O homem moderno não é assim tão rico. É nalguns poucos países. Mais de metade do homem moderno vive na Índia e na China. Países pobres, ainda com bastante pobreza extrema. Acha que eles não almejam ter mais?

Curiosamente há pessoas que gostam de trabalhar, e ainda são pagas para isso! Quantas pessoas conhece que querem ter uma carreira profissional? Querem ser bons médicos, bons advogados, bons gestores, enfim querem ser bons.

Nos EUA preferem baixos impostos. Como tal têm pouco serviço público. Não deixa de haver protecção do mais fraco, embora menor ( nalguns casos bastante menor) que na Europa.
Mas em países como a China, a protecção é nula, ou quase.

Que há muitas coisas boas que são de borla sei eu. Mas também há coisas boas que não o são.
A não ser que viva perto de um jardim/praia, terá de ir de carro - custa $
Ler um livro - custa $
Para escrever blogues precisa de PC, Tablet ou outro - custa $
Aprender música - tem de ter instrumento e possivelmente pagar a um professor - custa $.

Afinal, o que é que é mesmo de borla?

João Pimentel Ferreira disse...

Caro Gonçalo, ótimo então estamos de acordo. Não precisamos aqui de estabelecer a pirâmide das necessidades da Maslow para percebermos que o homem trabalha 90% do seu tempo, para saciar as suas necessidades que estão no topo da pirâmide.

O problema é que trabalha como um escravo, feito mártir nessas 7 horas por dia, numa coisa que por norma detesta (veja estatísticas de quantas pessoas gostam do que fazem) para nas horas livres poder adquirir os bens que lhe vão saciar as necessidades do topo da pirâmide.

Mas as necessidades do topo da pirâmide quais são? Moralidade, criatividade, espontaneidade, confiança, auto-estima, conquista! Ora o homem moderno trabalha que nem um escravo 1/3 do seu tempo, para no outro 1/3 estar a saciar estas necessidades com o dinheiro que ganhou com a sua escravidão. Obviamente que precisa sempre de algum dinheiro, mas uma guitarra custa 30€, um livro custa 10€, uma ida ao teatro custa 20€, um CD custa 15€, ir ao jardim ou à praia não custa assim tanto, o passe mensal custa 35€ (lá está, necessidade de mobilidade) mas um BMW custa 50.000€.

Ora leia isto por favor e percebe a que me refiro.

Acho que não percebeu o meu ideário, devemos ser todos livres, mas temos que ser mais racionais naquilo em que gastamos e acima de tudo o legislador tem de corretamente internalizar no consumidor final os custos externos dos produtos que hoje em dia compramos. Segundo estudos da UE, por exemplo, cada km percorrido de carro em Portugal, tem um custo ao país de 0,15€.

Miguel Matos disse...

A trilogia da revolução francesa (liberdade, igualdade e fraternidade) é perigosa. Liberdade e igualdade não conseguem estar na mesma fórmula. Por isso concordo com o Gonçalo. Prefiro ter a liberdade de ser diferente dos outros.

João Pimentel Ferreira disse...

Caro Miguel. Incorre num erro filosófico crasso! Tem que definir o seu conceito de Liberdade! Para um Budista Liberdade é quando nos libertamos da clausura dos instintos, da lascívia, do desejo, do ódio, da raiva e atingimos a ascese máxima. Para um humanista ocidental é quando nos libertamos dos esclavagistas. Para Marx a clausura estava na imposição do Capital como única referência deificada sobre a qual tudo oscilava que apenas servia para manter a burguesia no poder! Para Mandela Liberdade era poder ir ao lugar que estava destinado aos brancos, mas hoje um pobre na África do Sul, pode, mas é como se não pudessem pois nunca terá dinheiro para entrar naqueles locais que lhe estavam antes interditos. Para Voltaire a Liberdade, estava essencialmente no pensamento e na Liberdade de expressão e de raciocínio, e pensar ainda é de borla!

Por isso, é completamente falso que o liberalismo económico preconize a Liberdade.

Gonçalo disse...

Amigo Ferreira,

Trabalhar 8 horas/dia é de escravo? Livra! Vá lá ver quantas horas têm os realmente pobres de trabalhar! O meu querido avô, um pobre agricultor, começou a trabalhar aos 9 anos. Todos os dias saía de casa às 06:00 para chegar às 19:00, jantar e ir dormir. Férias? Que era isso à 50 anos?? Fim de semana? Que era isso? Só ao Domingo não se trabalhava.
E coitado, o melhor que conduziu foi um Citroen Visa.

Um BWM é para quem pode, não é para quem quer.

Não é que não o tenha percebido ( creio), mas as pessoas gastam em função do seu rendimento. Quem tem rendimento para um BMW não anda de Opel Corsa! Cá em casa a mulher ouve rádio. Eu gastei uns milhares de euros na minha aparelhagem. Sabe porquê? Porque tinha rendimentos para isso. Podia ter gasto dezenas numa coisa mais fraquinha, mas não é para mim. Boa música merece boa aparelhagem ( e faz muita diferença!)

E no entanto, prefiro tempo a dinheiro, até certo ponto. Sacrifico de bom grado 1000 euros para trabalhar 8 e não 12 horas/dia. Mas faço-o porque as 8 horas dão-me rendimento suficiente para as minhas necessidades. Se não chegasse, arranjava um part-time

Cada um é como cada qual. Não concordo com meter tudo num só saco, e defender uma racionalidade que se adequa a si mas não necessariamente aos outros.

João Pimentel Ferreira disse...

Trabalhar é uma dádiva. Se não gostarmos daquilo que fazemos, é um martírio, nem que seja uma hora!

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