quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A Ucrânia e a Venezuela, é tudo economia

Eu estou muito ligado à Ucrânia 

porque a Olga (que é a minha chefe de manutenção doméstica) é da região de Ternopil (a Ucrânia está dividida em 24 regiões - oblasts mais a Crimeia e Svastopol que é uma base naval russa tipo Guantanamo). Além disso materializa a divisão étnica da Ucrânia porque é meia ucraniana (a mãe) e meia russa (o pai). 
Também tenho alguma ligação à Venezuela porque cruzo-me com muitas pessoas que estiveram por lá, incluindo um tio da minha mãe.
Estes dois países estão ligados pela conflitualidade social. 

Porque será que estão com problemas?
A razão está em anos sem crescimento económico.
Os povos destes países, em oposição aos de outros, vivem na ilusão de que têm direitos adquiridos, que os salários têm que ser dignos, que o capital não pode explorar o trabalho, que não querem as receitas neo-liberias do FMI, blá, blá, blá, blá, toda a conversa que também ouvimos por cá saída da boca dos esquerdistas. 
O problema é que com boas intensões está o Inferno cheio. 

Primeiro, vou comparar a Venezuela com o Chile.
Como sabem, o Chile foi o primeiro país do Mundo a adoptar o que veio a ser denominado pelos esquerdistas como o "neo-liberalisto". Nos finais dos anos 1970, charters de conselheiros económicos da Escola de Chicago voaram para o Chile para implementar as reformas necessárias para o Chile se tornar uma economia competitiva. 
Claro que os comunas criticaram muito isso, atiraram pedras e molotovs e o Pinochet, de forma errada, atirou-os para o meio do mar. O que os esquerdistas aplaudiam era o que se passava em Cuba onde também, e talvez mais, havia fuzilamentos mas disso não interessa falar. 
Por volta de 1980, o PIB per capita da Venezuela (7000USD) era quase 2,5 vezes o PIB pc do Chile e de Cuba (3000USD). O problema é que nos últimos 30 anos o PIB pc da Venezuela estagnou (regrediu  mesmo para 6500USD) e o do Chile multiplicou para 9500USD (ver, Fig. 1).
Ao longo dos últimos 40 anos, o rendimento dos venezuelanos convergiu mas para o nível cubano (ver, fig. 2). Foi a convergencia para o modelo esquerdista da miséria.
Quando os nossos comunas falam do "nivelamento por baixo" deveriam olhar para a Venezuela.
A Venezuela mostra que, afinal, políticas erradas podem mesmo transformar um país riquíssimo em petróleo num país miserável.

Fig. 1 - Evolução do PIB per capita do Chile, Venezuela e Cuba (dados: Banco Mundial, USD2005)

Fig. 2 - Evolução do PIB per capita da Venezuela e Cuba relativamente ao Chile (dados: Banco Mundial)

Também vou comparar a Ucrânia com a Polónia.
Eram dois países do bloco soviético que sofreram bastante com a mudança da economia centralizada para a economia de mercado.
Em 1991 a Ucrânia era mais pobre (um PIB pc de 55%) que a Polónia mas comparável. Decorridos 23 anos de independência, o PIBpc ucraniano diminuiu para 2000USD e, pelo contrário, o PIBpc polaco mais que duplicou para os 11000USD (ver, fig. 3).
Nos primeiros 5 anos de independência o PIB pc da Ucrânia caiu de 55% do PIB pc polaco para apenas 20% e teima em não sair daí (ver, Fig. 4).

Fig. 3 - Evolução do PIB per capita da Polónia e Ucrânia (dados: Banco Mundial)

Fig. 4 - Evolução do PIB per capita da Ucrânia relativamente à Polónia (dados: Banco Mundial)

E assim se constroem e destroem países.
A Ucrânia tem que observar o que a Polónia fez nos anos 1990 (desmantelamento do Estado, flexibilização dos mercados de trabalho e de bens e serviços, abrir a economia ao comercio internacional) e que já tinha sido feito pelo Chile nos anos 1980 e avançar, custe o que custar pois a alternativa é o continuar da estagnação.
Nos anos 1980 o Chile (e a China) avançou com o fim dos "direitos adquiridos" para a flexibilização da economia com base apenas no que os modelos teóricos publicados nos anos 1970 indicavam.
Hoje, dada a vasta evidencia empírica de que a flexibilização dá bons resultados, é muito mais fácil convencer as pessoas de que é esse o verdadeiro e único caminho do crescimento.

Em Portugal vive-se o mesmo problema 
Portugal não cresce desde 1999 e continuamos a arrastar os pés. Umas vezes não se podem aumentar os impostos e é preciso cortar na despesa mas, logo a seguir, não se pode cortar na despesa porque está-se a destruir o "estado social".
Umas vezes "aguentamos até 7%/ano de taxa de juro" (disse-o o Teixeira dos Santos em 2011) para logo se vir dizer que "5,11% é insustentável" (disse-o o Seguro em 2014).
Mas os Estaleiros Navais de Viana do Castelo terem sido liquidados mostra que é possível acabar com as empresas públicas que são o cancro da nossa economia. Mas isso custa muito porque na matriz dos "opinion makers" há semrpe a ideia do Estado secar tudo à volta.
Ainda no outro dia houve um estudo qualquer sobre os STCP feito por um fulano qualquer da FEUP (penso que por um fulano que já foi seu administrador) e lá apareceram as velhas receitas do monopólio. Defendem que é preciso reforçar o monopólio dos STCP proibindo ainda com mais força a concorrência que as empresas privadas fazem "ilegalmente".
Estes iluminados esquecem-se que as empresas públicas apenas existem para garantir o direito constitucional ao transporte dos cidadãos que os privados não queiram fornecer.
O objectivo dos STCP não é transportar as pessoas com prejuízo mas apenas transportar quem não tem alternativa.
Então, sempre que um privado  se proponha fazer o serviço SEM ENCARGOS PARA O ESTADO, a empresa pública tem que recuar.
Pura e simplesmente, todas as linhas que os privados, seja a Gondomarense ou outra qualquer empresa ou pessoa, queiram fazer, façam favor, competindo pelos passageiros baixando o preço e não pagando concessões.
Nas linhas e horários que nenhum privado queira fazer, aí e só aí, entram os deficitários e mal geridos STCP.

E a questão étnica da Ucrânia?
20% das pessoas que vivem na Ucrânia são russos. No Sec. XVIII a Rússia conquistou, como nós fizemos no Sec. XII, os territórios a Sul ao "mouros" e foram-nos colonizando com russos. Em 1944 o Estaline pegou mesmo em toda a população não russa da Crimeia (os Tártaros) e enviou-a para a Sibéria onde morreu mais de metade.
Mas vamos supor que a Ucrânia fica reduzida em 20%. Ainda assim, fica um grande país, com 35 milhões de habitantes e 480 mil km2, o dobro do tamanho do Reino Unido (244000km2)  e maior que a Alemanha (360000km2).
E a história mostra-nos que é mais estável um país pequeno que um aglomerado de etnias que se odeiam.
Os tártaros são os pretos da Crimeia mas actualmente só somam 10% da população. Será que têm direito à auto-determinação e a expulsar a maioria russa, direito que foi reconhecido, em 1948,  ao Estado de Israel?

Fig. 5 - Uma ucraniana é assim (muito diferente da minha chefe de manutenção)

Fig. 6 - Mas não faz muita diferença relativamente a esta russa (também já tive uma chefe de manutenção russa e não era nada parecida com esta barbie)

O mais certo é tudo como ficar como está.
De jure mas de facto a Ucrânia vai passar a ser muito mais descentralizada.
Se o governo actual futuro der autonomia às oblastas e avançar para um modelo federal, a coisa estabiliza como a federação croata -muçulmana da Bósnia que, de facto, são 2 estados. 
Depois, com umas ajudas da UE que podem ser de 8MM€/ano de fundos de coesão (5% do PIB) e com as reformas indicadas pelo FMI, a Ucrânia pode iniciar o caminho de desenvolvimento que a Polónia está a trilhar desde há 20 anos. 
A Ucrânia precisa, no curto prazo, de 20000M€ mas é pouco para recuperar um país europeu que deu 6 milhões de vidas na luta contra o nazismo. Dá só 3300€ por cada morto.
E se compararmos com Portugal que, com 10M habitantes recebeu um resgate de 78000M€ mais 50000M€ de "cedências de liquidez", não é quase nada.

E a Rússia?
Não tem capacidade de intervenção porque a sua economia é muito pequena e está a sofrer um grande desgaste na Síria quer financeiro (porque fornece bens a crédito) quer moral pois apoia um regime totalmente sanguinário e que piora a cada dia que passa.
Apesar de, na conversa e face à Geórgia, a Rússia ser uma grande potência, de facto é uma economia da dimensão da França mas com o dobro das bocas para sustentar.
Interessante que na Síria já mataram muito mais que 100 mil pessoas e o regime aguenta-se e na Ucrânia bastou matarem 80 pessoas para o regime cair. Isso mostra que o lugar deles é na União Europeia, custe o que custar.
Vamos ter esperança.

Pedro Cosme Costa Vieira

1 comentários:

silas felix disse...

Uma comparação baseada apenas no PIB pc é super superficial, isso não mostra o nível de desigualdade e concentração de renda do país, muito menos a qualidade de vida da população.

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code