sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

As exportações estarão mesmo a aumentar?

O governo diz que sim mas a oposição diz que não.

Para o comum dos mortais não é compreensível a discussão quanto a haver mais ou menos exportações mas para os especialistas, como o seu aumento traduz que o país se está a especializar nas actividades em que tem vantagens comparativas, mais exportações é bom para a saúde.
 
O que é isso das vantagens comparativas?
É um conceito de difícil apreensão mas que um exemplo (com vantagens absolutas) permite dar uma ideia das vantagens do comércio entre o países.
Vamos supor um país frio e chuvoso (a Inglaterra) e um país quente e seco (Portugal). Se as pessoas precisarem de consumir lã e vinho, em vez de cada país produzir ambos (o vinho inglês não presta), o melhor é a Inglaterra produzir lã e Portugal produzir vinho (a Inglaterra tem vantagens relativas na Lã e Portugal tem no vinho). No final, a Inglaterra exporta Lã e importa Vinho e Portugal exporta Vinho e importa Lã e todos viveremos mais felizes. 
Assim, é bom que os países importem muito e exportem muito porque traduz que cada vez mais, as pessoas estão a trabalhar no que sabem fazer melhor.
 
Haverá algum valor que seja bom?
Em termos teóricos, não existe um valor indicativo até porque os países maiores têm menos exportações (em termos de % do PIB) porque têm regiões e processos de fabrico mais diversificados. 
Se pegarmos nos países semelhantes a Portugal (que têm entre 8 e 12 M de habitantes), a média das exportações de bens e serviços é de 43,4% do PIB Para vermos da importância da dimensão do país, a média dos que se comparam com a Espanha (entre 40 e 50 M) exportam 33,9% do PIB.
Corrigido o efeito a dimensão, observa-se que os países que exportam menos também são os mais pobres pelo que não interessa estar muito abaixo da média.
Recordo que, à escala global, o total de exportações é igual ao total das importações pelo que, é bom que os países tenham balanças comerciais próximas do equilíbrio.
  
As exportações mundial aumentam de ano para ano.
É bom exportar mais não havendo um limite superior para as exportações, por exemplo, as exportações do Luxemburgo são 175% do PIB.
No futebol, as equipas são treinada por pessoas cada vez com mais conhecimentos sobre o treino avançado. Também na economia, cada vez mais países são governados por pessoas que cada vez sabem mais de governação.
Juntando a isto a diminuição dos custos de transporte (por exemplo, exportar uma música via internet tem custo quase nulo) o comércio internacional tem crescido de década para década.
É a globalização.

Fig. 1 - A globalização também se traduz na uniformização dos padrões de beleza.
 
As exportações portuguesas estão a crescer e o défice de B&S a diminuir.
Olhando para os dados do Banco Mundial, entre 1986 e 2011 apesar de as exportações terem aumentado 5 pp, de 26% para 31%, estávamos muito distantes da média dos países da nossa dimensão, 44%. Desde 2010 as exportações cresceram 9 pp para 40% do PIB (Fig. 2). Se é bom aumentar as exportações porque traduz uma transformação da nossa economia então, tem que ser realçado o facto de nos últimos 3 anos as exportações terem aumentado o dobro do que tinham aumentado nos anteriores 25 anos.

Fig. 2 - Evolução das exportações em percentagem do PIB (Dados: Banco Mundial)

E a balança de bens e serviços equilibrou.
Os esquerdistas têm referido que as exportações têm aumentado à custa da re-exportação de produtos petrolíferos que são refinados em Sines. Se isso for verdade então, o saldo da balança de bens e serviços mantém-se deficitária em 9% do PIB como se observou na década de 2000. Mas o dados mostram que a balança de B&S corrigiu (Fig. 3). Assim, as exportações não são devidas a re-exportações mas são valor acrescentado português que está a ser usado para pagar as importação dos bens e serviços que precisamos.

Fig. 3 - Evolução das balança de bens e serviços em % do PIB (Dados: Banco Mundial)

Vejamos a evolução das exportações de produtos refinados
Já vimos que a tese dos esquerdistas não colhe mas vou meter as mão na masa e ver as exportações de refinados.
Se as exportações aumentaram 9% do PIB, os esquerdistas a terem razão, as exportações em refinados (produtos 27 e 29) devem ter aumentado nesta ordem de grandeza.
O problema é que a exportações deste tipo de bens só aumentou em 2 % do PIB (Fig. 4), ficando ainda 7% do PIB por explicar.

Fig. 4 - Exportações de produtos refinados (produtos 27 e 29 do INE) em percentagem do PIB.

27: Combustíveis minerais, óleos minerais e produtos da sua destilação; matérias betuminosas; ceras minerais
29: Produtos químicos orgânicos

Falso a 78%.
Os esquerdistas sabem que ninguém vai ver se de facto as exportações são causadas pelo aumento dos refinados ou por outra coisa qualquer e, por isso, podem bombardear os novos ouvidos com mentiras grossas que ninguém vai dizer nada.
Até já ouvi o Bagão Felix dizer que "as exportações têm aumentado mas parece que tal se deve à nova refinaria da Petrogal".
Apenas 22%  do aumento das exportações se deve aos refinados.

Fig. 5 - Exportamos esta portuguesa para trabalhar como enfermeira em Inglaterra


Fig. 6- Importamos esta  ucraína para fazer limpezas em Portugal (se a minha fosse assim, eu já tinha ido à falencia economico-financeiras e física).

Pedro Cosme Costa Vieira

3 comentários:

Unabomber disse...

A balança de bens e serviços não melhora só com o crescimento das exportações. Melhora também com a diminuição, ou menor crescimento, das importações.

Ricciardi disse...

Volume de negócios das exportadoras portuguesas:
2010 - 85,5
2011 - 99,7 (+16,6%)
2012 - 104,1 (+ 4,4%)

VAB das exportadoras portuguesas:
2010 - 19,0
2011 - 19,5 (+ 2,6%)
2012 - 19,9 (+ 2.0%)
(Fonte: INE)
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Et voilá, se duvidas houvessem, aí está a demonstração de que a propaganda acerca do milagre exportador não passa disso mesmo: propaganda.
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Em termos mais simples, o volume de negócios são as vendas que as exportadoras fazem para o estrangeiro. O VAB é o valor que resulta da diferença entre as vendas e as compras que as exportadoras fazem ao estrangeiros; é, digamos, para simplificar, o lucro que as vendas ao exterior têm.
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Assim, o Volume de Negocios das exportadoras cresceu, de 2010 a 2012, cerca de 21.7%. O VAB das exportadoras cresceu 4,7%.
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Isto quer dizer que o pessoal desatou a vender mais ao estrangeiro (21,7%) mas o lucro dessas vendas teve um crescimento de apenas 4,7%. Em 2013 intuo que a situação tenha sido ainda mais esclarecedora.
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Ou seja, as margens de comercialização reduziram-se fortemente. É a tal consolidação colada a cuspe e que o FMI denunciou recentemente mas que o governo insiste em não querer ver.
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Agora, vejamos, como é possivel, caro professor, que as exportações tenham aumentado substancialmente e, no mesmo periodo, a PII (Posição de Investimento Internacional) se tenha degradado?
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A PII mede a diferença entre as disponibilidades do país sobre o exterior versus as responsabilidades do país para com o exterior. É uma espécie de balanço do país.
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Isto quer dizer que as exportações se estão a fazer a perder dinheiro ou com margens reduzidissimas.
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Para melhor ilustrar o meu ponto de vista, dizer que existem duas opticas de analisar um aristocrata em decadencia:
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a) A de tesouraria (balança de bens e serviços)
b) A patrimonial e de tesouraria (PII)
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-Se olharmos apenas para a óptica al. a) o aristocrata, que vai vendendo bens todos os anos para viver, demonstra ter um rendimento fabuloso.
- Se olharmos para a optica al. b) o aristocrata está a empobrecer paulatinamente; a vender activos para obter receitas.
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A situação do ajustamento externo portugues parece-me ser o caso da al. a). Infelizmente.
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Cumpts.
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Económico-Financeiro disse...

Estimado Ricciardi,
O FMI aletou para o problema do esmagar das margens das exportadoras e eu escrevi um poste sobre a questão (já não sei onde está). Margens esmagadas levam à redução do investimento. A situação só se tornará sustentável se os custos do trabalho diminuirem (o que está a acontecer).

As exportações aumentarem mesmo mantendo-se o VAB constante é positivo porque traduz que nos estamos a especializar no que sabemos fazer melhor impostando o que sabemos fazer pior. Produzimos e exportamos carros gama média e importamos carros gama alta.
É exactamente esta a vantagem da abertura das economias: a especialização nas actividades em que os países têm vantagens comparativas.

Um abraço,
pc

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