sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O Robocop 2014

Hoje vou falar um bocadinho de ficção económica. 

A ideia de um artefacto poder libertar o homem dos trabalhos mais penosos e de menor valor já vem desde a pré-história.
Primeiro, domesticamos animais para carregar cargas, puxar carros e arados, correr atrás da presa e para nossa defesa pessoal.
Depois criamos as máquinas movidas pela força hidráulica, pelo vapor e pelos motores a explosão ou eléctricos.
Nas últimas décadas, criamos máquinas programáveis (os robôs) que têm vindo a substituir a força humana em tarefas que se pensava impossível como, por exemplo, pegar numa chapa de aço e transformá-la na carcaça de um automóvel, quase sem intervenção humana.
Um robô não é mais que uma máquina (mecânica ou virtual) que executa tarefas complexas segundo um programa de computador. Aparentemente, o robô é autónomo mas, na realidade, apenas executa as tarefas previstas pelo programador em função da informação que a máquina vai recolhendo do meio ambiente.

"Os robôs vão acabar com os empregos". 
Os pessimistas vêem nos robôs (e na mão de obra barata da Ásia) uma ameaça ao seu emprego mas, na realidade, é a robotização que tem permitido que, ano após ano, fiquemos a viver melhor. Claro que todos nos queixamos da crise mas, se olharmos por cima das flutuações do dia a dia, é um facto que hoje vivemos muito melhor e trabalhamos muito menos e em ocupações muito mais agradáveis que o fizeram os nossos pais e avós quando eram da nossa idade.
Recordo-me de ser criança e de ver os meus vizinhos  (a ti Aurora e o ti Durbalino, que já lá estão) a trabalhar nos campos. Há 40 anos atrás, trabalhavam ao sol e à chuva num trabalho muito duro e nada aliciante, 12h/dia com apenas metade do Domingo para descansar.
A preços de hoje, os meus vizinhos tinham um rendimento de 1,30€/hora pelo que, trabalhando como agora 40h/sem, teriam um salário de 175€/mês, menos que os 178€/mês que recebem os do RSI - rendimento social de inserção, sem fazer nada.
E os meus vizinhos consideravam-se riquinhos.


"E no meu tempo é que era, trabalhar até cair e passar fome de rachar"
diz a minha mãe que se lembra do funeral do pai do ti Durbalino (o pai era armador) "em que foi preciso correr o lugar para pedir umas meias emprestadas e fazer uns sapatos de cartão que, depois de engraxados, até davam uma vistinha" terminando sempre a dizer que "falam de crise mas hoje os filhos andam em bons carros, têm boas casas e os netos andam a estudar, que eu queria e não pude".
Em 1959 o meu pai comprou um carro do mais fraquinho que havia (um Carocha) por 52000$00, que a preços de hoje, são 22500€. Hoje, por este preço, compra-se uma limusina.

Fig 1 - A linha robotizada de montagem de carcaças de automóvel permitiu a democratização do automóvel.

O importante não é trabalhar mas é produzir riqueza.
Numa sociedade o importante não é haver trabalho para fazer pois disso há sempre e em demasia.
O importante é produzir riqueza, bens e serviços, pois é disso que precisamos para sermos felizes.
Depois da produção, apenas há o problema da distribuição que, ao longo dos últimos séculos,  tem sido resolvido razoavelmente bem.
Na Arábia Saudita ou no Kuwait pouco se produz com o trabalho (a produção sai da Terra) e não me consta que as pessoas de lá se queixem de falta de trabalho.

Mas os robôs não são humanoides.
No imaginário das pessoas, um robô tem que ter pernas, braços, tronco e cabeça mas a realidade não tem nada a ver com esse imaginário.
É aqui que falham totalmente as previsões levadas a filmes como o Robocop.
Os robôs mecânicos reduzem-se a um braço. Por exemplo, a estação orbital internacional tem um robô exterior, o Canadarm2, que é usado para apanhar as naves de re-abastecimento. Tem uma forma comprida com 17,6 m de extensão e apenas 35 cm de diâmetro (ver). O Canadarm2 pode "caminhar" por todo o exterior da estação saltando (ora ancora a "mão", ora ancora o "ombro") entre os pontos que têm uma "tomada" de electricidade, auxiliado pelos seus 4 "olhos".

Fig. 2 - A estação orbital internacional tem um robot exterior, o Canadarm2 (a barra vermelha mostra a relação entre o comprimento e o diâmetro do robô).

Hoje a maioria dos robôs é virtual.
É o multibanco que, mediante a informação que introduzimos, vai à nossa conta bancária retirar o dinheiro e encaminha-o para o destino pretendido.
É o pórtico da SCUT que detecta que passamos lá, vai à nossa conta e retira o dinheiro e ainda envia para os clientes da Via Verde uma carta a avisar.
É a execução das ordens de compra e venda de activos financeiro que damos pela internet.
É carregarmos num botão do comando do nosso televisor e o robô ir a um repositório procurar o telejornal que passou ontem e envia-lo para o nosso televisor.
Mas o mais famoso de todos os robôs é o Google que tem um "aranhão" que envia as filhinha (as "aranhinhas") pelos ligações de internet e, assim que uma "aranhinha" chega a um servidor de páginas de internet, reproduz-se e envia filhinhas por esse mundo fora até o "contaminar" todo. Nós também temos vários robôs deste tipo a "trabalhar" no nosso computador (são as "cookies").
Já alguém imaginou quanto empregos se criariam se a recolha, processamento e pesquisa que os robôs virtuais da Google fazem fosse feita pela mão de humanos?
Nenhum. Pura e simplesmente, esse serviço não existiria pois não cria suficiente riqueza para justificar o uso de trabalho humano. Seria idêntico a obrigar os comboios a ser empurrados por humanos pensando que isso acabaria com o desemprego: pura e simplesmente, deixava de haver comboios.

O polícia do futuro já existe.
Mas não tem o aspecto do robocop nem anda por aí a dar tiros.
São as câmaras de vigilância que observam o movimento das pessoas, são os pórticos das autoestradas que seguem os nossos carros, são as torres de telecomunicações que registam por onde passa o nosso telemóvel, são as finanças que sabem quando pedimos factura.

São os drones voadores.
Que têm uma mobilidade muito maior que qualquer robô humanoide.
Os drones podem estar dormentes no porão de um navio qualquer e, a milhares de kilómetros de distancia, alguém decidindo que precisa de informação, o drone obedece e levante voo a caminho do alvo que pode estar a centenas de kilómetros (sem intervenção humana).  
Uma vez nas proximidades do alvo, avisa o seu "senhor" que assume os comandos recolhendo milhares de fotografias e vídeos de elevada resolução.
Além de não haver exposição do operador ao perigo, um mesmo operador pode controlar/utilizar vários drones ao mesmo tempo, multiplicando assim o poder de observação e de fogo.

Como eu imagino o policiamento do futuro.
Vai-se basear na observação.
Haverá sensores capazes de observar com o mesmo detalhe que um polícia em patrulhamento.
Haverá câmaras, microfones, sensores de telemóveis, leitores de matrículas fixos nos locais onde passam mais pessoas.
Haverá também drones que, em caso de necessidade, se movem rapidamente para locais não coberto e é preciso recolher informação, por exemplo, caiu um avião numa zona remota ou aconteceu uma tragédia climática.
A informação recolhida pelo sistema será prescutada pelos robô informáticos, algoritmos complexos que tentam identificar situações anómalas, por exemplo, num pórtico de autoestrada deixarem de passar carros.

Fig. 3 - Polícias destes vão acabar.

O sistema chama uma pessoa.
Classificada pelos robôs uma situação como anómala, o sistema pede a intervenção humana tocando uma companhia na casa de uma pessoa que pode estar a centenas de kilómetros de distancia.
Alguém que está em casa, mesmo uma velhinha qualquer acamada, ouve a campainha e, querendo entrar ao serviço, carrega no OK. Se a pessoa demorar mais que X segundos a responder, o sistema escolhe outra pessoa.
A pessoa que entra on-line recebe na sua conta bancária um quantitativo em dinheiro. Estes quantitativos são determinados em leilão.

O sistema envia informação para avaliação.
No monitor aparecem imagens, sons e outra informação sobre o local onde se passa a situação identificada como anómala com o detalhe que o robô considere adequado para o agente tomar uma decisão mas mantendo tanto quanto possível a privacidade das pessoas que andam no espaço público.
A pessoa acompanha a situação classificando os movimentos das pessoas como normais ou anormais  (como os likes do facebook) e o sistema vai reavaliando continuamente a situação. O sistema, se achar necessário, pede ajuda a mais agentes, recebendo várias classificações para o comportamento de cada indíviduo.

Fig. 4 - Amor, sei que está a gostar de estar aí em baixo mas, como o alarme está a tocar, vou parar e entrar em vigilância.

O sistema envia informação para o local.
Identificada uma situação potencialmente perigosa, o sistema acciona alarmes de incêndio, aconselha caminhos seguros a sair, chama bombeiros para o local ou forças policiais. Recolhe ainda informação para futuramente obrigar os vândalos a pagar os estragos ou para ser usada na prevenção e combate ao terrorismo ou em julgamentos criminais.

Os robôs também são usados na guerra.
São os drones e os misseis, torpedos e bombas inteligentes.

Fig. 5 - Uma verdadeira bomba inteligente.

Vejamos como um robô ajuda o combatente.
Quando se dispara uma arma, imaginando a linha de laser, a bala vai-se desviar do objectivo porque 1) o alvo move-se, 2) a gravidade puxa a bala para o chão e 3) o vento lateral desvia a trajectória da bala. Então, apesar de uma arma de grande calibre como a Braunning 0.50BMG ser capaz de atingir um alvo a mais de 3000m (tem uma velocidade de saída de 1220m/s = 4300km/h), a capacidade humana não consegue fazer os cálculos necessários para a bala corrigir a tragectoria da bala até ao alvo.
Para uma velocidade média de 600m/s, a bala demora 5 segundos a percorrer 3000m pelo que é preciso compesar uma queda relativamente à linha de laser de 125m e, numa pessoa a pé, descontar os passos dados nesse período de tempo.
Agora imaginemos que existem câmaras que seguem o movimento do alvo e a trajectória da bala. Então, o soldado identifica o alvo a atingir e apenas lhe aponta um laser e carrega no gatilho.
A máquina, usando câmaras de observação e formulas matemáticas calcula a direcção em que a bala deve ser disparada. Agora existe a possibilidade de o robô observar, decorridos apenas 0,5 segundos, que a bala se desviou por causa do vento lateral e, re-introduzindo essa informação no sistema, calcular nova trajectória e disparar nova bala. Então, a arma vai disparar automaticamente uma rajada de balas usada cada uma para "medir" os elementos necessários para calcular a trajectória que permite atingir o alvo.

Fig. 6 - AO fim de 0.5s, o sistema robótico detectando que a bala se desviou da trajectória idealizada, corrige o cálculo e faz novo disparo, automaticamente.

Mas cada vez há mais há intervenção humana.
Nos países onde há pena de morte, decidir que uma pessoa deve morrer é uma decisão complexa e moral muito difícil. Mas na guerra, a decisão de matar está no dedo de quem dispara a arma. Ainda pior são os bombardeamentos ou as minas anti-pessoal que matam sem ninguém julgar e decidir em concreto a pertinência de cada uma das mortes causadas.
Contrariamente ao previsto nos filmes apocalíticos, as mortes apoiadas por sistemas roboticos dependem cada vez mais da decisão humana, tomada de forma mais cuidadada e mais informada.
Se compararmos as mortes "cirúrgicas" da guerra israelo-palestiniana com as mortes "tradicionais" da guerra civil síria, vemos como os sistemas tradicionais são uma selvajaria.

Os filmes são sempre pessimistas.
A ficção científica tem uma visão muito pessimista do futuro acabando sempre com uma guerra entre máquinas e humanos em que a humanidade é atirada para a miséria e o sofrimento.
No Planeta dos Macacos a ficção chega mesmo ao limite de o progresso tornar os humanos escravos dos macacos.
Mas o futuro será muito melhor que o presente.
Há 15 dias, enquanto no judo fazia umas cambalhotas, notei uma dor de dentes. Então, na segunda feira passada fui ao dentista e, apesar de me ter doido um pouco, o Barros aplicou um revestimento num dente que tinha erosão na raiz e que não existia ainda há meia dúzia de anos. Se não fosse esse progresso, daqui a pouco o meu dente ia à vida.
Aproveitei para tirar um bocadinho de tártaro e deu que doeu um bocadinho dando para imaginar como seria miserável a vida mesmo do homem mais rico do Séc. XIX quando tinha que arrancar os dentes sem anestesia.

Fig. 7 - Hoje, a cirurgia estética até transforma um bocado de pele murcha numas mamas extraordinariamente boas. 

Pedro Cosme Costa Vieira

1 comentários:

Daniel disse...

Excelente artigo, parabéns.

O que é que o Professor pensa sobre a possibilidade de rejuvenescimento no futuro próximo, ou da nanotecnologia fazer os humanos viver indefinidamente?

E se não for (ainda) para nós, já considerou cryonics? Obrigado.

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