terça-feira, 4 de março de 2014

A saída limpa; a crise da Ucrânia

Hoje, a situação financeira do Estado está melhor do que estava no tempo do Sócrates. 

Comparando as taxas de juro de hoje com as que se viveram no período 2005/2009, hoje o Estado consegue-se financiar a uma taxa de juro significativamente mais baixa. 
Apesar de a taxa de juro a 10 anos estar mais elevada (era 4,1%/ano e está nos 4,9%/ano), nos prazos menores está mais baixa. Por exemplo, no prazo de 12 meses, no tempo do Sócrates o Estado pagava 3,7%/ano e agora paga 0,75%/ano.

Prazo (anos)   Agora Sócrates
1                 0,75% 3,7%
2               1,88% 3,4%
3               2,16% 3,5%
4               2,83% 3,6%
5               3,73% 3,7%
10             4,85% 4,2%
Quadro 1 - Comparação entre as taxas de juro de agora e no primeiro mandato do Sócrates (fonte. www.investing.com)

A divida pública é colocada a diversos prazos.
Apesar de a taxa de juro a 10 anos estar agora maior em 0,75 pp que no tempo do Sócrates, a divida pública é um mix de prazos de que resulta, em média, um prazo muito menor que os 10 anos e uma taxa de juro também mais baixa. Se compararmos com a maturidade média dos Estados Unidos da América de meados de 2008 (4,1 anos), Portugal conseguirá hoje uma taxa de juro de 2,5%/ano, enquanto o Sócrates tinha que pagar 3,7%/ano.

Anos Agora Sócrates    Diferença
2        1,6%       3,5%           -1,9%
3        2,0%       3,6%           -1,6%
4        2,5%       3,7%           -1,2%
5        2,9%       3,8%           -0,9%
6        3,4%       3,8%            -0,3%
7        3,8%       3,9%            -0,1%
Quadro 2 - Taxas de juro para uma maturidade média, (cálculos do autor a partir do Quadro 1)

E o que diziam em 2005-2009 os esquerdistas sobre a taxa de juro de 3,7%/ano?
Que eram historicamente baixas.
Que o Estado tinha que aproveitar as taxas de juro baixas para promover a modernização do país. Estava na hora de avançar com os TGVs, Metros, auto-estadas, vira-ventos, portos e toda a mais loucura que gastasse dinheiro. 
Diziam eles que um investimento de 1000 milhões € teria um impacto orçamental de apenas 37 milhões€ por ano mais que compensado pelos impostos que resultariam do crescimento económico que esse investimento iria causar (previam um impacto no PIB de +2500 milhões €). 
Claro que já todos sabemos que o impacto no PIB foi zero e que agora temos uma dívida colossal para pagar.

Fig. 1 - Aí meu Deus que vou ter que beijar o Cristo Salvador. Isto está muito melhor do que no tempo do Sócrates.

E o que dizem hoje os esquerdistas sobre a taxa de juro?
Que 2,5%/ano é muito elevado.
Que Portugal não consegue pagar 2,5%/ano sobre a divida pública que eles fizeram com o argumento que as taxa de juro de 3,7%/ano era muito baixa. 
Já ninguém se deve lembrar disto o que é natural no Sócrates que, tal qual como uma galinha tonta, não se lembra de nada.
Mas o Teixeira dos Santos devia-se lembrar desse discurso mas diz que não se lembra.

Em 2005-2009 o Sócrates não  precisou de um "programa cautelar".
Então, em 2015-2019, o Passos também não vai precisar. 
No segundo mandato do Passos Coelho, mantendo-se a contenção actual, a situação financeira vai voltar a ser totalmente normal. 

E o que irá o Seguro inventar como buzzword?
Vai ser complicado porque colocou o desempenho do governo agarrado à "saída limpa".
Lá vai arranjar uma desculpa qualquer mas não vai ser a mesma coisa. 

A invasão da Ucrânia é uma loucura do Putín. 
O Mundo foi afectado pela crise do sub-prime de 2008-9 mas a Rússia foi particularmente castigada a ponto de ter passado de uma década em que o PIB per capita cresceu +8,0%/ano para, decorridos 5 anos, o PIB pc ainda estar ao nível de 2008 (ver, Fig. 2).
Se o PIB continuasse o crescimento da década 1999-2008, hoje o nível de vida russo seria 40% superior ao que é.
O povo foi desculpando os despotismos do Putin com o crescimento económico. O problema é que o Putin foi ganhando a alucinação de que era o novo czar de uma super-potência mas a economia não respondeu. Agora precisa de distracções para manter o povinho iludido. 

Fig. 2 - PIB per capita russo (tradingeconomics)

Mas terá lógica a argumentação de na Crimeia a população ser maioritariamente russa?
Esta mesma lógica foi usada nos anos 1930 pelo Hitler para invadir, destruir e anexar a Áustria, a Checoslováquia e a Polónia. Primeiro, invadia um território, depois, matava todos os "estrangeiros" e, finalmente, anexava o território porque já era maioritariamente povoado por alemães.
Em 1944 o Staline pegou em TODAS as pessoas não russas que viviam na Crimeia e enviou-a para a Sibéria ficando, naturalmente, a maioria a ser russa. 
A História ensina que a validade da tese de que o território pertence às pessoas que lá vivem que, por referendo, podem escolher pertencer a outro país, leva à limpeza étnica e, por causa disso, não pode ser aceite num mundo minimamente civilizado. 

Fig. 3 - No sec. XVII a Ucrânia fazia parte da Polónia e, até 1773, a Crimeia era um principado turco-mongol (um Khanato) muito maior que a ilha da Crimeia.

Terá Cabinda direito à auto-determinação?
É um território geograficamente autonomizado, com uma área que é o triplo do Luxemburgo (tem 7270km2) e com 350 mil habitantes. Em termos históricos é a continuidade do Reino de Kakongo que se tornou em 1885 protectorado de Portugal que o manteve como colónia até 1954, altura em que o ofereceu a Angola de que dista cerca de 50 km (no meio fica o Zaire - Républica do Congo). 
É uma história semelhante à Crimeia que também em 1954 foi oferecida pela Rússia à Ucrânia. A única diferença é que a Rússia, em 1944, tinha pegado em toda a população não russa e tinha-a mandado para a Sibéria.
Será que hoje Portugal poderia pedir um referendo em que os cabindos pudessem votar pela anexação a Portugal como região autónoma? O problema é que, havendo essa possibilidade, os angolanos pegavam nos cabindas todos e enfiavam-nos no Namibe.

E a Ucrânia terá direito à de-russificação?
Na Ucrânia cerca de 80% da população identifica-se como ucraniana. Será que a Rússia reconhece o direito à Ucrânia de fazer um referendo com o fim de expulsar de volta ao território da Rússia todas as pessoas que se dizem russas?
Se o Putin diz que invadiu a Ucrânia porque há lá russos que rpecisam de ser protegidos, tem que o fazer mas dentro da Rússia. Tal como Portugal fez em 1975, tem que pedir o retorno dos russos aos seus territórios de origem.

E qual seria a dimensão mínima do território para se poder emancipar? 
Também grave é o problema prático da dimensão mínima do território a "auto-determinar".
Será que um acampamento cigano tem o direito a realizar um referendo e declarar a independência de Portugal? 
Bem, o Estado do Vaticano só tem 834 habitantes e Seranica foi um Estado encravado no meio de Itália que existiu entre 1343 e os finais do Sec. XVIII e que só tinha 300 habitantes. 
E as quintas do Alto Douro, maioritariamente ocupadas por ingleses, será que se poderiam unir ao Reino Unido?
E o faroleiro das Berlengas pode-se autodeterminar?

fig. 4 - Vamos fazer um referendo para nos tornarmos independentes. Nunca mais cá entram os da ASAE à procura das T-shirts. 

Mas a Crimeia já foi russa.
Mas até meados do Sec. XVIII era Turca e a Rússia nunca falou em retornar o território à Turquia.
Kaliningrado era, até 1945, alemã (a Prússia Oriental) e a Sacalina era japonesa e foram  ocupados pela Rússia e, que me conste, a Rússia não fala em entregar nenhum destes territórios ocupados depois da II Guerra Mundial aos seus anteriores países. 

E a Chechenya, Inguchétia e Daguestão já foi independente.
Em 1917 formaram um estado independente que foi em 1921 invadido pelos soviéticos. Em 1940 o Staline pegou em toda a população e deportou-a para a Sibéria.
Não nos podemos esquecer que a primeira acção do Putín enquanto presidente da Rússia foi ordenar a invasão e destruição da Chechénia que, desde 1996, vivia uma independência de facto.
Ninguém fale ao Putín em pensar em fazer um referendo à determinação chechena.

E é provável que, num referendo livre, os crimeus optem por continuar na Ucrânia. 
Também na Áustria se fala alemão e os austríacos nunca quiseram pertencer à Alemanha.
Actualmente a Crimeia é, de facto, um país independente e sabe que o objectivo da Rússia é ter na sua mão a base naval de águas profundas de Svastopol. Sabem ainda que, uma vez na Rússia, ficam uma terra remota e sem qualquer poder negocial.
Alem disso, vai sofrer isolamento económico e tensões étnicas com o ucranianos (que são 25% da população) e com os tártaros que são os nativos de lá (12%).
Se eu fosse russo e vivesse na Crimeia, votaria pela continuação na Ucrânia.

E se o Putin perde?
É um passo muito arriscado porque, se a população votar pela anexação à Rússia, tal nunca será aceite pela comunidade internacional e, se votar pela continuação na Ucrânia, será a maior derrota da história da Rússia, pior que 10 bombas atómicas no meio de Moscovo.
O Putin está louco e não se vai aguentar.

Eu criei um directório onde vou colocar os ficheiros excel usados em cada poste. Isto vai-me obrigar a organizar melhor os dados e permite os leitores teram acesso aos dados que eu recolho e uso.

Pedro Cosme Costa Vieira

1 comentários:

Kão Vadio disse...

Ilha da Crimeia? ahahahah

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