sexta-feira, 7 de março de 2014

A Ucrânia entre a Europa e a Rússia

O que se passa hoje com a Rússia já se passou connosco.

É um surto de nostalgia imperial.
Nos finais do Sec XIX estávamos na bancarrota mas os livros escolares ainda falavam que tínhamos sido uma grande potência mundial. Nessa viragem do século a Inglaterra era a potência hegemónica porque "nos tinha roubado a metade do Mundo que nos pertencia por direito do tratado de Tordesilhas".
Foram mais décadas e décadas de discurso inflamado, mapas cor de rosa e barrigas vazias até que, nos anos 1960, passamos a aplicar todos os nossos recursos numa guerra contra a emancipação das nossas coloniazitas pois, com elas, íamos voltar a ser uma superpotência (as nossas colónias eram tão ricas que vieram a dar alguns dos países mais pobres do Mundo).

Fig 1 - Pelo tratado de Tordesilhas e de Saragoça, a Crimeia pertence-nos. Ataca-los com a PSP que é especialistas a subir escadarias.

O Czares russos também sonharam em ser uma grande potência mundial e pensaram que apenas o seriam se conquistassem povos e territórios e exercessem sobre eles toda a espécie de exploração e tirania. Essa política continuou no tempo soviético e levou à ocupação, depois de 1945, de toda a Europa Central, desde Hamburgo até à Grécia.

As tiranias não têm futuro.
O problema dos tiranos é que nenhum império pode durar explorando as minorias quando, por comparação, existe ao lado uma Europa de povos livres, democráticos e desenvolvidos. Esta comparação levou o bloco soviético ao colapso e obrigou a Rússia, que era a verdadeira dona do império, a recuar quase 2000km para Leste.
Foi trágico a Rússia ter perdido tudo o que tinha arrebanhado na segunda guerra mundial, tantos mortos e prejuízos para, no final, não ganhar nada. Mas o mais trágico foi ter perdido "para a Europa" a Ucrânia que já parecia totalmente assimilada.
Fig. 2 - Entre 1990 e 2014, na frente europeia a Rússia recuou 1900km (a sombreado as área "perdidas"). 

Em 1990 ninguém imaginava a expansão da UE para Leste.
Eu ainda me lembro da queda do Muro de Berlim e a previsão que os europeu faziam nesse tempo era que a União Europeia não se iria expandir para Leste porque a Rússia não o iria permitir e que não podiamos absorver países tão pobres.

País   1990 2012
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Europa Ocidental 23859 30566 (USD2005)
Portugal 57,7% 58,6%
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Bosnia and Herzegovina 2,4%     11,0%
Armenia 4,8%      9,4%
Kosovo 6,3%      9,3%
Moldova 6,8%      3,4%
Albania 6,8%     11,6%
Belarus 9,8%     15,9%
Georgia 10,5%      6,8%
Ukraine 11,1%     6,9%
Bulgaria 12,0%     15,2%
Macedonia, FYR 12,7%     11,4%
Montenegro 13,7% 15,2%
Romania 16,1%     18,3%
Serbia 19,4%     12,6%
Poland 19,8%     34,6%
Estonia 20,8%     38,7%
Latvia 22,7%  27,7%
Croatia 27,4% 34,5%
Lithuania 28,1%     32,9%
Hungary 35,4% 35,9%
Slovak Republic 37,4% 48,8%
Czech Republic 41,0%     46,6%
Slovenia 52,5% 60,9%
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Russian Federation 23,8% 22,4%
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Quadro 1 - PIB pc relativamente à média da Europa Ocidental e sua evolução (dados, Banco Mundial)

O máximo a UE poderia vir a incluir era a Polónia e a Checolováquia (por pressão alemã) mas os outros países de Leste teriam que construir uma UE-2 (com a Rússia como economia central) e, posteriormente, haveria um acordo de  comércio e de vistos entre a UE e a UE-2.
Muitos políticos portugueses defenderam publicamente a não expansão da UE para Leste pois isso iria ser prejudicial para a nossa economia (a entrada de países com baixos salários).

Mas a Europa Ocidental avançou como um caterpilar.
Por pressão dos USA, da Alemanha e, mais tarde, da Polónia, a UE foi avançando rapidamente para Leste até que, em 2013, a UE já estava encostada à fronteira soviética de 1940 (na fronteira da Bielorússia e da Ucrânia).
O problema mais grave é que, enquanto a Rússia estava distraída com Socchi e uma basezita naval na Síria, um "golpe de estado palaciano" permitiu que a UE avançasse rapidamente pelas planícies Ucranianas adentro até encostar às fronteiras Russas do Séc. XVII.
Foi o Blitzkrieg que o Hitler sonhou mas que não conseguiu por meios militares.

Qual deverá ser o futuro?
Em teoria pode haver um país com dois grupos étnicos como, por exemplo, os USA (Espanicos, afro-americanos e brancos) mas, no caso da Ucrânia, penso que os russos ainda têm o espírito de colonizadores.
Depois, a votação é muito étnica. Por exemplo, o presidente deposto não sabia falar ucraniano e foi eleito maioritariamente pelos russos.
Seria como teres em Portugal um Presidente que fosse eleito pelos espanhóis que que só falasse castelhano.
Assim, a Ucrânia como país do povo ucraniano só tem a ganhar em ver-se livre dos russos.

Amigos, amigos mas cada um para seu lado.
Tal como a Rússia não conseguiu manter os ucrânios contra a sua vontade, também a Ucrânia não consegurá manter os russos.
A melhor solução é transformar a Ucrânia numa federação.
1) Os russos governam o Leste (20% do território) e os Ucranianos o Ocidente (80% do território) com livre movimentação de pessoas e bens entre as duas repúblicas (três se a Crimeia se mantiver como uma república).
2) Quem fala russo ficar obrigatoriamente recenciado no Leste e quem fala ucraniano ficar recenciado no Ocidente.
3) Cada república elege o seu primeiro ministro (por voto directo) e o seu parlamento como países independentes.
4) Criam um Senado e um presidente sem poderes executivos (tipo, Rei de Espanha) que são eleitos pelo conjunto dos 2 parlamentos (ou 3 parlamentos).
Daqui a uns anitos, tal como aconteceu com a Checoslováquia, separam-se e dão origem a 2 ou 3 países independentes e cada um segue o seu distino.
Amigos, amigos mas cada um para seu lado.

A Ucrânia é mesmo muito pobre.
Tem um PIB pc de apenas 7% da média da Europa Ocidental que compara com o nosso 59%.
Se uma pessoa que ganha em Portugal em média 900€/mês, na Ucrânia ganha 100€/mês. A irmã da minha chefe de manutenção é engenheira e ganha 100€/mês.
A esperança da Ucrânia é o exemplo da Polónia que, em 20 anos, duplicou o seu PIB pc relativamente ao da Europa Ocidental.
Pode ser que, com a ajuda massiva da UE e copiando o modelo polaco de  liberalização da economia e de integração com a economia Europeia, a Ucrânia dê inicio a um caminho de convergencia com os países desenvolvidos em Paz.
Pedro Cosme Costa Vieira

6 comentários:

Nuno disse...

Os Ucranianos arriscam a vida para passar para a UE e os Portugueses fazem manifestações contra a UE.

Don Ruãn disse...

pois....infelizmente a grande maioria dos portugueses sequer tem a capacidade para perceber a sorte que tem em estar aqui deste lado e coladinhos aos Euro e a Europa, senao, iam mesmo ver o que era crise e dificuldades...

Bruno BaKano disse...

A maioria das pessoas vivem iludidas e manipuladas por propagandas simplistas. Ou então têm a memória muito curto.
Eu estou actualmente a viver e trabalhar na Holanda e tenho colegas de praticamente toda a Europa. Noutro dia ao almoço um colega belga dizia que não percebia o pq d'alguns Ucranianos quererem vir para a UE. Quando eu, usando informações obtidas aqui no seu blog, lhe disse que seria pq olhavam para a Polónia e o qt ela tinha crescido economicamente, ele disse-me "Mas a Polonia está pior agora que antes. Tenho la amigos que dizem que com a UE estão todos mais pobres!". Eu bem que falei do aumento doPIB per capita, mas ele não quis aceitar o argumento.
Enfim...

BC disse...

Se Portugal tivesse a dimensão (económica) da Alemanha ou do Reino Unido estaria seguramente melhor fora da UE. Como somos pequenos não tenho tanta certeza. Principalmente nos temos revelado incapazes de governar o país no sentido do desenvolvimento e riqueza. Mais do que pertencer à UE, seria ótimo concessionar o país aos alemães ou suiçõs

Fernando Ferreira disse...

"O problema dos tiranos é que nenhum império pode durar explorando as minorias quando, por comparação, existe ao lado uma Europa de povos livres, democráticos e desenvolvidos."
Ha uma contradicao aqui. Liberdade e democracia nao sao sinonimos, antes pelo contrario.
Os povos tornam-se mais desenvolvidos quanto mais livres forem; Quanto mais democraticos menos livres sao.
A democracia e' apenas mais uma forma de colectivismo coercivo.

Gonçalo disse...

Caro Ferreira,

Isso quererá dizer que os países comunistas são mais livres que os países democráticos?
Também quererá dizer que os Índios eram mais desenvolvidos que os Europeus? Ou deveremos considerar que neste caso a tribo Índia é menos livre que as monarquias europeias?

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