sexta-feira, 28 de março de 2014

O mundo que há-de vir

A conhecimento ciêntífico é muito importante. 

No passado, o conhecimento era opinativo pelo que havia necessidade de usar a força para fazer valer os pontos de vista. Era o tempo da religião, da filosofia, da moral e da estética.
Demonstrativo do problema da opinião enquanto conhecimento é já todos termos dito "é boa como o milho" para logo outros nos terem contrariado com "não é nada de especial".
Com o aparecimento do positivismo, passou a haver uma procedimento para dirimir os diferentes pontos de vista.


O que será o positivismo.
É aceitar como verdadeiro apenas aquilo de que exista uma prova (positiva).
O argumento religioso de que "tem que haver outra vida depois da morte porque, caso contrário, a nossa vida não faria sentido" não é uma prova positiva porque parte de uma afirmação negativa "caso contrário, a nossa vida não faria sentido". Mas de onde se retira que a vida tem que fazer sentido não podendo ser apenas um conjunto de reacções químicas? Se aceitamos que a vida das moscas não faz sentido, porque é que a dos peixes, das pombas, dos ratos, dos cães, dos macacos ou a nossa precisa de fazer sentido? 


Fig.1 - Se vivo, logo, a minha vida faz sentido mesmo que eu não saiba qual é. No entretanto, vou comendo, bebendo e fazendo mais mosquinhas sem pensar mais nisso.


"Deus existe pois, caso contrário, quem teria criado o Universo?". Ora aí está mais uma prova negativa, "caso contrário, quem teria criado o Universo?", não sei. Também não sei o nome das pessoas que morreram em Hiroshima e, no entanto, morreram (ouvi eu falar). 
O positivismo obriga a que as opiniões em conflito esgrimam as suas provas, sejam elas dados retirados da realidade, experiências controladas ou deduções matemáticas, até que todas as diferenças fiquem anuladas e as pessoas fiquem amigas e de acordo.


Está-nos no sangue impor a opinião pela força.
O exemplo acabado é aquela lengalenga que o Sócrates destila na RTP com a Cristina Esteves que, por ser muito boa pessoa, nunca teve a coragem de o confrontou com a verdadeira verdade. O bicho até teve o descaramento de dizer que, no dia do jogo Portugal-Coreia do Norte, estava na escola quando nesse dia 23 de Julho de 1966 já não havia escola há muito e, para mais, o jogo começou às 15h de um Sábado.
As conversas do bicho fazem-me lembrar o Salazar depois do AVC que ainda fazia de conta que despachava os assuntos do governo.
Já com o José Rodrigues dos Santos, a coisa piou muito mais fino porque houve confronto de ideias e apresentação de factos.
O bicho teve que reconhecer que "não vim preparado para isto". Pois não, mesmo puxando para a frente e para trás a cassete do PEC4, o bicho chegou à conclusão de que o que afirmava não fazia sentido ao ponto de ter chegado ao fim em sintonia com o Passos Coelho "também eu fiz austeridade mas da boa".
Mas, como já vimos, "boa" é apenas uma opinião estética.
Quando não conseguimos argumentar só sobra a gritaria, o insulto e a via-de-facto.

Fig. 2 - Eu é que tenho razão, sua porca!

Na Economia também há muito disso.
A Economia é uma ciência e, portanto, o comentário opinativo tem que morrer quando em presença de factos contrários.
Eu ando a massacrar há anos que a austeridade não tem efeitos recessivos e que, em período de crise, a descida dos salários diminui o desemprego, aumenta as exportações e induz crescimento económico.
Mas há prémios Nobel que dizem o contrário, como o Krugman e o Stiglitz, mas estes homens estão completamente ultrapassados pelos dados. Eles forma bons mas há muitos anos, com o Figo, mas agora estão ultrapassados.
A nossa recessão de 2011-2013 deve-se ao ajustamento das nossas contas com o exterior (a balança corrente) que aconteceu pelo esgotar do endividamento externo e não às politicas de austeridade do Passos Coelho.
O que dizem os comentadores, Ferreira Leite, Bagão Felix, etc., etc.,  que afirmavam há uns meses que haveria recessão em 2014 por causa do reforço da austeridade quando se observa um crescimento cada vez mais robusto?
Continuam a dizer o mesmo.

O que diz a Economia?
Não só os modelos teóricos como os dados empíricos mostram que os países com contas equilibradas têm bom desempenho económico e que o "crescimento keynesiano" defendido pelos esquerdistas é uma balela.
O "crescimento keynesiano" resulta de o Estado tentar estimular a economia com mais despesa pública e menos impostos de que resulta um défice das contas públicas (e externo). 
Peguemos nos dados passados e vê-se que essa lengalenga não leva a lado nenhum.
A austeridade foi implementada pelo Cavaco Silva (1985-1995) e a lengalenga foi implementado entre 1995 (Guterres) e 2011(Sócrates), com 2 anos de intervalo do Durão Barroso. 
Enquanto que o Cavaco (1985-1995) conseguiu um crescimento no PIB per capita de 3,7%/ano sem endividamento externo, os esquerdistas (1995-2011) conseguiram apenas 1/3 deste crescimento (1,3%/ano) e com um endividamento de 9% do PIB (125€/mês por cada pessoa).
Mas, mesmo olhando para estes números, cabeça burra não muda de cassete.

Fig. 3 - Os países têm que ser como eu: para me manter boa, tenho que manter um equilíbrio entre as calorias que entram e as que saiem.

Mas, na nossa vida, ainda há lugar para a filosofia.
Porque temos curiosidade sobre tudo e sobre muitas dessas coisas a ciência nada pode dizer. 
Uma dessas coisas é o Futuro e as opções morais (o bem, o mal e o aceitável) que temos que fazer para chegar a esse Futuro .
Será moral a clonagem humana para fazer indivíduos brainless que possam fornecer órgãos ao individuo original?
Será moral introduzir um gene terminator nos embriões humanos de forma a que as pessoas morram impreterivamente aos 80 anos de froma a não se tornarem um fardo para a sociedade?
Será moral seleccionar os embriões humanos de forma a desenvolver certas caraterísticas físicas, por exemplo, a inteligência?


O Marcos Azevedo chamou-me à atenção para o Admirável  Mundo Novo 
Um livro de futurologia de Aldous Huxley que foi publicado em 1932.
Em termos globais, o livro é pessimista relativamente ao progresso. 
O autor está preso no paradigma do trabalho escravo para o qual basta o trabalhador ter força bruta. 
Desta forma, imagina uma economia tem por base a industria da procriação que produz pessoas deliberadamente burras, escuras e atarracadas que são os meios de produção e uma minoria de pessoas inteligentes, loiras e de elevada estatura que governam o mundo e vivem dependentes da produção dos atarracados. 
Huxley também está preso à ideia de que a sociedade apenas é estável se for piramidal em que poucos mandam e muitos obedecem cegamente. Desta forma, antecipa que uma sociedade de iguais, todos inteligentes, será uma sociedade caótica.
Em 1932 vivia-se o nascimento da ditadura social-socialista de Hitler que defendia um mundo onde os arianos (inteligentes, altos e loiros) dominavam um mundo povoado de povos atrasados (burros, escuros e atarracados). Assim, Huxley também é uma critica a esta sociedade "perfeita". 
Huxley não antecipou o progresso das máquinas (os robôs) e a consequente sofisticação do processo produtivo que aconteceu desde então e que precisa de pessoas cada vez mais capacitadas e criativas. 
Mas um livro de futurologia não é para prever o Futuro mas apenas serve para nos questionarmos sobre as escolhas morais relativamente à técnica.

Será moral retirar às mulher o amor de mãe e às pessoas o amor de filho?
No livro as mulheres não têm filhos porque é quase proibido. Digo quase porque a ditadura acontece pela educação, lavam ao cérebro, e não pela força. Não há um aparelho policial repressivo porque o sistema de condicionamento das vontades é perfeito (quase).
O autor acha que o amor de mãe é algo de verdadeiramente maravilhoso pelo que o fim da sua existência é uma perda irreparável.
Mas o autor não previu o que está a acontecer: é que actualmente, mesmo ser proibido, as mulheres não querem ter filhos (e os homens ainda não os podem ter). 

Será moral pensar os seres humanos como meios de produção?
Se as mulheres não têm filhos, a reprodução é necessária para fazer a economia funcionar. Existe fecundação in vitro e cada embrião é dividido dezenas de vezes para produzir, numa "linha de montagem", dezenas de pessoas idênticas, burras, escuras e atarracadas que são usadas no processo produtivo. 
Há a ideia que estas pessoas são felizes (por causa do condicionamento) e apenas são considerados crises de felicidade nas pessoas inteligentes. O óptimo é ser burro pois ser inteligente é um fardo por causa dos dilemas morais. 
No nosso mundo, quando se fala da falta de filhos, considera-se ser um problema do Estado Social, de como vai ser possível a Segurança Social pagar as nossas reformas. 
Então, também estamos a pensar nos vindouros como meios de produção ao nosso serviço, ao serviço de quem está actualmente vivo. 

Fig. 4 - Como pode a família Duncan levar os 17 filhos à escola?

Será que o Não-existente gostaria de se tornar Existente?
Se não fossem os nossos pais nós não existíamos nem nunca viríamos a existir. A Bíblia tem uma referencia ao que nunca existiu e compara o homem que não aproveita a vida  com o que nunca existiu (Ecles 6:3). O autor bíblico considera que existir é melhor que não existir.
Claro que os nossos país tinham um objectivo para nós independente da nossa vontade (que não existia). No caso dos meus país era um fé inabalável de que tinham que fazer cristãozinhos para poderem entrar nos reinos dos céus. 
Será que alguém pensa transformar um Não-existente num Existente sem antecipar qualquer utilidade ao Existente que não seja o direito que tem o Não-existente em passar a existir? 

Se se eu transformar um Não-existente num Existente e depois o matar?
Será que o Não-existente, mesmo tendo existido apenas por breves instantes, fica mais feliz que se tivesse sido sempre Não-existente?
Daqui vem a dúvida moral sobre o aborto, o suicídio assistido, a eutanásia e a pena de morte. 

Será que devemos ter por base moral o Não-existente ou o Existente?
O Não-existente transforma-se em Existente e, no futuro, tornara-se de novo Não-existente pela morte.
No nosso julgamento dos pais, se são bons ou maus, devemos ter como base que, se não fosse a sua vontade, os filhos ter-se-iam mantido Não-existentes ou sem depois de já serem Existentes, poderiam ter sido melhor tratados?
Pensemos uns pais que têm uma doença qualquer genética e que têm 20 filhos dos quais escolhem os 4 que são saudáveis matando os restantes 16 filhos que são doentes.
Pensemos noutros pais com a mesma doença que, por causa do risco, não têm filhos.

Quais destes pais fizeram a escolha moral mais correcta?
Os primeiros transformam 20 Não-existentes em 20 Existentes, escolhem 4 e transformam os outros 16 novamente em Não-existentes. 
Os segundos não transformam nenhum Não-existente.
Eu considero que os primeiros pais fizeram a escolha moral mais correcta porque permitiram que alguns Não-existentes se tornassem Existentes. 

Fig. 5 - Esta é para ficar.

Fig. 6 - Quanto a esta, tenho pena porque até é simpática, mas é para derreter. 
.
Como vamos resolver a nossa crise demográfica?
Termos que fazer escolhas morais e nessas escolhas teremos comparar o nada fazer com o fazer algo que, actualmente, pensamos ser imoral.
Temos que relaxar tudo o que de moral existe sobre a reprodução, destruir todos os preconceitos, o que não vai ser fácil. 
Temos que comparar o nada fazer e que vai levar ao rápido minguar da nossa população com o fazer coisas verdadeiramente chocantes.

E o grupo dos 70 caloteiros?
Pior que o  Huxley que errou passados 80 anos nas previsões, os 70 caloteiros no próprio dia em que anunciaram que Portugal não poderia pagar a sua dívida a menos que a taxa de juro fosse 3%/ano, já a taxa de juro estava a baixo dos 2%/ano. 
É impressionante como as taxas de juro da dívida pública têm estado a cair, a atingir mínimos históricos impensáveis ainda no dia da mensagem de ano novo do Cavaco.
Esta queda deve-se a mensagem de ano novo do Cavaco e de as sondagens mostrarem que o PSD+CDS está, lentamente mas de forma firme, a subir e o PS a cair. 
Afinal nós somos um povo inteligente e não somos um bando de mentecaptos caloteiros. 
E com o défice de 0,5% do PIB que está previsto no Pacto Orçamental, em 30 anitos conseguiremos colocar a divida pública de volta aos 60%.
Lá para 2045 as pensões e os salários podem ser repostas ao nível de 2010. 
Não é assim tanto tempo. 

Fig. 7 - Nunca as taxas de juro estiveram tão baixas (a 3 anos já estão abaixo de 1,6%/ano).

Podem ver o ficheiro huxley-aldous-1932-Admiravel-mundo-novo.pdf.

Pedro Cosme Costa Vieira

6 comentários:

Pedro Alexandre disse...

Olá sr professor, eu não sou economista e gostava de perceber qual é a importância para uma economia a dívida ter que estar nos 60% do PIB? Podia-me explicar? Obrigado.

Económico-Financeiro disse...

Estimado Pedro,
Como numa zona monetária a divida pública é usada como colateral pelo sistema bancário na obtenção de liquidez junto do banco central, quando em 1992 foi criada a Zona Euro era obrigatório definir um limite para o endividamento dos Estados.

Na altura, tirando a Itália e a Bélgica, a dívida pública média estava nos 50% do PIB pelo que se assumiu 60% com razoável pois ainda tinha uma folga de 10 pontos relativamente à situação de então.
As 6 maiores economias tinham (o BM só tem dados para 1995):
Alemanha => 36,2%
França => 58,4%
Reino Unido => 49,9%
Itália => 121,1%
Espanha => 56,7&
Holanda => 72,3%

Depois, os outros objectivos estão relacionados.
Para uma taxa de inflação de 2%, um crescimento do PIB de 3%, a divida pública de equilíbrio são os 60% do PIB.
(60% + 3%)/(1+2%+3%) => 60%
A dinâmica da divida pública tem 60% do PIB como atractor.

Se o crescimento for menor, o défice também terá que ser menor, por exemplo, se temos um crescimento potencial de 1,2%/ano, o défice só pode ser de 1,9%.

Mas o limite para a dívida pública poderia ter sido definida noutro valor (o Japão tem 220% e o Luxemburgo tem 20%).

pc

Portuendes disse...

O Admirável Mundo Novo é um livro interessante, ao quel tenho uma relação amor-ódio e na mina própria interpretação pode ser visto de 4 maneiras, ou seja, como:
1 - Desejo (o autor gostaria que o futuro fosse assim)
2 - Aviso (o autor avisa que a nossa sociedade pode acabar como o que descreve, o que é mau)
3 - Crítica (o que descreve é uma alegoria, uma visão do próprio presente do autor)
4 - Previsão (o futuro vai ser assim, não é bom ou mau, é assim e é uma previsão)
Na primeira leitura pensei que o Huxley queria que o seu livro fosse um misto entre 2 e 3, mas depois de ler uma entrevista muitos anos a seguir à escrita do livro percebi surpreendentemente que o livro era parcialmente 1, ou seja, Huxleu descreve uma utopia e não uma distopia. O que o livro em de de bom é que cada um pode interpretá-lo como quiser. Eu consigo pereceber como um mudno assim seria uma utopia devido principalmente à perfeição da soma e à genética sem falhas. Utópico, possivelmente, mas talvez não...

Pedro Alexandre disse...

Ok obrigado pela informação sr professor, agora entendo melhor a importância de haver uma dívida pública nos 60% do PIB, talvez seja por isso que o objetivo do défice seja agora de 0,5%, por forma a poder ter uma dívida que volte a ser atrativa para o crescimento da economia.

Diogo disse...

A fraude da «Dívida Soberana»:


O Banco Central Europeu (BCE), segundo os próprios estatutos, está proibido de comprar dívida diretamente aos Estados mas tem toda a liberdade de financiar a banca a uma taxa de juro muito baixa (1%), não impondo quaisquer limites na utilização desse dinheiro. Este facto permite que os bancos possam obter lucros extra à custa das taxas de juro elevadas que cobram não só aos Estados, mas também às famílias e às empresas.

No entanto, o BCE pode comprar dívida soberana, ou seja, dos Estados, no chamado "mercado secundário" onde têm acesso os bancos. Portanto, está-se perante a situação caricata que permite à banca especular com a divida emitida pelos Estados, da seguinte forma:

O BCE não pode comprar directamente a dívida ao Estado português, mas já pode comprá-la aos bancos (os celebérrimos mercados) que a adquirem. E então o esquema especulativo montado pela UE e pelo BCE para enriquecer a banca à custa dos contribuintes, das famílias, e do Estado português é o seguinte: a banca empresta às famílias, às empresas e ao Estado português cobrando taxas de juro que variam entre 5% e 12%, ou mesmo mais, depois pega nessa divida, titularizando-a, e vende-a ao BCE obtendo empréstimos a uma taxa de juros de apenas 1%.

De 2008 a 2011 - EM APENAS TRÊS ANOS A DIFERENÇA DE TAXAS DE JURO DEU À BANCA PORTUGUESA UM LUCRO DE 3.828 MILHÕES DE EUROS.

Portuendes disse...

Diogo, acho que tem razão no que diz (muita gente o tem dito) embora talvez não seja assim tão linear: o juro de 1% do BCE vale, tanto quanto sei, apenas para dívida de muito curto prazo (uns meses) e apenas funciona, espero eu, como um mecanismo (subterfúgio, talvez) temporário a usar com parcimónia (alemanha oblige) pelo BCE...

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