sexta-feira, 16 de maio de 2014

As más notícias sobre o 1T2014

Há 15 dias estive a falar com OF, um colega meu que sabe muito. 

Nas discussões que tivemos em 2011 eu era muito pessimista. Previa uma contracção do PIB na ordem dos 20% e que a taxa de desemprego poderia atingir os 25% observados actualmente na Espanha.
Eu previa mesmo que a Zona Euro se iria desagregar. 
Ele, nem por isso. Pensava que o PIB iria contrair e o desemprego aumentar mas moderadamente como, de facto, aconteceu.
Então, comecei esta nossa conversa dizendo que ele tinha acertado e que eu tinha sido exagerado. E que, agora que a crise financeira tinha sido ultrapassada com alguma facilidade, agora era tempo de a o desemprego voltar aos 5% e economia voltar a crescer de forma robusta.

-Nem pensar nisso.
Disse ele, o que me deixou desorientado.
- Houve coisas que se fizeram mas foi tudo na base do provisório e extraordinário.
- Os cortes nas pensões, salários de funcionário públicos foram provisórios.
- O ajustamento nas empresas públicas foi fumaça que se desvaneceu no ar.
- Mas isto não é nada em comparação de um problema que nos vai levar, lentamente, à pobreza: temos uma taxa de poupança muito baixa o que leva as nossas empresas à obsolescência tecnológica.
- Sendo as pessoas também capital, a baixa natalidade também traduz a nossa pouca apetência  à poupança.


Precisamos de 20% de taxa de poupança.
Para ser possível re-investir o capital que se vai depreciando e fazer novos investimentos seria necessário ter uma poupança total bruta de pelo menos 20% do PIB.  Se até 1990 tínhamos uma poupança nessa ordem de grandeza, desde então a poupança reduziu para 15% o que não permite substituir o capital que se vai depreciando (ver, Fig. 1). 

Fig. 1 - Evolução da poupança das famílias em relação ao rendimento disponível e total bruta da economia em % do PIB (dados: Pordata e Banco Mundial).

E os dados do 1T2014 vêm mostrar uma forte contracção do PIB.
O PIB contraiu 0,7% relativamente ao trimestre passado o que é muito.
Se tivesse contraído até 0.25% podia ser pensado que eram normais oscilações do PIB relacionadas com o estado do tempo e com o facto da Pascoa ter calhado em Abril. Mas 0.7% já é uma enormidade.
Se olharmos para a série do crescimento trimestral dos últimos 11 anos, quando num trimestre existe uma contracção maior que 0.25%, é quase certo ser seguida por uma crise. 

Fig. 2 - Evolução do crescimento trimestral do PIB, 1T2003-1T2014 (dados: INE). 

E o problema das exportações não é a Galp.
A questão do aumento das exportações desde 2009 é que em 2008 houve uma queda nas exportações de 30% nas exportações que, no entretanto, temos recuperado. Mas a tendencia de crescimento está nos 2,7%/ano (ver, Fig. 3) e não nas taxas astronómicas que o Pires de Lima costuma anunciar.

Fig. 3 - Evolução das exportações totais (dados: INE). 

Mas as contas com o exterior parecem controladas.
Houve uma degradação das contas com o exterior (para um défice de 6€/mês por pessoa) mas a magnitude da "derrapagem" é marginal quando comparada com os valores de 2010, altura em que o défice era de 150€/mês por pessoa. Parece que a derrapagem está dentro do normal flutuar da balança corrente (ver, Fig. 4) e Dezembro foi o melhor ano dos últimos 70 anos.
Esperemos que tenha sido apenas uma pequena flutuação.

Fig. 4 - Evolução da Balança Corrente, J2010-F2014 (dados: Banco de Portugal). 

Os custos do trabalho estão a aumentar, mas apenas ligeiramente.
Para a digestão da taxa de desemprego são más notícias mas a boa notícia é que em 2013 o aumento foi pequena 1% (ver, Fig. 5).
Relativamente a 2010/2011 os custos do trabalho diminuíram cerca de 10%, 5% no Privado e 20% no público mas, desde o mínimo de finais de 2013, estão a aumentar mais no público que no privado. 

Fig. 5 - Evolução dos custos do trabalho, total da economia, 1T2009-1T2014 (dados: INE, média móvel do último ano). 

Cheira muito a euforia.
O PIB cair foi muito mau mas pode acontecer que tenha sido positivo pois parece ter recolocado juízo no governo.
Há um mesito já só se falava no retomar das obras públicas, na reposição dos cortes nos salários dos funcionários públicos e nas pensões e no aumento do salário mínimo mas os dados negativos que o governo foi conhecendo antes de nós parece que puseram novamente o freio no governo.
Já voltaram a falar em meter novamente as mãos à obra avançando com reformas no mercado de trabalho, nas empresas públicas e na estrutura do Estado.
Vamos a ver se não voltamos a 2009 quando, no auge da crise, o eleitoralismo tomou conta de nós e nos levou, pouco depois, à bancarrota.

Pedro Cosme da Costa Vieira

4 comentários:

jorge gaspar disse...

Professor Cosme, eu tive a fazer umas contas e cheguei a uma conclusão diferente da sua, no que diz respeito ás "justificações" do governo para esta contracção do PIB.
O governo justificou esta contracção com a paragem de 45 dias na refinaria de Sines, com o facto de a Páscoa este ano ter calhado em Abril, e com a paragem de seis dias na autoeuropa.
A galp, no primeiro trimestre de 2014 (não sei se tudo o que é produzido na refinaria de Sines é exportado) exportou menos 465 milhões de euros (noticia retirada daqui: http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/energia/detalhe/exportacoes_da_galp_este_ano_deverao_rondar_os_4_mil_milhoes_de_euros.html)

Ora, não conseguindo saber qual foi o Pib nominal no 4º trimestre de 2013, fui ao Pordata e dividi o PIB de 2013 por 4 para calcular a média trimestral. ou seja 165.666.300.000 a dividir por 4 = 41.416.575.000(média trimestral de 2013).
Depois dividi o valor que a Galp exportou a menos 465.000.000 pela média trimestral do PIB de 2013 41.416.575.000 e multipliquei por 100 e o resultado foi 1,12 %.
Sendo assim a paragem de 45 dias da galp poderá justificar uma quebra do PIB de cerca de 1%, independentemente de poder haver outras razões para essa quebra.
Quer me parecer que retirando factores circunstanciais o PIB continuou a crescer, e possivelmente mais do que aquilo que era esperado.

Económico-Financeiro disse...

Estimado Jorge,

As contas do Jorge têm um pequeno senão: é que o que entra no PIB não são as vendas mas apenas o Valor Acrescentado das empresas pois é preciso retirar às vendas as compras dos produtos consumidos.
Se fosse o que elas vendem, os supermercados eram as maiores empresas portuguesas.

Com a exportações passa-se o mesmo que com as vendas: apenas interessa o valor acrescentado.
Se as exportações somassem ao PIB, o Luxemburgo não poderia exportar 180% do PIB nem a Irlanda 110%.
A Bélgia e a Holanda, que são do nosso tamanho, exportam 90% do PIB enquanto nós (estão muito integradas na economia do centro da Europa).

No caso da refinação da Galp, na p. 31 do relatório de contas de 2012 diz que a empresa refinou 81,8 milhões de barris e que o valor acrescentado (a margem mais os custos liquidos) da refinação foi de 4.40€/barril. Então, em 2012 o valor acrescentado da refinação foi de 360Milhões€. Aplicando à paragem de 45 dias do 1T2014 estamos a falar de 45 milhões €, 0.0001% do PIB (diz o INE que o PIB do 4T2013 foi de 41937.6 milhões€).
A GALP factura muito (em 2012, igual a 11% do PIB português) mas o valor acrescentado é pequeno pois o seu negócio é comprar e vender: importa petróleo a 80.00€/br e exporta refinados a 84.40€/br.
Por isso, essa justificação para a redução do PIB é uma cópia da intervenção humorística do Gaspar:
"O investimento no primeiro trimestre deste ano é adversamente afetado pelas condições meteorológicas dos primeiros três meses do ano que prejudicaram a atividade da construção".

Um abraço,

pc

jorge gaspar disse...

agradecido pela explicação. Ainda assim estamos a falar de 0,1% do PIB trimestral e não 0,0001%

rollingsnowball disse...

A fazer as contas por fazer as contas aqui ficam as minhas. Como o que interessa é a comparação 4T2013 vs 1T2014 julgo que devemos usar esses dados:
4T2013
Crude processado: 21348 kbbl
Margem de refinação +custo cash refinarias: 4.2 USD/bbl
Valor acrescentado bruto: 89.7M

1T2014
Crude processado: 16574 kbbl
Margem de refinação +custo cash refinarias: 4.7 USD/bbl
Valor acrescentado bruto: 77.9 M

A diferença por essas contas seriam então 11.8M€. Parece-me que falta a este valor a substituição que poderá ter acontecido de exportações por importações, mas que julgo ter sido mais de consumo de reservas da galp.

A pausa da autoeuropa também terá tido algum impacto mas o valor acrescentado embora superior é também baixo.

Mais importante e que não vi em mais lado nenhum é a pausa que as papeleiras costumam fazer sempre no 1ºT e que prejudica naturalmente as comparações 4Tvs1T. Não confirmei se foi feita a pausa habitual na Portucel ou se a Altri fez mas tendo em conta que o peso do papel para as nossas exportações e que nestas o valor acrescentado (salvo erro) é (bastante?) superior a 90% há um impacto recorrente que prejudica comparações em cadeia (embora não se note nas homólogas.
Há, ainda, o efeito Páscoa.

Tudo junto, o PIB caía muito provavelmente na mesma mas bastante menos o que para um primeiro trimestre não é mau mas podia ser melhor.

Estou convencido no entanto que, a menos que os ventos de fora soprem contra, esta queda não se vai prolongar e que teremos agora 1 trimestre de forte crescimento em cadeia (já que estamos em efeitos excepcionais ficam alguns:
1-retoma de actividade das grandes exportadoras para níveis normais
2- Efeito Páscoa
3- Efeito Benfica (campeão, final da UEFA, etc) - e sou portista
4- Efeito final da Liga dos campeões - Lisboa está cheia e os preços todos no topo))

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