quarta-feira, 7 de maio de 2014

Qual será o valor de uma pessoa?

Será importante haver pessoas? 

Já todos sabemos que em Portugal nascem 80 mil crianças por ano e, para manter a população actual, será preciso que nasçam 125 mil por ano. Como já calculei num poste (A promoção da natalidade precisa de medidas radicais), para atingir essa meta é preciso que 7% das portuguesas tenham 12 filhos o que não é possível de conseguir assim sem mais nem menos. 
O problema é que produzir por ano as 45 mil crianças que nos faltam tem um custo anual de 7650 milhões €. 
Para ver se faz sentido produzir essas 45 mil crianças é preciso analisa-las como um activo financeiro. Se o valor de uma nova pessoa for positivo, é bom que nasçam mais pessoas mas, se for negativo, o melhor é que não nasça mais ninguém. 

Fig. 1 - Este homem recebeu 120000USD da mulher por ter tido filhos tão feios (ver)

Quanto valerá uma pessoa? 
Se nos pusermos a pensar na nossa vidinha, não parece ser possível calcular quanto é o nosso valor porque, sem nós, o Mundo não faz qualquer sentido. Mas, se pensarmos noutra pessoa qualquer, já a podemos ver como um activo financeiro. Desta forma, a pessoa é capital produtivo.
Assim sendo já podemos calcular o valor da pessoa como o total da sua produção ao longo de toda a sua vida líquida do que consumir. 

Primeiro, temos que calcular o custo de fazer a pessoa.
Como as pessoas nascem pequeninas, é preciso calcular o custo de fazer a pessoa desde a concepção até começar a trabalhar. 
No momento em que é tomada a decisão de ter a criança é preciso calcular o custo pessoal da gravidez e de aturar, alimentar, educar, criar e escolarizar a criancinha até obter o trabalhador de 25 anos.
    H1 - A gravidez tem um custo pessoal de 7500€ (600€/mês x 9 meses + 2100€ de despesa médica).
    H2 - Criar a criança precisa de uma média de 250€/mês o que soma, nos 25 anos, 75000€. 
    H3 - A escola custa 400€/mês durante 17 anos o que soma 81600€.
    H4 - A assistência média, medicamentosa e infra-estruturas custam 20€/mês somando 6000€.
Somando as 4 parcelas, 7500 + 75000 + 81600 + 6000, ficamos a saber que transformar a ideia numa pessoa licenciada de 25 anos obriga a investir 170000€.
Afinal, fazer pessoas fica muito caro.
Agora, a pessoa que poupa 400€/mês durante 45 anos chega aos 70 anos com um valor líquido disponível de 46000€.

Fig. 2 - Quando as criancinhas nascem ainda não podem trabalhar.

Já podemos calcular quanto custará produzir mais 45 mil crianças por ano.
A 170000€ por pessoa, produzir mais 45 mil pessoas terá um custo anual de 7650 milhões €.
Isto é muito dinheiro pois traduz 10% da receita pública / 5% do PIB.
Sendo que as pessoas não querem ter filhos de livre vontade, não é nada barato substitui-las.

Segundo, temos que calcular a produção liquida da pessoa. 
P1 => Vamos imaginar que a pessoa trabalha 45 anos, entre os 25 anos e os 70 anos de idade.
Retirando da riqueza criada com o trabalho os impostos e o consumo, obtemos a  produção liquida da pessoa.
Na nossa conta os impostos considerados incluem apenas a parte do rendimento necessária para pagar o uso dos bens comuns (segurança pública, estradas e embelezamento público) pois a educação e e segurança social fazem parte do cálculo do valor da pessoa.
P2 => Vou supor que a pessoa, em média, poupa 400€/mês.
Sob estes 2 pressupostos, durante os 45 anos a pessoa tem uma produção líquida de 216000€.
          400€ x 12 x (70-25) = 216000€. 

Finalmente, temos que calcular o custo da velhice.
Se a pessoa não morrer aos 70 anos mas aos 82 anos, distribuindo os 46000€ pelos 12 anos dá para o indivíduo consumir 300€/mês e ainda gastar 2800€ no funeral.

Quais são as contas finais?
Nesta simulação, o valor da pessoa é zero pois os 216000€ que poupe durante os 45 anos de actividade é exactamente igual ao que consome em criança, jovem e na velhice.
Apenas se cada nova pessoa vieira poupar mais de 400€/mês é que será lucrativo para os existentes que se criem mais pessoas.
P3 => Assumindo a pessoa com um activo financeiro, será razoável usar uma taxa de juro.
Para  1%/ano (real), só valerá a pena fazer novas pessoas se pouparem pelo menos de 510€/mês (durante os 45 anos em que trabalha).
P4 => Se for autonomizado o sistema de pensões, a pessoa tem que poupar pelo menos 430€/mês para pagar a sua criação e formação.

Como as famílias assumem 50% do custo de criação dos filhos, apenas é lucrativo ter filhos se estes retornarem mais de 215€/mês. Para o Estado que paga os outros 50% do custo de criação dos filhos, apenas é lucrativo se as novas pessoas pagarem mais de 215€/mês de impostos (além dos usados para pagar o uso dos bens comuns e o sistema de pensões).

Afinal, haver menos filhos permite termos um maior nível de vida.
Como ter e criar filhos é um investimento de 170000€ por cabeça distribuído entre a família e o Estado então, cerca de 80% do capital de um país são as pessoas.
Então, não houver crianças vamos o consumir o capital (humano) o que faz com que o nosso nível de vida fique maior à custa do desaparecimento da comunidade no futuro.
É a lógica normal de um investimento: se não pouparmos no presente, viveremos melhor agora mas pior no futuro.
O problema da dinâmica das populações é que no futuro serão outros os que viverão aqui e como nós já não temos ambições de imortalidade, vivemos melhor se não tivermos filhos.

E as nossas pensões de velhice?
Para haver pensões de velhice (de 300€/mês) é preciso que as pessoas poupem enquanto trabalham e não que existam portugueses no futuro. Para termos 300€/mês precisamos poupar 65€/mês durante 45 anos que compara com a necessidade de poupar 510€/mês para repormos a população. Esta diferença acontece porque não temos que repor o capital humano.
Então, se investirmos os 65€/mês nos países em crescimento, conseguiremos ter um rendimento disponível maior em  445€/mês do que se criarmos filhos que tornem a Segurança social sustentável.
Precisamos ter um excesso das contas com o exterior na ordem dos 5% do PIB para, quando só houver velhos em Portugal, recebermos as nossas pensões com os rendimentos vindos do exterior.
É exactamente isso que está a fazer a Alemanha que tem mantido um excedente com o exterior na ordem dos 6% do PIB.

É que os países pobres criam pessoas de forma muito mais barata.
Uma criancinha nascida na Índia atinge a idade de trabalhar com um custo na ordem dos 5500€ porque vivem com menos recursos e começam a trabalhar aos 13 anos.
H1 => Gravidez e assistência médica custa 300€.
H2 => Criar a criança entre o nascimento e os 12 anos custa 25€/mês, um total de 3600€.
H3 => A escola custa 25€/mês durante 4 anos, um total de 1200€.
H4 => A assistência média, medicamentosa e infra-estruturas custam 2,5€/mês somando 360€. 

Fig. 3 - Fazer uma indiana boa é muito mais barato do que fazer uma portuguesa fraca.

O único problema é o que o Maquiavel diz sobre os estrangeiros.
Maquiavel identifica que, mesmo sendo mais económico contratar legionários estrangeiro que manter um exército de nacionais, é um perigo usar legionários porque, vendo eles que estamos numa posição de fraqueza, aliam-se ao nosso inimigo e tomam como para si tudo o que tentamos defender.
Também aplicar as nossas poupanças no estrangeiro, vendo eles que estamos velhos e decadentes, pura e simplesmente fazem o que defendem os nossos esquerdistas: não pagam.
A nossa dívida pública é formada exactamente pelas poupanças das pessoas dos países em decadência demográfica que precisam, no futuro, de receber de volta o dinheiro para poderem viver uma velhice digna.
A decadência demográfica da Europa vai, no futuro, colocar problemas de segurança do tipo do que se observa na fronteira entre a Ucrânia e a Rússia. De tipo diferente, o contínuo influxo de milhares e milhares de imigrantes através do Mediterraneo também nos vai colocar problemas de segurança.
A solução é tudo menos fácil.

O valor da criança também tem a componente das externalidades.
Além da avaliação de mercado dado pela diferença entre o custo de produção e a produção, o valor da pessoa tem uma parcela que resulta do ganho que causa em todas as outras pessoas, por exemplo, porque melhora a nossa segurança colectiva.
No caso de Israel, a existência de mais um potencial soldado tem elevado valor colectivo.
Imaginemos que haver mais uma pessoa causa em cada um de nós um ganho equivalente a recebermos 0,001€. Então, nos 10,5 milhões de portugueses o ganho total somará 10500€ que irá acrescentar ao valor financeiro da pessoa.

Podemos fazer um fundo de investimento que crie crianças.
Vamos dividir as pessoas em "voluntárias" e em "investimento".
As pessoas "voluntárias" são as criadas pelas famílias de forma voluntária para retirar o normal benefício de ter uma criança.
As pessoas "investimento" são promovidas e financiadas pelo fundo de investimento que substitui as famílias.
As pessoas "voluntárias" têm a obrigação de dar assistência aos seus pais.
As pessoas "investimento" não têm obrigações familiares mas têm que ressarcir o fundo do investimento realizado, em média, em 220€/mês durante 45 anos.
Este valor será função da taxa de juro que assumi de 1% mas para 2%/ano cada pessoa terá que pagar 300€/mês.

Fig. 4 - Esta fornada correu bem

E como vai o fundo de investimento actuar?
Como um normal fundo de investimento.
Por um lado, o fundo vai ao mercado captar recursos junto de investidores. Tendo este fundo o aval do Estado, a taxa de juro conseguida deverá ser semelhança à taxa de juro da dívida pública.
Por outro lado, o fundo vai promover o aparecimento e criação das 45 mil criancinhas por ano.
O fundo procurará minimizar os custos de produção das criancinhas e maximizar o seu potencial de rendimento.
A divida de cada criancinha "investimento" ao fundo vai crescendo até aos 95000€ (previsionalmente) e depois a criancinha vai amortizando a sua dívida até não dever mais nada.

Muita se irá falar sobre a natalidade, muitos estudos serão feitos, projecções avançadas e debates agendados mas nada será feito.

Pedro Cosme Costa Vieira

4 comentários:

Daniel disse...

"Agora, a pessoa que poupa 400€/mês durante 45 anos chega aos 70 anos com um valor líquido disponível de 46000€."

Pode explicar como chegou a esse valor?

Económico-Financeiro disse...

Daniel, fiz a conta sem juros:
400€*12*(70-25)- 170000€ = 46000
Com juros de 1%/ano dava um valor negativo (-15000€).
pc

Portuendes disse...

Bem interessante o artigo e pode-se sempre adicionar considerandos à analise. Por exemplo, enquanto que, como refere o autor, um aumento de população pode ser importante em termos de segurança, pode, pelo contrário, ser contraproducente ao deixar menos recursos naturais e menos espaço/território per capita ... etc.

tiago pereira disse...

neste caso sobre a natalidade nao concordo com a necessidade absoluta de ter que manter a população atual dos 10 milhões, temos que ver que a populaçao mundial nao para de crescer ja somos 7000000000 de pessoas e existe estimativas de que em menos de 25 anos seremos mais de 10 mil milhoes de pessoas e se ao mesmo tempo pensaremos e tivermos como objectivo que o consumo médio das pessoas seja igual ou melhor do que o americano chegamos rapidamente a conclusão de que a terra nao tem recursos de varios tipos para sustentar que a china a india e todas as pessoas de mundo alcancem o nivel de vida dos paises ocidentais. no fundo o que eu estou a disser é que na minha opiniao o importante é que as pessoas e os outros seres vivos (porque nao podemos esquecer que o aumento da populaçao humana tem levado a extinção de quase toda a vida selvagem) vivam o melhor possível e para isso acontecer o ideal seria uma diminuição voluntária como está acontecer na europa da populaçao humana (isto se nao conseguirmos colonizar outros planetas)

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