sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A execução orçamental e o Rectificativo

Tudo tem um ponto de vista positivo. 

A execução orçamental está a resvalar um pedaço. 
Em 2013 o défice foi de 4,9% do PIB e em 2014 tem que ser de 4% do PIB pelo que seria de pensar que este ano o défice fosse menor do que o do ano passado em 125 Milhões€ por mês. 
Mas a realidade mostrou-se ao contrário, fechamos o Julho de 2014 com um défice maior em 55 M€ por mês.
Este défice traduz que, em média, cada português deveria ter pago mais (em impostos e taxas) ou recebido menos (em salários de funcionários públicos ou pensões) 18€/mês.
E não nos podemos esquecer que o défice público "económico" de 2013 (sem receitas extraordinárias) foi bastante maior, na ordem dos 5,8% do PIB (relatório do OE2014, Quadro I.2.5. Previsões orçamentais) .

Fig. 1 - No outro dia fui à praia e reparei que a moda é o "bikini orçamento": não consegue cobrir quase nada.

A dívida pública aumentou.
Se o défice resvalou, naturalmente, a dívida pública também resvalou pois o governo precisou endividar-se mais para tapar o desvio. É que tudo o que o Estado gasta sem ter receita para isso tem que ir para dívida pública.

Mas onde está o ponto positivo?
É que uma parte substancial desse desvio está na minha conta bancária. 
Em Junho, Julho, Agosto mais o subsídio de férias foram repostos os valores de 2010 do meu salário o que  custou muito dinheiro ao orçamento de estado mas veio para mim. 
Faz-me lembrar a Lei de Lavoisier: nada se perde, tudo se transforma.

O retificativo não corrigiu o desvio.
Para corrigir o desvio seria preciso arranjar até ao fim do ano pelo menos 1800 milhões €. Se pensarmos que o crescimento previsto do PIB em 1% induz um efeito positivo no orçamento de 0,5% do PIB, já só serão precisos 1000 milhões €, 100€ por cada português.
E o orçamento retificativo não fez nada. Limitou-se a rever umas previsões para valores totalmente inatingíveis em falar de poupanças genéricas e receitas extraordinárias. Falam em concessões e privatizações de coisa que só dão prejuízo como seja os transportes públicos.
Um exemplo irrealista é pensar que um aumento de 1% no PIB vá causar um aumento de 0,7 pontos na receita fiscal e 0,3 pontos na receita da Segurança Social. Isso traduziria que todo o crescimento do PIB iria para impostos mesmo sem aumento das taxas (O IRS e o IRC teria que ser de 70%).

Mas terá lógica não fazer nada?
Não tem lógica mas o governo tem que ponderar, por um lado, os movimento sociais e, por outro, o défice.
Pensa o governo que, como parte substancial da derrapagem foi devido ao chumbo do Constitucional no corte dos salários dos funcionários públicos que será parcialmente substituido já em Setembro (foi uma despesa extraordinária), as actuais taxas de imposto, regras de atribuição dos subsídios e racionalização dos serviços públicos serão suficientes para corrigir o défice público automaticamente.
Como temos eleições daqui a um ano e os opositores internos do PSD estão sempre a ver se há uma entre-aberta para poderem atacar, o Passos tem que manter tudo calmo. 

Os juros vão melhorar.
Em 2014 os juros pagos serão 7900M€ e o défice público está orçamentado para ser  6900M€ pelo que, mesmo com um "pequeno" desvio até meio ponto, já vamos ter um défice primário positivo (sem juros). 
O quantitativo pago em juros é elevado (cerca de 10% da despesa pública) o que, como as taxas de juro estão baixas, acaba por ser bom porque tem potencial para descer. Actualmente a média da taxa de juro da dívida pública está nos 3,7%/ano (porque a dívida vem do passado) e as taxas de juro já desceram para mínimos históricos, a 5 anos o Estado já se consegue financiar abaixo dos 2,0%/ano. Isto traduz que há margem para, num horizonte temporal de 5 anos, a despesa pública em juros diminuir 4000 milhões €.
Só esta componente tem potencial para, sem o governo mexer em nada, reduzir o défice público em dois pontos.

Dizia um jovem economista.
- O sr. dr., queixando-se constantemente que não tem dinheiro, porque é que vai almoçar todos os dias a um restaurante e dos caros? Não seria melhor fazer como eu que trago umas sandes de casa.
- Não homem, vê-se mesmo que não percebes nada de economia. Imagina que tens um azar na vida, por exemplo, a tua mulher põe-te os patins. Onde é que vais poupar, nas sandes para depois morreres de fome? Eu vou ao restaurante para, caso tenha um grande azar, ter onde cortar.

O desemprego caiu de forma assustadora.
Uma óptima notícia, o desemprego está nos 14% da população activa.
É uma notícia extraordinária que traduz que a economia está a ajustar.

Não me acredito, não pode ser, o Mundo vai acabar.
Na França, desde 1998 que o horário de trabalho é de 35 horas por semana.diriam os nossos constitucionalistas da esquerda que o seu fim é impossível porque "violaria o principio da confiança".
Pois é, mas acabou. No fim de Julho o senado francês acabou com esta limitação "sem terem de pagar horas extraordinárias".
Mas não era o Holland que ia defender o Estado Social e as Conquista da Civilização contra a malvadez dos alemães?
Realmente, no curto prazo a redução do horário de trabalho pareceu combater o desemprego mas, comparando com a Alemanha, foi um resultado de curto prazo e ilusório. Actualmente, a taxa de desemprego alemã é menos de metade da taxa francesa.

Fig. 2 - Evolução da taxa de desemprego na Alemanha e na França (dados: Banco Mundial)

O PIB per capita da França está a afastar-se desde 1974 do PIB per capita da Alemanha, perde mais de 0,4 % por ano. Não parece muita diferença mas é porque, primeiro, as taxas de crescimento dos países desenvolvidas é relativamente baixa (no período 1975-2013, Alemanha = 1,85%/ano, USA = 1,85%/ano, França  = 1,40%/ano) e, depois, ao longo dos anos vai somando, desde 1975 o PIB per capita da França já perdeu 20% relativamente ao da Alemanha e continua a divergir.
Este problema parece estar a agravar-se. Nos últimos 8 anos, o PIB pc alemão aumentou 1,67%/ano enquanto que o francês aumentou apenas 0,25%/ano (e o americano, 0,43%/ano).

Fig. 3 - Evolução d PIB per capita francês relativamente ao alemão (dados: Banco Mundial)

O problema da França não é a austeridade.
Podem pregar muito contra a sr. Merkel mas o problema está na Alemanha mas sim em quem não cresce. O problema dos doentes não é haver pessoas saudáveis.
É um problema que já vem desde 1975, são os "Direitos Sociais" e o "Estado Social" mais avançados do Mundo.
Mas o problema acaba sempre por acabar no problema de não ser possível distribuir riqueza se a economia não criar riqueza.
Dar direitos a (quase) todos parece uma coisa boa mas também implica impor obrigações e como já não fica (quase) ninguém a quem impor essas obrigações, as conquistas têm que ir à sua vida.

E o que é que o António Costa (e o Seguro) tem dito?
Mais tempo? Acabou.
Espiral recessiva? Já ninguém fala disso.
A carta? Ainda alguém se lembra do romance da carta?
O Holland, salvador da Europa? Já morreu.
Reestruturar a divida para que a taxa de juro passe a ser 3%/ano? Já está abaixo de 2%/ano.
O que terão os socialistas mais para dizer?

Lembrei-me de uma coisa.
O Costa costuma falar dos "economistas americanos, prémios Nobel, que são contra a austeridade europeia".
Mas esquece-se de dizer que, nos USA as pessoas podem trabalhar a partir dos 12 anos de idade; para despedir uma pessoas basta diz-lhe "Rua"; o pré-aviso para despedir é de 15 segundos e o trabalhador tem direito a receber quando é despedido um mês por cada milhão de anos de tempo de serviço.

Fig. 4 - Meus Deus, não penses que me despedes assim sem mais nem menos pois eu tenho os meus direitos, é que já tenho 1947 anos de serviço. Pelas minhas contas, aplicando a Lei Americana tenho direito a um indemnização correspondente a 2,8 minutos de salário.

Voltemos ao Califado do Levante.
O ISIS tomou uma base qualquer na Síria de onde saiam os helicópteros e os aviões que matavam indiscriminadamente.
Os do ISIS "julgaram-nos" e, tal como no Julgamento de Nuremberga, condenaram-nos à morte por crimes contra a humanidade.
Em Nuremberga enforcaram-nos por acharem que era pior que os fuzilar.
Os do ISIS foram mais humanos e fuzilaram-nos.
Faz-me lembrar os tempos de 1974 quando pensavamos que, ficando as colónias interegues aos "turras", seriam matanças sem fim.
Mas o Mundo é isso mesmo, uns matam-se, dão cabo das riquezas que têm (como os líbios) e, depois, queixam-se que são pobres e desgraçados. Mas não compete aos americanos tomar conta do povo por esse Mundo fora.

Fig. 5 - Podem dizer que mataram muitos mas a população em Angola + Moçambique aumentou de 16,4 milhões (1973) para 47,3 milhões (2013).

E o número de mortes não é significativo.
Em 1960, a Síria mais o Iraque tinham 11,9 milhões de pessoas (Portugal 8,9) e agora têm 55 milhões (e Portugal 10,5). Para manter a proporção, ainda podem morrer mais 40 milhões.
Nos últimos 4 anos morreram em acções violentas na Síria 50 mil pessoas por ano e no Iraque umas 15 mil no Iraque. Mas mesmo que morram 15 vezes mais, um milhão de pessoas por ano, a população ainda vai continuar a aumentar.
Se olharmos para o gráfico da população, ninguém nota que existe guerra.

E com vai a Ébola?
Está cada vez pior.
Está tão mal que a WHO dava resultados 3 vezes por semana e esta semana, só deu resultados uma vez.
E é um problema muito mais grave que o ISIS porque se propaga. Para matar uma pessoa a tiro é preciso caça-la e dar-lhe um tiro. Para matar outra é rpeciso novamente caça-la e mata-la. EUma pessoa morre de Ebola e, no entretanto, contamina 5. Depois, cada uma destas pessoas morre e contaminam 125 que, quando morrem já contamina 635.
Cada pessoa atacada torna-se, automaticamente, um novo "terrorista".
No último relatório, em 6 dias houve tantas pessoas contaminadas como tinha havido nos primeiros 6 meses da epidemia, 76 por dia que se vai traduzir dentro de 20 dias em 68 mortos.

Fig. 5 - Evolução diária de novos contaminados com Ebola (dados: WHO)

Pedro Cosme Costa Vieira

2 comentários:

Pedro Alexandre disse...

Caro Professor,

É natural ser difícil para Portugal que tem problemas económico-financeiros de raiz, equilibrar as contas do estado que nuca equilibrou desde que está no Euro, o importante é não deixar descambar muitas vezes como faz o PS a toda a hora. (isto é óbvio para todos menos para os esquerdistas).

Comparar os EUA com a Europa é comparar um barco em reconstrução com um navio todo blindado, só mesmo quem não tem noção do ridículo em que se encontra a Europa é que pode fazer tal comparação.

Cumps

Pedro Alexandre disse...

... Além do facto do país ter problema crónicos nas contas públicas, é preciso não esquecer que o TC teve um impacto significativo nas contas públicas desde que o governo tomou posse (mas se lá tivessem os xuxas já seria tudo constitucional).

Se não fosse o TC o aumento de impostos seria muito inferior, e para o ano o aumento de impostos já não seria praticamente inevitável.

Depois ainda vêm os xuxas mandarem as suas bocas sarcásticas do tipo "é preciso baixar impostos" e "houve um enorme aumento de impostos" ou "prometo não aumentar impostos", os xuxas aplaudem mas ninguém liga a tamanha ignorância.

Cumps

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